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sábado, 21 de janeiro de 2023

cartografia 44 (será?)

Súbito – sempre assim – sou acometida deste estado a um só tempo volátil e oceânico, ou antes, suspenso como uma cordilheira que nascesse por dentro. Súbito, dou conta destes pés que me caminham, das minhas dobras úmidas que sabem meu nome e minha sorte, das juntas que cantarolam, das minhas mãos que conhecem encruzilhadas e muitos mistérios. É como se encontrasse no mei' da rua aquela mulher que eu fui, irrecusável e fácil, oblíqua e sanguínea, e lhe beijasse a boca, demoradamente. Nesta cidade cheia de azuis, nesta noite bonita lá fora e aqui dentro, debaixo da minha pele, no céu da minha boca que pulsa, aquele cavalo sem domar, um diamante bruto, sete cores, água e vento. E nenhum verbo fugidio.

terça-feira, 18 de maio de 2021

cartografia 41, do retorno

súbito, 30 anos depois, eu volto, e entre saussures, bandeiras e homeros, súbito estou eu penélope de mim mesma, esperando por mim, agulha e fios nas mãos, cada ponto uma ave maria, como minha vó crochetando infinitas toalhas de banquete, minha vó julia pereira pinto que esperou em silêncio por mais de 50 anos a hora de voltar pra casa de jesus de onde ela nunca queria ter saído pra casar e parir 14 filhos com meu vô joão que era neurastênico, minha vó julia de quem trago o nome e que foi enterrada de hábito irmã julia de maria, então viúva do meu vô joão pinto que aprendeu a ler e escrever sozinho e construiu uma gráfica e um jornal e que dá nome ao meu filho, ele e eu herdeiros em demasiada medida daquele homem e daquela mulher, então assim repentino, eu estou capotando na deriva da memória, sonhos e pesadelos, toda noite uma lembrança e uma promessa, a vaidade infantil, a impaciência envelhecida, e a aurora de róseos dedos me enfiando pra dentro do novelo pra sangrar na ponta da agulha e não esquecer, na carne, daquilo que eu não queria mais lembrar, a mãe que não consegui ser, a disciplina que não tenho, as faltas falhas erros desvios desencontros, o sofrimento que impingi, a vergonha, o abandono, a dor, a dor, adorador adora dor, é bem do olho desse redemunho que eu repentino volto, 30 anos depois, súbito

(30 anos, meu bem, não são 30 dias)

e descubro, alumbrada, que não endureci: eu sou aquelazinha ali que chora na aula de introdução aos estudos literários.


quinta-feira, 10 de setembro de 2020

cartografia 36

Súbito, meu corpo reclama meus partos.

João veio antes da hora pra me mostrar que não dava tempo de não entender. Aos 21 anos, enjoada durante os 6 meses em que me soube grávida, mais magra do que devia, com o enxoval mal começado, ele chegou urgente e sem pulmões, agarrou sua vida como fazem os teimosos e valentes: força descomunal, dedos longos e olhos imensos. Eu não vi o João nascer, estava atordoada e em desespero, sem entender por que meu corpo mandava embora aquele menino tão pequeno. Cheio de tubos, fios e esparadrapos, a gestação terminou do lado de fora, em 35 dias infinitos de uti, bomba de leite, corte cesariano infeccionado, derrame, alimentação parenteral, isolete. A minha voz cantou pro João incansavelmente, desde o caminho pro hospital até o depois do sempre. João veio na hora certa pra me fazer mãe.

Luiza veio antes da hora pra me mostrar que o tempo é o senhor mais bonito. Aos 30 anos, um casamento despedaçado, mais magra do que devia, metade da casa encaixotada de uma mudança que não vingou, sem enxoval nenhum, ela me amarrou no pé da vida e agarrou-se no meu útero ruim como fazem as valentes e teimosas: dança incansável, mãos fortes e olhos imensos. Depois de 2 meses em repouso caseiro e mais 4 semanas hospitalares horizontais, eu, taquicárdica de tanto remédio, tive coragem pra parir tão naturalmente quanto possível numa cadeira obstétrica fria sem poesia nenhuma. A memória mais linda dessa noite é o João pendurado na janelinha mágica, sorrindo ao ver a irmã ser limpa n'água, entre os panos azuis, sangue e placenta. A minha voz cantou pra Luiza incansavelmente naqueles 28 dias infinitos de hospital até o depois do sempre. Luiza veio na hora certa pra me fazer mulher.

Um filho e uma filha. Duas estreias. Dois ritos de passagem. Tudo aqui inscrito ecoando dentro de mim.

