As cartografias fazem aniversário.
Um ano de desnudamento poético encarnado: meu corpo, entranhas, reminiscências, vergonhas, projetos e medos devassados deliberadamente. Trinta autorretratos nua, imperfeita e sem pejo. Trinta tentativas de explicar e entender o que eu não sei. Trinta derivas. Trinta naufrágios. Trinta absolvições. Uma só travessia.
Em um ano:
eu não sei mais a diferença entre meu dentro e meu fora. Isso rege tudo o que vem adiante;
eu sinto muito mais: vísceras, articulações, pensamentos, espaços, camadas subterrâneas das peles, mucosas, músculos, mínimos movimentos, líquidos, luzes, ventos, lembranças, estruturas, raciocínios, vibrações, números e silêncios povoam meu corpo-mulher que cresceu exponencialmente;
uma nova palavra preferida: gesto;
a consciência é um caminho sem volta. Não é possível des-sentir, des-saber, des-memorar;
minha relação com o outro e com o mundo é essencialmente erótica: música, palavra, palco, plateia, desenho, poesia, amizade, amor, sexo, inteligência, discurso, comida, sono, ensino, aprendizagem, tudo em mim é desejo em sua plurissignificância magnífica: esperança, impureza, prazer, vontade, intenção, necessidade, requisição;
não há ação no mundo que não seja política. Uma vez que decido publicar, por consequência, tudo que é meu íntimo é também meu político (como lindamente me escreveu meu amor bárbaro). Afirmo, mais uma vez então, à guisa de estatuto: eu canto contra a morte;
não estamos mais diante da iminência da morte: estamos dentro dela. Leio de um amor distante que não podemos esquecer quem somos - brasileiros filhos da dor, fazedores da alegria, gente teimosa de afeto e reinvenção. Sim, sou, somos, e eu choro muito agora porque eu só sei viver e ser no fio infinito e generoso da beleza. Mas não acredito mais numa saída que não seja revolucionária, e portanto, violenta.
(Todas as palavras esdrúxulas, Como os sentimentos esdrúxulos, São naturalmente Ridículas.)
quinta-feira, 30 de abril de 2020
sábado, 25 de abril de 2020
cartografia 29
Há alguns dias observo um novo fenômeno: a hipersensorialidade das minhas mãos. Não é uma sensação incorpórea, ainda que extremamente energética; tão pouco é uma ampliação dos meus membros, como se se tornassem tentáculos maiores. Ou aquela vermelhidão-grito das minhas peles finas.
Antes, é uma acuidade cujo vetor radial aponta pra dentro, como se milagrosamente se multiplicassem os invisíveis receptores neuronais que se conectam a cada célula e se acomplam uns aos outros, e o conjunto deles aos feixes de transmissores mais robustos que, de mãos dadas, chegam à parte do meu cérebro que registra áspero, quente, macio, úmido. Sobretudo a percepção dos mínimos relevos, o encontro dos primeiros fios de cabelo à nuca, a linha da borda onde acaba o lábio inferior e começa o queixo, o buraquinho que adorna meu lóbulo pela frente e por trás, o desenho preciso e tridimensional da cicatriz da cesárea, a cordilheira das aréolas, as costura das peles de dentro com as de fora e sua cosmogonia.
De modo que as coisas mais ordinárias se tornaram vagarosas, como alisar a colcha sobre o sofá ou digitar as teclas do computador: me pego escorregando os dedos vagarosamente entre as teclas ou os bordados pra medir a exata distância do vão que os separa e me deixar invadir pelas cócegas que o salto provoca.
A lascívia superlativa de tocar seu corpo.
Antes, é uma acuidade cujo vetor radial aponta pra dentro, como se milagrosamente se multiplicassem os invisíveis receptores neuronais que se conectam a cada célula e se acomplam uns aos outros, e o conjunto deles aos feixes de transmissores mais robustos que, de mãos dadas, chegam à parte do meu cérebro que registra áspero, quente, macio, úmido. Sobretudo a percepção dos mínimos relevos, o encontro dos primeiros fios de cabelo à nuca, a linha da borda onde acaba o lábio inferior e começa o queixo, o buraquinho que adorna meu lóbulo pela frente e por trás, o desenho preciso e tridimensional da cicatriz da cesárea, a cordilheira das aréolas, as costura das peles de dentro com as de fora e sua cosmogonia.
De modo que as coisas mais ordinárias se tornaram vagarosas, como alisar a colcha sobre o sofá ou digitar as teclas do computador: me pego escorregando os dedos vagarosamente entre as teclas ou os bordados pra medir a exata distância do vão que os separa e me deixar invadir pelas cócegas que o salto provoca.
A lascívia superlativa de tocar seu corpo.
cartografia 28
Há poucos anos eu desenvolvi uma hipersensibilidade na pele, de modo que ao menor atrito ela se irrita, faz um vermelhão proeminente de mini bolinhas – às vezes juntas formando riscos, às vezes nuvens avulsas de constelação – que coçam por alguns minutos, esquentam e depois desaparecem devagarinho. Basta carregar a sacola de supermercado no antebraço; roçar a lombar na costura da calça ou na etiqueta mal cortada; ou mesmo apoiar a barriga na beirada da mesa áspera: a pele logo grita, reclama e configura suas ilustrações rubras e perecíveis.
No início, assustei-me e pensei em procurar um médico, um remédio. Com o tempo e a teimosia da reação, comecei a achar graça, colecionar desenhos, adivinhar as conjunções astronômicas de acordo com o peso do pacote ou a largura da alça.
Mas o que eu gosto mesmo é quando você acomoda a barba entre as minhas coxas que respondem, imediatamente, com milhões de estrelas sanguíneas.
Minha pele passou a denunciar em cores as minhas tangências.
No início, assustei-me e pensei em procurar um médico, um remédio. Com o tempo e a teimosia da reação, comecei a achar graça, colecionar desenhos, adivinhar as conjunções astronômicas de acordo com o peso do pacote ou a largura da alça.
Mas o que eu gosto mesmo é quando você acomoda a barba entre as minhas coxas que respondem, imediatamente, com milhões de estrelas sanguíneas.
Minha pele passou a denunciar em cores as minhas tangências.
quinta-feira, 16 de abril de 2020
cartografia 27
Quando eu era jovem, bem jovem, eu ia ser atriz.
Cabelos longos, pernas, bunda e peitos duros, mãos as mesmas, olhos grandes. Um corpo à disposição e uma vida inteira pela frente.
Meu primeiro amor veio do colegial e eu o abandonei no dia dos namorados de um inverno ansiado de tardes de sexo fácil e incansável porque achei que estava predestinada ao meu professor de música que na verdade era a paixão da minha irmã. O professor tinha (ainda tem, porque está vivo) um nome de dois gêneros, como Leonor, e numa tarde sem mais nem menos declarou seu amor por mim. Eu aceitei. Em seis meses, trepamos uma vez e meia, e não por falta de oportunidade – ele pau duro, eu exuberância oferecida dos meus 18 anos. Mas não dava certo. Muitas madrugadas em silêncio e em vão, eu à serviço, ele sem o jeito, e não.
A culpa, claro, era minha. Que esse negócio de ser atriz é mais ou menos isso, a gente finge tanto ser o que não é que acaba nunca sendo o que é de verdade, ou coisa nenhuma qualquerzinha que seja. Então quem era eu se ele não conseguia ver quem eu era de verdade? Como ele haveria de amar essa obscura farsante impostora ardilosa falsa tratante que era eu, já que essa aqui, a exuberância oferecida dos meus 18 anos, não era eu de verdade?
Um dia ele foi assistir uma performance minha. Uma torre em espiral construída em tubo rohr na bienal de arte de 1991, infinitos varais que se cruzavam e panos imensos pendurados no vão central, três atrizes lavadeiras nas escadas, eu cantei com a bacia de alumínio entre as pernas molhadas que escapavam da saia imensa, eu chorei um filho morto. Não sei se aquilo era bonito ou bom, a gente era tão jovem, mas eu tava lá, valente, a exuberância oferecida dos meus 18 anos à disposição. Ele me disse que o tom da música caiu e que minha vida era igual àqueles varais, um emaranhado confuso sem fim.
