Súbito – sempre assim – sou acometida deste estado a um só tempo volátil e oceânico, ou antes, suspenso como uma cordilheira que nascesse por dentro. Súbito, dou conta destes pés que me caminham, das minhas dobras úmidas que sabem meu nome e minha sorte, das juntas que cantarolam, das minhas mãos que conhecem encruzilhadas e muitos mistérios. É como se encontrasse no mei' da rua aquela mulher que eu fui, irrecusável e fácil, oblíqua e sanguínea, e lhe beijasse a boca, demoradamente. Nesta cidade cheia de azuis, nesta noite bonita lá fora e aqui dentro, debaixo da minha pele, no céu da minha boca que pulsa, aquele cavalo sem domar, um diamante bruto, sete cores, água e vento. E nenhum verbo fugidio.
(Todas as palavras esdrúxulas, Como os sentimentos esdrúxulos, São naturalmente Ridículas.)
Mostrando postagens com marcador mulherzinha. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador mulherzinha. Mostrar todas as postagens
sábado, 21 de janeiro de 2023
sábado, 28 de agosto de 2021
cartografia 43
não tenho nada de bonito pra dizer, de novo, eu me perdi do meu tempo, eu tenho a nítida sensação de que não tem mais lugar pra gente como eu, como nós, aquele fantasma da geração perdida é agora um gosto na boca, e você vai dizer que não, e eu vou responder que sempre soubemos que sim, mas é que teimamos tanto em fingir que a alegria desimportante e os encontros verdadeiros
terminar de ler édipo rei, acho que tenho um xerox da poética de aristóteles, todo linguista russo tem nome de vodka, dois textos sobre o teatro na grécia antiga, preciso ouvir as gravações pros ensaios que recomeçam na quinta e pensar no treino dos oitos atores incríveis do ricardo terceiro e a estreia é justo no dia da prova da luiza, serão dois meses desenhando pra divulgação dos festivais de piracicaba, faltou inscrever num edital que termina terça, passo doze horas por dia na frente dessa tela, o dinheiro do aluguel ainda não tá na conta, meu deus que horas que eu vou conseguir aprender a fazer a editoração pro ebook, segunda minha filha toma a primeira dose da vacina e eu faço radiografias panorâmicas, os vizinhos de cima acabaram de mudar, a geladeira nova faz tanto barulho que lembra o freezer do ó do borogodó, meu amor vai lançar um livro e ele está tão contente, eu não canto há tanto tempo que
nada me dói tanto quanto a injustiça e eu tenho medo de não
eu detesto fazer faxina e a verdade é que me acostumei embora chore ainda muitas vezes por semana
terminar de ler édipo rei, acho que tenho um xerox da poética de aristóteles, todo linguista russo tem nome de vodka, dois textos sobre o teatro na grécia antiga, preciso ouvir as gravações pros ensaios que recomeçam na quinta e pensar no treino dos oitos atores incríveis do ricardo terceiro e a estreia é justo no dia da prova da luiza, serão dois meses desenhando pra divulgação dos festivais de piracicaba, faltou inscrever num edital que termina terça, passo doze horas por dia na frente dessa tela, o dinheiro do aluguel ainda não tá na conta, meu deus que horas que eu vou conseguir aprender a fazer a editoração pro ebook, segunda minha filha toma a primeira dose da vacina e eu faço radiografias panorâmicas, os vizinhos de cima acabaram de mudar, a geladeira nova faz tanto barulho que lembra o freezer do ó do borogodó, meu amor vai lançar um livro e ele está tão contente, eu não canto há tanto tempo que
nada me dói tanto quanto a injustiça e eu tenho medo de não
eu detesto fazer faxina e a verdade é que me acostumei embora chore ainda muitas vezes por semana
domingo, 5 de janeiro de 2020
cartografia 20 (ou do ano que começa)
A minha geração (ou a bolha da minha geração) quer aceitar envelhecer, então não pinta mais o cabelo, mostra o peito caído com certo orgulho, não esconde as gorduras dos braços e as celulites das bundas, entende que a beleza é variada e diversa, multiforme, que as cicatrizes do corpo são nossa história real e isso é realmente lindo. Sofremos dores individuais de um amadurecer mais ou menos consciente protegidas por um senso coletivo de positividade.