Sinto um pouco de raiva deste corpo que não foi e ainda não é muito amistoso comigo mesma, por vezes desobediente, inerte, irreconhecível. Mas agradeço, envaidecida, por sua generosidade e sua maciez (dentro e fora), casa que tece memória, voz, alimento e poesia. E, embora cansada, me orgulho da luta cotidiana que é ser quem eu sou.

sexta-feira, 29 de maio de 2020

cartografia 31

Ritos de passagem são túneis que servem à luz que os encerra. O corredor polonês tem versões diferentes entre iroquois, prussianos, romanos, franceses e praticantes de jiu-jitsu, mas em todas elas existe o desejo de redenção para aquele que for forte o bastante, aguentar a dor da passagem e chegar vivo do outro lado. Entre os Sateré-Mawé, o Waumat – o rito do veneno de tocandira – se baseia na certeza de que o menino suportará a dor de 200 picadas de formigas carnívoras por 10 minutos em suas mãos infantis. O batizado não foi feito para afogar o pagão. A circuncisão não quer matar o bebê de hemorragia.

Mas no Brasil dos últimos tempos (dias? semanas? meses? anos?) não vivemos uma travessia que pressupõe a esperança do futuro prodigioso. Não tem o "depois", um "mundo melhor" nascido da "experiência transformadora" do confinamento. Como na mutilação do clitóris – que arranca pra sempre o futuro prazer sexual da menina que menstrua – esse país promove rituais de morte. Nosso corredor é um túnel escuro e interminável coberto de veneno e paulada, água e sangue subindo pelas paredes que se estreitam e pedaços do corpo arrancados antes mesmo de serem usados. Não se vislumbra o fim e não tem hora pra acabar.

Acho que não vamos sair nunca desse pesadelo porque estamos encarcerados há 520 anos, sendo sistemática e institucionalmente fodidos. Tem aqueles que são sempre alvo e morrem às baciadas: pretos, índios, pobres, mulheres, bichas, crianças. Tem alguns, transitórios e iludidos, que de vez em quando sentem um ventinho na cara e acham que vai passar, seguem pelas beiradas comendo farelos. E tem os mesmos-muito-poucos, enfileirados desde sempre com armas na mão babando de prazer ao chegar a hora de descer o cacete.

Só vai acontecer alguma coisa quando o morro descer e não for carnaval. Quando o fogo da justiça cobrir tudo. Quando terras, fábricas e cidades forem redistribuídas, bancos saqueados, as ruas então serão tomadas pela alegria.

Meu corpo está duro, a voz empedrada, o peito estilhaçado. Enquanto rezo, construo uma lanterna de papel pra alumiar e reconhecer meus amores durante a noite escura e infinita.

sábado, 7 de março de 2020

cartografia 23

O Brasil atravessa um período de trevas, e o potencial destruidor de sua política de estado baseada no horror e na violência ameaça, entre outras urgências, o capital simbólico que nos identifica – e portanto a existência de qualquer poesia. Neste momento, minha pesquisa artística tenta criar estratégias para subverter a lógica colonial sistêmica que está impregnada em meu discurso, pensamento e prática artística.

Cito Luiz Antonio Simas para dizer que o ponto de partida dessa nova investigação é o corpo: "... o projeto de normatização deste Brasil de horrores, para que seja bem sucedido, precisou de estratégias de desencantamento do mundo e aprofundamento da colonização dos corpos. É o corpo, afinal, que sempre ameaçou, mais do que as palavras, de forma mais contundente o projeto colonizador fundamentado na catequese, no trabalho forçado, na submissão ostensiva da mulher e na preparação dos homens para a virilidade expressa na cultura da curra: o corpo convertido, o corpo escravizado, o corpo feito objeto e o corpo como arma letal.”

Minha primeira atitude é reconhecer meu corpo político: sou mulher, branca, 46 anos, mãe de 2 filhos, casada, bissexual, brasileira, artista independente. Vivo na maior cidade da América do Sul. Sou social e economicamente privilegiada. Pude e posso escolher. Minha ferramenta de trabalho é a minha voz que é meu corpo que é único que muda se transforma e se movimenta. Meu material de trabalho é a palavra que é música que é gesto que é cena – a canção.

As perguntas são: como compreender o corpo como protagonista do pensamento e da atuação política e artística (e não o contrário)? Como construir uma vocalidade que seja viva, gesto e movimento, que liberte e não aprisione, investigativa e não manipuladora? Como lidar com o tempo impresso no meu corpo? Como reabitá-lo e redimensionar suas formas e possibilidades para que não enrijeça? Como horizontalizar minhas relações com plateias, alunxs, artistas, trabalhadorxs em busca de um intercâmbio real e amplo, sem sucumbir à lógica colonial e do capital? Como cantar a canção num momento em que a perda da mediação da palavra ameaça o pacto civilizatório?