O namoro acabou nas vésperas de Natal, sem despedida, sem discussão, morreu. Eu achei que ia morrer, mas não, eu não morri.
Hoje, 28 anos depois, meu corpo reclamou essa cicatriz. A sensação de pequenez e insuficiência. Uma desapropriação nas carnes. Os fios todos embaralhados, panos caídos no fosso. A água fria escorrendo entre as pernas firmes e a voz que perdeu o tom na exuberância oferecida dos meus 18 anos. O de verdade atormentando os ouvidos. A atriz que eu não fui.
Choro descontroladamente. A vida toma, imperativa, seus caminhos. As violências permanecem inscritas.
Cabelos longos, pernas, bunda e peitos duros, mãos as mesmas, olhos grandes. Um corpo à disposição e uma vida inteira pela frente.
Meu primeiro amor veio do colegial e eu o abandonei no dia dos namorados de um inverno ansiado de tardes de sexo fácil e incansável porque achei que estava predestinada ao meu professor de música que na verdade era a paixão da minha irmã. O professor tinha (ainda tem, porque está vivo) um nome de dois gêneros, como Leonor, e numa tarde sem mais nem menos declarou seu amor por mim. Eu aceitei. Em seis meses, trepamos uma vez e meia, e não por falta de oportunidade – ele pau duro, eu exuberância oferecida dos meus 18 anos. Mas não dava certo. Muitas madrugadas em silêncio e em vão, eu à serviço, ele sem o jeito, e não.
A culpa, claro, era minha. Que esse negócio de ser atriz é mais ou menos isso, a gente finge tanto ser o que não é que acaba nunca sendo o que é de verdade, ou coisa nenhuma qualquerzinha que seja. Então quem era eu se ele não conseguia ver quem eu era de verdade? Como ele haveria de amar essa obscura farsante impostora ardilosa falsa tratante que era eu, já que essa aqui, a exuberância oferecida dos meus 18 anos, não era eu de verdade?
Um dia ele foi assistir uma performance minha. Uma torre em espiral construída em tubo rohr na bienal de arte de 1991, infinitos varais que se cruzavam e panos imensos pendurados no vão central, três atrizes lavadeiras nas escadas, eu cantei com a bacia de alumínio entre as pernas molhadas que escapavam da saia imensa, eu chorei um filho morto. Não sei se aquilo era bonito ou bom, a gente era tão jovem, mas eu tava lá, valente, a exuberância oferecida dos meus 18 anos à disposição. Ele me disse que o tom da música caiu e que minha vida era igual àqueles varais, um emaranhado confuso sem fim.
O namoro acabou nas vésperas de Natal, sem despedida, sem discussão, morreu. Eu achei que ia morrer, mas não, eu não morri.
Hoje, 28 anos depois, meu corpo reclamou essa cicatriz. A sensação de pequenez e insuficiência. Uma desapropriação nas carnes. Os fios todos embaralhados, panos caídos no fosso. A água fria escorrendo entre as pernas firmes e a voz que perdeu o tom na exuberância oferecida dos meus 18 anos. O de verdade atormentando os ouvidos. A atriz que eu não fui.
Choro descontroladamente. A vida toma, imperativa, seus caminhos. As violências permanecem inscritas.
quarta-feira, 8 de abril de 2020
cartografia 26
Tenho dormido mal - sonho em vigília por quase toda a noite e acordo ao meu menor movimento. Sinto calor e frio, não assenta o corpo que faz muitos barulhos e gestos involuntários. Acordo cansada quase sempre no mesmo horário, abro a janela, arrumo a cama, me visto. Quase nunca uso sutiã, bem como sapatos - alegrias. Tomamos café demoradamente juntos na mesa velha no quintal do apartamento e planejamos o dia, só de teimosia. O dia não rende, nem mesmo com muito menos trabalho do que antes do isolamento. Parece que as coisas aleatoriamente demandam um novo vagar e uma nova perspectiva: lavar a louça, ajeitar as almofadas no sofá, encher o filtro, descongelar a carne, picar as cebolas, ler as notícias, saber dos amigos, abrir as cortinas, sentir o vento frio no entardecer alaranjado de Iansã que vem rápido pra comover os olhos.
Arrebol, barras, crepúsculo, entardecer, escurão, lusco-fusco, noitinha, ocaso, poente, pôr, pôr do sol, ruiva, sobretarde, sol das almas, sol-pôr, sol-posto, sonoite - palavras pra colecionar.
É nessa hora que faço o ritual novo nascido na angústia do confinamento: no meu quarto, sozinha, espreguiço, alongo e mexo meu corpo como posso. Enraizo os pés no chão, serpenteio a espinha do cóccix até o pescoço com carinho, massageio a cabeça e os olhos na ponta da cervical, sinto o calor chegar, suspiro. Aqueço a pélvis, abro a base, faço 3 minutos de escalas espirais vibrando e inflando as bochechas, e então começo a cantar. Tem dia que é só um vagar perdido por lugares diferentes, tem dia que é organizado, intenso e claro, às vezes lembro uma canção velha num tom absurdo, outras me faço chorar muito escurecida... Eu digo há tempos que a consciência é um caminho sem volta, mas nunca, em 46 anos, 27 deles cantando, tinha tido essa sensação tão nítida no meu corpo: eu percebo movimentos, ventos e espaços nos escuros dentros de mim. Tem uma coisa muito importante e definitiva acontecendo aqui, ouro sobre azul.
Meu horizonte está maior e menor, os olhos enxergam mal de perto e cada vez pior de longe. O tempo tem outras leis que desconheço mas pressinto. A libido está fora de lugar.
Nada será como antes, amanhã.
Muitos planos à deriva: não consigo ler nem ser otimista; não tenho vontade de compor nem de escutar música; não elaborei projetos; não emagreci. Muitas dúvidas em curso: como vai ser cantar no depois? vou ter força pra me reinventar de novo? vou aprender a fazer pão direito? o que vai sobrar de nós? quantos vão morrer?
Três sensações impregnadas e imperativas: a espera (ou o desespero) da chegada do tsunami; a impotência diante da catástrofe; a raiva dos governos de morte que nos condenam à barbárie.
Arrebol, barras, crepúsculo, entardecer, escurão, lusco-fusco, noitinha, ocaso, poente, pôr, pôr do sol, ruiva, sobretarde, sol das almas, sol-pôr, sol-posto, sonoite - palavras pra colecionar.
É nessa hora que faço o ritual novo nascido na angústia do confinamento: no meu quarto, sozinha, espreguiço, alongo e mexo meu corpo como posso. Enraizo os pés no chão, serpenteio a espinha do cóccix até o pescoço com carinho, massageio a cabeça e os olhos na ponta da cervical, sinto o calor chegar, suspiro. Aqueço a pélvis, abro a base, faço 3 minutos de escalas espirais vibrando e inflando as bochechas, e então começo a cantar. Tem dia que é só um vagar perdido por lugares diferentes, tem dia que é organizado, intenso e claro, às vezes lembro uma canção velha num tom absurdo, outras me faço chorar muito escurecida... Eu digo há tempos que a consciência é um caminho sem volta, mas nunca, em 46 anos, 27 deles cantando, tinha tido essa sensação tão nítida no meu corpo: eu percebo movimentos, ventos e espaços nos escuros dentros de mim. Tem uma coisa muito importante e definitiva acontecendo aqui, ouro sobre azul.
Meu horizonte está maior e menor, os olhos enxergam mal de perto e cada vez pior de longe. O tempo tem outras leis que desconheço mas pressinto. A libido está fora de lugar.
Nada será como antes, amanhã.
Muitos planos à deriva: não consigo ler nem ser otimista; não tenho vontade de compor nem de escutar música; não elaborei projetos; não emagreci. Muitas dúvidas em curso: como vai ser cantar no depois? vou ter força pra me reinventar de novo? vou aprender a fazer pão direito? o que vai sobrar de nós? quantos vão morrer?