Mas eu desconfio que ideal romântico de morrer de peles rígidas, mente afiada, corpo potente, ágil e flexível ainda permanece e ninguém quer enfrentar a decrepitude real que inevitavelmente vai acontecer porque vamos morrer com mais de noventa anos.
É difícil escrever isso: eu vou me tornar uma velha caquética. Talvez mais tarde do que a minha avó e mais tarde ainda do que a mulher pobre e fodida que mora nas bordas da merda da minha civilidade, mas inexoravelmente eu vou me encontrar com essa imagem no espelho: uma velha.
Meus filhos vão querer o meu carinho quando meu corpo estiver molenga? Como vamos trepar quando todas as nossas peles estiverem caídas, as articulações duras? Haverá prazer possível num corpo tão usado? Quem vai querer me ver dançar? Quem vai querer me ouvir? Quem vai morar dentro dos meus ossos frágeis e das minhas vísceras lentas?
Talvez a chave seja criar rituais de solidão, ainda que compartilhada. Preparar-se pras mais variadas assincronias (do corpo com a mente, do outro consigo, de si com o mundo) de modo a reabitar o corpo de dentro pra fora, preenchendo o que era carne de sensações ou da memória delas – minhas preferidas são a alegria e a surpresa. E se manter ressoando mesmo que num contraponto infinito, lento mas presente. E assim, talvez, não enrijecer o suficiente pra construir seu próprio Narayama.
E talvez nada disso faça sentido porque tem o coiso daqui, o coiso estadunidense, e a gente pode morrer a qualquer momento de bala, cansaço, falta de saúde pública ou bomba atômica e então todas essas minhas angústias comezinhas que se fodam.
Mas eu desconfio que ideal romântico de morrer de peles rígidas, mente afiada, corpo potente, ágil e flexível ainda permanece e ninguém quer enfrentar a decrepitude real que inevitavelmente vai acontecer porque vamos morrer com mais de noventa anos.
É difícil escrever isso: eu vou me tornar uma velha caquética. Talvez mais tarde do que a minha avó e mais tarde ainda do que a mulher pobre e fodida que mora nas bordas da merda da minha civilidade, mas inexoravelmente eu vou me encontrar com essa imagem no espelho: uma velha.
Meus filhos vão querer o meu carinho quando meu corpo estiver molenga? Como vamos trepar quando todas as nossas peles estiverem caídas, as articulações duras? Haverá prazer possível num corpo tão usado? Quem vai querer me ver dançar? Quem vai querer me ouvir? Quem vai morar dentro dos meus ossos frágeis e das minhas vísceras lentas?
Talvez a chave seja criar rituais de solidão, ainda que compartilhada. Preparar-se pras mais variadas assincronias (do corpo com a mente, do outro consigo, de si com o mundo) de modo a reabitar o corpo de dentro pra fora, preenchendo o que era carne de sensações ou da memória delas – minhas preferidas são a alegria e a surpresa. E se manter ressoando mesmo que num contraponto infinito, lento mas presente. E assim, talvez, não enrijecer o suficiente pra construir seu próprio Narayama.
E talvez nada disso faça sentido porque tem o coiso daqui, o coiso estadunidense, e a gente pode morrer a qualquer momento de bala, cansaço, falta de saúde pública ou bomba atômica e então todas essas minhas angústias comezinhas que se fodam.
domingo, 27 de outubro de 2019
cartografia 18
O silêncio público dança aflito dentro da minha cabeça e do meu estômago num compasso não linear e predominantemente ímpar: não se acostuma, muda toda hora e quebra meu passo. Uma desazada quaresma virtual preenchida de preocupação, presença, planilhas, procrastinação, projetos, protótipos, predestinação e propósito. A pausa ainda é maior: nenhuma nota me percorre há dois meses. Estou seca, embora chore muitas vezes ao dia nos profundos desesperos diante das tragédias que se tornaram cotidianas e aparentemente incontornáveis, como aquela topada do dedinho do pé no pé da cama que acerta sempre e toda vez o mesmo lugar.
Então nesta manhã ensolarada de domingo, raspei os cabelos. Gosto do contorno da minha cabeça, da minha pele que envelhece bem, dos olhos grandes com sobrancelhas naturalmente desenhadas que crescem mais quando exibo por inteiro a testa grande, a mesma testa que foi escondida por anos debaixo da franja.