(exercício de organização do coração
de reconhecimento, de não saber
tateio o escuro das minhas dores
bato o joelho na quina da parede
sangro
sigo)

domingo, 5 de janeiro de 2020

cartografia 20 (ou do ano que começa)

A minha geração (ou a bolha da minha geração) quer aceitar envelhecer, então não pinta mais o cabelo, mostra o peito caído com certo orgulho, não esconde as gorduras dos braços e as celulites das bundas, entende que a beleza é variada e diversa, multiforme, que as cicatrizes do corpo são nossa história real e isso é realmente lindo. Sofremos dores individuais de um amadurecer mais ou menos consciente protegidas por um senso coletivo de positividade.

Mas eu desconfio que ideal romântico de morrer de peles rígidas, mente afiada, corpo potente, ágil e flexível ainda permanece e ninguém quer enfrentar a decrepitude real que inevitavelmente vai acontecer porque vamos morrer com mais de noventa anos.

É difícil escrever isso: eu vou me tornar uma velha caquética. Talvez mais tarde do que a minha avó e mais tarde ainda do que a mulher pobre e fodida que mora nas bordas da merda da minha civilidade, mas inexoravelmente eu vou me encontrar com essa imagem no espelho: uma velha.

Meus filhos vão querer o meu carinho quando meu corpo estiver molenga? Como vamos trepar quando todas as nossas peles estiverem caídas, as articulações duras? Haverá prazer possível num corpo tão usado? Quem vai querer me ver dançar? Quem vai querer me ouvir? Quem vai morar dentro dos meus ossos frágeis e das minhas vísceras lentas?

Talvez a chave seja criar rituais de solidão, ainda que compartilhada. Preparar-se pras mais variadas assincronias (do corpo com a mente, do outro consigo, de si com o mundo) de modo a reabitar o corpo de dentro pra fora, preenchendo o que era carne de sensações ou da memória delas – minhas preferidas são a alegria e a surpresa. E se manter ressoando mesmo que num contraponto infinito, lento mas presente. E assim, talvez, não enrijecer o suficiente pra construir seu próprio Narayama.

E talvez nada disso faça sentido porque tem o coiso daqui, o coiso estadunidense, e a gente pode morrer a qualquer momento de bala, cansaço, falta de saúde pública ou bomba atômica e então todas essas minhas angústias comezinhas que se fodam.

segunda-feira, 30 de dezembro de 2019

cartografia 19 (ou do ano que acaba)

Neste 30 de dezembro eu sou cansaço e silêncio.
Ontem eu revisitei a angústia dos domingos da minha infância choramingada no escuro do banco de trás do carro na estrada quase sem estrelas. No mesmo ontem chorei assombrada pela beleza dos meus filhos. E ainda no final de ontem amei como um bicho, sem pejo e sem barulho, derramando gozo e certeza entre minhas coxas quentes e generosas.
Ainda sou cavalo sem domar, e dou graças.
Silêncio e cansaço.
Cantei tão pouco e nunca tão bonito.
Estive muito sozinha e encontrei pessoas fundamentais.
Descobri universos multiformes coloridos dentro do meu corpo: ideia, som, ruído, volume, confiança, desequilíbrio, força, pensamento, inércia, dor, prazer, duração, re-morte, re-vida, tudo cozinhando lentamente num estado líquido e viscoso entre a lava e o mercúrio de cor azul-marinho profundo e incontinente.
Há um descompasso extremamente barulhento entre este meu corpo hoje imenso e molhado e o mundo, manifesto numa hipersensibilidade auditiva a um só tempo desconfortável e curiosa: sinto o ruído dos meus ossos e vísceras, escuto o barulho ardido da minha raiva, ressoa no meu peito o vídeo escroto do celular no banco ao lado do coletivo, arrepia minhas peles a menor das alegrias, percebo as presenças diretamente no meu lombo de cavalo e posso antecipar quando meus fluidos escorrerão de dentro para fora nos meus buracos e mucosas.
Ainda assim, e por isso mesmo, sigo calada e exausta.
Naufrago dentro de mim, devagar, quieta e atenta.
Resisto, re-existo, teimosa, todos os dias.
Sinto muita tristeza, não tenho quase esperança, morro de medo do que virá e não sei o que fazer.
Tento não paralisar, tateio no escuro um caminho acanhado e avanço com lentidão, de esguelha, cada passo uma raiz, uma valentia, um risco.
Eu canto pra não morrer, eu amo mais: desígnio do meu nome, cond(enaç)ão e devir.

terça-feira, 17 de setembro de 2019

cartografia 17

Não sei bem onde entre o depois, o escuro, o rés do sangue e o suor dos ossos estão escoriadas as separações. Não é a mesma folha dos desencontros nem a dos amores (que também transitam por ali), mas é outra lâmina, ora transparente, ora acinzentada. Garatujas, rabiscos desordenados, inconclusos, orações sem sintaxe, interrupções barulhentas, silêncios infinitos, palavras estripadas e sobretudo as que nunca foram ditas. Não conformam nada, são quase um caroço, menos que uma cicatriz.

