sábado, 27 de janeiro de 2018

carta para meus filhos

Há algum tempo, vocês sabem, não comemoro datas tradicionais, aniversários, dia das mães, natal. Acho mais bonita a celebração dos pequenos milagres cotidianos, o cheiro do café coado de manhã cedo, a comida fresca na mesa, um vinho ocasional, a alegria incomparável das pequenas e profundas conquistas. Talvez porque saiba, definitivamente, que minha sina (dor e prazer) é cuidar de gente, com minha voz e com minhas mãos, e isso não é coisa que valha algum dinheiro nesse mundo todo torto, e no final das contas, nem me importa mais, a gente vai equilibrando os pratinhos. Talvez também porque envelheça rápido e entenda, cada vez mais profundamente, aquilo que aprendi nas aulas de filosofia, e que está no evangelho de São João: os atos de amor são a única coisa que realmente fica - e entendo por ato de amor as diversas e imprescindíveis formas de gentileza, compaixão, justiça, alimento e beleza, e ainda todas as maneiras com que duas ou mais pessoas resolvam se relacionar verdadeiramente com seus corpos e seus espíritos.
Enfim, tudo isso pra dizer que não escrevi pra vocês no ano novo ou aniversário, mas agora, numa tarde quente de janeiro, em que percebo que temos coisas a comemorar, miúda e emocionadamente, pois que nas últimas semanas vivemos pequenos milagres e singelas conquistas, resultados de nossa valentia, teimosia, inteligência, da generosidade dos que nos cercam, e de uma pequena dose de sorte (que tantas vezes nos falta).
Pois vejam.
O Uruguay é um imenso azul celeste de horizonte infinito e além, com um vento incessante, e a gente se sente grande e pequeno ao mesmo tempo. Quando vocês vierem (e tenho certeza que virão), vão ver uma gente comprometida, sabida, que usa suas coisas à exaustão (me lembrei a todo tempo de um dos meus poemas preferidos do Brecht, "De todas as obras", e a sublime beleza das coisas que foram tocadas por muitas mãos...), que ri largo, que já sofreu muito, não tem quase nada, e se orgulha do lugar que está construindo; que te beija as bochechas e aperta a mão de verdade; que põe plantinhas pra crescer em todos os cantos; que tem muitos livros, muitos!; que fica na rua até tarde aproveitando o pôr do sol. Enfim, uma gente e um lugar pra viver.
E aqui, miúda, quente e cheia de ventos, eu lembrei de uma coisa esquecida.
Estar num lugar em que ninguém te conhece é das sensações mais magníficas que existem, a inebriante iminência de se ser tudo o que você queria ser sem medo. Conhecer gente muito diferente da gente, no variado comezinho, e ainda assim, reconhecer-se semelhante e partícipe, é sublime. Uma combinação linda de solidão, alegria, surpresa e completude. Incerteza e poesia.
E olha que coisa: vocês estão, por outras circunstâncias, diante dessas mesmas possibilidades, e eu me emociono (e é exatamente isso que queria lhes dizer) com a importância desse momento: você, João, e você, Luiza, e a imensa potência do que estão construindo em e para suas vidas, sozinhos, mas de mãos dadas a uma grande força amorosa erguida desde muito tempo por aqueles que estão juntos de vocês e sempre estiveram. Neste ponto do caminho, de incerteza e poesia, vocês podem se inventar e se reinventar. Vocês podem ser o que quiserem ser, não ser nada e ser tudo. Vocês podem conhecer gente diferente e igual. Mesmo que a realidade feia e imperativa mostre suas unhas e seus limites, mesmo que estejamos condenados a uma engrenagem perversa e injusta (e mudar isso nos custe talvez a vida), vocês podem ser, onde for, do jeito que for, com quem for; com frio na barriga e tremor nas mãos, vocês podem, intransitivamente - a tal combinação linda de solidão, alegria, surpresa e completude.
Isso fez um tcharam aqui, e preenche agora meu peito vermelho de um sentimento único e indizível. Choro. Porque eu sei (ao tempo que também não sei) o tamanho das suas asas, a profundidade dos seus olhos, da água e do sangue que corre na carne de que são feitos. E dou graças.
A isso, a esse horizonte igualmente celeste e infinito, cheio de vento, sol e sorrisos largos, à solidão e à alegria, eu ergo meu copo, e brindo a vocês dois, João dos olhos de floresta, Luiza ensolarada dos dias, meus amores de ouro, e agradeço a sorte, honra e grandeza que é ser sua mãe.
Montevidéu, 17 de janeiro de 2018.

sexta-feira, 9 de junho de 2017

carta para lívia

Sabe, eu demoro muito pra ouvir os discos que ganho. Porque eu preciso ouvir sentada, só ouvir e mais nada, não sei fazer outra coisa quando estou ouvindo música, acaba que vira um tormento, as pilhas que vão se acumulando na estante, e eu olhando pra elas morrendo de culpa de não saber o que tem dentro das infinitas caixinhas e portanto correndo o risco de não ser acometida por um encontro verdadeiro, um susto inesperado de beleza, que está ali, escondido, bem na minha frente, enfim.
Mas hoje eu parei, sentei e escutei.
E que assombro que foi.
De partida, eu já ia gostar do disco porque vocês gravaram a música mais linda que há (Clube da esquina, a mesma que me fez chorar ridícula no Tupi). Depois, sua afinação é tão linda, tão linda, que dá um gosto – todas as notas, e tantas notas, e cada uma delas em seu mais perfeito lugar –, um sopro fresco e claro de alívio, vou dizer.
Mas o disco é mais que a primeira canção e é mais que sua voz impressionante (im-pres-si-o-nan-te). Ele vai abrindo nosso peito pras canções que já conhecemos, e isso é tão bonito (que eu acho um saco essa obrigação modernosa do "tem que ser só música inédita, tem que ser compositora também", como se o difícil e imenso ofício da intérprete fosse menor, e como se não houvesse tanta canção absolutamente imprescindível de se cantar e cantar e cantar de novo e de novo).
E tem esse seu moço bonito que é tão elegante e que vai junto de mãos dadas ao lado seu, que é outra coisa linda de se ver e ouvir. De novo, cada nota em seu lugar, sem mesquinharia e sem desperdício.
A música que vocês fazem (juntando aqui o disco e o show) é uma surpresa, é generosa e é livre. E se tem uma coisa que a gente precisa não perder (inda mais nesse mundo tão esquisito) é a capacidade de surpreender e ser surpreendido, e de ser veículo da música, estar na prontidão e a serviço, e deixar ela fazer o que ela quiser da gente.
Eu ouço às vezes um quase-infantil (não sei como dizer doutro modo...) no seu jeito de dizer algumas palavras, como se não desse conta do tamanho delas, como se houvesse uma distância entre a boca e a carne... será? Aparece às vezes numa nota longa, às vezes num grave, ou numa vontade de mais volume, num gesto, nos olhos fechados ou lá-longe. Eu poderia falar ainda (já pedindo desculpas pelo falatório) que eu queria ouvir no disco as guitarras mais adiante na mix, mas abraçadas à sua voz, mais perto.
Mas esqueça isso, que não tem qualquer importância.
O que fica e interessa é a formosura docês, no disco e no show. Uma coisa importantemente bonita.
Muito obrigada pelo assombro e pelo encontro. Por encharcarem meus olhos no meio da tarde. Uma sorte límpida. Que a gente não se perca mais.

terça-feira, 21 de março de 2017

cartografia 1

O colo exibe pequenas marcas verticais, inveja talvez a tez de um róseo crepe de seda pura.

Os seios melancolizam as formas de outras encarnações - pequenos, túrgidos, lactantes. Agora maiores, assimétricos, vão cansados de um outro orgulho e aos poucos perdem a batalha.

As espaldas seguem rígidas e carregadas. Aguentam. Suportam. Mentem.

A dobra das axilas, ou mais precisamente o encontro do torso com a cavidade por baixo da articulação do ombro, forma desde sempre uma prega levemente curva, reconhecível. Ali restam escondidos os desejos, dos quais a menor lembrança viça os mamilos, estes ainda espertos e responsivos. Dois olhos da alma.

A distância entre o esterno e as cristas aparece preenchida de acúmulos, ondas, maciezas. Sucedem-se em teimosia. Alteram, vagarosa e subitamente, números e molde. Autoconfiantes, ficam. Desconformam, desconfortam, ainda que a cintura insista em desenhar sua linha umectante, sinuosa e potente.

Pelos nascem e povoam rápido a partir da cicatriz.

***

Eu não tenho medo da morte. Eu acho digno envelhecer.

Quando fecho os olhos, no entanto, a memória da minha carne agarrada nos meus ossos, coberta por minha pele, manipulada por meus tendões e nervos, encharcada do meu sangue fino e vermelho, tem outra formatura. A imagem da mulher que eu fui parece tão distante desta que eu sou. Como se de tão leve os pés daquela mulher não tocassem o chão. Como se pertencesse a um filme italiano. Como se eu algum dia soubesse dançar.

Eu sinto saudade. Minha alma está deslocada, inquilina. Preciso reabitar o meu corpo.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

carta acorde

minha única resolução no novo ano foi deixar meus cabelos crescerem.

a coragem das células que obedecem seu desígneo.
a teimosia das células que insistem na multiplicação.
o afeto das células que entrelaçam sua dança em espiral.

meus cabelos crescem em silêncio.
vagarosamente.

quinta-feira, 11 de agosto de 2016

carta avoenga

Quando eu nasci, minha mãe queria me dar o nome de Júlia, em homenagem à minha avó paterna. Minha vó não deixou: achava seu nome triste. Então minha mãe, espertinha, alegrou o nome e a avó, virei Juliana.

Minha vó Júlia era de fé. Noviça tirada do convento pra casar contra sua vontade, teve 14 filhos em silêncio, entre eles um padre, duas freiras missionárias, outras duas freiras de clausura carmelitas descalças. Carregava o mundo todo em suas orações e tinha um candeeiro na igreja de Itajubá cujo óleo ela renovava semanalmente, pra que nunca apagasse a fé da sua família. Em louvor a Nossa Senhora, crochetou com linha fina toalhas de banquete para as mulheres suas filhas e noras, milhares e milhares de pontos, infinitos, e a cada um, uma Ave Maria. Quando morreu, minha vó Júlia foi enterrada vestida como religiosa, após permissão enviada diretamente pelo Papa.

Meu avô materno era Luiz, e deu seu nome pra minha irmã e minha filha. Meu vô fazia bolo enfeitado pros filhos quando caíam-lhe os dentes de leite e construía com madeira e lata os brinquedos de presente para o Natal. Quando criança, sua mãe queria dissuadi-lo de jogar futebol, e só deixava o garoto sair pra rua depois de passar algumas horas bordando, coisa de menina. Meu vô aprendeu a fazer barrado de pano de prato, monograma e caminho de mesa, e toda tarde estava na rua jogando bola com os pretos. Dele não herdei os olhos azuis, mas o nome que me define.

Essa madrugada, eu não consegui dormir. Olhei mais uma vez pro presente que ganhei do meu Guimarães, o anel de prata com a libélula das águas doces enfeitada de madre-pérolas do mar profundo e que bate asas! A vida é sopro. Lembrei no meu nome e da minha vó que não conheci e do meu vô que pouco conheci. Acendi uma vela, lavei nossa quartinha d'Oxum, enchi o copo do nosso São Jorge, cantei em silêncio a oração mais linda que meu pai me ensinou.

Minha vó e suas mãos estão em mim.
Meu vô e suas mãos estão em mim.