Gosto de ser a leonina feminil que raspa os cabelos. Gosto de ser a mulher não ordinária em que me tornei. Apesar da tristeza abissal que sinto, da genética que me desespera, dos medos, inércias e autossabotagens que insistem e me obliteram o caminho, eu reconheço essa mulher que me olha nos olhos e que eu chamo de eu. Essa, que chora ao menor sinal de poesia.
Então nesta manhã ensolarada de domingo, raspei os cabelos. Gosto do contorno da minha cabeça, da minha pele que envelhece bem, dos olhos grandes com sobrancelhas naturalmente desenhadas que crescem mais quando exibo por inteiro a testa grande, a mesma testa que foi escondida por anos debaixo da franja.
Gosto de ser a leonina feminil que raspa os cabelos. Gosto de ser a mulher não ordinária em que me tornei. Apesar da tristeza abissal que sinto, da genética que me desespera, dos medos, inércias e autossabotagens que insistem e me obliteram o caminho, eu reconheço essa mulher que me olha nos olhos e que eu chamo de eu. Essa, que chora ao menor sinal de poesia.
sábado, 8 de junho de 2019
cartografia 9
Sou filha de uma geração de mulheres infelizes. Que não puderam escolher. Que quando trabalharam, sentiram a culpa de duas mil encarnações por abandonar seus filhos. Que quando não trabalharam, ficaram frustradas. Que não souberam o que ser depois que não eram mais mães indispensáveis de seus filhos. Que não souberam o que fazer com aquele homem estranho que estava dentro de casa quando os filhos partiram, maridos que, por sua vez, não esperavam quase nada delas, ou somente que cuidassem dos filhos, da casa e deles mesmos, quando envelhecessem satisfeitos depois de 35 anos de trabalho. Mulheres que não prepararam sua solidão, sua individuação. Que pararam de transar na menopausa, que nunca se masturbaram, que não beijaram na boca, e que não tiveram outro homem, outra mulher. Que viveram, e sobretudo envelheceram sem direito ao desejo. E que se tentaram se reinventar, causaram uma hecatombe interna e externa. Que não tiveram a condição psíquica de entender a grandeza de suas ações, pois que, apesar de tudo, suas filhas são mulheres outras, diferentes, até invejáveis. Essas mulheres agora, velhas, não conseguem desfrutar a alegria de terem sido o que era possível ser diante de um mundo em destruição. Perdidas entre o que deveriam ter sido, o que gostariam de ter vivido, e a vergonha do que realmente são.
Meu corpo responde a este legado.
Há duas semanas eu estou inerte, letárgica. Mergulhei numa apatia estranha, estou lenta, pesada, endurecida. É claro que tem os cadáveres dos leões cotidianos acumulados na sala, no quarto, na cozinha. Tem os tantos pratinhos espatifados no chão. E tem a derrota civil, esse país que não cansa de nos foder. Mas tem essa herança genética, esse lastro que mostra seus contornos e sombras, todos os dias.
Hoje é o meu corpo que envelhece. Eu não sou a mesma mulher que a minha mãe - graças a ela, inclusive. Mas eu também sou aquela mulher, porque sou uma mulher brasileira, meu corpo foi domesticado, há 519 anos, pra ser subalterno, frustrado e infeliz.
É por isso que não posso sucumbir.
Meu corpo responde a este legado.
Há duas semanas eu estou inerte, letárgica. Mergulhei numa apatia estranha, estou lenta, pesada, endurecida. É claro que tem os cadáveres dos leões cotidianos acumulados na sala, no quarto, na cozinha. Tem os tantos pratinhos espatifados no chão. E tem a derrota civil, esse país que não cansa de nos foder. Mas tem essa herança genética, esse lastro que mostra seus contornos e sombras, todos os dias.
Hoje é o meu corpo que envelhece. Eu não sou a mesma mulher que a minha mãe - graças a ela, inclusive. Mas eu também sou aquela mulher, porque sou uma mulher brasileira, meu corpo foi domesticado, há 519 anos, pra ser subalterno, frustrado e infeliz.