Ligados aos nervos em carne viva desta camada, em uma extremidade está o estômago que passa imediatamente a existir, fraudulento: não é fome, não é saciedade, é somente uma presença contínua e esburacada; na outra ponta estão os olhos que superlativam e desaguam, inconvenientes, ininterruptos.

As separações são a alma da dor. São filhas da morte. Delas nascem o espólio (vivo ou morto) e o substantivo luto, que é um filho franzino, também cinza e moribundo, que existe somente enquanto é preciso transmutar a saudade em memória.

Edito: pós-escrito.

Faz um calor descomunal, a cidade fede. Junto meus cacos e vou dançar. Aqui dói, nos acúmulos. O verbo se apresenta, o substantivo desiste, mas vou. Vozes, mãos e corpos pretos embalam meu peito que dilacera miúdo, no meio do salão cheio de sorrisos, peles e suores diversos, eu abro minhas portas, não sinto alegria nem prazer nem nada, só este calor desesperado que faz meu corpo chorar por todos os buracos. Meus olhos transbordam escondido mas se recusam a estar ali, oblíquos. Eu fui, eu não fui, eu voltei e eu ainda estou lá. Separada de mim. Eu sou aquela dramática que chora na aula de dança.

domingo, 1 de setembro de 2019

cartografia 16

Neste mapa que tenho desenhado a custa de dor e paciência nas finas camadas sobrepostas que me constituem - derme, epiderme, subterrâneo, líquido, inferior, inferior de dentro, depois, escuro e rés do sangue - há linhas que repentinamente se cruzam, atravessam, entrelaçam, e é nesses pontos precisos e iluminados que ergo meus altares, enterro o fundamento, firmo a cabeça e bordo delicados ex-votos com flores de muitos pontos miúdos e multicoloridos pra saber que, pralém do tempo e do espaço, é pra estes lugares que eu devo voltar. São pequenas rosas dos ventos, miúdas agulhas magnéticas, imperceptíveis pilhas de pedras e algumas migalhas de pão enfileiradas que compõem o traçado invisível das minhas certezas.

Minha carta de marear ganhou hoje uma nova encruzilhada: ponto, vela, amarração.

Nela, eu encontrei uma generosidade nova dentro do meu corpo. Meus músculos e os vazios de dentro de mim ofertaram-me uma qualidade de voz que agora, horas depois, no escuro de um apartamento feio que não é meu, me fazem chorar demovida de alegria. Sozinha, nesta cidade litorânea e gelada que me recebe amorosamente com um sotaque ancestral e cheia pessoas que abraçam apertado, eu me sinto profundamente grata a este corpo meu, que eu construí, forjei, judiei e cuidei, e que me faz ser o que sou. Um corpo que, uma vez mais, desconheceu seus limites, se assombrou, rodopiou, e aprendeu consigo mesmo.

Hoje eu descobri o meu nome.

(em Itajaí, SC)

sexta-feira, 16 de agosto de 2019

cartografia 15

Tenho um parágrafo tatuado na minha retina. Como toda tatuagem (ou cicatriz, obra, amor) ele é marca de um tempo que se reapresenta, quando em vez, ora como susto, ora como alumbramento, às vezes cheiro, soco na cara. Ontem ele reapareceu também como tábua de salvação. Que eu ando mesmo é naufragada, sem carta marítima, bússola, água ou vela. Que apesar de todas as urgências físicas, econômicas, civis e emocionais, meu corpo parece preenchido de cimento e escombros, e se arrasta, esfarelento, por entre todas as indisciplinas que não me canso de colecionar. Que meu coração de tão vermelho está quase roxo, apertado, arrítmico, e meus olhos não ficam mais que dois compassos sem derramar.

Mas, enfim, de alguma coisa serve essa cabeça cheia de minhocas, palavras e insônias, aqueles 12 anos de análise. E certamente por conta do chamado da minha coroa que agora me guia, ontem dei um troço silencioso: eu fui dançar. 