E eu sou essa bagunça, nós e pontos infinitos bordados de fé, água, tristeza, sopro, paciência e teimosia. Amar está no meu nome. Teço com dor e alegria o pano limpo do meu destino e tenho orgulho dos meus avessos. E canto pra não morrer.

terça-feira, 17 de maio de 2016

carta poente

quando o sol se põe diante do meu horizonte o mundo pára de girar por um instante.
tanto a dizer nesses dias cheios de presságios lindos e apocalípticos - o disco alimentado de afeto, a catástrofe de um país despedaçado, o disco parido em dor e beleza, a violência institucionalizada, o espetáculo do disco que se predestina formoso, o país e todas as suas pessoas vivas e mortas sendo afogados na merda e na barbárie.
tanto a pensar, tanto.
não sei onde arrumaremos as forças.
tanto a fazer, meu deus, tanto.
mas nessa hora em que o céu laranja invade as paredes da minha casa e o sol se põe deslumbrante diante dos meus olhos imensos e ofuscados, eu não sou nada além da versão cega, aguada, doente, fácil, egoísta, medrosa, baixa, vagabunda e triste de mim mesma, e tudo dentro do meu corpo se transforma nesta saudade colossal.

terça-feira, 1 de setembro de 2015

as pedras no caminho [ou amor mineral

lapidar - adjetivo de dois gêneros (1727)

1 relativo a lápides ou pedras

2 gravado em pedra (diz-se de inscrição)

3 (fig) que é conciso como as inscrições gravadas na pedra (falando-se de declaração, forma, fórmula, frase, estilo, verso etc.); nítido, claro, preciso

4 (fig) de qualidade superior; primoroso, perfeito

5 (gráf) diz-se de variedade de caracteres tipográficos que se distinguem pelas hastes quase uniformes, sem cerifas, e se inspiram no talho disciplinado de inscrições feitas a cinzel no mármore ou em outras pedras


lapidar - verbo (1789)

1 (t.d.) atacar ou matar com pedras; infligir o suplício da lapidação a; apedrejar

2 (t.d.) fig. submeter ao processo de lapidação (uma pedra preciosa bruta)

3 (t.d.) fig. tornar apresentável (o que é tosco e grosseiro); aperfeiçoar, aprimorar, burilar; educar


[meus olhos cheios de areia, minha garganta de rubis magmáticos, minhas mãos esmeraldinas, nosso amor diamante, e o futuro cristalino ao teu lado. 
ao teu lado, os números que são os nossos: 1, 2 e 7.
ao teu lado, que são dois: dentro e fora.
teus olhos turmalina em todos os tons de azul do mar que está em teu nome. 
o amar do meu é todo teu, monolito, esférico, inteiriço, infinito e além.

sexta-feira, 28 de agosto de 2015

do destempo

minha saudade é futuro do pretérito
futuro imperfeito

esperava tua figura na platéia
procurava até o último acorde
meu coração amarrado nos saltos vermelhos da trapezista

estaríamos na tua audiência
encharcaríamos tuas notas uma a uma
preencheríamos o horizonte de belezas

predestinaríamos

constituiríamos, enfim, em doce escândalo
a nova ordem das coisas
casa, mar de todos os santos
ouro mato vento
santíssima trindade

– teu nome dentro do meu
mar e amar dentro dos nossos
cond(enaç)ão –

a ausência do que viveríamos é mais presente que tua memória
que ainda exala
teimosa
seus odores

todos os dias

terça-feira, 25 de agosto de 2015

carta turva

os dias, inexoravelmente, passam.
desnorteados.
chega de repente uma lembrança, um vento bom. vai embora. não sei nem da saudade.
vez por outra a macaca pergunta rápido e meu coração dói doído; mas ela, como sempre, sabe de tudo. ela também está em silêncio.
não sei onde enfiar a poesia, os desejos partilhados, a risada solta, o calor do corpo.
meus olhos cansados teimam em não dormir direito atrapalhados pelos sonhos confusos que desde então me visitam toda noite - sonho muito e nada se aproveita. nosso dia seguinte nunca esteve tão incerto, o presente de oito anos acumulando faturas, os cadáveres de leões moribundos pela sala, os seus olhos de azul profundo miúdos se acinzentando, os corações mudos procurando remontar-se dos caquinhos, a cicatriz que ainda não fecha.
as contas, todas elas, não fecham.
é que não basta a saudade. não bastou o amor desigual. não bastou o esforço díspar. nosso futuro era maior e mais bonito que isso, e eu não me perdôo por não ter entendido a tempo de suspender o tempo e não deixar o sofrimento entrar na minha casa e na minha cama. minha cama que ainda padece.
envelheço rápido. estou tão triste. meu corpo está cansado, murcho, adoeço.
ainda vou esquecer as palavras que não queria ter lido e ficar só com a memória, ainda que pouca, do que foi bom.
por enquanto, só arde.
mas os dias, inexoravelmente, os dias passam.

domingo, 23 de agosto de 2015

carta diáfana

No dia 13 de dezembro de 2006 eu fui internada com uma infecção renal que evoluiu para uma septicemia. Eu tinha 33 anos, e além dos meus dois filhos lindos, minha vida valia uma separação e meio casamento em andamento, um disco inacabado, 50 e poucos quilos, um emprego de merda na repartição, cigarros, insônia, um gato maltratado. Minhas tardes de amor acabavam de virar brevidade, meus domingos eram tão tristes. Mamãe veio cuidar de mim. Papai telefonou pra tia Lucy, que enviou consecutivo um envelope anunciando em caligrafia antiga "Valdo e Hebe Pétalas Bentas de Santa Terezinha para Juliana". Dentro dele, duas dúzias de pétalas róseas de rosas secas, ainda perfumadas, fazedoras de milagres.

Tia Lucy era freira carmelita descalça, viveu sessenta e cinco anos em clausura, cada um e todos eles dedicados a rezar. Ainda menina fui visitá-la com meu pai e seus olhos eram maiores que os meus, do azul mais claro e mais transparente que jamais vi ou verei. Sessenta e cinco anos de joelhos e mãos entrelaçadas, carregando os pecados do mundo nas suas costas.

Depois de dez dias dormindo com o envelope sob o travesseiro, eu saí viva do hospital. Era antevéspera de Natal, fazia tanto calor, não comprei presentes pros meus filhos, não telefonei pra Tia Lucy. As pétalas de rosa foram parar na capa do disco, que a ela dediquei. O meio-casamento acabou. O emprego também, e a insônia, os cigarros, o gato. Meus domingos não são mais tristes e as tardes de brevidade se converteram em horizonte, casa e barco, rosal formoso, e além.

Pétalas de Santa Terezinha fazedoras de milagres.

Minha tia Lucy morreu esta manhã. Eu sinto tristeza e desamparo. Minha tia Lucy morreu neste domingo de sol e eu sinto algum desespero, apesar de saber que ela vai seguir olhando por mim, por meus filhos que ela não conheceu, por meus olhos grandes como os seus, por nossa casa e barco, nosso rosal formoso, e além.

Meu pai disse que hoje tem festa no céu porque a tia Lucy chegou lá. Eu, aqui, miúda, encolhida, vou dormir com o envelope sob o travesseiro.



quinta-feira, 12 de março de 2015

carta para Douglas

Então na tarde da quinta-feira, a chuva fria, o coletivo, avenida parada, internet ruim, vou tentado pescar a notícia e a história antes de ouvir a canção. Entendo, e o ar encurta. Na consolação, enquanto troco de ônibus e vejo os muitos carros descendo aguados, ouço o violão-anúncio desdobrado, o samba, a frase no grave consecutiva: pressinto; predestino. Que daí vem facada, certeza. 

Choro na cidade. A cidade me transpassa. 

Se a franqueza rude não está em meu repertório (e antes assim fosse...), saiba que a dor está, monolítica, vulcânica, abissal. E é disso que se alimenta o canto que, daqui a pouco, vou vomitar violenta e docemente no bar dessa contenda tão horrorosa em que estamos metidos. 

Que tempos os nossos. Que tempos. 

O que alivia (alivia?), é que, apesar das minhas tantas covardias, desesperos e inércias, ainda não endureci o coração nem sequei os olhos, e tenho quem ao meu lado na mesma condição. Valei-me, que isso há de ser alguma valentia. E dou graças. 

Vamos juntos, Douglas, de mãos dadas. Obrigada por mais esse presente, que, de novo em igual medida, não vou ter como agradecer. 

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

na travessia, dia 10

mantena, mg - são paulo, sp

1034 quilômetros, 17 horas de viagem.

depois de passar por belo horizonte, entardece. viagem de ventania, nem lembra se olhou pra trás ao primeiro passo aço aço. meus olhos enchem, escorrem, explico pra luiza que esta é minha música preferida, e que este disco me acompanhou nos 27 dias de hospital que antecederam seu nascimento. também se chamavam sonhos e sonhos não envelhecem. meu coração transborda, as montanhas de minas gerais ao meu lado. em meio a tantos gases lacrimogênios ficam calmos calmos. olho nos seus olhos tão azuis, cada coisa no seu lugar. e lá se vai mais um dia. quero cegar as retinas no sol desta tarde e afogar meus ouvidos nesta voz. de tudo se faz canção e o coração na curva de um rio rio rio. respiramos juntos, gostamos o mesmo gosto, nossa memória compartilhada, nosso amor muito e no real diverso, que aprendi o presente que ganhei: tamanho é o tamanho da alma. esquina mais de um milhão, quero ver então a gente gente gente.

e lá se vai mais um dia.

"E me cerro, aqui, mire e veja. Isto não é o de um relatar passagens de sua vida, em toda admiração. Conto o que fui e vi, no levantar do dia. Auroras. Cerro. O senhor vê. Contei tudo. Agora estou aqui, quase barranqueiro. Para a velhice vou, com ordem e trabalho. Sei de mim? Cumpro. O Rio de São Francisco – que de tão grande se comparece – parece é um pau grosso, em pé, enorme... Amável o senhor me ouviu, minha idéia confirmou: que o Diabo não existe. Pois não? O senhor é um homem soberano, circunspecto. Amigos somos. Nonada. O diabo não há! É o que eu digo, se for... Existe é homem humano. Travessia."

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

na travessia, dia 9

voltamos à loja de tecidos pra comprar o chapéu que tínhamos visto no primeiro dia, ramenzoni xxx pele de coelho cor pino e fita de gorgurão marrom, a caixa com diversas anotações de preços, rabiscos e códigos feitos com as letras trêmulas do seu archimedes que nos recebeu com delicadeza e camisa de linho, dessa vez azulzinha. escolho um corte de algodão com rosas vermelhas e amarelas sobre o fundo branco, antigo. seu archimedes conversou mais um tiquinho conosco, a mesma voz rouca e dicção cuidadosa, perguntou se estávamos de partida, a viagem é longa, eu sei, já fiz muito, mas agora compro tudo em santa catarina, vou de avião, bem melhor, e abençoou minha casa e minha família, deu dois beijos secos nos meus rosto quente e nas bochechas da minha menina linda, abraçou-nos com doçura, meus olhos encheram súbito descontrolado, os teus também, a camisa azul de seu archimedes refletindo nos olhinhos molhados sob a sombra do novo chapéu. primeira despedida.

o caminho de volta foi dar no cemitério da cidade, no alto. todo torto e amontoado, não tem corredores definidos e árvores de sombra, parece que os mortos vão estar todos reunidos de mãos dadas debaixo da terra tamanha a confusão de lápides, tijolos, flores de plástico, cruzes, retratos descoloridos, datas nomes cimento. lá no canto de cima, a chuva do ano passado levou um tanto do terreno barranco abaixo, imagina o susto, e alguns homens refazem o arrimo. nenhum funcionário pra nos dizer onde estaria a lápide da vó e do vô, então fomos tropeçando tentando achar algum sinal. datas nomes cimento. calor. o corpo desistente procura desesperado por um alento. segunda despedida.

asa de ouro foi enterrada depois do almoço, no pé da árvore que fica junto à cerca lateral, folhas de mangueira trançadas por baixo, uns raminhos de carambola por cima, e junto do corpinho um pedaço da pedra preciosa que quebrou dias atrás, a outra parte quero fazer um pingente, cê me ajuda, mãe? depois terra por cima alisada com carinho, uma cruz de gravetinhos e florzinhas apanhadas por ali. lulu me abraça e chora doído, escreveu um poema na primeira página do caderninho da coleção de minerais, o maior que eu já fiz, mãe. lembro o verso decorado do bandeira, olho teus olhos, respiramos juntos. terceira despedida.

o sol se pôs na cachoeira dos padres, uma parede de pedra rasgando a mata. um pouco de medo nos pés. lembro a canção inteira dessa vez, canto alto, peço licença, agradeço. vou ter saudade dessa água. quarta despedida.

hoje teria sido aniversário de 20 anos do meu primeiro casamento, e eu não sinto nada. quinta despedida.

no começo da noite de lua cheia, os cães todos latem muito, uivam forte, uma barulheira. o céu é inteiro. venta na varanda. a vizinha traz mandioca que acabou de tirar do quintal. calango fala, tia jovina do sertão fala, nós rimos. sexta despedida.

fechamos as malas, amanhã partimos cedo. sétima despedida.

recebo teu carinho nos meus cabelos curtos. ama-me? mais. promete? juro. sempre? pra sempre. teamante. teamantena.