É por isso que não posso sucumbir.
terça-feira, 21 de março de 2017
cartografia 1
O colo exibe pequenas marcas verticais, inveja talvez a tez de um róseo crepe de seda pura.
Os seios melancolizam as formas de outras encarnações - pequenos, túrgidos, lactantes. Agora maiores, assimétricos, vão cansados de um outro orgulho e aos poucos perdem a batalha.
As espaldas seguem rígidas e carregadas. Aguentam. Suportam. Mentem.
A dobra das axilas, ou mais precisamente o encontro do torso com a cavidade por baixo da articulação do ombro, forma desde sempre uma prega levemente curva, reconhecível. Ali restam escondidos os desejos, dos quais a menor lembrança viça os mamilos, estes ainda espertos e responsivos. Dois olhos da alma.
A distância entre o esterno e as cristas aparece preenchida de acúmulos, ondas, maciezas. Sucedem-se em teimosia. Alteram, vagarosa e subitamente, números e molde. Autoconfiantes, ficam. Desconformam, desconfortam, ainda que a cintura insista em desenhar sua linha umectante, sinuosa e potente.
Pelos nascem e povoam rápido a partir da cicatriz.
***
Eu não tenho medo da morte. Eu acho digno envelhecer.
Quando fecho os olhos, no entanto, a memória da minha carne agarrada nos meus ossos, coberta por minha pele, manipulada por meus tendões e nervos, encharcada do meu sangue fino e vermelho, tem outra formatura. A imagem da mulher que eu fui parece tão distante desta que eu sou. Como se de tão leve os pés daquela mulher não tocassem o chão. Como se pertencesse a um filme italiano. Como se eu algum dia soubesse dançar.
Eu sinto saudade. Minha alma está deslocada, inquilina. Preciso reabitar o meu corpo.
Os seios melancolizam as formas de outras encarnações - pequenos, túrgidos, lactantes. Agora maiores, assimétricos, vão cansados de um outro orgulho e aos poucos perdem a batalha.
As espaldas seguem rígidas e carregadas. Aguentam. Suportam. Mentem.
A dobra das axilas, ou mais precisamente o encontro do torso com a cavidade por baixo da articulação do ombro, forma desde sempre uma prega levemente curva, reconhecível. Ali restam escondidos os desejos, dos quais a menor lembrança viça os mamilos, estes ainda espertos e responsivos. Dois olhos da alma.
A distância entre o esterno e as cristas aparece preenchida de acúmulos, ondas, maciezas. Sucedem-se em teimosia. Alteram, vagarosa e subitamente, números e molde. Autoconfiantes, ficam. Desconformam, desconfortam, ainda que a cintura insista em desenhar sua linha umectante, sinuosa e potente.
Pelos nascem e povoam rápido a partir da cicatriz.
***
Eu não tenho medo da morte. Eu acho digno envelhecer.
Quando fecho os olhos, no entanto, a memória da minha carne agarrada nos meus ossos, coberta por minha pele, manipulada por meus tendões e nervos, encharcada do meu sangue fino e vermelho, tem outra formatura. A imagem da mulher que eu fui parece tão distante desta que eu sou. Como se de tão leve os pés daquela mulher não tocassem o chão. Como se pertencesse a um filme italiano. Como se eu algum dia soubesse dançar.
Eu sinto saudade. Minha alma está deslocada, inquilina. Preciso reabitar o meu corpo.
terça-feira, 17 de maio de 2016
carta poente
quando o sol se põe diante do meu horizonte o mundo pára de girar por um instante.
tanto a dizer nesses dias cheios de presságios lindos e apocalípticos - o disco alimentado de afeto, a catástrofe de um país despedaçado, o disco parido em dor e beleza, a violência institucionalizada, o espetáculo do disco que se predestina formoso, o país e todas as suas pessoas vivas e mortas sendo afogados na merda e na barbárie.
tanto a pensar, tanto.
não sei onde arrumaremos as forças.
tanto a fazer, meu deus, tanto.
mas nessa hora em que o céu laranja invade as paredes da minha casa e o sol se põe deslumbrante diante dos meus olhos imensos e ofuscados, eu não sou nada além da versão cega, aguada, doente, fácil, egoísta, medrosa, baixa, vagabunda e triste de mim mesma, e tudo dentro do meu corpo se transforma nesta saudade colossal.