(Eu sou a pessoa que chora na aula de dança)

E no último movimento, o que me fez travessar a sala e dizer meu nome infantil e, na mão inversa, ver, aguardar e ouvir o nome dela feito só para mim, eis que o parágrafo reaparece, reluzente e inédito, sonoro como a gargalhada de um Exu bonito, em rodopios. Pois que reproduzo aqui na forma de presente, agradecimento e sinal:

"e, circunstancialmente, entre posturas mais urgentes, cada um deve sentar-se num banco, plantar bem um dos pés no chão, curvar a espinha, fincar o cotovelo do braço no joelho, e, depois, na altura do queixo, apoiar a cabeça no dorso da mão, e com olhos amenos assistir ao movimento do sol e das chuvas e dos ventos, e com os mesmos olhos amenos assistir à manipulação misteriosa de outras ferramentas que o tempo habilmente emprega em suas transformações, não questionando jamais sobre seus desígnios insondáveis, sinuosos, como não se questionam nos puros planos das planícies as trilhas tortuosas debaixo dos cascos, traçadas nos pastos pelos rebanhos: que o gado sempre vai ao poço." (Raduan Nassar, Lavoura Arcaica)

domingo, 23 de junho de 2019

cartografia 11

Em alguma camada subterrânea da pele vive o mapa dos trajetos que se perdem, das travessias interrompidas, da vida que resta derramada desde os desencontros. Linhas molhadas e carmim riscam arcos invisíveis que mantém conectadas as veias pulsantes dos amantes apartados, para além da dor e do amor.

Isso eu sei porque meu corpo não esquece.

A voz que eu não lembrava preencheu 8 anos de distância e em 2 segundos era tudo de novo igual do lugar onde paramos. O cheiro. O encaixe perfeito do abraço – minhas mãos dando a volta toda na sua cintura fina e a lateral do seu peito perfeito roçando o lado de dentro do meu braço. O ciúme violento, o diálogo ligeiro, caótico. A mão na barba dele e no meu pescoço. O coração descompassado, a calcinha úmida. Ele, longe de mim e igualmente desesperado, controlando o passo pra não voltar ali no meio de toda a gente e roubar-lhe o beijo na boca demorado de que temos tanta saudade. Meu corpo afastou-se desorientado e foi automático chorando pro ponto de ônibus, e dalí seguiu pulsando pra sala de dança pra viver outro alumbramento.

Um corpo africano e deslumbrante que ensina este meu corpo brasileiro cheio de inevitáveis e horrorosos privilégios a dançar. Generoso, simples, leve. Na travessia, no tambor. Eu não tenho palavra pra descrever, e isso me preenche de certezas.

O corpo pressente, predestina.

Em alguma camada subaquática do meu corpo reside um mapa que registra os percursos dos meus amores, dores e alegrias, desenhando rios convulsos que correm pra minha boca, meus olhos, minhas mãos, se espraiam sob minha pele fina, conformam meu gesto, me são.

Meu corpo é feito de água.

segunda-feira, 17 de junho de 2019

cartografia 10

Eu trabalho 24 horas por dia. Eu trabalho quando acordo, quando vou dormir, se cozinho, lavo louça, enquanto costuro um vestido azul, ao escrever um textinho desses aqui, ridículo. No coletivo enquanto olho e escuto a cidade. No domingo, jogo de futebol e sofá. Quando desenho pra mim e pros outros, e quando a folha ainda está em branco. Quando não leio aquele livro dormindo na cabeceira. Quando sonho. Quando canto, se silencio e sempre que choro. Quando não danço, se eu fujo e quando sofro (sempre sofro). Quando firmo a cabeça, canto o ponto, acendo a vela, rezo. Eu trabalho.

E isso é parte de uma constatação simples: eu escolhi. Não reclamo, não me vanglorio, não descanso, não desisto. Neste momento, enquanto escrevo e espero a água ferver pra cozinhar mandioca, eu choro e sei, inteiriço, que assim que é, simples e bruto como uma pedra. Eu coloquei meu corpo a serviço da poesia, e isso tomou conta dos meus ossos, do meu sangue, da água que corre no meu corpo, do ar que entra e sai dos meus buracos. Meu corpo trabalha e isso é indomável.

A arte, eu aprendi, é a manifestação da alegria no trabalho. Eu trabalho.

Trabalho é verbo, portanto movimento – rodopio, salto, mergulho, profundeza, superfície, altitudes, gravidade. No atravessado e na travessia. Durante, enquanto, no infinito percurso entre dois instantes, dois músculos, duas notas, duas sílabas. Trabalho não é substantivo, e não tem pronome possessivo que o enfrente.