"– “... Mas, porém, quando isto tudo findar, Diá, Di, então, quando eu casar, tu deve de vir viver em companhia com a gente, numa fazenda, em boa beira do Urucuia... O Urucuia, perto da barra, também tem belas troas de areia, e ilhas que forma, com verdes árvores debruçadas. E a lá se dão os pássaros: de todos os mesmos prazentes pássaros do Rio das Velhas, da saudade – jaburu e galinhol e garça-branca, a garçarosada que repassa em extensos no ar, feito vestido de mulher... E o manuelzinho-da-troa, que pisa e se desempenha tão catita – o manuelzinho não é mesmo de todos o passarinho lindo de mais amor?...”

Podia ser? Impossivelmente.

Eu não tinha sido capaz de perguntar aqueles ensalmos a Diadorim, de fato só em coisa à-toa se conversou, trivial a respeito de munição e meus armamentos, e avio de guerra. Véspera. As horas é que formam o longe."

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

na travessia, dia 8

o dia amanheceu ao meu olhar igual aos demais, azul inteiro vastidão calor monolito, mas calango anunciou, hoje chove. transcorreu o dia quase parado, eu querendo murchar, luiza indisposta, e quando foi o fim da tarde, ventou diferente, as nuvens escureceram rápido e choveu, amém.

a vida muda inteira com a chuva.

nesses dias crus do sertão, o tempo é mais lento e farto, minha pele vigora ao sol e água limpa, ao tempo que envelheço. envelhecemos, e eu acho isso tão bonito. meus olhos imensos querem guardar o cheiro abençoado da terra molhada e todo o mundo de delicadezas e misérias que vasculho em cada buraco desse lugar. teus olhos azuis estão diamantinos. nosso amor cresce e predestina, rosal formoso.

a vida muda inteira a toda hora, aqui e onde quer que eu esteja, a despeito do meu coração riobaldiano que quer o feio apartado do bonito e todos os pastos demarcados. eita. mas aprendo, envelheço e aprendo, miúda, devota e teimosa.

"Que fosse como sendo o trivial do viver feito uma água, dentro dela se esteja, e que tudo ajunta e amortece – só rara vez se consegue subir com a cabeça fora dela, feito um milagre: peixinho pediu. Por quê? Diz-que-direi ao senhor o que nem tanto é sabido: sempre que se começa a ter amor a alguém, no ramerrão, o amor pega e cresce é porque, de certo jeito, a gente quer que isso seja, e vai, na idéia, querendo e ajudando; mas, quando é destino dado, maior que o miúdo, a gente ama inteiriço fatal, carecendo de querer, e é um só facear com as surpresas. Amor desse, cresce primeiro; brota é depois."

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

na travessia, dia 7

no sétimo dia, começo a sentir saudade.

saudade do meu filho de olhos de floresta. da minha casa, meu chuveiro, meu quintal e a mesa de madeira imensa, meu armário de louças. saudade de dormir e trepar na minha cama. memória dos seus olhos, da sua risada solta, dos cabelos enroscados nos meus dedos. saudade do meu horizonte de dois lados e do café, todos eles. saudade de cantar, dos meus amigos, do risco, trabalho em alegria. saudade sobretudo do algum silêncio.

dias atrás, no almoço, um anu branco bicou um filhote de rolinha já emplumado que caiu do ninho ao pé da caramboleira. minha macaca e o calango acudiram o passarinho, a asa muito machucada, limparam a ferida e colocaram protegida numa gaiola, com água e quirera, até se recuperar. luiza deu nome: asa de ouro. hoje soltaram no terreiro que é pro bichinho não acostumar na gaiola e pra ver se já consegue bater a asinha. asa de ouro andou, ciscou, comeu, até deu uns pulinhos, mas no entanto ainda não voltou a voar.

"Reinaldo, Diadorim, me dizendo que este era real o nome dele – foi como dissesse notícia do que em terras longes se passava. Era um nome, ver o quê. Que é que é um nome? Nome não dá: nome recebe. Da razão desse encoberto, nem resumi curiosidades. Caso de algum crime arrependido, fosse, fuga de alguma outra parte; ou devoção a um santo-forte. Mas havendo o ele querer que só eu soubesse, e que só eu esse nome verdadeiro pronunciasse. Entendi aquele valor. Amizade nossa ele não queria acontecida simples, no comum, sem encalço. A amizade dele, ele me dava. E amizade dada é amor. Eu vinha pensando, feito toda alegria em brados pede: pensando por prolongar. Como toda alegria, no mesmo do momento, abre saudade. Até aquela-alegria sem licença, nascida esbarrada. Passarinho cai de voar, mas bate suas asinhas no chão."

domingo, 4 de janeiro de 2015

na travessia, dia 6

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pela manhã, visitamos a casa do filho da solange, amiga de infância das tias, vizinha da casa da vó elza. solange com 18 anos já tinha dois filhos, depois morou nos quatro cantos do mundo, casou com um americano, e agora com mais de 50 voltou a mantena; passa o dia cuidando da mãe com alzheimer e construindo sua vida no second life. seu filho geraldo, o gezinho, é colecionador e comerciante de minerais, e fomos à sua casa pra conhecer seu tesouro. estantes de fórmica de madeira expõem com cuidado mais de 3 mil minerais e fósseis, incríveis, que o gezinho vai dedicadamente apresentando, nome científico, origem, grau de dureza, preciosidade, valor, tipo de minério e outras curiosidades. ao saber do gosto da minha luiza pelo assunto, abre as gavetas e presenteia a macaca, topázio, dioptásio, cianita, muscovita, rubi, esmeralda, aghata, granada, fóssil de escargot que veio da frança, labradorita de madagascar, e então configura-se o início da coleção de minerais da luiza, com 20 pedras e 2 fósseis, e ela, siderada, começa a registrar em seu caderninho o nome e o desenho de cada pedra, pra não esquecer. gezinho é muito tranquilo, sorridente, tímido, mineiro. depois leva pra conhecer a casa, quartos, banheiros, cozinha, quintal e a escada já pronta pra construção do escritório sobre a laje que vai ter vista pra monumental pedra do emiliano. na garagem, mostra um tronco de árvore fossilizado, e perguntamos, quanto tempo demora pra ficar assim? bom, eu sou criacionista, mas se eu fosse evolucionista, diria que demora uns 300 milhões de anos pra fossilizar.

domingo é o dia do senhor.

"Baixei, mas fui ponteando opostos. Que isso foi o que sempre me invocou, o senhor sabe: eu careço de que o bom seja bom e o rúim ruim, que dum lado esteja o preto e do outro o branco, que o feio fique bem apartado do bonito e a alegria longe da tristeza! Quero os todos pastos demarcados... Como é que posso com este mundo? A vida é ingrata no macio de si; mas transtraz a esperança mesmo do meio do fel do desespero. Ao que, este mundo é muito misturado..."

sábado, 3 de janeiro de 2015

na travessia, dia 5

tem dia que é tão grande que a escritura estraga.

manhã de feira, o gesto ancestral de apanhar tudo fresco, cozinhar dedicado pro povo todo, fartar, e depois o cheiro de café, que eu podia fazer só isso pro resto da vida, valei-me.

na tarde ensolarada, estrada, pedra e cachoeira, correr das águas que tudo levam, tudo curam, tudo limpam, peço licença, ofereço o corpo cantando minha oração e agradeço o meu lugar.

o que conforta é que a poesia resiste: toda a delicadeza mora nos moços que levam na garupa de suas bicicletas, de ladinho, suas namoradas em vestido de algodão.

"Sertão velho de idades. Porque – serra pede serra – e dessas, altas, é que o senhor vê bem: como é que o sertão vem e volta. Não adianta se dar as costas. Ele beira aqui, e vai beirar outros lugares, tão distantes. Rumor dele se escuta. Sertão sendo do sol e os pássaros: urubu, gavião – que sempre voam, às imensidões, por sobre... Travessia perigosa, mas é a da vida. Sertão que se alteia e se abaixa. Mas que as curvas dos campos estendem sempre para mais longe. Ali envelhece vento. E os brabos bichos, do fundo dele..."

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

na travessia, dia 4

os armários de madeira, metros e metros de prateleiras, vitrines e bancas espalhados na loja grande, alta e arejada abrigam toda sorte de tecidos. a enchente do ano passado estragou muita coisa, mais de duzentos mil de mercadoria perdida. alguns cortes atingidos pela água barrenta são vendidos a seis reais o metro, com o aviso cuidadoso da vendedora que mostra a mancha e me pergunta, vai querer assim mesmo? quero, gosto de tecido com história e a blusa de algodão florido carregará pra sempre a água de mantena em sua trama. loja de tecido me enternece tanto, guarda um silêncio antigo. os olhos velhos de seu archimedes brilham quando pergunto se ele tem linho - mostra a camisa cinza clara que usa sobre os ombros franzinos, a senhora conhece, não é, é caro porque não tem nada igual a isto, e quando eu cismo com coisa boa, pode custar cem, duzentos, trezentos, não tem jeito, eu compro mesmo, só tem uma fábrica hoje, acabou tudo. a voz é rouca e a fala pausada pra garantir o perfeito entendimento. peço pra ver aquele lá em cima, então ele sobe as escadas, trepa ágil nas estantes, suas mãos artríticas deslizam pelas peças, eu sei que mesmo no escuro de dentro da morte ele saberia reconhecer e nomear cada urdidura com essas mãos velhas. a blusa de linho cinza pousará no meu corpo com o carinho das mãos de seu archimedes.

• • • • • • •

eu gosto quando seu beijo e sua língua enfraquecem meus joelhos e enxarcam minha calcinha.
eu gosto quando me surpreende enfiando suas patas de minotauro entre as minhas pernas.
eu gosto quando seu pau fica duro, descontrolado, e me ataca debaixo da bica d'água, ao lado da cerca viva, e qualquer passante mais atento perceberia que estamos trepando enquanto as pessoas conversam na varanda.
eu gosto de você e da sua fome.
e mais ainda quando me chama de galega.

"Diadorim mesmo repassava carinho naquela fala. Melar mel de flor. E me embebia – o que estava me ensinando a gostar da minha Otacília. Era? Agora falava devagarinho, de sonsom, feito se imaginasse sempre, a si mesmo uma estória recontasse. Altas borboletas num desvoejar. Como se eu nem estivesse ali ao pé. Ele falava de Otacília. Dela vivendo o razoável de cada dia, no estar. Otacília penteando compridos cabelos e perfumando com óleo de sete-amores, para que minhas mãos gostassem deles mais. E Otacília tomando conta da casa, de nossos filhos, que decerto íamos ter. Otacília no quarto, rezando ajoelhada diante de imagem, e já aprontada para a noite, em camisola fina de ló. Otacília indo por meu braço às festas da cidade, vaidosa de se feliz e de tudo, em seu vestido novo de molmol. Ao tanto, deusdadamente ele discorresse. De meu juízo eu perdi o que tinha sido o começo da nossa discussão, agora só ficava ouvinte, descambava numa sonhice. Com o coração que batia ligeiro como o de um passarinho pombo. Mas me lembro que no desamparo repentino de Diadorim sucedia uma estranhez – alguma causa que ele até de si guardava, e que eu não podia
inteligir. Uma tristeza meiga, muito definitiva. No tempo, não apareci no meio daquilo. Assim foi que foi."


quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

na travessia, dia 3

no primeiro dia do ano, o amor e a casa.

ela está doente, câncer, metástase. mais de 60. tem tanta força, tanta, que quando passa os passarinhos suspendem o ar. seus movimentos são ligeiros, passos e olhos miúdos rápidos, língua ferina, humor colérico. ela tem um sorriso imenso. o amor dos filhos e netos que não teve está costurado nas incontáveis toalhinhas espalhadas pela casa, nas coisas velhas expostas pelas prateleiras, nas relíquias escondidas nos baús. ela é pequena, não sente nenhuma dor, e seu nome jovina ganhou aqui o sobrenome do sertão. ela é.

ele é rústico; fala um idioma pessoal; tem um sistema próprio; meio bicho, meio homem, tem 46 mas parece menos; alfabetizado; cheira a terra e cerveja. não suporta o silêncio, deve ser alto demais pra seus ouvidos de poucos pensamentos. ele faz tudo que ela quer sem se saber mandado: água o jardim, enche o filtro, pendura as roupas no varal, lava as panelas de ferro, passa o café, varre o terreiro, ri muito, e à noite, encharcado, dorme na varanda, com os pés-cascos para cima. ele é forte, e a cidade toda o conhece, o calango.

quando soube da doença, ele chorou igual criança e ela deu-lhe uma bronca, que eu ainda não morri. na noite de ontem, ele a tirou pra dançar, sorridentes e cúmplices. trepam, menos às vésperas da quimio porque diminui as plaquetas. ele lembra o horário dos remédios e de beber água sempre, cultiva mudas pro jardim da casa nova que não fosse a doença já estaria pronta. ela o levou pra passear de avião, escada rolante e elevador, estudou com ele pra prova de motorista, dá presentes, administra o dinheiro e orienta cada passo. Cuidam tanto um do outro, tanto, de um modo intumescido e brutale (como ela diz), e ainda assim, tanto. meus olhos derramam de admirar: o amor é tão imenso quanto improvável.