tanto a dizer nesses dias cheios de presságios lindos e apocalípticos - o disco alimentado de afeto, a catástrofe de um país despedaçado, o disco parido em dor e beleza, a violência institucionalizada, o espetáculo do disco que se predestina formoso, o país e todas as suas pessoas vivas e mortas sendo afogados na merda e na barbárie.
tanto a pensar, tanto.
não sei onde arrumaremos as forças.
tanto a fazer, meu deus, tanto.
mas nessa hora em que o céu laranja invade as paredes da minha casa e o sol se põe deslumbrante diante dos meus olhos imensos e ofuscados, eu não sou nada além da versão cega, aguada, doente, fácil, egoísta, medrosa, baixa, vagabunda e triste de mim mesma, e tudo dentro do meu corpo se transforma nesta saudade colossal.
sexta-feira, 24 de outubro de 2014
bailado
eu trocava tudo, tudo mesmo, por poder dançar.
mas nasci sem as certas disponibilidades nas juntas e músculos.
então, por consolação, deus me deu mãos bailarinas.
valha-me, que tudo nessa vida tem sua justiça.
deve ser porque meu nome foi herança torta da minha vó Julia, que fazia crochê do tamanho do infinito, e criou seus 14 filhos em silêncio.
minha vó achava seu nome triste.
lembro dos olhos líquidos da tia Lucy por trás das grades da clausura, transparentes de tão azuis.
minhas mãos e meus olhos carregam o mundo do mesmo jeito que as minhas tias carmelitas em suas orações cegas, incessantes e infantis.
com a diferença de que elas não o conhecem.
elas têm sorte.
mas nasci sem as certas disponibilidades nas juntas e músculos.
então, por consolação, deus me deu mãos bailarinas.
valha-me, que tudo nessa vida tem sua justiça.
deve ser porque meu nome foi herança torta da minha vó Julia, que fazia crochê do tamanho do infinito, e criou seus 14 filhos em silêncio.
minha vó achava seu nome triste.
lembro dos olhos líquidos da tia Lucy por trás das grades da clausura, transparentes de tão azuis.
minhas mãos e meus olhos carregam o mundo do mesmo jeito que as minhas tias carmelitas em suas orações cegas, incessantes e infantis.
com a diferença de que elas não o conhecem.
elas têm sorte.
quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014
vesperal
Na tarde ensolarada de um dia bom, a moça de saia justa sai do fórum e enquanto aguarda o verde troca os saltos por sandalinhas ordinárias, rasteiras, em brilhos.
Atravessa a rua.
Vejo seus pés marcados respirando. Ela rebola devagar, feminil.
Acho isso de trocar os sapatos na rua tão bonito.
Não fosse a miséria toda, eu tinha certeza da poesia que resiste na cidade feia do meu país incivilizado.
Atravessa a rua.
Vejo seus pés marcados respirando. Ela rebola devagar, feminil.
Acho isso de trocar os sapatos na rua tão bonito.
Não fosse a miséria toda, eu tinha certeza da poesia que resiste na cidade feia do meu país incivilizado.
sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014
valentice
each day is valentine's day
menos este, em que uma nuvem cinza, invariavelmente, pousa sobre minha casa e minha coragem acha graça em se esconder na mastigada das mandíbulas das palavras que não entendo.
então, sofro.
menos este, em que uma nuvem cinza, invariavelmente, pousa sobre minha casa e minha coragem acha graça em se esconder na mastigada das mandíbulas das palavras que não entendo.
então, sofro.
quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014
estio
secos os pés.
seca a garganta, que dói.
um liso do sussuarão no meio do meu peito, da ordem do intransponível.
seco e quente.
imenso.
nasci no inverno, um decimalzinho augusto, mínima, ridícula.
só minhas mãos orientais talvez me salvem.
seca a garganta, que dói.
um liso do sussuarão no meio do meu peito, da ordem do intransponível.
seco e quente.
imenso.
nasci no inverno, um decimalzinho augusto, mínima, ridícula.
só minhas mãos orientais talvez me salvem.