sábado, 8 de junho de 2019

cartografia 9

Sou filha de uma geração de mulheres infelizes. Que não puderam escolher. Que quando trabalharam, sentiram a culpa de duas mil encarnações por abandonar seus filhos. Que quando não trabalharam, ficaram frustradas. Que não souberam o que ser depois que não eram mais mães indispensáveis de seus filhos. Que não souberam o que fazer com aquele homem estranho que estava dentro de casa quando os filhos partiram, maridos que, por sua vez, não esperavam quase nada delas, ou somente que cuidassem dos filhos, da casa e deles mesmos, quando envelhecessem satisfeitos depois de 35 anos de trabalho. Mulheres que não prepararam sua solidão, sua individuação. Que pararam de transar na menopausa, que nunca se masturbaram, que não beijaram na boca, e que não tiveram outro homem, outra mulher. Que viveram, e sobretudo envelheceram sem direito ao desejo. E que se tentaram se reinventar, causaram uma hecatombe interna e externa. Que não tiveram a condição psíquica de entender a grandeza de suas ações, pois que, apesar de tudo, suas filhas são mulheres outras, diferentes, até invejáveis. Essas mulheres agora, velhas, não conseguem desfrutar a alegria de terem sido o que era possível ser diante de um mundo em destruição. Perdidas entre o que deveriam ter sido, o que gostariam de ter vivido, e a vergonha do que realmente são.

Meu corpo responde a este legado.

Há duas semanas eu estou inerte, letárgica. Mergulhei numa apatia estranha, estou lenta, pesada, endurecida. É claro que tem os cadáveres dos leões cotidianos acumulados na sala, no quarto, na cozinha. Tem os tantos pratinhos espatifados no chão. E tem a derrota civil, esse país que não cansa de nos foder. Mas tem essa herança genética, esse lastro que mostra seus contornos e sombras, todos os dias.

Hoje é o meu corpo que envelhece. Eu não sou a mesma mulher que a minha mãe - graças a ela, inclusive. Mas eu também sou aquela mulher, porque sou uma mulher brasileira, meu corpo foi domesticado, há 519 anos, pra ser subalterno, frustrado e infeliz.

É por isso que não posso sucumbir.

domingo, 2 de junho de 2019

cartografia 8

"Transtorno Dismórfico Corporal (TDC): doença mental que envolve um foco obsessivo em um defeito que a pessoa considera ter na própria aparência. É comum, mais de 150 mil casos por ano no Brasil. O tratamento pode ajudar, mas essa doença não tem cura. Crônico: pode durar anos ou a vida inteira. O defeito pode ser pequeno ou imaginado. Mas a pessoa pode passar horas por dia tentando corrigi-lo. A pessoa pode experimentar muitos procedimentos estéticos ou se exercitar em excesso. Indivíduos com esse transtorno costumam examinar sua aparência no espelho com frequência, compará-la constantemente com a dos outros e evitar situações sociais ou fotos. O tratamento pode incluir terapia e medicação antidepressiva."

Meu TDC é ao contrário: eu me imagino menor, mais delgada, mais leve, mais ágil, mais organizada do que realmente sou. Eu sou uma galinha que se acha um cisne. Auto-estima? Não, auto-sabotagem mesmo. Eu acho que poderia dançar, e então vejo o filme e me frustro, eu sou muito atrapalhada. Eu tiro autorretratos e acho bonito, depois acho feito, sinto vergonha mas me exponho, anseio comentários e quero apagar tudo, quem se interessa? Eu me interesso, isso é importante, caralho. Importante, oi? Eu publico um diário desnudo e difícil esperando que isso faça minha rotina imaginada de 3 vezes de ginástica por semana funcionar. Não vou na aula, não vou na academia, digo baixinho pra mim mesma que trabalho muito, estou cansada, então tudo bem. Tudo bem nada, estou com preguiça e eu detesto ter preguiça, acho feio, acho burro. Mas não vou. Mas segunda feira é amanhã, e dessa vez vou conseguir. Hoje é domingo, o dia está lindamente feio, e eu estou com vontade de chorar.

Eu sou um poço sem fundo de contradição e indisciplina.

terça-feira, 28 de maio de 2019

cartografia 7

Eu não sei jogar xadrez, e isso diz muito sobre mim. Invejo planejamentos, a tática de movimentos sobrepostos, o vislumbre das probabilidades resultantes de variáveis possíveis, o depois do depois enxergado no antes do antes.

Minha vida sempre foi de roldão: ofícios, filhos, amores, dinheiros, desamores. Sou feita de sustos, imperativos e intuições, movimentos reflexos. A malabarista dos pratinhos que giram desordenados sobre as varetas finas que às vezes vão despencando, um a um, traidores e ardilosos, e apesar do cataclisma iminente, a moça mantém o riso no rosto, mesmo com as dores nos ossos, o peito moído, os olhos transbordados, e num tcharam desajeitado põe tudo pra rodar de novo.

45 anos mais ou menos desse jeito, teimosa e valente, sem desistir.

Maio de 2019, Corpo em Risco: 35 pessoas-formosura de tudo quanto é jeito, 6 encontros, 30 horas pra construir coletivamente um espetáculo de 30 minutos, acompanhado de música ao vivo, e eu, além de dançar, responsável por compor a trilha cantando ao lado de 3 músicos imensos. Tudo conduzido por um homem incrível (sim, há homens incríveis), que tem me ensinado, talvez sem ele mesmo saber, o contorno que meu corpo pode ter, pra minha alma res/existir do tamanho que ela tem.