• • • • • • •

no fim da tarde, a casa nos recebeu.

corredor estreito coberto de heras, um parto, travessia.

ele à frente, os olhos azuisinhos ganhando a cor da infância, e enquanto percorre os caminhos tantas vezes redesenhados vai dizendo aqui era o rosal da vó, aqui as casinhas dos tios-avós, depois o tio júlio morou aqui até ir pra belo horizonte tratar o câncer, aqui a porta da frente e a primeira sala mas a gente entrava mesmo pela porta lateral da cozinha, aqui a vó elza fazia crochê e via televisão e eu bati a cabeça milhões de vezes porque levantava e esquecia da janela, aqui era a sala de jantar mas ninguém usava, e aqui era o melhor lugar, tinha uma mesa e a gente passava o dia inteiro aqui, aqui a casa de boneca das meninas que depois virou a cozinha de fora da vó, a vida toda atravessando o quintal pra subir com as vasilhas pra mesa, aqui o rio, mas não tinha esses muros, era tudo emendado e a gente ia andando pela beirada até lá na frente, aqui tinha uma mangueira ainda maior que esta, enorme, cortaram, aqui meu bequinho preferido, será que eu passo, ainda passo mas é mais difícil.

o forro apodrecido revela o telhado ancestral. as janelas quebradas mostram o jardim teimoso, cambuquiras, acerolas, jaboticabeira, manga espada, hera, mato. a platibanda tem adornos geométricos no centro e nas extremidades. no alpendre do fundo, cimento queimado amarelo perfeito, não sabem mais fazer assim. um fogão de ágata esquecido. um cofre. teias de aranha, formigas, cupim.

o céu azul . meu amor . memória . monolito

"Só se pode viver perto de outro, e conhecer outra pessoa, sem perigo de ódio, se a gente tem amor. Qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura."

quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

na travessia, dia 2

governador valadares, mg - mantena, mg

quase três horas, 135 quilômetros, e no fim da tarde a terra boa nos recebeu azul, azul que ainda permanece acesso nos olhos do meu amor.

pedra. terra batida e poeira. asfalto ruim. casas com mulheres nas janelas, nos alpendres, nas calçadas. bares de homens inchados. calor.

depois de uma volta na cidade já irreconhecível, chegamos à casa da tia, um oásis de plantas, árvores, pássaros, madeira velha, panelas de ferro, bacias e toda sorte de coleções, enfeitadas com toalhinhas de crochê e com um vento que passeia só aqui.

chegamos.

aqui ficaremos até o corpo entender o calor e refazer as memórias mais profundas. aqui estamos pra presenciar e aprender sobre o amor, a doença, a cura, o tempo, a fartura, a miséria, o silêncio.

o último dente de leite da macaca caiu, e minha ensolarada dos dias desabrocha na flor mais formosa. os olhos de floresta do meu filho estão longe, mas ouço sua voz e sei que tudo está certo.

no último dia do ano não rezei porque minha certeza é tão vasta que tudo em mim é amor, oração e agradecimento.

"A gente vive repetido, o repetido, e, escorregável, num mim minuto, já está empurrado noutro galho. Acertasse eu com o que depois sabendo fiquei, para de lá de tantos assombros... Um está sempre no escuro, só no último derradeiro é que clareiam a sala. Digo: o real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia."

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

na travessia, dia 1

mococa, sp - governador valadares, mg

(quando quis ler o grande sertão, tentei tantas vezes e não consegui, então um professor, davi, disse pra ler de uma só vez umas 50 páginas, sem parar, sem entender, sem dicionário, sem resistir. talvez tenha sido este o melhor conselho da minha vida. esta é a sétima vez que volto a ele, e cada vez dum jeito diferente, misturado com os todos cantos do meu peito sanguíneo: assim a viagem, uma talagada duma vez, pra despertar desafogada no meio do redemunho; assim a vida, vestida de carmim; assim o amor que está em meu nome)

777 quilômetros, 12 horas. carro gente caminhão feiúra estrada gente carro buraco gente miséria caminhão carro carro. o céu dum azul sólido. a terra aberta em feridas. o verde que não desiste. uns passarinhos amarelos lindos de pequenos, meu pai ia saber, certeza.

de repente, o trem de ferro que carrega ferro infinito, e então sei que cheguei às portas das gerais.

o corpo aos poucos cede ao calor que parece apertá-lo pra dentro de si, já não resiste mais, procura algum conforto numa memória que não sei. quase não venta. encurto as saias, tiro as mangas e aceito o úmido que escorre entre meus seios.

na cama dos outros, nossa pele arde, nomeia e lembra: rosal em botão.

"Eu atravesso as coisas – e no meio da travessia não vejo! – só estava era entretido na idéia dos lugares de saída e de chegada. Assaz o senhor sabe: a gente quer passar um rio a nado, e passa; mas vai dar na outra banda é num ponto muito mais embaixo, bem diverso do em que primeiro se pensou. Viver nem não é muito perigoso?"

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

nevo azul

no ano que você nasceu uma mãe de santo negra, pequena e muito sorridente jogou búzios e me disse que eu sou filha de oxum e oxossi, que sou oxum velha, velha, velha cantadora de histórias, e que carrego em mim o cerne espiritual da minha família, que eu não ia querer isso mas era assim que era, e contou mais uma porção de coisas lindas que eu esqueci.
meus olhos aguados cresceram um pouco mais naquele dia, assombrei.
tempo depois fiz uma guia amarela que não voltei pra rezar.

vieram os redemunhos todos, minha vida de roldão.
oito-infinito
.O amor O.

mãos pequenas e fortes.
traça linhas de destino sob a lógica dos deuses que desconheço ao tempo que repete as palavras róseas que sei de cor.
pés bailarinos.
tanta tristeza nos olhos verdes, tanta.

me deu gosto abissal ver vocês atracados; a memória dos corpos confundidos e dos cabelos enroscados nos meus dedos ainda umedece meus joelhos; nosso sábado maiúsculo me faz acreditar que este ano estranho errado torto tornou e entornou finalmente em formosura.

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

carta humoral

meu corpo é feito de água.
minha pele não é macia. é líquida.
enganam-se os homens, as moças, os astros: sou aquática.
não sou forma, tenho fôrma.

só que derramo por todos os buracos, escapo, escorro, meu corpo não é recipiente, não me estanca, não contém.
sou vazante.
enchente.
naufrágio.
deriva.
redemunho.

tudo em minha volta é afogamento - mãos, palavra, quadris, canção.
e minhas moléculas resilientes forjadas na dor e no afeto guardam a memória das encarnações.
sou orvalho envelhecido.

o que me molda são tuas patas, meu senhor meu, teus pequenos olhos azuis de profundeza e infinito, teus humores brotando de todos os poros para dissolver e acalmar os meus, nosso tempo sem paredes, nosso desejo compartilhado, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, por todos os dias de nossas vidas.

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

bailado

eu trocava tudo, tudo mesmo, por poder dançar.
mas nasci sem as certas disponibilidades nas juntas e músculos.
então, por consolação, deus me deu mãos bailarinas.
valha-me, que tudo nessa vida tem sua justiça.

deve ser porque meu nome foi herança torta da minha vó Julia, que fazia crochê do tamanho do infinito, e criou seus 14 filhos em silêncio.

minha vó achava seu nome triste.

lembro dos olhos líquidos da tia Lucy por trás das grades da clausura, transparentes de tão azuis.

minhas mãos e meus olhos carregam o mundo do mesmo jeito que as minhas tias carmelitas em suas orações cegas, incessantes e infantis.

com a diferença de que elas não o conhecem.
elas têm sorte.

terça-feira, 29 de abril de 2014

coliseu

todo dia eu canto.
todo dia eu cozinho.
todo dia.
todo dia eu mato um leão, às vezes dois.
tem dia que costuro, tem dia que bordo, a beleza dos avessos.
tem dia que desenho, e capricho.
tem dia até que faço filmim, meu olhar.
todo dia alguma alegria.
todo dia palavra.
todo dia o amor.
todo dia agradeço por minhas mãos, meus ouvidos e meu coração.
todo dia.
todo dia tenho medo: a solidão.

nesta noite, aqui, tropeçando nos cadáveres espalhados no chão dos dias difíceis, penso que esse mundo tinha de ser gentil e justo, porque eu fui forjada no afeto, sabe, e não suporto tanta dor.

quarta-feira, 9 de abril de 2014

carta para celso

Tem uma coisa que não sabes sobre mim: eu gosto das palavras como das pessoas. E vou gostando de pessoas como fossem palavras, prefiro assim - carne, gesto, tempo, e o silêncio que antecede o nascer, a pausa que suspende o mundo no ar. Daí digo assim o que quero dizer pras pessoas que quero.
Então.
Felicidade única é re-encontrar nossos irmãos no mundo, filhos da mesma família ancestral.
Alegria é ouvir uma voz sem roupas, repleta. As palavras claras, certeiras como a flecha do índio, empunhadas com tamanha dignidade, explicitamente sorridas e choradas, na verdade de quem viveu intransitivo - não adianta fingir, meu bem, homem ou mulher, o gozo, a raiva e o amor não são dissimuláveis, mau hálito, buceta seca e pau mole não aceitam maquiagem, rá.
Como ela disse, cada sílaba um parto.
E tudo ao redor que constrói e destrói, batendo doído no meio do meu peito vermelho - sobretudo o moço de olhos claros que viu meu filho nascer, outro reencontro de felicidade, eita.
É isso.
E tudo outro, e tudo mais.
Teu tremor, Celso, briga e me abriga. Tua voz é colo de mãe menininha. Eu vou estar por perto, porque temos o mesmo endereço. E dou graças.

quinta-feira, 13 de março de 2014

insígnia

eu sinto tanta tristeza.

deve ser por causa dos 20 policiais militares entraram no ônibus.
mais que isso, o meu olho esquerdo ficou na altura do revólver daquele um que estava em pé ao meu lado.
sabe, tinha ali uma estrelinha escura.
ou antes, parece que tem uma conjunção planetária estranha.
e além, que eu não entendo nada disso.

o que não tem nome em mim chama-se tristeza.

eu sinto tanto.
inclusive uma dor de cabeça, uma saudade, um medo.

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

vesperal

Na tarde ensolarada de um dia bom, a moça de saia justa sai do fórum e enquanto aguarda o verde troca os saltos por sandalinhas ordinárias, rasteiras, em brilhos.

Atravessa a rua.

Vejo seus pés marcados respirando. Ela rebola devagar, feminil.

Acho isso de trocar os sapatos na rua tão bonito.

Não fosse a miséria toda, eu tinha certeza da poesia que resiste na cidade feia do meu país incivilizado.