Três sensações impregnadas e imperativas: a espera (ou o desespero) da chegada do tsunami; a impotência diante da catástrofe; a raiva dos governos de morte que nos condenam à barbárie.
terça-feira, 24 de março de 2020
cartografia 25
Resta ainda uma camada no meu mapa, abaixo de todas as outras – derme, epiderme, subterrâneo, líquido, inferior, inferior de dentro, depois, escuro e rés do sangue – em que meu corpo finalmente dança intransitivo pois que é desejo em sua pulsão original, densa, desprovida de pejo e suja.
Possivelmente esta é a camada mais próxima da morte.
Possivelmente esta é a camada mais próxima de Deus.
Todos os seus dedos dentro da minha boceta e a pressão única que isso provoca no céu da minha boca. Todos os seus dedos e quase o punho dentro da boceta dela e o estralar dos planetas dentro das minhas retinas. Meus peitos enormes de saudade lactante nas minhas mãos e na sua boca e na boca dela. Os peitos perfeitos delas nas nossas mãos. Minhas mãos milagreiras. Seu pau inteiro dentro da minha boca engasgada e minhas dobras subitamente encharcadas, escorrendo nas minhas coxas. Meu cheiro, seu cheiro, minha pele macia. Minha barriga fria e meus joelhos soltos, e a parte anterior dos seus joelhos, lisa. Seu pau lento na boceta dela e minha língua nele e nela e ela encravando as unhas na minha bunda até sangrar. Minha boceta que não é bonita mas que é flor aberta e cicatriz pulsando, rosa e úmida quando se esfrega na sua cara até tirar o ar até arrancar o chão até afrouxar o sentido até roubar o norte até afogar de gozo até morrer de amor. Seu pau dentro de mim e eu desfalecida. Meu grito. Meu orgasmo na minha mão, egoísta e eficiente, sem você, sem ela. Minha boca na sua boca. Minha palavra silenciada na sua língua.
Vivemos uma tragédia. O presidente do Brasil é um genocida. Meu coração está dilacerado, sinto medo, saudade e tristeza. Taquicárdica, vasculho o fundo do mar em busca de fôlego. E o que encontro é minha carta pornográfica. Dou graças. Eles nunca entenderão.
Possivelmente esta é a camada mais próxima da morte.
Possivelmente esta é a camada mais próxima de Deus.
Todos os seus dedos dentro da minha boceta e a pressão única que isso provoca no céu da minha boca. Todos os seus dedos e quase o punho dentro da boceta dela e o estralar dos planetas dentro das minhas retinas. Meus peitos enormes de saudade lactante nas minhas mãos e na sua boca e na boca dela. Os peitos perfeitos delas nas nossas mãos. Minhas mãos milagreiras. Seu pau inteiro dentro da minha boca engasgada e minhas dobras subitamente encharcadas, escorrendo nas minhas coxas. Meu cheiro, seu cheiro, minha pele macia. Minha barriga fria e meus joelhos soltos, e a parte anterior dos seus joelhos, lisa. Seu pau lento na boceta dela e minha língua nele e nela e ela encravando as unhas na minha bunda até sangrar. Minha boceta que não é bonita mas que é flor aberta e cicatriz pulsando, rosa e úmida quando se esfrega na sua cara até tirar o ar até arrancar o chão até afrouxar o sentido até roubar o norte até afogar de gozo até morrer de amor. Seu pau dentro de mim e eu desfalecida. Meu grito. Meu orgasmo na minha mão, egoísta e eficiente, sem você, sem ela. Minha boca na sua boca. Minha palavra silenciada na sua língua.
Vivemos uma tragédia. O presidente do Brasil é um genocida. Meu coração está dilacerado, sinto medo, saudade e tristeza. Taquicárdica, vasculho o fundo do mar em busca de fôlego. E o que encontro é minha carta pornográfica. Dou graças. Eles nunca entenderão.
sexta-feira, 13 de março de 2020
cartografia 24
Minha cartografia conheceu uma nova pena: a linha revel.
A sensação mais próxima à que senti hoje foi aquela das vésperas dos meus dois partos prematuros, quando escutava, em feminil desespero, meu corpo tomar decisões próprias. Meus filhos, tão pequenos, por que queriam sair de mim? Por que meu útero queria tirá-los de dentro de si antes da hora? Como imobilizar aqueles movimentos involuntários, as contrações ritmadas, a taquicardia? Durante o parto você se dá conta de modo absoluto e imperativo que o corpo é quem está no comando – pélvis, dilatação, espasmo, rugido, trovoada, movimento de placas tectônicas, big bang. Eles nascem, crescem, você se torna dispensável, a vida segue.
É muito difícil controlar minhas mãos, eu observo seus movimentos involuntários com espanto e algum fascínio. Eu sei o caminho, meus pés seguem o percurso nas calçadas do centro da cidade sob o sol bonito da tarde, e vão desviando ligeiros de um mar de pessoas que não controlam suas mãos, salivas e suores, e é justamente ali, no meio da multidão que freme caótica, como quem assiste a um filme distópico, que eu percebo que há um lugar na minha medula em que reina a desobediência, em todas as medulas da cidade há desgoverno e pulsão, o corpo que escolhe seu próprio movimento, e a dificuldade imensa de controlar as próprias mãos.
A vida segue. A pandemia está nos jornais e nos celulares mas não no corpo da moça do caixa da 25 de março que usa luvas, coça os olhos dentro dos óculos com a mesma luva que alisou o tecido, digitou na máquina registradora vinte e sete reais e oitenta centavos e me deu o troco pra nota de cinquenta verificada em sua autenticidade com a luva encardida de um dia inteiro alisando tecidos e notas, e entre mim e ela um balcão de sessenta centímetros.
E tem a rua. E as milhares de pessoas que moram e ou vivem nelas, pra quem não haverá álcool gel, luvas, máscaras ou a distância segura de um metro, mas tão somente o desgoverno medular e as bactérias e vírus saltitantes de nosso falatório.
Volto pra casa sentindo nas minhas falanges seu risco insurgente enquanto me desespero em olhar praqueles que vão morrer nesse pandemônio coroado.
A sensação mais próxima à que senti hoje foi aquela das vésperas dos meus dois partos prematuros, quando escutava, em feminil desespero, meu corpo tomar decisões próprias. Meus filhos, tão pequenos, por que queriam sair de mim? Por que meu útero queria tirá-los de dentro de si antes da hora? Como imobilizar aqueles movimentos involuntários, as contrações ritmadas, a taquicardia? Durante o parto você se dá conta de modo absoluto e imperativo que o corpo é quem está no comando – pélvis, dilatação, espasmo, rugido, trovoada, movimento de placas tectônicas, big bang. Eles nascem, crescem, você se torna dispensável, a vida segue.
É muito difícil controlar minhas mãos, eu observo seus movimentos involuntários com espanto e algum fascínio. Eu sei o caminho, meus pés seguem o percurso nas calçadas do centro da cidade sob o sol bonito da tarde, e vão desviando ligeiros de um mar de pessoas que não controlam suas mãos, salivas e suores, e é justamente ali, no meio da multidão que freme caótica, como quem assiste a um filme distópico, que eu percebo que há um lugar na minha medula em que reina a desobediência, em todas as medulas da cidade há desgoverno e pulsão, o corpo que escolhe seu próprio movimento, e a dificuldade imensa de controlar as próprias mãos.
A vida segue. A pandemia está nos jornais e nos celulares mas não no corpo da moça do caixa da 25 de março que usa luvas, coça os olhos dentro dos óculos com a mesma luva que alisou o tecido, digitou na máquina registradora vinte e sete reais e oitenta centavos e me deu o troco pra nota de cinquenta verificada em sua autenticidade com a luva encardida de um dia inteiro alisando tecidos e notas, e entre mim e ela um balcão de sessenta centímetros.