Ói a Juliana no olho do furacão, de novo: quem disse que eu sei improvisar? e se eu não tiver nenhuma ideia no meio do tudo ao mesmo tempo agora, e se me vier um silêncio de encarnações? e se-se-se? Eu ali, toda apertada em leggins e tops de ginástica que eu detesto, desconfortável, com medo, exposta, pelada, encolhida. Eita.

Pois que as varetas permaneceram girando no ar... eu malabarista vermelha. Fizemos, bem juntos, um troço muito, muito lindo. Foi um dia-mante, e eu não vou ter nunca como agradecer.

Fiquei envergonhada de dançar - atrapalhada, pesada, dura... Mas ao mesmo tempo senti a plenitude da certeza de saber que a música mora dentro de mim, inteiriça – meu corpo a serviço, como tem de ser. Pois que eu vivo pelos encontros verdadeiros, que me mostram, com sua gentileza, que generosidade, entrega e alegria são a cola mais potente pra juntar, como ouro, os nossos pedaços.

quinta-feira, 23 de maio de 2019

cartografia 6

A verdade é que nós estamos fodidos para caralho. Ontem peguei um táxi e o rádio estava na Jovem Pan; fiquei ouvindo, entre o pavor e a curiosidade mórbida, por uns 30 minutos, um programa de humor e política. E a única certeza que eu tenho é esta: nós estamos muito fodidos. Na merda mesmo, chafurdando, afogados, cocô em todos os buracos e teimando em acreditar, alucinados, que ainda tem alguma saída, mágica ou lógica. Mas depois dessa meia hora... não, não tem. Nós estamos fingindo que não, mas estamos fodidos. Deprimidos. Exaustos. Desesperados. Com medo de não ter dinheiro, trabalho, palco, fôlego, voz, corpo, espírito, velhice, espaço, tempo, filhos, emprego, comida, cachaça, café, cafuné, abraço, cigarro, escola, universidade, bolsa, aluno, instrumento, lugar. Uma falta de mil palavras. Não tem mais lugar pra gente. Gente que nem eu, corpo, alma, espírito, gesto, afeto, alegria, amor e poesia. Saí do táxi como quem sai do liquidificador.

Cheguei no terreiro. Bati cabeça, cantei,  dancei, entreguei o corpo, dei passagem, recebi, ofereci. Imediato, a mensagem: isso tudo é verdade, e ainda assim, não é motivo pra des-viver. Te vira, Juliana. Você não é fogo, não é água? Respira, faz a curva e vai achar a leveza.

Minhas articulações não dóem, o que já é alguma saúde. Mas todos os meus músculos gritam, reclamam sua existência. Menstruei hoje e vou ter enxaqueca, certeza. O dia é cheio e vai longe, eu de novo na travessia.

Mas nada disso tem importância.

Pára tudo e vai ouvir o disco do Douglas Germano. É sério: Escumalha. Flecha de caboclo, pedrada de Exu. Canção que atravessa e ilumina o escuro da morte, pra nos salvar do desencantamento.

sábado, 18 de maio de 2019

cartografia 5

Ao final do quarto dia dançando, pela primeira vez eu sinto prazer. E um silêncio toma conta da minha alma.

Pausa.

Há 15 meses fui pra uma gira de passe e consulta num terreiro de umbanda, e como em outras vezes em outros lugares, fui tomada - admiração, surpresa, reconhecimento, compaixão, generosidade. Como das outras vezes, algum tremelique no corpo, a vontade solta de chorar, um descabimento e certa ansiedade. Mas naquela noite de fevereiro eu fui invadida subitamente por um amor de uma qualidade inédita pra mim, e, diferentemente das outras vezes, eu abri a guarda. Meu joelho soltou. Minha cabeça sumiu. Meu corpo cedeu. Eu virei. Não foi exatamente bom, não foi como eu imaginava. Foi absoluto. Um espanto, uma honra, uma verdade. Naquela última sexta-feira calorenta de um fevereiro quente, pelas mãos da Pombogira Maria Padilha da mãe Trícia, eu encontrei meu ilê e meu congá.

De lá pra cá eu significo e ressignifico, diariamente, as palavras entrega, confiança, amor, justiça e verdade. Devagarinho, com devoção e humildade, entrego meu corpo à passagem mais formosa, que vem de muito antes e vai pra muito além. Sou parte. Sinto a sombra e a luz, seus contornos difusos ou precisos, misturo, digiro e ofereço, elevo e assento, firmo e assopro, macumbo, trabalho. Eu trabalho. Trabalho muito pra entender, com todas as fibras de que sou feita, que tamanho é o tamanho da alma.