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

valentice

each day is valentine's day
menos este, em que uma nuvem cinza, invariavelmente, pousa sobre minha casa e minha coragem acha graça em se esconder na mastigada das mandíbulas das palavras que não entendo.
então, sofro.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

estio

secos os pés.
seca a garganta, que dói.
um liso do sussuarão no meio do meu peito, da ordem do intransponível.
seco e quente.
imenso.
nasci no inverno, um decimalzinho augusto, mínima, ridícula.
só minhas mãos orientais talvez me salvem.

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

sete anos

E na virada do sétimo ano, recebo uma bordoada de origem tão improvável. 
O frequentador assíduo, sempre sorridente, atleta vencedor, sentencia: você não tem carisma, não cumprimenta as pessoas, eu venho aqui há tantos anos, você sempre passa do meu lado e me ignora, nunca recebi um olá; você devia descer do seu pedestal, você banca a estrela, você não se importa com o público, todo mundo acha isso. 
Desrnorteio, ardo na garganta, embaço a vista, peço desculpas, corro pro banheiro, choro infantil.
Ontem, hoje e ainda agora. Infantil. 
Tanto amor, meu deus, tanto amor pisoteado no chão sujo e feio. Num dia que cantei bonito, em homenagem ao nosso aniversário. Sete anos, um amor de ouro.
Não tenho determinadas fortalezas, sou só formosura.
Não sei o que fazer com isso.
Queria saber dançar.

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

revolver

de volta:
vontade de chorar
não sei como acabar o ano
mais um não
um deserto de talvezes
tanto desejo
tenho sonhado muito
esqueci meus adjetivos em algum lugar
sinto cansaço, preguiça, calor
o trabalho rasteja, o tempo desembesta
esqueci os livros em algum lugar
saudade
envelheço
estou bonita (achei um)
perdi a música que cobria este silêncio
o desejo permanece sentado
não li o tao, não faço ioga
meu amor sobeja.

o dicionário e minha professora de latim sempre sabem de mim.

esperar (verbo)

1 ter esperança (em), contar com, confiar em
2 não agir, não tomar decisões, não desistir de algo, não ir embora etc., até a efetuação de um evento que se tem por certo, ou muito provável, ou muito desejável
3 estar ou ficar à espera (de); aguardar
4 contar com a realização de algo; desejar, torcer para
5 estar reservado ou destinado a
6 considerar (algo) como provável, com base em indícios; supor, presumir, conjecturar, imaginar

sábado, 6 de outubro de 2012

carta do encontro #3

sete.
ela, mais sorridente que nunca, iluminava o decote descuidado, generosa de seus amores.
ele tem a voz mais baixa que imaginei, remexia na cadeira desafeita ao joelho, e me abraçou inteiro.
ela, dupla, miúda, olhos molhados imensos, cantarolou em silêncio a canção de ninar que dediquei.
ele é tão alto, de sorriso surpreendentemente imenso, fechava os olhos pequenos, devagarinho-vagarim.
ele ao meu lado, meu, as patas doloridas nos meus ombros e nas minhas coxas, minha rosa em tuas mãos, nós navegantes da certeza, pois que bordei com a linha celeste dos teus olhos as iniciais nas sete camisas de dormir, e sucumbo inconteste à tua fome de tantos nomes, continente da tua ordem, vassala, prostituta, mulherzinha, tua.
eu derramada e úmida, sangrei a calcinha de renda pérola e cor de rosa.
sete.
ela não dorme e faz girar o mundo.
ele a sustenta com seus olhos de tantas encarnações.
ela tem acento infantil, litorânea.
ele me perscrutava franca e docemente.
ele me chama vagabunda, e eu gosto, mais.
eu os admiro.
porque sou devota dos encontros verdadeiros.
porque apesar de toda dor, não endureci e trago sorriso sanguíneo, choro solto e quadris fáceis.
e porque fui forjada no afeto e sinto amor desmedido, cuido, de longe, que estejam protegidos: que a malvadeza desse mundo é grande em extensão, e muita vez tem ar de anjo e garras de dragão.

sexta-feira, 25 de maio de 2012

carta do encontro, #2

e se eu te trazia pra nossa casa, e te mostrava nosso horizonte dos dois lados, os ex-votos, as minhas rosas?
e se eu te oferecia minhas mãos dedicadas, as barbas fartas e macias dele, e todo o resto?
e se eu não te abandonava pra reencontrar aquela barulheira desatenta e desinteressada?

e se não tivesse metido os pés pelas mãos? e se tivesse havido aquele novembro de revelação, abençoado pela brisa marítima e pelas janelas do bairro da tua infância?

tenho tanta raiva da minha histeria, da minha desmesura. e um ódio profundo daquele caipira saltitante. ódio feminino, monolítico, que eu destilo em totalidade absoluta, uma vez que o destino teve a delicadeza de me poupar o desgosto de saber-lhe as feições e as fuças.

esse gosto amargo e conhecido do arrependimento e da saudade do que não vivi.

olhos pequenos, lábios finos, sorriso inteiro.
queria ter te perguntado de quantos sabores é feito nosso paladar.
abraço.
cheiro.

meus olhos úmidos.

silêncio.

sábado, 25 de fevereiro de 2012

carta do encontro, #1

o silêncio que sucede os grandes encontros, aquele, que vem depois da canção preferida.


queria ter ouvido mais, falado menos. 
e mais tempo, um tempo sem véspera.
que tivesses conhecido o horizonte da nossa casa, do poente ao nascente; entre eles, vinho, confissões, segredos, promessas.
e que na despedida, ali mesmo dentro do taxi, ele beijasse tua boca, demoradamente e sem escândalo, pousando as patas pesadas na tua nuca, até te afrouxar os joelhos e ofegar teu discurso.

a surpresa do drink fora de moda. inflexão confirmada. olhos íntimos. palavras e mãos perscrutadoras. algum descompasso. abraço de calor imenso. e uma doce certeza.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

carta da espera

estranho.
bem nesse dia, em que parece haver uma nuvem escura sobre a minha casa, anual, desde a primeira vez. e mesmo que eu cante a mais bela canção, ele permanecerá estranho, porque ele não me pertence.
e no meio disso, fico pensando se deveria procurar entre os transeuntes um rosto que eu mal conheço. ou se aquele texto foi pra mim. ou se não foi. e se, em um ou outro caso, deveria ficar lisonjeada, envergonhada, chateada, triste.
o dia está estranho.
estou estranha, e eu tenho medo.

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

2012

Meio do mato.
Na cambalhota do ano, desde muito é assim, cuido de agradecer:
à felicidade do encontro - nossa doce princesa, a cozinheira das palavras, os sócios cada vez mais irmãos, meu cúmplice palhaço, meus comparsas de mínimo: "Amigo, para mim, é só isto: é a pessoa com quem a gente gosta de conversar, do igual o igual, desarmado. O de que um tira prazer de estar próximo. Só isto, quase; e os todos sacrifícios.";
à alegria dos presságios: o disco extra-super e o livro de retratos, som e silêncio, construídos com carinho e em boa companhia, mãos em mãos, que transbordarão, reluzentes, em tons de cru, ouro, magenta, preto e ferrugem, como as placas de lata fora de registro e os tapetes impressos garimpados da sucata da cidade, luxo no avesso espelhado, brasis;
ao amor infinito e profundo: pai, mãe, irmãs e irmão, e os seus; meus dois filhos; meu homem - eu não canso de me surpreender por ser tão assombrosamente afortunada, a mulher mais feliz da cidade.
O ano começa ensolarado e quieto.
Releio a terceira margem do rio pra não esquecer de angariar coragem e vigilância. Releio as cidades invisíveis pra guardar na memória a travessia e todos os confins. Leio a arte cavalheiresca do arqueiro zen pra aprender a leveza e o vazio.
Meu coração e meu corpo sabem do cuidado que cada flor requer: devir.

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

desejo

Datação
sXIII cf. IVPM

Acepções
■ substantivo masculino
ato ou efeito de desejar; aspiração humana diante de algo que corresponda ao esperado
1 aspiração humana de preencher um sentimento de falta ou incompletude; querer, vontade
1.1 Rubrica: psicanálise.
segundo Sigmund Freud, moção psíquica que procura restabelecer a situação da primeira satisfação
2 expectativa consciente ou inconsciente de possuir (um objeto) ou alcançar (determinada situação que supra uma aspiração do corpo ou do espírito); ambição, exigência
2.1 ambição incontrolada ou excessiva; cobiça, sede
3 instinto físico que impulsiona o ser humano ao prazer sexual; atração física; lubricidade, excitação
4 Uso: informal.
ânsia de satisfazer certos apetites durante a gravidez; apetência
5 Regionalismo: Portugal.
pesar devido à ausência de (alguém ou algo); saudade
6 alvo, objeto do desejo; anelo, pretensão, propósito

Etimologia
lat. *desèdium, prov. der. do lat.cl. desidìa,ae 'estar sentado' (< lat. desidére 'permanecer sentado'), mas com evolução semântica para 'ócio', donde desidìa com acp. de 'inércia, indolência, repouso, prazer', o que teria mantido nessa pal. o signf. de desiderìum,ìi 'desejo', que não teria passado para todas as línguas românicas; ver desej-; f.hist. sXIII desejo, sXIII desege, sXIV desego, sXIV dessego, sXV deseijo, sXV dezejo

Sinônimos
ver sinonímia de capricho, impulso, lubricidade, talante e tentação e antonímia de desprendimento


O Houaiss sabe de mim. Os lusitanos também. 

Minha inesquecível professora de latim, Dona Maria da Graça, não entrava em greve por vergonha de discutir seu salário. Era nascida na cidade do Porto e ainda criança veio escondida num navio pro Rio de Janeiro, onde cresceu e formou-se, e saberá Deus porque infortúnio celeste acabou lecionando Latim I e II na USP. Era vaidosa, muito velha, cheirava a água de rosas, e falava um português lindíssimo. Aplicava provas orais numa classe de 200 alunos. Dona Maria da Graça sabia explicar de onde vinham todos meus sentimentos.

sábado, 26 de novembro de 2011

sincronicidade

abro as cidades invisíveis, no ponto em que deixei na cabeceira, antes de dormir.

As cidades ocultas
2

A vida em Raíssa não é feliz. Pelas ruas, as pessoas caminham retorcendo as mãos, imprecam às crianças que choram, encostam-se nos parapeitos do rio com a cabeça apoiada nas mãos, acordam de manhã com um pesadelo e logo começa outro. Nas mesas em que todos os momentos alguém esmaga os dedos com o martelo ou fura-se com a agulha, ou nas colunas de números negativos dos registros dos comerciantes ou dos banqueiros, ou diante da fila de copos vazios sobre o balcão dos botequins, ainda bem que as cabeças abaixadas poupam olhares tortos. Dentro das casas é pior, e não é necessário entrar para sabê-lo: no verão, as janelas ribombam de brigas e pratos quebrados.

Todavia, em Raíssa, sempre há uma criança que da janela sorri para um cão que pulou num alpendre para comer um pedaço de polenta que caiu das mãos de um pedreiro que do alto do andaime exclamou: "Minha jóia, tem um pouco para mim?" para uma jovem hospedeira que ergue um prato de sopa sob a pérgula, contente de servi-lo ao vendedor de guarda-chuvas que comemora um bom negócio, uma sombrinha de renda branca comprada por uma grande dama para pavonear-se durante as corridas, apaixonada por um oficial que lhe sorriu ao saltar o último obstáculo que estava feliz mas mais feliz ainda estava o seu cavalo, que voava sobre os obstáculos vendo voar nos céus uma perdiz, pássaro feliz liberado da gaiola por um pintor feliz de tê-lo pintado pena por pena, salpicado de vermelho e amarelo na miniatura daquela página de livro em que o filósofo diz: "Em Raíssa, cidade triste, também corre um fio invisível que, por um instante, liga um ser vivo ao outro e se desfaz, depois volta a se estender entre pontos em movimento, desenhando rapidamente novas figuras de modo que a cada segundo a cidade infeliz contém uma cidade feliz que nem mesmo sabe que existe".