E tem a rua. E as milhares de pessoas que moram e ou vivem nelas, pra quem não haverá álcool gel, luvas, máscaras ou a distância segura de um metro, mas tão somente o desgoverno medular e as bactérias e vírus saltitantes de nosso falatório.
Volto pra casa sentindo nas minhas falanges seu risco insurgente enquanto me desespero em olhar praqueles que vão morrer nesse pandemônio coroado.
sábado, 7 de março de 2020
cartografia 23
O Brasil atravessa um período de trevas, e o potencial destruidor de sua política de estado baseada no horror e na violência ameaça, entre outras urgências, o capital simbólico que nos identifica – e portanto a existência de qualquer poesia. Neste momento, minha pesquisa artística tenta criar estratégias para subverter a lógica colonial sistêmica que está impregnada em meu discurso, pensamento e prática artística.
Cito Luiz Antonio Simas para dizer que o ponto de partida dessa nova investigação é o corpo: "... o projeto de normatização deste Brasil de horrores, para que seja bem sucedido, precisou de estratégias de desencantamento do mundo e aprofundamento da colonização dos corpos. É o corpo, afinal, que sempre ameaçou, mais do que as palavras, de forma mais contundente o projeto colonizador fundamentado na catequese, no trabalho forçado, na submissão ostensiva da mulher e na preparação dos homens para a virilidade expressa na cultura da curra: o corpo convertido, o corpo escravizado, o corpo feito objeto e o corpo como arma letal.”
Minha primeira atitude é reconhecer meu corpo político: sou mulher, branca, 46 anos, mãe de 2 filhos, casada, bissexual, brasileira, artista independente. Vivo na maior cidade da América do Sul. Sou social e economicamente privilegiada. Pude e posso escolher. Minha ferramenta de trabalho é a minha voz que é meu corpo que é único que muda se transforma e se movimenta. Meu material de trabalho é a palavra que é música que é gesto que é cena – a canção.
As perguntas são: como compreender o corpo como protagonista do pensamento e da atuação política e artística (e não o contrário)? Como construir uma vocalidade que seja viva, gesto e movimento, que liberte e não aprisione, investigativa e não manipuladora? Como lidar com o tempo impresso no meu corpo? Como reabitá-lo e redimensionar suas formas e possibilidades para que não enrijeça? Como horizontalizar minhas relações com plateias, alunxs, artistas, trabalhadorxs em busca de um intercâmbio real e amplo, sem sucumbir à lógica colonial e do capital? Como cantar a canção num momento em que a perda da mediação da palavra ameaça o pacto civilizatório?
(exercício de organização do coração
Cito Luiz Antonio Simas para dizer que o ponto de partida dessa nova investigação é o corpo: "... o projeto de normatização deste Brasil de horrores, para que seja bem sucedido, precisou de estratégias de desencantamento do mundo e aprofundamento da colonização dos corpos. É o corpo, afinal, que sempre ameaçou, mais do que as palavras, de forma mais contundente o projeto colonizador fundamentado na catequese, no trabalho forçado, na submissão ostensiva da mulher e na preparação dos homens para a virilidade expressa na cultura da curra: o corpo convertido, o corpo escravizado, o corpo feito objeto e o corpo como arma letal.”
Minha primeira atitude é reconhecer meu corpo político: sou mulher, branca, 46 anos, mãe de 2 filhos, casada, bissexual, brasileira, artista independente. Vivo na maior cidade da América do Sul. Sou social e economicamente privilegiada. Pude e posso escolher. Minha ferramenta de trabalho é a minha voz que é meu corpo que é único que muda se transforma e se movimenta. Meu material de trabalho é a palavra que é música que é gesto que é cena – a canção.
As perguntas são: como compreender o corpo como protagonista do pensamento e da atuação política e artística (e não o contrário)? Como construir uma vocalidade que seja viva, gesto e movimento, que liberte e não aprisione, investigativa e não manipuladora? Como lidar com o tempo impresso no meu corpo? Como reabitá-lo e redimensionar suas formas e possibilidades para que não enrijeça? Como horizontalizar minhas relações com plateias, alunxs, artistas, trabalhadorxs em busca de um intercâmbio real e amplo, sem sucumbir à lógica colonial e do capital? Como cantar a canção num momento em que a perda da mediação da palavra ameaça o pacto civilizatório?
(exercício de organização do coração
de reconhecimento, de não saber
tateio o escuro das minhas dores
bato o joelho na quina da parede
sangro
sigo)
quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020
cartografia 22
Meu canto mora na beira do precipício.
Ali, na linha tênue que separa meu corpo do ar, meus pés do desfiladeiro, meu umbigo da morte, eu quero a minha voz.
No risco.
No assombro.
No alívio.
Eu habito entre margens: a memória do que eu fui, a saudade do que eu não fiz, meu coração-cavalo-sem-domar, minha pele fina e fácil, dia-mantes, tristeza e as tantas linhas bifurcadas impercorridas que vão se desmanchando em varizes, hematomas, estrias, enxaquecas.
Meu corpo está apavorado e paciente. Aprendi recentemente a caminhar nos seus escuros invisíveis de um jeito tão novo e generoso que ainda me assusto quando chego perto de escutar o que eu ainda não vivi.
Sim. Do fundo da noite partiu minha voz: e é deste escuro que quero ver brotar a palavra.
Ali, na linha tênue que separa meu corpo do ar, meus pés do desfiladeiro, meu umbigo da morte, eu quero a minha voz.
No risco.
No assombro.
No alívio.
Eu habito entre margens: a memória do que eu fui, a saudade do que eu não fiz, meu coração-cavalo-sem-domar, minha pele fina e fácil, dia-mantes, tristeza e as tantas linhas bifurcadas impercorridas que vão se desmanchando em varizes, hematomas, estrias, enxaquecas.
Meu corpo está apavorado e paciente. Aprendi recentemente a caminhar nos seus escuros invisíveis de um jeito tão novo e generoso que ainda me assusto quando chego perto de escutar o que eu ainda não vivi.
Sim. Do fundo da noite partiu minha voz: e é deste escuro que quero ver brotar a palavra.
sábado, 25 de janeiro de 2020
cartografia 21
Certamente há um lugar neste corpo onde repousam as palavras soterradas pelas violências que nos recusamos a nomear ou sequer sentir. Palavras abortadas antes de nascer. Palavras desditas. Palavras desimaginadas.
Mas a barbárie se encarrega de exumá-las de dentro dos nossos infernos. Porque o medo como forma de governo tem como artifícios ressuscitar nossas desgraças particulares ao despejar sobre nós a potência paralisante da perversidade institucionalizada, e ao mesmo tempo desviar e esvaziar a nossa libido, que tá ocupada com outra coisa. De modo que vão surgindo pequenas erupções vulcânicas – espinhas, vômitos, diarreias – trazendo o pus de nossas memórias de volta pra superfície enquanto os paus vão amolecendo e as bucetas ressecando. Um a um, e todos juntos, um exército de celibatários psicopatas semi-vivos de olhos vidrados e pele purulenta.
O ano se desabrocha como uma possibilidade suficiente, os encontros viçam, o rosal desejando uma formosura delicada e merecida, e isso enche o meu coração vermelho de alegria, mas eu não sei não ser esta artista que sou, uma mulher política, de modo que o horror cinza e anacrônico daquele vídeo desaba sobre meus olhos como uma tempestade de fumaça podre e eu sou somente a repulsa e o desespero de palavras que sangram como fetos roxos ao primeiro não-arfar. Sonho em vigília com discussões que nunca consegui ter enquanto ando sobre cadáveres na abertura de um espetáculo que não existiu, num mundo que não mais existirá. Acordo sem ter dormido com hematomas, dores musculares e um cansaço de quatrocentas e sessenta e seis encarnações.
Não que eu não soubesse que seria assim. Mas a constatação diária de que é pior, será ainda pior, e pode piorar mais, é que fode o peito.
