Mostrando postagens com marcador hipocondríaca. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador hipocondríaca. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 9 de agosto de 2007

vésperas

Às vésperas de um novo ano sempre é assim, e eu que já devia me acostumar, ainda sofro sempre, insone: a filha fica doente, e estamos já no terceiro dia de hospital, a conta bancária de cabeça pra baixo, o trabalho sem nem mais ter os pés, tudo, tudo numa confusão tão desparatada, um vaudeville sem graça nenhuma.

Às vésperas sofro muito e choro à toa, sinto-me assim, miudinha.

Ridícula, eu sei, e pra acalmar vejo meu rosal ensolarado, os filhos lindos, meu amor todo meu que cuida de mim (infinitudes que desconhecia, benção por mim sonhada, amém), o risco que fica pronto e anuncia o seu, o nosso, devir.

É o medo, eu sei, superlativo, o tempo que passa depressa. E esse nó na garganta, um terror de não dar certo.

Calma, Juliana, respira: é só um dia depois do outro.

quarta-feira, 4 de abril de 2007

coxa

Nos dias claudicantes aproveito pra maternar: luiza nas manhãs de sol com biscoito, cosquinha, rá-tim-bum e risada, joão nas tardes calorentas de tempo solto e palavras no vento, as noites de ternura e vinho e unhas vermelhas. Meu corpo sabe a hora do descanso preciso, então finge quebrar-se. A perna esquenta dentro do gesso, o resto fica de fora para o afago molhado, e a alma refresca no meio do mundo, e cada instante compartilhado vai construindo o bonito devir.
Hoje não preciso mais servir às gavetas: elas é que serão moldadas (como as pernas postiças e as cadeiras de madeira do casal de arquitetos pra-sempre sorridentes), uma a uma, pra cada um dos meus - dos nossos - sonhos.

sábado, 31 de março de 2007

torre-abaixo

Na manhã em que reconhecerás a prole, a espera ansiosa e sorridente, junto com a lembrança tua, despencam-me dos saltos: tombo ridículo, luxação no peito (do pé!), gesso por 6 dias. Agora ando de muletas com a elegância de uma gaivota manca. Mas o coração vai altivo, com um alegrinho-de-menina: cuidas de mim como de uma princesa desencastelada.

quinta-feira, 1 de março de 2007

lexapro - oxalato de escitalopram

"Mania
Os ISRSs (Inibidores Seletivos da Recaptação de Serotonina) devem ser utilizados com cautela em pacientes com um histórico de mania/ hipomania. Os ISRSs devem ser descontinuados em qualquer paciente que entre na fase maníaca.
Suicídio
As experiências clínicas gerais com os ISRSs indicam que o risco de suicídio pode ser intensificado durante as primeiras semanas de terapia. É importante o estreito monitoramento do paciente durante esse período."
Estão todos convocados.

sábado, 3 de fevereiro de 2007

noite

"O mecanismo de ação preciso, através do qual a Lamotrigina exerce sua ação anticonvulsivante, ainda não é conhecido. Um mecanismo de ação proposto envolve um efeito nos canais de sódio. Estudos farmacológicos in vitro sugerem que a Lamotrigina inibe os canais de sódio sensíveis à diferença de potencial, estabilizando as membranas neuronais e conseqüentemente modulando a transmissão pré-sináptica, por diminuir a liberação de aminoácidos excitatórios, especialmente o glutamato, que desempenha um papel fundamental no desencadeamento das crises epilépticas."
Tinha medo de não dormir.
Agora tenho medo de nunca mais aprender a dançar.

domingo, 24 de dezembro de 2006

corpo fechado

Saí do hospital ontem, sábado, e vi a cidade fervendo, cheirando a Natal - acho que nessas de estar enclausurada me livrei da parte pior. E a primeira coisa que fiz foi parar na Dr. Arnaldo pra comprar uma pimenteira - entrei em casa com ela em riste, na frente do peito, como um patuá. Engraçado, senti-me protegida, vê se pode... como vou ter de abrir as portas e as janelas pra ensolarar de novo, é bom que assim seja, amém.
Ah, ia esquecendo: feliz natal pra nós tudo.