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

exílio

Datação
sXIII cf. FichIVPM

Acepções
substantivo masculino
ato ou efeito de exilar
1    expatriação forçada ou por livre escolha; degredo
2    Derivação: por metonímia.
     lugar em que vive o exilado
3    Derivação: sentido figurado.
     lugar longínquo, afastado, remoto
4    Derivação: sentido figurado.
     isolamento do convívio social; solidão


quando tudo parecia fácil, como o abrir das minhas pernas.
e agora essas seis ou sete letras batendo na minha cabeça, o gosto salgado, desalinho de planetas no meio do meu peito.
sorteio palavras no dicionário, como cartas de tarô:
carpir
escapulário
escarificar
procatalético
subáptero
vacuidade
...
não encontro. não sei. 
e esse quarto feio, essa luz fria, esse dia desnecessariamente quente.
não há resquício de poesia no reencontro com velhos fantasmas.

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

carta em carinho

o que quero lhe dizer, meu benzinho, é que o amor pode travestir-se de tantas coisas, de intensidades e cores diferentes, mas ele, o amor, no fundo, é despido, desprovido de razão, de moral, de explicação. os atos de amor (me disseram um dia e eu sigo assim desde então) são a única coisa que vale à pena, que perpetua; e a escolha é sempre a mesma, viver ou não, e estamos aqui, preferindo viver.
o que quero lhe dizer, meu benzinho, é que escolhemos viver isso com você.
se houvesse como, roubávamos você. levávamos pra longe, pra construir nossas próprias memórias, reinventar o tempo, e aos poucos substituir cada desnecessário instante de violência e rudeza por segundos infinitos de delicadeza e generosidade.
porque ninguém nesse mundo mais do que você merece toda a doçura, toda a beleza.
o que quero lhe dizer, em derramada desmesura, é que seu cheiro e seu gosto não saem daqui, não passam, e esperamos você, esperaremos o quanto for preciso, porque nossos corpos gostam do seu, e nossa alma também, e não há encontro mais verdadeiro e sublime do que de corpos e almas que se desejam.
o que quero lhe dizer, amor, é que dedicaremos a você, tranquila e ardentemente, tudo o que sabemos, e saberemos com você o que houver para descobrir, com o mesmo espanto e silêncio que invadiu nossos olhos quando pousaram pela primeira vez em sua indefectível formosura.

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

transitivos

cometemos a imprudência de publicar, em papel bonito e desenhado, uma lindeza.
felicidade sem tamanho nem medida.
festa no meio do peito.

sexta-feira, 29 de abril de 2011

carta celular

e entre as posturas mais urgentes, o coração aos poucos reencontra o lugar no corpo, que é mais meu desde que tuas patas pousam na minha cintura.
e entre as mesmas posturas, os sonhos têm vindo ao meu auxílio. pois aprendi com você a tê-los de cor, a decorá-los como canção.
sonhos de dor e revelação.
assim, alumbrada, limpa e clara, ainda que lentamente, posso voltar a olhar teus azuis sem pejo.
porque te amo, sempre amei e sempre amarei passarinha, passarada, e me encaixo, justa e confortável, nas tuas mãos.

segunda-feira, 28 de março de 2011

quatro

comemorados com bandeirinhas de seda, paredes encantadas, vinho, alegria, desejo, cansaço e formosura, embalados caixas viajantes, com bênçãos de velhos fazedores de beleza.
4 mãos.
4 patas.
de 4.
que venham os próximos 400.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

ridículas revisited

quando estás assim, longe, sinto vontade de voltar, escrevo e apago repetidas vezes um texto estranho e manco que não serve. ainda sinto, acho, o impacto de ter revisitado as cartas daqui, remexido em feridas antigas, reencontrado tempos de palavras bonitas urdidas em muita água e muita dor. estou atrapalhada. vejo o vídeo do menino que dança a morte do cisne. choro muito. sinto saudade daquilo que não serei mais.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

sorte

então ela, minha ensolarada dos dias que sempre sabe de tudo, traz a notícia alvissareira, em seu primeiro registro, números dobrados, todos os nossos: 55 22 77 55-1.
na tarde de chuva caminho pelas ruas sujas da cidade abraçadíssima com ela, pensando que queria ser matemática pra poder calcular a probabilidade de tamanha fortuna, e reencontro a certeza de que sou uma mulher feliz.

sete

será que eu te faço feliz?

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

aritmética, 2011

verbos, em ar:
amar, trepar, cantar, andar, cozinhar, trabalhar, engendrar, lavrar, ordenar, encerrar, bordar (nos panos e sonhos, rosas e ensolaradas)

a mancheias, nomes:
alegria, beleza, vinho, encontro, dinheiro, saúde, delicadeza

com cautela, advérbios:
mais, bem, sempre, tanto

coisinhas numeráveis:
4 bicicletas, -1 carro, 4 vasos de ervas, 6 vidros de mantimentos, uns quadros e 2 colméias nas paredes, 1 máquina de fazer de pão, +1 disco, 271 espetáculos.

= 72 palavras.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

diário de BsAs, 1

madrugada de aeroporto, embarque às 5h15, chegada às 3h30, olhos de areia e uma felicidade transitiva, um gosto, uma vontade. na mala, as cidades invisíveis, livro repetido de viagens, como o grande sertão é sempre o de cabeceira, e sempre será. no peito um desejo do silêncio dos viajantes solitários, aqueles que vivem mais. quererei uma xícara de café, um caderno em branco, uma caneta nova, quiçá um vestido ou um xale fora de moda, e reconhecerei idéias de predestinação, na cidade que, tenho certeza, reencontrarei com a saudade das coisas desconhecidas.

quarta-feira, 3 de março de 2010

da memória, número três, final

de tanto andar no escuro, desenvolvia olhos de gato, gestos silenciosos em movimentos delinquentes.
de tanto chorar dissimulada, trazia bolsas transparentes líquidas e invisíveis sob os olhos.
de tanto desejar alegrias intangíveis, transfigurava o rosto em sorriso permanente fácil.
de tanto silenciar palavras ásperas, talhava espinhos na garganta de gritos surdos de pesadelo, voz salobra e marítima.
de tantos impossivelmentes, predestinava passarinhada:
o filho de olhos imensos em verde floresta, herança de tristeza e esperança, sonha tanto.
a filha ensolarada de risada farta, herança de tristeza e esperança, sabe sempre de tudo.
nada mais para lembrar.
o amor sempre aqui fica aqui.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

da memória, número dois

no jantar veio a proposta, e tomada de uma alegria súbita, sem pensar muito pra ver se espantava a hora da abóbora, discutimos os quandos e os comos. liguei pra amiga. contei pro garçom. avisei a mãe e a irmã.
inventei que podia ser feliz.
visitamos uns apartamentos, em desajeito.
não tinha poesia.
não tinha beleza.
apenas a vontade incontrolável de poder ter uma ou outra certeza apesar de todos os apesares que fingi não terem muita importância, aqueles que prometi de joelhos na solidão do último cigarro que não estariam ali se chegasse o tempo de algum conforto.
o filho teve olhos imensos, e sonhou. a filha, como sempre, sabia de tudo.
a meia noite chegou dois meses depois, era meu aniversário, e fazia um calor despropositado pra uma tarde de agosto.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

da memória, número um

visitamos meia dúzia de casas que eu sempre quis uma casa, e havia aquela com portões de chapa metálica pintada de amarelo, um sobradinho, no térreo a primeira porta que dava pra cozinha ensolarada acompanhada de um terreiro de cimento, e preocuparam-me os azulejos todos esburacados por armários que lá estiveram, eu bem quereria as paredes limpas e um guarda-pratos como o da minha avó. a porta da sala era mais pra adiante no corredor lateral que ia até o fundo, e abria para tacos grandes cobrindo o chão da sala retangular, a mesa de jantar não cabia, logo vi, mas janelas no fundo tinham vista voadora, quase generosa, e fingi que não pecebia. a escada estreita no lado oposto levava ao mezanino superior com três quartos, um deles tão pequeno que nada servia e eram dois quartos e meio na verdade, quase uma enganação. na parte mais de baixo ao fundo era o quintal e a lavanderia sob a laje da sala, que aproveitava a inclinação do terreno, as crianças até poderiam brincar, quem sabe um cachorro e um pouco de grama, uma horta, uma piscina de plástico, uma sombra de árvore.
inventei que podia ser feliz.
e apesar do preço impossível, do financiamento inexistente, da ajuda familiar fictícia, do bom futuro falso, desatei a embalar as coisas como houvesse data pra mudança, arrastei móveis, mal cobri o chão de plástico, desparafusei os espelhos dos interruptores, e providenciei nas paredes uma pintura ruim pra melhorar o preço da venda, nas portas, rodapés, batentes e janelas uma cor bege e estranha, sobra de tinta esmalte brilhante de não sei onde.
o filho tinha olhos imensos, e sonhou. a filha morava aqui dentro de mim, e como sempre sabia de tudo.
os espelhos foram recolocados meses depois, com olhos inchados e sangue nas mãos.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

volta

quando tudo parece desajustado - o beijo que te dou atrapalha a vista, meu brinco arranha teu rosto, meus pés machucam tua perna, meus dentes ardem a tua pele, a vizinha ronda nossa porta, a memória assombra nossas noites, o tormento ocupa meus olhos - volto.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

um ano

há um ano postava meu último texto.
um ano sem escrever.
às vezes acho que sequei.
às vezes acho que estive tão feliz que não havia porquê.
às vezes acho que envelheci.
ainda choro por quase as mesmas coisas.
às vezes acho que o amor movimenta todas as montanhas, universos, mãos, passos, em gestos tão miúdos ou tão gigantescos que não cabem na minha retina.
às vezes acho que dei errado.
às vezes sinto alegrias impossíveis.
às vezes tenho muito medo.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

carta dolorida

não sei mais escrever.
queria saber fazer outra coisa.
coloria a folha grande branca com gotas de vermelho e gravava em minha retina a velocidade da absorção e da cicatriz, uma a uma, repetido, molhado e seco circular.
silenciava o vazio com o risco assertivo e no movimento para o infinito imprimia meu gesto no ar que ficava ali, mudo, respirando.
construía um labirinto medieval de seqüência numérica perfeita e indecifrável e dentro dele, uma rosa e um minotauro, paredes enfeitadas de fotos impublicáveis, silêncio, tuas patas, meus olhos tristes.
e nenhuma palavra: só o ar do tempo.
meu corpo está pesado e seco, não posso aprender nada.
não sei mais escrever.

sábado, 3 de janeiro de 2009

ano novo

na chegada, cotonetes pelo chão, um cheiro de velhice e sujeira, a bagunça esquecida sobre a mesa, estranheza na caixa postal, uma tristeza aqui dentro comigo.
vou comprar um fogão novo, prometo, porque queria bater um bolo pra fingir que inundava esse lugar de alguma alegria.
não gosto de voltar de viagem.
não gosto da minha casa.
mas esse ano será melhor, ele disse e eu acredito: estamos mais perto de 2010.

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

natal

não tenho saudade do natal.
sinto tristeza e cansaço, muito cansaço.
e todo o sono do mundo...

terça-feira, 28 de outubro de 2008

ridiculinha, 32

cenografia:
eu fazia as perguntas e tu gargalhavas respostas.
inclusive sobre abraçadeiras.

domingo, 26 de outubro de 2008

semanário de poa, 2

eu não consigo cumprir a promessa. nenhuma delas.
sinto tristeza de passarinho.
trabalho sem respiro na cidade que queima sufocante só pra que os dias corram velozes ao teu encontro. mas são as noites sozinhas que pesam como um pano preto em meus olhos ásperos e cheios.
quando choro, minha princesa oferece-me um lenço: ela também tem saudade.

domingo, 19 de outubro de 2008

semanário de poa

a casa esteve muito vazia.
fez muito calor.
cortei os cabelos.
ontem e hoje os dias esqueceram de amanhecer.
cantei por ti e a luz nova trouxe uma felicidade.
a saudade é tanta que ensurdece.

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

revisão

a noite foi acesa como meu estômago em chamas, as horas dormidas de confusão mal sonhada, e acordei como se saída da boca de um dragão; na manhã madrugada, um sono sem solução nem repouso, um quase trabalho; o almoço trivial de alegria e cansaço maternos, bis e cochilo de sobremesa, lembrei-me da minha mãe, acho que envelheço; no fim da tarde estranha desse dia estranhíssimo, boto os filhos e meu corpo desencontrado no eldorado pra encomendar os óculos, e enquanto espero bato pernas por ali fingindo ser uma daquelas, calcinha sapatilha meia tic-tac pedraria telefone vestido sanduíche, pago tudo com o dinheiro que não tenho, e de posse do novo adorno, subitamente, pretendo transformar-me, borboleta: compro o bilhete da loteria e a certeza poder agora sim enxergar o caminho.