(só hoje consegui escrever sobre aquele vídeo. Só hoje, dia em que a linda cidade feia aniversaria. Eu sou dela como tantxs outrxs que como eu fizeram do não pertencimento sua maior identidade: sou daqui, sou de ninguém, sou de qualquer lugar. Puta, nômade, atriz. São Paulo não é isso e é isso aí também.)
Mas a barbárie se encarrega de exumá-las de dentro dos nossos infernos. Porque o medo como forma de governo tem como artifícios ressuscitar nossas desgraças particulares ao despejar sobre nós a potência paralisante da perversidade institucionalizada, e ao mesmo tempo desviar e esvaziar a nossa libido, que tá ocupada com outra coisa. De modo que vão surgindo pequenas erupções vulcânicas – espinhas, vômitos, diarreias – trazendo o pus de nossas memórias de volta pra superfície enquanto os paus vão amolecendo e as bucetas ressecando. Um a um, e todos juntos, um exército de celibatários psicopatas semi-vivos de olhos vidrados e pele purulenta.
O ano se desabrocha como uma possibilidade suficiente, os encontros viçam, o rosal desejando uma formosura delicada e merecida, e isso enche o meu coração vermelho de alegria, mas eu não sei não ser esta artista que sou, uma mulher política, de modo que o horror cinza e anacrônico daquele vídeo desaba sobre meus olhos como uma tempestade de fumaça podre e eu sou somente a repulsa e o desespero de palavras que sangram como fetos roxos ao primeiro não-arfar. Sonho em vigília com discussões que nunca consegui ter enquanto ando sobre cadáveres na abertura de um espetáculo que não existiu, num mundo que não mais existirá. Acordo sem ter dormido com hematomas, dores musculares e um cansaço de quatrocentas e sessenta e seis encarnações.
Não que eu não soubesse que seria assim. Mas a constatação diária de que é pior, será ainda pior, e pode piorar mais, é que fode o peito.
(só hoje consegui escrever sobre aquele vídeo. Só hoje, dia em que a linda cidade feia aniversaria. Eu sou dela como tantxs outrxs que como eu fizeram do não pertencimento sua maior identidade: sou daqui, sou de ninguém, sou de qualquer lugar. Puta, nômade, atriz. São Paulo não é isso e é isso aí também.)
domingo, 5 de janeiro de 2020
cartografia 20 (ou do ano que começa)
A minha geração (ou a bolha da minha geração) quer aceitar envelhecer, então não pinta mais o cabelo, mostra o peito caído com certo orgulho, não esconde as gorduras dos braços e as celulites das bundas, entende que a beleza é variada e diversa, multiforme, que as cicatrizes do corpo são nossa história real e isso é realmente lindo. Sofremos dores individuais de um amadurecer mais ou menos consciente protegidas por um senso coletivo de positividade.
Mas eu desconfio que ideal romântico de morrer de peles rígidas, mente afiada, corpo potente, ágil e flexível ainda permanece e ninguém quer enfrentar a decrepitude real que inevitavelmente vai acontecer porque vamos morrer com mais de noventa anos.
É difícil escrever isso: eu vou me tornar uma velha caquética. Talvez mais tarde do que a minha avó e mais tarde ainda do que a mulher pobre e fodida que mora nas bordas da merda da minha civilidade, mas inexoravelmente eu vou me encontrar com essa imagem no espelho: uma velha.
Meus filhos vão querer o meu carinho quando meu corpo estiver molenga? Como vamos trepar quando todas as nossas peles estiverem caídas, as articulações duras? Haverá prazer possível num corpo tão usado? Quem vai querer me ver dançar? Quem vai querer me ouvir? Quem vai morar dentro dos meus ossos frágeis e das minhas vísceras lentas?
Talvez a chave seja criar rituais de solidão, ainda que compartilhada. Preparar-se pras mais variadas assincronias (do corpo com a mente, do outro consigo, de si com o mundo) de modo a reabitar o corpo de dentro pra fora, preenchendo o que era carne de sensações ou da memória delas – minhas preferidas são a alegria e a surpresa. E se manter ressoando mesmo que num contraponto infinito, lento mas presente. E assim, talvez, não enrijecer o suficiente pra construir seu próprio Narayama.
E talvez nada disso faça sentido porque tem o coiso daqui, o coiso estadunidense, e a gente pode morrer a qualquer momento de bala, cansaço, falta de saúde pública ou bomba atômica e então todas essas minhas angústias comezinhas que se fodam.
Mas eu desconfio que ideal romântico de morrer de peles rígidas, mente afiada, corpo potente, ágil e flexível ainda permanece e ninguém quer enfrentar a decrepitude real que inevitavelmente vai acontecer porque vamos morrer com mais de noventa anos.
É difícil escrever isso: eu vou me tornar uma velha caquética. Talvez mais tarde do que a minha avó e mais tarde ainda do que a mulher pobre e fodida que mora nas bordas da merda da minha civilidade, mas inexoravelmente eu vou me encontrar com essa imagem no espelho: uma velha.
Meus filhos vão querer o meu carinho quando meu corpo estiver molenga? Como vamos trepar quando todas as nossas peles estiverem caídas, as articulações duras? Haverá prazer possível num corpo tão usado? Quem vai querer me ver dançar? Quem vai querer me ouvir? Quem vai morar dentro dos meus ossos frágeis e das minhas vísceras lentas?
Talvez a chave seja criar rituais de solidão, ainda que compartilhada. Preparar-se pras mais variadas assincronias (do corpo com a mente, do outro consigo, de si com o mundo) de modo a reabitar o corpo de dentro pra fora, preenchendo o que era carne de sensações ou da memória delas – minhas preferidas são a alegria e a surpresa. E se manter ressoando mesmo que num contraponto infinito, lento mas presente. E assim, talvez, não enrijecer o suficiente pra construir seu próprio Narayama.
E talvez nada disso faça sentido porque tem o coiso daqui, o coiso estadunidense, e a gente pode morrer a qualquer momento de bala, cansaço, falta de saúde pública ou bomba atômica e então todas essas minhas angústias comezinhas que se fodam.
segunda-feira, 30 de dezembro de 2019
cartografia 19 (ou do ano que acaba)
Neste 30 de dezembro eu sou cansaço e silêncio.
Ontem eu revisitei a angústia dos domingos da minha infância choramingada no escuro do banco de trás do carro na estrada quase sem estrelas. No mesmo ontem chorei assombrada pela beleza dos meus filhos. E ainda no final de ontem amei como um bicho, sem pejo e sem barulho, derramando gozo e certeza entre minhas coxas quentes e generosas.
Ainda sou cavalo sem domar, e dou graças.
Silêncio e cansaço.
Cantei tão pouco e nunca tão bonito.
Estive muito sozinha e encontrei pessoas fundamentais.
Descobri universos multiformes coloridos dentro do meu corpo: ideia, som, ruído, volume, confiança, desequilíbrio, força, pensamento, inércia, dor, prazer, duração, re-morte, re-vida, tudo cozinhando lentamente num estado líquido e viscoso entre a lava e o mercúrio de cor azul-marinho profundo e incontinente.
Há um descompasso extremamente barulhento entre este meu corpo hoje imenso e molhado e o mundo, manifesto numa hipersensibilidade auditiva a um só tempo desconfortável e curiosa: sinto o ruído dos meus ossos e vísceras, escuto o barulho ardido da minha raiva, ressoa no meu peito o vídeo escroto do celular no banco ao lado do coletivo, arrepia minhas peles a menor das alegrias, percebo as presenças diretamente no meu lombo de cavalo e posso antecipar quando meus fluidos escorrerão de dentro para fora nos meus buracos e mucosas.
Ainda assim, e por isso mesmo, sigo calada e exausta.
Naufrago dentro de mim, devagar, quieta e atenta.
Resisto, re-existo, teimosa, todos os dias.
Sinto muita tristeza, não tenho quase esperança, morro de medo do que virá e não sei o que fazer.
Tento não paralisar, tateio no escuro um caminho acanhado e avanço com lentidão, de esguelha, cada passo uma raiz, uma valentia, um risco.
Eu canto pra não morrer, eu amo mais: desígnio do meu nome, cond(enaç)ão e devir.