terça-feira, 13 de dezembro de 2011
desejo
Datação
sXIII cf. IVPM
Acepções
■ substantivo masculino
ato ou efeito de desejar; aspiração humana diante de algo que corresponda ao esperado
1 aspiração humana de preencher um sentimento de falta ou incompletude; querer, vontade
1.1 Rubrica: psicanálise.
segundo Sigmund Freud, moção psíquica que procura restabelecer a situação da primeira satisfação
2 expectativa consciente ou inconsciente de possuir (um objeto) ou alcançar (determinada situação que supra uma aspiração do corpo ou do espírito); ambição, exigência
2.1 ambição incontrolada ou excessiva; cobiça, sede
3 instinto físico que impulsiona o ser humano ao prazer sexual; atração física; lubricidade, excitação
4 Uso: informal.
ânsia de satisfazer certos apetites durante a gravidez; apetência
5 Regionalismo: Portugal.
pesar devido à ausência de (alguém ou algo); saudade
6 alvo, objeto do desejo; anelo, pretensão, propósito
Etimologia
lat. *desèdium, prov. der. do lat.cl. desidìa,ae 'estar sentado' (< lat. desidére 'permanecer sentado'), mas com evolução semântica para 'ócio', donde desidìa com acp. de 'inércia, indolência, repouso, prazer', o que teria mantido nessa pal. o signf. de desiderìum,ìi 'desejo', que não teria passado para todas as línguas românicas; ver desej-; f.hist. sXIII desejo, sXIII desege, sXIV desego, sXIV dessego, sXV deseijo, sXV dezejo
Sinônimos
ver sinonímia de capricho, impulso, lubricidade, talante e tentação e antonímia de desprendimento
sXIII cf. IVPM
Acepções
■ substantivo masculino
ato ou efeito de desejar; aspiração humana diante de algo que corresponda ao esperado
1 aspiração humana de preencher um sentimento de falta ou incompletude; querer, vontade
1.1 Rubrica: psicanálise.
segundo Sigmund Freud, moção psíquica que procura restabelecer a situação da primeira satisfação
2 expectativa consciente ou inconsciente de possuir (um objeto) ou alcançar (determinada situação que supra uma aspiração do corpo ou do espírito); ambição, exigência
2.1 ambição incontrolada ou excessiva; cobiça, sede
3 instinto físico que impulsiona o ser humano ao prazer sexual; atração física; lubricidade, excitação
4 Uso: informal.
ânsia de satisfazer certos apetites durante a gravidez; apetência
5 Regionalismo: Portugal.
pesar devido à ausência de (alguém ou algo); saudade
6 alvo, objeto do desejo; anelo, pretensão, propósito
Etimologia
lat. *desèdium, prov. der. do lat.cl. desidìa,ae 'estar sentado' (< lat. desidére 'permanecer sentado'), mas com evolução semântica para 'ócio', donde desidìa com acp. de 'inércia, indolência, repouso, prazer', o que teria mantido nessa pal. o signf. de desiderìum,ìi 'desejo', que não teria passado para todas as línguas românicas; ver desej-; f.hist. sXIII desejo, sXIII desege, sXIV desego, sXIV dessego, sXV deseijo, sXV dezejo
Sinônimos
ver sinonímia de capricho, impulso, lubricidade, talante e tentação e antonímia de desprendimento
O Houaiss sabe de mim. Os lusitanos também.
Minha inesquecível professora de latim, Dona Maria da Graça, não entrava em greve por vergonha de discutir seu salário. Era nascida na cidade do Porto e ainda criança veio escondida num navio pro Rio de Janeiro, onde cresceu e formou-se, e saberá Deus porque infortúnio celeste acabou lecionando Latim I e II na USP. Era vaidosa, muito velha, cheirava a água de rosas, e falava um português lindíssimo. Aplicava provas orais numa classe de 200 alunos. Dona Maria da Graça sabia explicar de onde vinham todos meus sentimentos.
sexta-feira, 29 de abril de 2011
carta celular
e entre as posturas mais urgentes, o coração aos poucos reencontra o lugar no corpo, que é mais meu desde que tuas patas pousam na minha cintura.
e entre as mesmas posturas, os sonhos têm vindo ao meu auxílio. pois aprendi com você a tê-los de cor, a decorá-los como canção.
sonhos de dor e revelação.