Volta.

Ao final do quarto dia eu reencontro o prazer silencioso de constatar que tudo é a mesma coisa. Sou e estou para a poesia. Meu corpo real é pesado e é passarinho, feito de água, vento e música, e está a serviço.

sexta-feira, 17 de maio de 2019

cartografia 4

Mapas servem ao movimento; em estado de inércia ou paralisia, não há necessidade de rosa dos ventos, estrelas, bússola. Desenhar um mapa é revelar o desejo do percurso. É sem volta e é infinito.

* * *
Assumir-se na travessia no meio da noite escura do pior pesadelo, e aceitar serenamente o que é estranho, difícil, dolorido, feio, e também o que é flor florida, rosal formoso, presente com laço de fita, amor inconteste. Meu corpo-relevo se desenha em relação, junto, com. Minha cartografia solitária só existe em estado de alteridade.

* * *
Hoje percebo que este mapa-movimento do meu corpo é na verdade uma carta de marear, pois que vivemos num naufrágio continuado: desespero, horror, pesadelo cotidianos sucessivos a invadir os buracos do meu corpo pessoal e do nosso corpo coletivo, infectados de lama tóxica, injustiça e deficiência cognitiva. Estar em movimento é condição de sobrevivência; um corpo inerte, parado, inexoravelmente afunda.

sexta-feira, 10 de maio de 2019

cartografia 3

Eu fiz 12 anos de análise. Os 10 primeiros foram só resistência.

Eu não queria estar ali. Chegava atrasada, não ia, não pagava, não queria deitar no divã, discutia detalhes semânticos estúpidos, duvidei da competência da minha analista porque ela tinha joanetes e um nome estranho. Chorei muito, falei demais e disse muito pouco. Adoeci, machuquei um tanto de gente, inclusive a mim mesma, fui pro hospital, quase morri, tive que tomar remédio pra não enlouquecer. Era peixe no samburá, debatendo desesperada como fosse asfixiar. Eu não queria ser, mas sim parecer com aquilo que eu achava que todo mundo ia achar bonito que eu tivesse sendo. E aquele processo violento me colocava diante da escolha única possível: ou a gente morre, ou a gente vive. E é tão mais fácil morrer.

Mas nos dois últimos anos de análise experimentei a sensação única e maravilhosa de entrega, perdão, amor e profundidade. E ouvi então o silêncio escuro transparente do oceano mais limpo e mais bonito que habita o centro do meu coração e da minha inteligência. Eu gostei molhado do que encontrei. Mudei a vida, ensolarei, no pra-sempre-bom das alegrias desimportantes e na beleza do dia-a-dia predestinado de poesia.

Escolho viver. Meu coração cavalo sem domar. Minha voz vento e água, condão e condenação, a serviço. Olhos molhados. Não ando só. E dou graças.

Hoje, é meu corpo envelhecendo que resiste, volta a ser lambari no samburá. Tem sono, dor, perde o tempo, debate, machuca, desencontra, arfa, desmaia. O movimento que nasce nos meus olhos e no meu peito lhe é estranho, alheio, como se os contornos e os preenchimentos não me pertencessem. Eu não sei onde estão minhas costas, minha espinha é esfarelada, meus pés fazem bolhas internas sanguíneas sucessivas, como se não pudessem tocar o chão, ao tempo que meus quadris, que sempre julguei fáceis, são um peso rígido mal esculpido em pedra seca, áspera e sem formosura.

No meu corpo ainda não acho a música, tampouco o silêncio, menos ainda a leveza. Ainda quero parecer. Mas a escolha permanece a mesma. E a minha resposta também.

domingo, 28 de abril de 2019

cartografia ou um corpo que res/existe - abertura

Exu acertou o pássaro ontem com a pedra que lançou hoje
 e acertará, com a pedra que lançou ontem,
 o pássaro que ainda não voou


Começo aqui um registro cartográfico do meu corpo. 

Viagem anunciada: desconforto, desformatura, deslocamento.

Dançar nunca foi uma opção.
Dançar nem sequer foi um desejo.
Dançar sempre foi a saudade do que eu jamais fui.

Mas à semelhança dos meus partos - filhos, discos, espetáculos - meu corpo conhece a inércia e a iminência, e entre uma e outra, o vazio silencioso que antecede as importâncias. Feito de água, vento e palavra, a um só tempo continente e cachoeira.

Dançar é agora urgência. Ato político. Gravidez da voz que sempre tive e da que ainda terei. Procedimento e polinização.

Risco aqui a cartografia do meu corpo. Um corpo cruzado, atravessado e na travessia. Corpo-percurso, subversivo, resiliente, e que envelhece. Um corpo em busca do que já foi, e que quer lembrar o que será.