Ontem eu revisitei a angústia dos domingos da minha infância choramingada no escuro do banco de trás do carro na estrada quase sem estrelas. No mesmo ontem chorei assombrada pela beleza dos meus filhos. E ainda no final de ontem amei como um bicho, sem pejo e sem barulho, derramando gozo e certeza entre minhas coxas quentes e generosas.
Ainda sou cavalo sem domar, e dou graças.
Silêncio e cansaço.
Cantei tão pouco e nunca tão bonito.
Estive muito sozinha e encontrei pessoas fundamentais.
Descobri universos multiformes coloridos dentro do meu corpo: ideia, som, ruído, volume, confiança, desequilíbrio, força, pensamento, inércia, dor, prazer, duração, re-morte, re-vida, tudo cozinhando lentamente num estado líquido e viscoso entre a lava e o mercúrio de cor azul-marinho profundo e incontinente.
Há um descompasso extremamente barulhento entre este meu corpo hoje imenso e molhado e o mundo, manifesto numa hipersensibilidade auditiva a um só tempo desconfortável e curiosa: sinto o ruído dos meus ossos e vísceras, escuto o barulho ardido da minha raiva, ressoa no meu peito o vídeo escroto do celular no banco ao lado do coletivo, arrepia minhas peles a menor das alegrias, percebo as presenças diretamente no meu lombo de cavalo e posso antecipar quando meus fluidos escorrerão de dentro para fora nos meus buracos e mucosas.
Ainda assim, e por isso mesmo, sigo calada e exausta.
Naufrago dentro de mim, devagar, quieta e atenta.
Resisto, re-existo, teimosa, todos os dias.
Sinto muita tristeza, não tenho quase esperança, morro de medo do que virá e não sei o que fazer.
Tento não paralisar, tateio no escuro um caminho acanhado e avanço com lentidão, de esguelha, cada passo uma raiz, uma valentia, um risco.
Eu canto pra não morrer, eu amo mais: desígnio do meu nome, cond(enaç)ão e devir.
domingo, 27 de outubro de 2019
cartografia 18
O silêncio público dança aflito dentro da minha cabeça e do meu estômago num compasso não linear e predominantemente ímpar: não se acostuma, muda toda hora e quebra meu passo. Uma desazada quaresma virtual preenchida de preocupação, presença, planilhas, procrastinação, projetos, protótipos, predestinação e propósito. A pausa ainda é maior: nenhuma nota me percorre há dois meses. Estou seca, embora chore muitas vezes ao dia nos profundos desesperos diante das tragédias que se tornaram cotidianas e aparentemente incontornáveis, como aquela topada do dedinho do pé no pé da cama que acerta sempre e toda vez o mesmo lugar.
Então nesta manhã ensolarada de domingo, raspei os cabelos. Gosto do contorno da minha cabeça, da minha pele que envelhece bem, dos olhos grandes com sobrancelhas naturalmente desenhadas que crescem mais quando exibo por inteiro a testa grande, a mesma testa que foi escondida por anos debaixo da franja.
Gosto de ser a leonina feminil que raspa os cabelos. Gosto de ser a mulher não ordinária em que me tornei. Apesar da tristeza abissal que sinto, da genética que me desespera, dos medos, inércias e autossabotagens que insistem e me obliteram o caminho, eu reconheço essa mulher que me olha nos olhos e que eu chamo de eu. Essa, que chora ao menor sinal de poesia.
Então nesta manhã ensolarada de domingo, raspei os cabelos. Gosto do contorno da minha cabeça, da minha pele que envelhece bem, dos olhos grandes com sobrancelhas naturalmente desenhadas que crescem mais quando exibo por inteiro a testa grande, a mesma testa que foi escondida por anos debaixo da franja.
Gosto de ser a leonina feminil que raspa os cabelos. Gosto de ser a mulher não ordinária em que me tornei. Apesar da tristeza abissal que sinto, da genética que me desespera, dos medos, inércias e autossabotagens que insistem e me obliteram o caminho, eu reconheço essa mulher que me olha nos olhos e que eu chamo de eu. Essa, que chora ao menor sinal de poesia.
terça-feira, 17 de setembro de 2019
cartografia 17
Não sei bem onde entre o depois, o escuro, o rés do sangue e o suor dos ossos estão escoriadas as separações. Não é a mesma folha dos desencontros nem a dos amores (que também transitam por ali), mas é outra lâmina, ora transparente, ora acinzentada. Garatujas, rabiscos desordenados, inconclusos, orações sem sintaxe, interrupções barulhentas, silêncios infinitos, palavras estripadas e sobretudo as que nunca foram ditas. Não conformam nada, são quase um caroço, menos que uma cicatriz.
Ligados aos nervos em carne viva desta camada, em uma extremidade está o estômago que passa imediatamente a existir, fraudulento: não é fome, não é saciedade, é somente uma presença contínua e esburacada; na outra ponta estão os olhos que superlativam e desaguam, inconvenientes, ininterruptos.
As separações são a alma da dor. São filhas da morte. Delas nascem o espólio (vivo ou morto) e o substantivo luto, que é um filho franzino, também cinza e moribundo, que existe somente enquanto é preciso transmutar a saudade em memória.
Edito: pós-escrito.
Faz um calor descomunal, a cidade fede. Junto meus cacos e vou dançar. Aqui dói, nos acúmulos. O verbo se apresenta, o substantivo desiste, mas vou. Vozes, mãos e corpos pretos embalam meu peito que dilacera miúdo, no meio do salão cheio de sorrisos, peles e suores diversos, eu abro minhas portas, não sinto alegria nem prazer nem nada, só este calor desesperado que faz meu corpo chorar por todos os buracos. Meus olhos transbordam escondido mas se recusam a estar ali, oblíquos. Eu fui, eu não fui, eu voltei e eu ainda estou lá. Separada de mim. Eu sou aquela dramática que chora na aula de dança.
Ligados aos nervos em carne viva desta camada, em uma extremidade está o estômago que passa imediatamente a existir, fraudulento: não é fome, não é saciedade, é somente uma presença contínua e esburacada; na outra ponta estão os olhos que superlativam e desaguam, inconvenientes, ininterruptos.
As separações são a alma da dor. São filhas da morte. Delas nascem o espólio (vivo ou morto) e o substantivo luto, que é um filho franzino, também cinza e moribundo, que existe somente enquanto é preciso transmutar a saudade em memória.
Edito: pós-escrito.
Faz um calor descomunal, a cidade fede. Junto meus cacos e vou dançar. Aqui dói, nos acúmulos. O verbo se apresenta, o substantivo desiste, mas vou. Vozes, mãos e corpos pretos embalam meu peito que dilacera miúdo, no meio do salão cheio de sorrisos, peles e suores diversos, eu abro minhas portas, não sinto alegria nem prazer nem nada, só este calor desesperado que faz meu corpo chorar por todos os buracos. Meus olhos transbordam escondido mas se recusam a estar ali, oblíquos. Eu fui, eu não fui, eu voltei e eu ainda estou lá. Separada de mim. Eu sou aquela dramática que chora na aula de dança.
domingo, 1 de setembro de 2019
cartografia 16
Neste mapa que tenho desenhado a custa de dor e paciência nas finas camadas sobrepostas que me constituem - derme, epiderme, subterrâneo, líquido, inferior, inferior de dentro, depois, escuro e rés do sangue - há linhas que repentinamente se cruzam, atravessam, entrelaçam, e é nesses pontos precisos e iluminados que ergo meus altares, enterro o fundamento, firmo a cabeça e bordo delicados ex-votos com flores de muitos pontos miúdos e multicoloridos pra saber que, pralém do tempo e do espaço, é pra estes lugares que eu devo voltar. São pequenas rosas dos ventos, miúdas agulhas magnéticas, imperceptíveis pilhas de pedras e algumas migalhas de pão enfileiradas que compõem o traçado invisível das minhas certezas.
Minha carta de marear ganhou hoje uma nova encruzilhada: ponto, vela, amarração.