segunda-feira, 18 de dezembro de 2006

diário do hospital - parte final

Já é tão pouca gente que me lê. E eu ainda fico aporrinhando e espantando quem por um acaso divino passa por aqui com esse monte de doenças, remédios, e pior, as minhas mazelas; não vou contar que estou na semi-intensiva, monitorada, oxigênio, fisioterapia com a máscara do Jason, catéter na jugular e congêneres. Portanto, vou dar um lexotan procês e vou botar as ridículas de molho, vamos dormir até esse tormento acabar. Se alguém quiser me visitar eu vou ficar feliz, até porque não sei quando vou embora (olha que divertido, vai até merecer um textinho: Natal no hospital... você me ajuda, Sr. Ruminador?). Quem não quiser ou não puder vir, rezaí que tô precisando. Aos que estão fazendo uma e/ou outra coisa, eu agradeço de verdade-verdadeira, é bom saber que tem gente que se importa, e nessas horas descubro que tem um monte delas, dá até um confortim. E juro que vou tentar não pensar em todas as coisas que não vai dar pra fazer, a árvore de Natal, a casa arrumada, as velas sobre as mesas, ajeitar as coisas no trabalho onde ficou tudo de ponta-cabeça, fazer os presentes e as surpresas pros tios, primos e avós com o João, a salada da ceia sou eu quem faço com chuttney de manga, comprar um vestido pra Luiza, ir pro Rio no samba do Augusto, passear na cidade vazia ido pra lugar nenhum. E prometo que não vou mais chorar. Inté.

sábado, 16 de dezembro de 2006

diário do hospital 3

A noite pela janela do 10º andar era linda. Mais um lexotan pra dormir - viva! - mas a dor agora está se espalhando: costas, estômago, ventre, e uma tossezinha esquisita, a respiração curta, ofegante. Então acordo às 2h30, e adeus meu sonho de pedra, o lexotan desistiu de mim. Tosse pior (quando eu era pequena, minha mãe chamava de tosse de cachorro), sem posição pra dormir, tudo dói.
De repente lá fora o dia amanhece. E aqui dentro meu ar acabou: a tosse seca não pára, a saturação foi a 60, máscara de oxigênio, mudança de planos: tomografia, troca de quarto para o semi-intensivo, monitoramento, pode ser uma pneumonia, uma infiltração pulmonar, uma trombose.
Quero brincar de outra coisa, tem mais graça não.

sexta-feira, 15 de dezembro de 2006

diário do hospital 2

em homenagem ao lexotan
Essa noite dormi como pedra. Queria saber escrever, assim como João Cabral fez um poema pra Aspirina, um soneto em louvor ao Lexotan. Ou talvez melhor fosse uma ode, pra combinar com o nome do meu santo médico, Dr. Virgílio, que prescreveu este elixir dos deuses, uma pilulazinha tão pequena quanto cor-de-rosa, que me fez desfalecer nos braços de Orfeu e desaparecer no negro reino de Hades, nem sonhos eu tive, uma bênção, um presente. Acordei meio tonta, fazia tempo que não dormia profundo e escuro assim. O rim ainda dói, o estômago continua uma lixo, trocaram os canudinhos do braço, ganhei uma borboleta azul sob um esparadrapo transparente. Mandaram que eu ande pelo corredor, e logo vou cruzar com os outros internados, todas acompanhados de seus cabideiros de rodinhas - suportes de metal em que ficam pendurados os saquinhos de soro e as buretas de medicação, e os canudinhos que descem e entram pelos catéteres, borboletas coloridas nos braços mais ou menos envelhecidos. Que desespero isso aqui. Preciso ir embora, ou vou enlouquecer. Ei, seu poeta, mais um lexotan, por favor?

quinta-feira, 14 de dezembro de 2006

diário do hospital

Cipro 400 mg, a cada 12 horas. Novalgina para dor. Buscopan para dor. Losec, protetor gastrointestinal. Dramin, enjôo. Solução fisiológica a 0,9% sem parar. Tudo desce pelo canudinho, e a dor persiste, filha da puta, não pára. A comida do hospital não é ruim, mas meu estômago está um lixo - o resto também. Os olhos vez ou outra ficam embaçados, e o relógio pendurado na parede da frente da cama fica maluco, com quatro ponteiros. A televisão segue desligada, não tenho vontade, ler não consigo, pra usar a internet dóem as costas, conversar não há com quem. Tá ruim aqui. Uma solidão dolorida, literalmente.

pielonefrite

O enfermeiro avisa: haverá alguma perturbação visual e boca seca, mas pelo menos a dor e os calafrios vão passar. Fecho os olhos já turvos e esse nome me parece uma coisa bonita, imagino os pés de Nefertiti... devo estar delirando. Na verdade, não tem nada de bonito: pielonefrite é o nome certo de infecção renal, a segunda no ano, isso não é bom. No hemograma tem um tal de gran negativo, e o médico explica que as bactérias estão passeando na minha corrente sanguínea, e isso também não é nada de bom, podia virar uma infecção generalizada. Meu braço esquerdo tem uma porção de canudinhos pendurados, minhas costas dóem sem um segundo de descanso, minha cabeça é povoada por uma ciranda em que giram confusamente coisas disparatadas, os processos vão sair?, a Luiza está doente, será que as fotos ficaram boas?, não gravei o desenho que o João pediu, o Natal, não comprei nenhum presente, nem mesmo fiz a árvore, meu pai ficou preocupado, desmarcar a análise de amanhã. Por que isso agora, meu Deus, por que? Desentendo. E eu só queria saber dançar, talvez fosse mais fácil, mas só as veias das minhas mãos são bailarinas.