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

terça-feira, 26 de agosto de 2008

fatura

escuta, por favor, eu não quero muito, quantas vezes tenho de repetir isso, preciso de tão pouco, é tão simples o que peço, uma casa em que caibam os meus amores, todos juntos e debaixo do mesmo teto, e o resto eu asseguro que florescerá ensolarado porque é muito amor que tem aqui, muito mesmo, mas o amor nesse mundo horroroso medonho fedorento não vale aluguel nem amores todos juntos, eu sei, mas eu não tenho preguiça, não tenho não, não tenho medo do trabalho, sei fazer algumas belezas e só quero poder dizer, só isso, e esse pequeno isso tem alguma valia e muita valentia e portanto não é justo que passe meus dias de olhos inchados e mãos desajustadas, pois que disseram em teu nome que o que importa são os atos de amor e que eu mereço a graça infinita das tuas bênçãos.
meu rosal só tem atos de amor.
eu agradeço todos os dias por ser capaz de amar.
por favor, escuta por favor, faça a tua parte.

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

mística

hoje lembrei-me que há alguns anos fui a uma numeróloga que fez incontáveis cálculos com todos os meus números e com os números de todas as minhas letras, e ao final disse-me numa mistura de júbilo e preocupação que pra melhorar meu nome-próprio se fazia imprescindível acrescentar-lhe um agá.
ótima essa numeróloga, ela sabe mesmo tudo sobre mim, como se vê em seus vaticínios substantivos confirmados, incontestes.
hoje lembrei-me dela, pois que tua ausência pesa-me como uma mortalha.

quinta-feira, 17 de julho de 2008

carta feia

Pois que desgosto, meu senhor meu, das noites em que não estás aqui, elas que dessarte não ganham seu contorno melhor. Então, à guisa de sonífero, aproximo-te na pena do meu abraço para ver se durmo bonita, como ordenas: se estavas aqui via que o forno de ferrugem partiu-se definitivo e que precisarei de um fogão novo, o que já não era sem tempo já que este deve ter mais de três encarnações e das quatro bocas funcionavam uma e meia e o forno, embora o tampo de ágata seja do meu gosto como sabes, e não exitem mais tampos de ágata como estes, mas enfim, era velho e até que durou muito, mas não mais serve e então precisarei de um fogão novo; soletrava os nomes todos na sopa colorida com cenouras e ervilhas e letrinhas que preparei maternal para a princesa macaca e depois carregava para o dossel a bela adormecida em seu sono absoluto de justeza; respondia às perguntas desimportantemente ansiosas do meu olhos-de-floresta sobre a cidade de ar bom para onde viaja amanhã pela manhã, e por isso não consegue dormir, seus olhos imensos vão engolir o mundo um dia; e sobretudo sabia curioso da calcinha nova em mim vestida a esperar tuas patas impredicáveis. Tuas patas não estão aqui, meu senhor meu, e isso faz de mim uma mulher mais triste nesse falatório desencontrado todo. Pois perdôa-me meu senhor meu que desgosto mesmo é desse teu silêncio cinzento do mesmo modo que desgosto dessas minhas palavras aqui, feiúras que não funcionam. Esqueci como é escrever.

segunda-feira, 7 de julho de 2008

depois

depois de quase três meses, acho que vou voltar.
pois que preparo aqui dentro do peito e ali pertinho na ponta da pena a edição manuscrita das cartas ridículas.
vou assim devagarinho, passarinha, reaprendendo o passo, já que do tropeço aprendi todos os movimentos.
respira, respiro: lembro com aquela conhecida felicidade que gosto das palavras como das pessoas. e amo muito, graças a deus.

terça-feira, 15 de abril de 2008

estado

está tudo errado.
o certo é que tudo é muito pouco, e o pouco não é suficiente.
errado o tempo, errado o verso, errado o vão entre o certo e o outro.
uma vida de verdade não pode ter mais ou menos, viver requer coragem.
ridícula, imbecil, covarde, será possível que o repetir desse verso nunca te fará ação?
e aquele filho da puta quer mais de mim quando o que lhe dou me tira a valia mais preciosa, e que faz a falta no reverso, naquilo que deveras deveria ser o devir desejado.
havia de haver uma formosura qualquer, mas me salta dos olhos meu cansaço de encarnações
e o vento escapando entre os dedos, pára, por favor não vai revirando assim as poeirinhas que já estavam ali de longe, na distância real do que não precisa mais de ser, não é mais meu, não preciso mais, já foi e pronto, sai de mim, sai que não mais te pertence o que é meu por merecimento, eu assim, mininteira, como sei de ser, minha fôrma, minha forja, meu afeto.
está tudo errado, mas minha sombra, aprendo, é aquilo que é meu sem a minha carne mas com o meu contorno: não há que reclamar, está tudo iluminado.
viver, isso sim, é muito perigoso.
não vou chorar.
vou dar um salto mortal.
por que, meu deus, por que não me fizeste bailarina?

quinta-feira, 27 de março de 2008

27,1

eu hoje me caso contigo, senhor meu, virgem de todos os buracos.
continente
eu hoje te me ofereço completa tua, prostituta ordinária, como se a primeira e a última vez.
imensidade
é no nosso desconhecido certo de cada um desses diazinhos, rendados vividos um a um, que cultivamos aquele rosal, particular impublicável, beirada invisível, meio do mundo.
labirinto
pois que te amo passarinha, passarada.
devir

segunda-feira, 17 de março de 2008

tudo ao mesmo tempo

tem o samba mínimo nas terças até o fim de abril, blim blim de orvalhada esquisitinho;
tem o juliana samba, que quase se acerta mas ainda não está lá, e que ainda não tem quando de novo, mas vai ter;
tem o rubens nogueira e suas canções perfeitinhas, amanhã, terça, no teatro do santa cruz (depois de tantos anos vou voltar pra escola...);
tem o ó, que é o ó, mas é o ó;
tem o risco (e no risco tem todos nós querendo muito que possamos ser do risco no mais do nosso tempo) que agora vai passear junto com a base móvel riscando de amarelo o chão no centro cultural são paulo em abril;
tem minha vontade de casar, de mudar de casa, e de ver meus filhos na hora do almoço, isso vai ser assim tão insuportavelmente bom;
mas tem o vermelho por todos os lados todos. e essa segunda feira com cara de fim de mundo.

terça-feira, 4 de março de 2008

samba mínimo

a ridícula se arriscando em outras paragens - menos ortodoxa, mais juliana, e o samba sempre, pralém.

domingo, 17 de fevereiro de 2008

meu peito arde desencontrado.
a certeza de ter um espetáculo e um movimento, a angústia de não vê-lo ainda inteiro e plástico.
a felicidade encarnada dos encontros verdadeiros de gentileza e gratidão, a tristeza oca e silenciosa de rever ou não ver as pessoas que se tornam doloridamente distantes.
dos presentes recebidos, de alegria irretribuível, tem a luiza com seus olhos imensos dizendo-me você estava linda como uma princesa, tem o sorriso orgulhoso e sem palavra do joão, tem o regalo do meu amor cada vez mais meu amor mais meu mais - essas preciosidades fazem de mim a mulher mais feliz do balcão e do mundo, pois que posso dizer que minha condenação de amar muito transmuta-se no diário amar-melhor, enreda o fio úmido do meu destino em formoso tecido roseado que não rompe nem desfaz, enche a casa de flores, e prepara minha velhice dada às mãos que escolhi e que me escolheram.
agradeço, meu deus, humílima, nem sei se mereço, e recebo tuas bênçãos acarinhada.
e peço, se sou digna de pedir, que isso traga sustento, pois que somos feitos de pão e beleza.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

ridiculinha, 30

evoé de avesso:
ei, escuta, meu amor, o silêncio
um desfile de ventania no meio do peito...

sábado, 12 de janeiro de 2008

suspensão

as cartas vão silenciar por tempo indeterminado.
quando não se tem nada a dizer e os olhos só querem chorar, melhor repousar a palavra e a cabeça no dorso das mãos pra sentir o ar do tempo, como disse o pastor de cabras.
é que tem hora que a poesia também cala, e então só resta o perdão e a espera, em dor e solidão.
a memória não tem contorno certo e vaga por caminhos incompreensíveis, por vezes tão feios, e invariável obedece a outras velocidades.
queria ser melhor.
o amor segue infinito e intransitivo, flor de formosura, beleza violenta, rosa tatuada, grandeza, redemoinho.
na travessia.

(mãe, não se assuste, está tudo bem)

terça-feira, 8 de janeiro de 2008

reviverso

Começo 2008 miúda mas em gratidão: o caminhãozinho preto, o ano novo familiar e quente, a piscina do bb, os filmes no sofá, o projeto da casa, os espetáculos por vir, enfim, um ano que já começou começando, e isso só pode ser um bom prenúncio.
Assim espero. Assim seja.
Pois meu peito está pequeno, minh'alma apertada, os olhos opacos, vejo que minhas alvíssaras no ano passado tinham mais tristeza, mas também mais poesia, e hoje não tenho nem uma coisa nem outra, olho os papéis espalhados pelo chão mas minhas mãos desnorteadas esqueceram o caminho das gavetas, procuro, rezo, choro porque preciso urgentemente de uma boa notícia numeral pra que meu desespero não escureça o ensolarado do dia.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2007

retroverso

Termino 2007 como quem come depressa demais: tudo foi tanto e tão rápido que não estou capaz de entender cada parte, de repartir a misturada em pequenas e coloridas moléculas, diferentes e minúsculas, cada uma alimento específico de um lugarzinho do meu corpo.
Termino o ano com a dor da ferida aberta e latejante, avesso repugnante purulento exposto que precisa renascer pra quem sabe cicatrizar de dentro pra fora, e que volta de novo pra me cuspir na cara aquela única certeza de que não posso perder a vigilância, nunca, não há descanso, sei disso, sei disso, e embora saber não seja suficiente, eu sei e isso precisa ser um começo.
Termino o ano repleta e transbordada de amor verdadeiro: uns frescos, desses de alegria suspensa no ar; uns renovados pela beleza do encontro; alguns em tristeza de plataforma, natureza do caminho que nem sempre é o mais fácil; amores-pra-sempre de infinitude e formosura, reinventados e sempre os mesmos; amores de gentileza; amores de solidão.
Mas termino inteira, com minha alegria simples, meus olhos imensos abertos e molhados, as mãos dedicadas, um pouco de cansaço, algum desencanto talvez, o medo sempre aqui e ali em meu desespero cotidiano.
Termino 2007 de mãos dadas a outras mãos, que é pra não esquecer e pra poder seguir adiante.
Que venha 2008, estamos prontos.
Alvíssaras.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

carta leal

Quando estiveres com outra mulher, meu senhor meu, peço:
que guardes na memória a angulação das ancas, a curva dos quadris, o ponto exato onde terminam as nádegas e iniciam as coxas, o recorte anterior dos joelhos, a profundidade dos tornozelos, a concha da planta e do peito dos pés, a distribuição dos dedos;
que desenhes com as mãos o ventre e o umbigo, a lateral das costelas, a junção delas com o colo e com a espinha, o caminho dos ossos que sustentam os ombros e o pescoço e os vãos preenchidos de pele e suspiro;
que descubras o comprimento dos braços, a fundura das axilas, o ranger silencioso dos cotovelos, as dobras da chegada ao punho, a maciez das mãos, as linhas da palma, a parábola entre os dedos, os nós, o nascimento das unhas e sua forma e cor, o relevo das veias sob a tez fina;
que acompanhes atenciosamente o movimento dos lábios e da língua, das pálpebras, dos cílios, das narinas em inspiração, das maçãs do rosto, do queixo, das orelhas, dos fios de cabelo em torno da testa e diante das têmporas;
que meças a densidade dos seios, o raio de cada auréola, a geografia dos mamilos, a velocidade da contração quando morderes cada um deles com carinho, a redondeza das glândulas e gosto presumível do seu leite;
que determines com precisão a dimensão de cada parte do seu sexo, especialmente do vale entre os pequenos e grandes lábios, do clitóris em todos os seus possíveis estados e do espaço entre a entrada da vagina e as pregas do ânus;
que afiras a extensão e o volume dos pelos e a trama do seu rendado, e ainda as variações de temperatura e umidade da pele e das mucosas de cada vão, de cada membro, de cada buraco.
Peço, meu senhor meu, que saibas de cor tudo o que haverá para saber e até mais, sobretudo a composição dos seus odores e a música escondida no arrepiar dos poros e no encontro do corpo com o ar. Decores e, depois, ainda quente, descreva-me pormenorizadamente: assim poderei sê-la para continuar a ser tua.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

