sábado, 20 de julho de 2019

cartografia 13

Meu corpo é um continente. Nele cabe tudo e tudo nele transborda. Sangue, choro, gozo, palavra, música, gesto, silêncio, uísque, ausência, a culpa de todas as encarnações, a alegria dos encontros verdadeiros, saudade, derrota. Cabem nele aquilo que não lhe dou, o que eu não consigo e o que eu queria lhe dar. Meu canto pra quem não foi, minha voz pras cadeiras vazias do teatro, todas as cadeiras de todos os teatros com ou sem pessoas sobre elas, e ainda meu desejo e minha dúvida. Meu corpo é continente de tudo quanto eu sinto e vejo e eu sofro mais um pouco a cada dia porque não sei o que fazer com tanta dor que nele cabe e daí não cabe mais então vaza. Meu corpo vazante de contradições, meu corpo gostoso, esta bunda grande, estes peitos caídos, estes pelos que me dão preguiça de tirar mas que acho feios, meu cheiro de mulher agarrado nos pelos, e as duas minhas mãos que entendem tudo sempre, orientais, meu corpo que oferece e arrepia e tranca e grita. Meu corpo contém emocionado qualquer espécie de mínima felicidade e esperança: novos velhos amigos, irmãos, procissões, canções, pilhas de livros, ruas de pedra, varal de lâmpadas, talco, olhos vendados, abraços demorados, taturanas, crianças, café. Meu corpo dá rodopios, crispa, abre as asas e levanta os olhos, mas é terra contígua acorrentada de desesperos feminis-civis-infantis-quadris porque é continente forjado em estupros sucessivos históricos ancestrais. Meus quadris cresceram depois de dois partos, como crescem os continentes depois de maremotos, estios e abalos císmicos. Minhas articulações e músculos envelhecem como envelhecem as montanhas e o fundo do mar formando camadas sobrepostas e estratos que se friccionam, aquecem, esfriam e conformam óleos fedorentos e minerais coloridos translúcidos. Uma avalanche continental salpicada de diamantes e carne podre é o que cabe neste meu corpo pangeia, meu corpo américa, meu corpo um.

Estamos diante da iminência da morte.

Os continentes sobreviverão como sempre sobreviveram os continentes aos cataclismas, meteoros e eras glaciais. Haverá o grande silêncio e então outros diamantes e outras gorduras apodrecidas, elementos e moléculas de milhares de séculos infinitos preguiçosos a experimentar sua nova dança de espirais geométricas.

Antes, muito antes, nós morreremos de fome, tiro, injustiça e falta de poesia.

Isto eu não sei onde enfiar.

segunda-feira, 1 de julho de 2019

cartografia 12

Escreve. Apaga. Escreve. Apaga.
Às vezes o esforço de juntar tudo, de ser coerente, ter unidade, fazer poesia, é impossivelmente difícil. Às vezes fica tudo quebrado mesmo, e o peito ardendo sem entender, sem gostar, sem aguentar. Às vezes não vale o trabalho.
Eu tenho sentido muito medo.
Apaga, escreve, apaga, escreve.
Tenho saudade de escrever à mão e ver meus riscos, rasuras, substituições, as palavras que vão se empilhando, as frases sujas, períodos confusos trocando de lugar com setas, parêntesis, uma reescritura exausta, sobreposta, caótica. Na escrita higiênica de computador as dúvidas, tropeços e erros simplesmente desaparecem como se nunca, como se só as certezas, isso é um horror. Diz que tem um aplicativo que tenta imitar isso aí, patético. Não sei mais como é a minha letra escrita, ela está ficando ilegível.
Escreve, apaga, escreve, escreve, apaga, apaga.
Uma vez minha analista me disse que sou uma mulher cindida. Outra vez ela me disse que preguiça é a palavra mais odiosa que existe, porque desrespeita o tempo que as coisas precisam pra existir crescer amadurecer morrer dentro da gente, e que não fazer nada não quer dizer que nada esteja acontecendo. Ela disse isso? Eu lembro disso?
Escreve, apaga, apaga, apaga. Escreve.
Eu não quero ser invisível.
Eu quero que este medo vá embora.
Meu corpo está maior e menor, em pedaços.
Eu preciso cantar pra não morrer.

domingo, 23 de junho de 2019

cartografia 11

Em alguma camada subterrânea da pele vive o mapa dos trajetos que se perdem, das travessias interrompidas, da vida que resta derramada desde os desencontros. Linhas molhadas e carmim riscam arcos invisíveis que mantém conectadas as veias pulsantes dos amantes apartados, para além da dor e do amor.

Isso eu sei porque meu corpo não esquece.