Nela, eu encontrei uma generosidade nova dentro do meu corpo. Meus músculos e os vazios de dentro de mim ofertaram-me uma qualidade de voz que agora, horas depois, no escuro de um apartamento feio que não é meu, me fazem chorar demovida de alegria. Sozinha, nesta cidade litorânea e gelada que me recebe amorosamente com um sotaque ancestral e cheia pessoas que abraçam apertado, eu me sinto profundamente grata a este corpo meu, que eu construí, forjei, judiei e cuidei, e que me faz ser o que sou. Um corpo que, uma vez mais, desconheceu seus limites, se assombrou, rodopiou, e aprendeu consigo mesmo.
Hoje eu descobri o meu nome.
(em Itajaí, SC)
Minha carta de marear ganhou hoje uma nova encruzilhada: ponto, vela, amarração.
Nela, eu encontrei uma generosidade nova dentro do meu corpo. Meus músculos e os vazios de dentro de mim ofertaram-me uma qualidade de voz que agora, horas depois, no escuro de um apartamento feio que não é meu, me fazem chorar demovida de alegria. Sozinha, nesta cidade litorânea e gelada que me recebe amorosamente com um sotaque ancestral e cheia pessoas que abraçam apertado, eu me sinto profundamente grata a este corpo meu, que eu construí, forjei, judiei e cuidei, e que me faz ser o que sou. Um corpo que, uma vez mais, desconheceu seus limites, se assombrou, rodopiou, e aprendeu consigo mesmo.
Hoje eu descobri o meu nome.
(em Itajaí, SC)
sexta-feira, 16 de agosto de 2019
cartografia 15
Tenho um parágrafo tatuado na minha retina. Como toda tatuagem (ou cicatriz, obra, amor) ele é marca de um tempo que se reapresenta, quando em vez, ora como susto, ora como alumbramento, às vezes cheiro, soco na cara. Ontem ele reapareceu também como tábua de salvação. Que eu ando mesmo é naufragada, sem carta marítima, bússola, água ou vela. Que apesar de todas as urgências físicas, econômicas, civis e emocionais, meu corpo parece preenchido de cimento e escombros, e se arrasta, esfarelento, por entre todas as indisciplinas que não me canso de colecionar. Que meu coração de tão vermelho está quase roxo, apertado, arrítmico, e meus olhos não ficam mais que dois compassos sem derramar.
Mas, enfim, de alguma coisa serve essa cabeça cheia de minhocas, palavras e insônias, aqueles 12 anos de análise. E certamente por conta do chamado da minha coroa que agora me guia, ontem dei um troço silencioso: eu fui dançar.
(Eu sou a pessoa que chora na aula de dança)
E no último movimento, o que me fez travessar a sala e dizer meu nome infantil e, na mão inversa, ver, aguardar e ouvir o nome dela feito só para mim, eis que o parágrafo reaparece, reluzente e inédito, sonoro como a gargalhada de um Exu bonito, em rodopios. Pois que reproduzo aqui na forma de presente, agradecimento e sinal:
"e, circunstancialmente, entre posturas mais urgentes, cada um deve sentar-se num banco, plantar bem um dos pés no chão, curvar a espinha, fincar o cotovelo do braço no joelho, e, depois, na altura do queixo, apoiar a cabeça no dorso da mão, e com olhos amenos assistir ao movimento do sol e das chuvas e dos ventos, e com os mesmos olhos amenos assistir à manipulação misteriosa de outras ferramentas que o tempo habilmente emprega em suas transformações, não questionando jamais sobre seus desígnios insondáveis, sinuosos, como não se questionam nos puros planos das planícies as trilhas tortuosas debaixo dos cascos, traçadas nos pastos pelos rebanhos: que o gado sempre vai ao poço." (Raduan Nassar, Lavoura Arcaica)
quinta-feira, 1 de agosto de 2019
cartografia 14
O horror tem agulhas fincadas nos olhos dos outros. Palavras facas mal ditas e estilhaços que se enfiam nos ouvidos dos outros. Tem a calma de cordas que amarram os braços atrás das costas e os pés sob a cadeira e uma boca sem mordaça, atônita, calada. O horror é inerte, inerme, verme, rasteja gosmento e em profundo si lên ci o. Ratos raspando suas unhas imundas no piso e nas paredes, conversando seus barulhinhos cheios de gerúndios com outros ratos no escuro e nos buracos se multiplicando feito ratos, ratos que são, sujos, podres, doentes, muitos ratos espalhando seus bafos com epidemias, pestilências, gases tóxicos, venenos.
O horror é esta dor que apareceu do lado direito inferior minha espinha, fina, disfarçada de quase nada, uma lâmina que raspa no osso e produz um som tão agudo que quase não se escuta, mas que está lá e quando menos se espera, apita fiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii.
O corpo afunda. As mãos congelam. O peito arde. Todas as articulações rangem como uma máquina velha e ineficiente pronta para morrer.
O horror paralisa.
Em si lên ci o.
***
Meu amor, eu não tenho nada bonito pra te dizer hoje. Nem alegre. As pessoas dizem que é preciso fazer poesia em tempos de barbárie, é preciso rir e fazer festa, pode ser, mas hoje eu não consigo. Eu sei que coisas boas estão acontecendo, eu reconheço isso, eu sei, é maravilhoso, mas hoje eu não sou nada além desse apito nas minhas costas e esse si lên ci o que atordoa. Me perdoa, meu amor. Hoje eu sou um mapa apagado, um corpo calcificado, uma rota interrompida, um buraco sem fundo, não tem água nem vento nem nada dentro de mim. Violentamente.
O horror é esta dor que apareceu do lado direito inferior minha espinha, fina, disfarçada de quase nada, uma lâmina que raspa no osso e produz um som tão agudo que quase não se escuta, mas que está lá e quando menos se espera, apita fiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii.
O corpo afunda. As mãos congelam. O peito arde. Todas as articulações rangem como uma máquina velha e ineficiente pronta para morrer.
O horror paralisa.
Em si lên ci o.
***
Meu amor, eu não tenho nada bonito pra te dizer hoje. Nem alegre. As pessoas dizem que é preciso fazer poesia em tempos de barbárie, é preciso rir e fazer festa, pode ser, mas hoje eu não consigo. Eu sei que coisas boas estão acontecendo, eu reconheço isso, eu sei, é maravilhoso, mas hoje eu não sou nada além desse apito nas minhas costas e esse si lên ci o que atordoa. Me perdoa, meu amor. Hoje eu sou um mapa apagado, um corpo calcificado, uma rota interrompida, um buraco sem fundo, não tem água nem vento nem nada dentro de mim. Violentamente.
sábado, 20 de julho de 2019
cartografia 13
Meu corpo é um continente. Nele cabe tudo e tudo nele transborda. Sangue, choro, gozo, palavra, música, gesto, silêncio, uísque, ausência, a culpa de todas as encarnações, a alegria dos encontros verdadeiros, saudade, derrota. Cabem nele aquilo que não lhe dou, o que eu não consigo e o que eu queria lhe dar. Meu canto pra quem não foi, minha voz pras cadeiras vazias do teatro, todas as cadeiras de todos os teatros com ou sem pessoas sobre elas, e ainda meu desejo e minha dúvida. Meu corpo é continente de tudo quanto eu sinto e vejo e eu sofro mais um pouco a cada dia porque não sei o que fazer com tanta dor que nele cabe e daí não cabe mais então vaza. Meu corpo vazante de contradições, meu corpo gostoso, esta bunda grande, estes peitos caídos, estes pelos que me dão preguiça de tirar mas que acho feios, meu cheiro de mulher agarrado nos pelos, e as duas minhas mãos que entendem tudo sempre, orientais, meu corpo que oferece e arrepia e tranca e grita. Meu corpo contém emocionado qualquer espécie de mínima felicidade e esperança: novos velhos amigos, irmãos, procissões, canções, pilhas de livros, ruas de pedra, varal de lâmpadas, talco, olhos vendados, abraços demorados, taturanas, crianças, café. Meu corpo dá rodopios, crispa, abre as asas e levanta os olhos, mas é terra contígua acorrentada de desesperos feminis-civis-infantis-quadris porque é continente forjado em estupros sucessivos históricos ancestrais. Meus quadris cresceram depois de dois partos, como crescem os continentes depois de maremotos, estios e abalos císmicos. Minhas articulações e músculos envelhecem como envelhecem as montanhas e o fundo do mar formando camadas sobrepostas e estratos que se friccionam, aquecem, esfriam e conformam óleos fedorentos e minerais coloridos translúcidos. Uma avalanche continental salpicada de diamantes e carne podre é o que cabe neste meu corpo pangeia, meu corpo américa, meu corpo um.