assim, alumbrada, limpa e clara, ainda que lentamente, posso voltar a olhar teus azuis sem pejo.
porque te amo, sempre amei e sempre amarei passarinha, passarada, e me encaixo, justa e confortável, nas tuas mãos.
e entre as mesmas posturas, os sonhos têm vindo ao meu auxílio. pois aprendi com você a tê-los de cor, a decorá-los como canção.
sonhos de dor e revelação.
assim, alumbrada, limpa e clara, ainda que lentamente, posso voltar a olhar teus azuis sem pejo.
porque te amo, sempre amei e sempre amarei passarinha, passarada, e me encaixo, justa e confortável, nas tuas mãos.
quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011
ridículas revisited
quando estás assim, longe, sinto vontade de voltar, escrevo e apago repetidas vezes um texto estranho e manco que não serve. ainda sinto, acho, o impacto de ter revisitado as cartas daqui, remexido em feridas antigas, reencontrado tempos de palavras bonitas urdidas em muita água e muita dor. estou atrapalhada. vejo o vídeo do menino que dança a morte do cisne. choro muito. sinto saudade daquilo que não serei mais.
terça-feira, 15 de fevereiro de 2011
sorte
então ela, minha ensolarada dos dias que sempre sabe de tudo, traz a notícia alvissareira, em seu primeiro registro, números dobrados, todos os nossos: 55 22 77 55-1.
na tarde de chuva caminho pelas ruas sujas da cidade abraçadíssima com ela, pensando que queria ser matemática pra poder calcular a probabilidade de tamanha fortuna, e reencontro a certeza de que sou uma mulher feliz.
na tarde de chuva caminho pelas ruas sujas da cidade abraçadíssima com ela, pensando que queria ser matemática pra poder calcular a probabilidade de tamanha fortuna, e reencontro a certeza de que sou uma mulher feliz.
terça-feira, 11 de janeiro de 2011
aritmética, 2011
verbos, em ar:
amar, trepar, cantar, andar, cozinhar, trabalhar, engendrar, lavrar, ordenar, encerrar, bordar (nos panos e sonhos, rosas e ensolaradas)
a mancheias, nomes:
alegria, beleza, vinho, encontro, dinheiro, saúde, delicadeza
com cautela, advérbios:
mais, bem, sempre, tanto
coisinhas numeráveis:
4 bicicletas, -1 carro, 4 vasos de ervas, 6 vidros de mantimentos, uns quadros e 2 colméias nas paredes, 1 máquina de fazer de pão, +1 disco, 271 espetáculos.
= 72 palavras.
amar, trepar, cantar, andar, cozinhar, trabalhar, engendrar, lavrar, ordenar, encerrar, bordar (nos panos e sonhos, rosas e ensolaradas)
a mancheias, nomes:
alegria, beleza, vinho, encontro, dinheiro, saúde, delicadeza
com cautela, advérbios:
mais, bem, sempre, tanto
coisinhas numeráveis:
4 bicicletas, -1 carro, 4 vasos de ervas, 6 vidros de mantimentos, uns quadros e 2 colméias nas paredes, 1 máquina de fazer de pão, +1 disco, 271 espetáculos.
= 72 palavras.
sábado, 3 de janeiro de 2009
ano novo
na chegada, cotonetes pelo chão, um cheiro de velhice e sujeira, a bagunça esquecida sobre a mesa, estranheza na caixa postal, uma tristeza aqui dentro comigo.
vou comprar um fogão novo, prometo, porque queria bater um bolo pra fingir que inundava esse lugar de alguma alegria.
não gosto de voltar de viagem.
não gosto da minha casa.
mas esse ano será melhor, ele disse e eu acredito: estamos mais perto de 2010.
vou comprar um fogão novo, prometo, porque queria bater um bolo pra fingir que inundava esse lugar de alguma alegria.
não gosto de voltar de viagem.
não gosto da minha casa.
mas esse ano será melhor, ele disse e eu acredito: estamos mais perto de 2010.