A voz que eu não lembrava preencheu 8 anos de distância e em 2 segundos era tudo de novo igual do lugar onde paramos. O cheiro. O encaixe perfeito do abraço – minhas mãos dando a volta toda na sua cintura fina e a lateral do seu peito perfeito roçando o lado de dentro do meu braço. O ciúme violento, o diálogo ligeiro, caótico. A mão na barba dele e no meu pescoço. O coração descompassado, a calcinha úmida. Ele, longe de mim e igualmente desesperado, controlando o passo pra não voltar ali no meio de toda a gente e roubar-lhe o beijo na boca demorado de que temos tanta saudade. Meu corpo afastou-se desorientado e foi automático chorando pro ponto de ônibus, e dalí seguiu pulsando pra sala de dança pra viver outro alumbramento.

Um corpo africano e deslumbrante que ensina este meu corpo brasileiro cheio de inevitáveis e horrorosos privilégios a dançar. Generoso, simples, leve. Na travessia, no tambor. Eu não tenho palavra pra descrever, e isso me preenche de certezas.

O corpo pressente, predestina.

Em alguma camada subaquática do meu corpo reside um mapa que registra os percursos dos meus amores, dores e alegrias, desenhando rios convulsos que correm pra minha boca, meus olhos, minhas mãos, se espraiam sob minha pele fina, conformam meu gesto, me são.

Meu corpo é feito de água.

quarta-feira, 19 de junho de 2019

cartografia 10 e 1/2

e se você andasse pela rua
e se você temesse não
e se você corresse pela casa
e se você chorasse não
quando você sonhava com o dia
quando você dormia não
porque você morria todo dia
porque você vivia não

e se você morresse pela rua
quando você andasse em vão
e se você temesse pela casa
e se você vivesse em vão
quando você corria com o dia
quando você sofria não
porque você sonhava com a rua
porque você dormia não

mas se você amasse pela rua
e se você morresse não
mas se você amasse todo dia
só que você
podia não
pode não
sempre o não

dia
mais um dia
outro dia
e esse não

sangue
seu sangue
muito sangue
e esse não

meu corpo morre nesse chão


segunda-feira, 17 de junho de 2019

cartografia 10

Eu trabalho 24 horas por dia. Eu trabalho quando acordo, quando vou dormir, se cozinho, lavo louça, enquanto costuro um vestido azul, ao escrever um textinho desses aqui, ridículo. No coletivo enquanto olho e escuto a cidade. No domingo, jogo de futebol e sofá. Quando desenho pra mim e pros outros, e quando a folha ainda está em branco. Quando não leio aquele livro dormindo na cabeceira. Quando sonho. Quando canto, se silencio e sempre que choro. Quando não danço, se eu fujo e quando sofro (sempre sofro). Quando firmo a cabeça, canto o ponto, acendo a vela, rezo. Eu trabalho.

E isso é parte de uma constatação simples: eu escolhi. Não reclamo, não me vanglorio, não descanso, não desisto. Neste momento, enquanto escrevo e espero a água ferver pra cozinhar mandioca, eu choro e sei, inteiriço, que assim que é, simples e bruto como uma pedra. Eu coloquei meu corpo a serviço da poesia, e isso tomou conta dos meus ossos, do meu sangue, da água que corre no meu corpo, do ar que entra e sai dos meus buracos. Meu corpo trabalha e isso é indomável.

A arte, eu aprendi, é a manifestação da alegria no trabalho. Eu trabalho.

Trabalho é verbo, portanto movimento – rodopio, salto, mergulho, profundeza, superfície, altitudes, gravidade. No atravessado e na travessia. Durante, enquanto, no infinito percurso entre dois instantes, dois músculos, duas notas, duas sílabas. Trabalho não é substantivo, e não tem pronome possessivo que o enfrente.

sábado, 8 de junho de 2019

cartografia 9

Sou filha de uma geração de mulheres infelizes. Que não puderam escolher. Que quando trabalharam, sentiram a culpa de duas mil encarnações por abandonar seus filhos. Que quando não trabalharam, ficaram frustradas. Que não souberam o que ser depois que não eram mais mães indispensáveis de seus filhos. Que não souberam o que fazer com aquele homem estranho que estava dentro de casa quando os filhos partiram, maridos que, por sua vez, não esperavam quase nada delas, ou somente que cuidassem dos filhos, da casa e deles mesmos, quando envelhecessem satisfeitos depois de 35 anos de trabalho. Mulheres que não prepararam sua solidão, sua individuação. Que pararam de transar na menopausa, que nunca se masturbaram, que não beijaram na boca, e que não tiveram outro homem, outra mulher. Que viveram, e sobretudo envelheceram sem direito ao desejo. E que se tentaram se reinventar, causaram uma hecatombe interna e externa. Que não tiveram a condição psíquica de entender a grandeza de suas ações, pois que, apesar de tudo, suas filhas são mulheres outras, diferentes, até invejáveis. Essas mulheres agora, velhas, não conseguem desfrutar a alegria de terem sido o que era possível ser diante de um mundo em destruição. Perdidas entre o que deveriam ter sido, o que gostariam de ter vivido, e a vergonha do que realmente são.

Meu corpo responde a este legado.