Estamos diante da iminência da morte.
Os continentes sobreviverão como sempre sobreviveram os continentes aos cataclismas, meteoros e eras glaciais. Haverá o grande silêncio e então outros diamantes e outras gorduras apodrecidas, elementos e moléculas de milhares de séculos infinitos preguiçosos a experimentar sua nova dança de espirais geométricas.
Antes, muito antes, nós morreremos de fome, tiro, injustiça e falta de poesia.
Isto eu não sei onde enfiar.
Estamos diante da iminência da morte.
Os continentes sobreviverão como sempre sobreviveram os continentes aos cataclismas, meteoros e eras glaciais. Haverá o grande silêncio e então outros diamantes e outras gorduras apodrecidas, elementos e moléculas de milhares de séculos infinitos preguiçosos a experimentar sua nova dança de espirais geométricas.
Antes, muito antes, nós morreremos de fome, tiro, injustiça e falta de poesia.
Isto eu não sei onde enfiar.
segunda-feira, 1 de julho de 2019
cartografia 12
Escreve. Apaga. Escreve. Apaga.
Às vezes o esforço de juntar tudo, de ser coerente, ter unidade, fazer poesia, é impossivelmente difícil. Às vezes fica tudo quebrado mesmo, e o peito ardendo sem entender, sem gostar, sem aguentar. Às vezes não vale o trabalho.
Eu tenho sentido muito medo.
Apaga, escreve, apaga, escreve.
Tenho saudade de escrever à mão e ver meus riscos, rasuras, substituições, as palavras que vão se empilhando, as frases sujas, períodos confusos trocando de lugar com setas, parêntesis, uma reescritura exausta, sobreposta, caótica. Na escrita higiênica de computador as dúvidas, tropeços e erros simplesmente desaparecem como se nunca, como se só as certezas, isso é um horror. Diz que tem um aplicativo que tenta imitar isso aí, patético. Não sei mais como é a minha letra escrita, ela está ficando ilegível.
Escreve, apaga, escreve, escreve, apaga, apaga.
Uma vez minha analista me disse que sou uma mulher cindida. Outra vez ela me disse que preguiça é a palavra mais odiosa que existe, porque desrespeita o tempo que as coisas precisam pra existir crescer amadurecer morrer dentro da gente, e que não fazer nada não quer dizer que nada esteja acontecendo. Ela disse isso? Eu lembro disso?
Escreve, apaga, apaga, apaga. Escreve.
Eu não quero ser invisível.
Eu quero que este medo vá embora.
Meu corpo está maior e menor, em pedaços.
Eu preciso cantar pra não morrer.
Às vezes o esforço de juntar tudo, de ser coerente, ter unidade, fazer poesia, é impossivelmente difícil. Às vezes fica tudo quebrado mesmo, e o peito ardendo sem entender, sem gostar, sem aguentar. Às vezes não vale o trabalho.
Eu tenho sentido muito medo.
Apaga, escreve, apaga, escreve.
Tenho saudade de escrever à mão e ver meus riscos, rasuras, substituições, as palavras que vão se empilhando, as frases sujas, períodos confusos trocando de lugar com setas, parêntesis, uma reescritura exausta, sobreposta, caótica. Na escrita higiênica de computador as dúvidas, tropeços e erros simplesmente desaparecem como se nunca, como se só as certezas, isso é um horror. Diz que tem um aplicativo que tenta imitar isso aí, patético. Não sei mais como é a minha letra escrita, ela está ficando ilegível.
Escreve, apaga, escreve, escreve, apaga, apaga.
Uma vez minha analista me disse que sou uma mulher cindida. Outra vez ela me disse que preguiça é a palavra mais odiosa que existe, porque desrespeita o tempo que as coisas precisam pra existir crescer amadurecer morrer dentro da gente, e que não fazer nada não quer dizer que nada esteja acontecendo. Ela disse isso? Eu lembro disso?
Escreve, apaga, apaga, apaga. Escreve.
Eu não quero ser invisível.
Eu quero que este medo vá embora.
Meu corpo está maior e menor, em pedaços.
Eu preciso cantar pra não morrer.
domingo, 23 de junho de 2019
cartografia 11
Em alguma camada subterrânea da pele vive o mapa dos trajetos que se perdem, das travessias interrompidas, da vida que resta derramada desde os desencontros. Linhas molhadas e carmim riscam arcos invisíveis que mantém conectadas as veias pulsantes dos amantes apartados, para além da dor e do amor.
Isso eu sei porque meu corpo não esquece.
A voz que eu não lembrava preencheu 8 anos de distância e em 2 segundos era tudo de novo igual do lugar onde paramos. O cheiro. O encaixe perfeito do abraço – minhas mãos dando a volta toda na sua cintura fina e a lateral do seu peito perfeito roçando o lado de dentro do meu braço. O ciúme violento, o diálogo ligeiro, caótico. A mão na barba dele e no meu pescoço. O coração descompassado, a calcinha úmida. Ele, longe de mim e igualmente desesperado, controlando o passo pra não voltar ali no meio de toda a gente e roubar-lhe o beijo na boca demorado de que temos tanta saudade. Meu corpo afastou-se desorientado e foi automático chorando pro ponto de ônibus, e dalí seguiu pulsando pra sala de dança pra viver outro alumbramento.
Um corpo africano e deslumbrante que ensina este meu corpo brasileiro cheio de inevitáveis e horrorosos privilégios a dançar. Generoso, simples, leve. Na travessia, no tambor. Eu não tenho palavra pra descrever, e isso me preenche de certezas.
O corpo pressente, predestina.
Em alguma camada subaquática do meu corpo reside um mapa que registra os percursos dos meus amores, dores e alegrias, desenhando rios convulsos que correm pra minha boca, meus olhos, minhas mãos, se espraiam sob minha pele fina, conformam meu gesto, me são.
Meu corpo é feito de água.
Isso eu sei porque meu corpo não esquece.
A voz que eu não lembrava preencheu 8 anos de distância e em 2 segundos era tudo de novo igual do lugar onde paramos. O cheiro. O encaixe perfeito do abraço – minhas mãos dando a volta toda na sua cintura fina e a lateral do seu peito perfeito roçando o lado de dentro do meu braço. O ciúme violento, o diálogo ligeiro, caótico. A mão na barba dele e no meu pescoço. O coração descompassado, a calcinha úmida. Ele, longe de mim e igualmente desesperado, controlando o passo pra não voltar ali no meio de toda a gente e roubar-lhe o beijo na boca demorado de que temos tanta saudade. Meu corpo afastou-se desorientado e foi automático chorando pro ponto de ônibus, e dalí seguiu pulsando pra sala de dança pra viver outro alumbramento.
Um corpo africano e deslumbrante que ensina este meu corpo brasileiro cheio de inevitáveis e horrorosos privilégios a dançar. Generoso, simples, leve. Na travessia, no tambor. Eu não tenho palavra pra descrever, e isso me preenche de certezas.
O corpo pressente, predestina.
Em alguma camada subaquática do meu corpo reside um mapa que registra os percursos dos meus amores, dores e alegrias, desenhando rios convulsos que correm pra minha boca, meus olhos, minhas mãos, se espraiam sob minha pele fina, conformam meu gesto, me são.
Meu corpo é feito de água.
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