segunda-feira, 8 de setembro de 2008
revisão
a noite foi acesa como meu estômago em chamas, as horas dormidas de confusão mal sonhada, e acordei como se saída da boca de um dragão; na manhã madrugada, um sono sem solução nem repouso, um quase trabalho; o almoço trivial de alegria e cansaço maternos, bis e cochilo de sobremesa, lembrei-me da minha mãe, acho que envelheço; no fim da tarde estranha desse dia estranhíssimo, boto os filhos e meu corpo desencontrado no eldorado pra encomendar os óculos, e enquanto espero bato pernas por ali fingindo ser uma daquelas, calcinha sapatilha meia tic-tac pedraria telefone vestido sanduíche, pago tudo com o dinheiro que não tenho, e de posse do novo adorno, subitamente, pretendo transformar-me, borboleta: compro o bilhete da loteria e a certeza poder agora sim enxergar o caminho.
terça-feira, 15 de abril de 2008
estado
está tudo errado.
o certo é que tudo é muito pouco, e o pouco não é suficiente.
errado o tempo, errado o verso, errado o vão entre o certo e o outro.
uma vida de verdade não pode ter mais ou menos, viver requer coragem.
ridícula, imbecil, covarde, será possível que o repetir desse verso nunca te fará ação?
e aquele filho da puta quer mais de mim quando o que lhe dou me tira a valia mais preciosa, e que faz a falta no reverso, naquilo que deveras deveria ser o devir desejado.
havia de haver uma formosura qualquer, mas me salta dos olhos meu cansaço de encarnações
e o vento escapando entre os dedos, pára, por favor não vai revirando assim as poeirinhas que já estavam ali de longe, na distância real do que não precisa mais de ser, não é mais meu, não preciso mais, já foi e pronto, sai de mim, sai que não mais te pertence o que é meu por merecimento, eu assim, mininteira, como sei de ser, minha fôrma, minha forja, meu afeto.
está tudo errado, mas minha sombra, aprendo, é aquilo que é meu sem a minha carne mas com o meu contorno: não há que reclamar, está tudo iluminado.
viver, isso sim, é muito perigoso.
não vou chorar.
vou dar um salto mortal.
por que, meu deus, por que não me fizeste bailarina?
o certo é que tudo é muito pouco, e o pouco não é suficiente.
errado o tempo, errado o verso, errado o vão entre o certo e o outro.
uma vida de verdade não pode ter mais ou menos, viver requer coragem.
ridícula, imbecil, covarde, será possível que o repetir desse verso nunca te fará ação?
e aquele filho da puta quer mais de mim quando o que lhe dou me tira a valia mais preciosa, e que faz a falta no reverso, naquilo que deveras deveria ser o devir desejado.
havia de haver uma formosura qualquer, mas me salta dos olhos meu cansaço de encarnações
e o vento escapando entre os dedos, pára, por favor não vai revirando assim as poeirinhas que já estavam ali de longe, na distância real do que não precisa mais de ser, não é mais meu, não preciso mais, já foi e pronto, sai de mim, sai que não mais te pertence o que é meu por merecimento, eu assim, mininteira, como sei de ser, minha fôrma, minha forja, meu afeto.
está tudo errado, mas minha sombra, aprendo, é aquilo que é meu sem a minha carne mas com o meu contorno: não há que reclamar, está tudo iluminado.
viver, isso sim, é muito perigoso.
não vou chorar.
vou dar um salto mortal.
por que, meu deus, por que não me fizeste bailarina?
quinta-feira, 29 de novembro de 2007
cartesiana
são duas casas, a do centro e a do bairro.
são duas noites, as solitárias e as infinitamente.
são duas manhãs, as cinzentas e as macias.
são duas mulheres, a contigo e a tristonha.
são dois filhos, um floresta e uma ensolarada.
são duas escolhas, viver ou não.
na misturada do mundo, no nó da tempestade, na espera dolorida, no diminutivo do peito, na limpeza da pele, no augúrio reservado, aprendo em velocidade variada a ser sempre a mesma por ser muitas.
são duas noites, as solitárias e as infinitamente.
são duas manhãs, as cinzentas e as macias.
são duas mulheres, a contigo e a tristonha.
são dois filhos, um floresta e uma ensolarada.
são duas escolhas, viver ou não.
na misturada do mundo, no nó da tempestade, na espera dolorida, no diminutivo do peito, na limpeza da pele, no augúrio reservado, aprendo em velocidade variada a ser sempre a mesma por ser muitas.
Assinar:
Comentários (Atom)