ridiculinha, 29

férias:
arrumar a casa, tirar os monstros de dentro do armário.
nenhum alívio, só o cansaço pesado e triste de todas as encarnações.
e aquela vontade, de novo, infantil, de fechar os olhos.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

idílio

Ele chega assim desavisado ao telefone, e fala comigo como se no programa de entrevistas na televisão, mas diante dos meus olhos vejo as imagens infantis do bruxo da novela, como sou ridícula, e a conversa se distende na contra-mão do costume da repartição, o assunto que começou na morte repentina da secretária e na inaptidão por procedimentos vai viajar para outras paragens, paris, samuel e bertolt, romance do novaiorquino, museu alemão das separações, tudo assim de correnteza, finalizada na promessa de um idílio internético e contemporâneo, como são as relações sem abraço.
Eu envio um link, ele deseja passear em Istambul, eu devolvo um parágrafo, ele retorna com uns versos decorados na infância, eu ofereço meia dúzia de idéias aborrecidas na minha tristeza precoce de quem envelheceu cedo, ele me presenteia com sua alegria ligeira de quem não perdeu o tempo da história e viveu como tinha de ser, eu cumpro a promessa com gentileza, ele me faz as perguntas certas e sempre as mesmas, eu desenterro a memória da menina cheia de vontade e certeza que um dia eu fui, ele me predestina feroz dizendo que sou de aço e que tenho muitos corações.
Ele assina desespoir, e mal sabe ele que esse é, no avesso, meu nome.

quinta-feira, 29 de novembro de 2007

cartesiana

são duas casas, a do centro e a do bairro.
são duas noites, as solitárias e as infinitamente.
são duas manhãs, as cinzentas e as macias.
são duas mulheres, a contigo e a tristonha.
são dois filhos, um floresta e uma ensolarada.
são duas escolhas, viver ou não.
na misturada do mundo, no nó da tempestade, na espera dolorida, no diminutivo do peito, na limpeza da pele, no augúrio reservado, aprendo em velocidade variada a ser sempre a mesma por ser muitas.

sexta-feira, 23 de novembro de 2007

arestas

os dias recentes eram ventureiros: um sorvete rápido no almoço, metade de uma noite mal dormida juntos, algumas horas barulhentas entre os sócios, um telefonema mal acabado, um jantar de primeiro tempo indigesto, um recado não respondido, uma palavra atravessada.
é certo e verdadeiro e natural que num ou noutro canto, mesmo no meio do mundo que parecia anti-horário, reencontravam aquela mesma formosura pertinaz que os sustentará por todos os séculos e séculos amém, mas nos dias recentes ela entristecida e arenosa repetia no coração a pergunta impronunciável e ele trazia nas narinas e nos duros olhos agora acinzentados o desconforto teimoso, soprados pelo passado exator no viés do vento frio do entardecer estranho de uma primavera sem estação.

segunda-feira, 19 de novembro de 2007

flores de papel

pois que essa vida é mesmo circular: minhas dobraduras adolescentes (aprendidas com carinho no livro presenteado pelo primeiro namorado) nas doze mãos contemporâneas e dadivosas vão espocar num jardim azul de risco no meio da rua mais capital da capital...
que de minhas mãos pequenas nasçam sempre lírios brancos, bênção dos descaminhos tortos da minha ancestralidade oriental, longínqua mas ainda presente nos fios finos dos meus cabelos e na ponta dos dedos que sabem, dramáticos, dobrar flores.
quiçá seja esse o sinal esperado para que assim os dias sem cor voltem a ensolarar.

terça-feira, 13 de novembro de 2007

carta férrea

Precisaria, meu senhor meu, de uma bigorna amarrada aos meus pés pequenos pra que fiquem no chão, mas a memória é tão mais concreta e meu corpo fácil sobrevoa as mesas feias e os papéis acumulados, o tempo escoa entre os dedos finos, prejudico o erário em favor da nossa coleção agora compilada. Passo as horas ao largo, em outro sítio, a todo instante sofro o assalto da tua presença que me leva a firmeza dos joelhos, tu que como nenhum sabes derrubar-me dos saltos. Tua dor diante das minhas mãos não desgruda do dentro dos meus olhos, arrefece o meio do umbigo, suspendo, e lá estou eu de volta ao nosso calendário lunar, às noites imensas e horizontais e sem sono nenhum. Visito, como gostas, várias vezes meu próprio corpo na tentativa transversa de que vás embora daqui, mas no reverso e inverso estás em mim ainda mais definitivo, cadeado que perdeu a chave, âncora de profundezas profundas, navio atracado sem possibilidade de partir.

quarta-feira, 7 de novembro de 2007

ano um

olha de perto, espia só:
nosso rosal formoso contumaz florido, desde aquela primeira que esqueceu de morrer.
pois que vamos juntos, de mãos dadas, na saúde e na doença, na alegria e na tristeza, no meio da rua, no umbigo do mundo, no olho dos redemoinhos todos e das tempestades, correntezas e ensolaradas, por todos e cada um dos dias de nossas vidas.
sim, nós sabemos dançar.

terça-feira, 6 de novembro de 2007

repastagem

Deus pai, São Jorge, Santa Teresinha das minhas rosas:
olhem por mim, lupanares sagrados de aleluias, no sombrio da noitinha de vento temeroso, na simesmice das escolhas sempre solitárias, no caminho enevoado que não mostra o passo depois do passo dado.
Guimarães de rosas e de passarada: esteja sempre aqui comigo pra dar a mão de palavras que desconheço, pra reinventar aquelas que amorosam meu dizer e meu desdizer em belezuras e desdiversos, pra sorrir e chorar com estas que são o meu eumesmim, pra desenhar nosso devir em mãos-patas-dadas, barcais tatuado na carne e na delicadeza, dor e alegria, todos infinitos tudos.
Frutos meus, olhos de imensidão de floresta e ensolarada dos dias: saibam de todos os jeitos de que fomos feitos por sentir, e mesmo daqueles que ainda aprenderemos, que minha vida, meus olhos, meu cantar, minhas mãos, meu sonhar e meu desfazer são seus, desde sempre e para o sempre, pois que o amor não tem fim nem começo.
E a mim mesma, em nome de todos os anteriores e posteriores: rogo estar inteira e forte misturada confundida no meu próprio sangue que de muitos é formado formoso, que preciso de mim, e que estes outros precisam ser inteiros para desprecisarem-me.
Amém.

segunda-feira, 5 de novembro de 2007

caverna

o oco do mundo está posto no meio do peito:
bolha de ar cuspida de baixo pra cima no ausente de ti e no presente em mim, contornos desenhados de vergonha triste e jorrados em pranto de desvio lamacento e sujo, barranco das encarnações, ar de fel, veneno e umidade.
escuridão.
silêncio.
mas no depois tem a pedra que vira fumaça que vira fogo, alumeia inconteste.
mas no antes tem o náutilo das funduras infinitas em ausência de qualquerzinha luz.
nos abismos abissais, não to esqueças, o amor resiste.
eu sei, o dia não amanheceu.

quarta-feira, 31 de outubro de 2007

diário da ausência, segundo dia

ontem tive vergonha de mim.
estavas lá, na praça, na cidade das cavernas, com as crianças correndo ao redor do coreto - o tempo dos viajantes é outro, bem sabes - e eu aqui, no meio da minha pequenez e do meu excesso, atrapalhando a tua noite de estrelas.
desliguei o telefone com vergonha da minha saudade, a inconveniência estalada no meio do peito, e fui dormir muito e adolescente, sem vontade de acordar.
perdoa-me, meu senhor meu, minha desmesura.

segunda-feira, 29 de outubro de 2007

diário da ausência, primeiro dia

meu senhor meu,
tenho muita saudade.
o dia foi de tumulto.
a noite foi de solidão.
tua ausência pesa-me dolorida.
te espero como nunca.
te espero como sempre.

terça-feira, 23 de outubro de 2007

auguração

o ano será de sorte, costumávamos sussurrar sob a lua na janela; e nos já foi generoso, pois que ensolaramos infinitudes, pois que o disco saiu com minhas pétalas, minha tristeza e teus colchetes, pois que do encontro nasceu o risco.
o ano deveria ser de sorte, e acreditamos tanto no vôo dos pássaros, nas sincronicidades amontoadas, nas delicadezas; e tem sido verdadeiro, porque vamos juntos e sorridentes, apesar do escuro desconhecido, dos imponderáveis sucessivos, da velocidade intransigente.
são 70 dias ainda, e seguimos assim, as mãos dadas, agarradas às mãos, os joelhos empenhados em não despencar, os olhos encharcados e corajosos, muito e cada vez mais misturados, repetindo um para o outro mesmo às vezes sem certeza que tudo vai dar certo, esse é nosso ano de sorte, os números não haveriam de mentir, e o futuro logo ali pertinho nos reserva o lugar que merecemos, pois desejamos tão pouco, meu deus, só almoços de tumulto e noites de profundezas, aquele direito ao mais formoso dos desígnios e que nos prometeram inalienável: nosso rosal amoroso, teu norte no meu, o labirinto, e além.

quarta-feira, 10 de outubro de 2007

funcional 3

quero sumir, desaparecer.
não quero as capas de plástico, os telefonemas de bibliotecárias estúpidas, não quero a prestação de contas as notas fiscais os recibos de empenho as ordens de execução de serviço as locações de natureza artística os decretos de fixação de preços públicos as cessões por preço mínimo ou cinco por cento da bilheteria o que for de maior valor os aditamentos contratuais as dispensas de licitação a lei 8666 o despacho administrativo a reunião do conselho administrativo o grupo de obras os projetos especiais a rádio peão o alto clero, não quero mais.
minha contribuição não é frutífera, não tenho competência para bom serviço à municipalidade, minhas palavras enfeitadas e meus diminutivos não são adequados às averiguações disciplinares nem aos esclarecimentos de dolo culpa ou prejuízo ao erário.
não quero.
mereço, como disse hoje anita, um lugar mais parecido com meus sonhos:
as manhãs em casa com minhas rosas, a mesa posta, meus amores amanhecendo em tumulto ensolarado
as tardes com flores de plástico nos oratórios do meu pai
as noites tão somente de belezas.
no risco. na travessia.

segunda-feira, 8 de outubro de 2007

carta noturna

Quisera fossem, senhor meu, apenas noite nossos dias.
Debaixo do sol, senhor meu, as dobras no meu rosto aparecem e mostram a dor, o passar dos anos e as coisas que insistem em não passar; minhas mãos tremem diante do insucesso que não cansa de me derrubar em profundo desespero, este que me faz cantar chorando baixinho pra que Deus não me abandone, por favor, fica comigo; minhas pernas fraquejam, meu ar desnorteia, não como, não resulto, não consigo. Sob o dia, tudo aparece, ensurdecedor, e eu realizo que não vou aguentar. Minha derrrota, hoje sei, é diurna, inexorável e solar, zomba de mim com seus dentes claros e seus números perfeitos.
Mas escondidos do sol todos nossos anseios sobrevivem, vivem intensos em floradas escuras sucessivas e sorridentes, e minha certeza me reencontra entre teus braços macios, em tuas mãos pesadas. Nosso protetor aparece pra nos guardar, cavalgadura lunar. Nossa rosa ganha brilho e define sua luz escura, brilhante e inútil. Nossa alegria conquista toda a pele, sem limite, sem tempo, sem fim.
À noite sou feliz porque sou tua mulher, tua prostituta vadia, tua outra, tuas muitas e quaisquer. Assim, sou eu mesma.

terça-feira, 2 de outubro de 2007

( )

(prossigo no silêncio que sucede os grande encontros, com uma felicidade miúda, sorrizim...)