Há duas semanas eu estou inerte, letárgica. Mergulhei numa apatia estranha, estou lenta, pesada, endurecida. É claro que tem os cadáveres dos leões cotidianos acumulados na sala, no quarto, na cozinha. Tem os tantos pratinhos espatifados no chão. E tem a derrota civil, esse país que não cansa de nos foder. Mas tem essa herança genética, esse lastro que mostra seus contornos e sombras, todos os dias.

Hoje é o meu corpo que envelhece. Eu não sou a mesma mulher que a minha mãe - graças a ela, inclusive. Mas eu também sou aquela mulher, porque sou uma mulher brasileira, meu corpo foi domesticado, há 519 anos, pra ser subalterno, frustrado e infeliz.

É por isso que não posso sucumbir.

domingo, 2 de junho de 2019

cartografia 8

"Transtorno Dismórfico Corporal (TDC): doença mental que envolve um foco obsessivo em um defeito que a pessoa considera ter na própria aparência. É comum, mais de 150 mil casos por ano no Brasil. O tratamento pode ajudar, mas essa doença não tem cura. Crônico: pode durar anos ou a vida inteira. O defeito pode ser pequeno ou imaginado. Mas a pessoa pode passar horas por dia tentando corrigi-lo. A pessoa pode experimentar muitos procedimentos estéticos ou se exercitar em excesso. Indivíduos com esse transtorno costumam examinar sua aparência no espelho com frequência, compará-la constantemente com a dos outros e evitar situações sociais ou fotos. O tratamento pode incluir terapia e medicação antidepressiva."

Meu TDC é ao contrário: eu me imagino menor, mais delgada, mais leve, mais ágil, mais organizada do que realmente sou. Eu sou uma galinha que se acha um cisne. Auto-estima? Não, auto-sabotagem mesmo. Eu acho que poderia dançar, e então vejo o filme e me frustro, eu sou muito atrapalhada. Eu tiro autorretratos e acho bonito, depois acho feito, sinto vergonha mas me exponho, anseio comentários e quero apagar tudo, quem se interessa? Eu me interesso, isso é importante, caralho. Importante, oi? Eu publico um diário desnudo e difícil esperando que isso faça minha rotina imaginada de 3 vezes de ginástica por semana funcionar. Não vou na aula, não vou na academia, digo baixinho pra mim mesma que trabalho muito, estou cansada, então tudo bem. Tudo bem nada, estou com preguiça e eu detesto ter preguiça, acho feio, acho burro. Mas não vou. Mas segunda feira é amanhã, e dessa vez vou conseguir. Hoje é domingo, o dia está lindamente feio, e eu estou com vontade de chorar.

Eu sou um poço sem fundo de contradição e indisciplina.

terça-feira, 28 de maio de 2019

cartografia 7

Eu não sei jogar xadrez, e isso diz muito sobre mim. Invejo planejamentos, a tática de movimentos sobrepostos, o vislumbre das probabilidades resultantes de variáveis possíveis, o depois do depois enxergado no antes do antes.

Minha vida sempre foi de roldão: ofícios, filhos, amores, dinheiros, desamores. Sou feita de sustos, imperativos e intuições, movimentos reflexos. A malabarista dos pratinhos que giram desordenados sobre as varetas finas que às vezes vão despencando, um a um, traidores e ardilosos, e apesar do cataclisma iminente, a moça mantém o riso no rosto, mesmo com as dores nos ossos, o peito moído, os olhos transbordados, e num tcharam desajeitado põe tudo pra rodar de novo.

45 anos mais ou menos desse jeito, teimosa e valente, sem desistir.

Maio de 2019, Corpo em Risco: 35 pessoas-formosura de tudo quanto é jeito, 6 encontros, 30 horas pra construir coletivamente um espetáculo de 30 minutos, acompanhado de música ao vivo, e eu, além de dançar, responsável por compor a trilha cantando ao lado de 3 músicos imensos. Tudo conduzido por um homem incrível (sim, há homens incríveis), que tem me ensinado, talvez sem ele mesmo saber, o contorno que meu corpo pode ter, pra minha alma res/existir do tamanho que ela tem.

Ói a Juliana no olho do furacão, de novo: quem disse que eu sei improvisar? e se eu não tiver nenhuma ideia no meio do tudo ao mesmo tempo agora, e se me vier um silêncio de encarnações? e se-se-se? Eu ali, toda apertada em leggins e tops de ginástica que eu detesto, desconfortável, com medo, exposta, pelada, encolhida. Eita.

Pois que as varetas permaneceram girando no ar... eu malabarista vermelha. Fizemos, bem juntos, um troço muito, muito lindo. Foi um dia-mante, e eu não vou ter nunca como agradecer.

Fiquei envergonhada de dançar - atrapalhada, pesada, dura... Mas ao mesmo tempo senti a plenitude da certeza de saber que a música mora dentro de mim, inteiriça – meu corpo a serviço, como tem de ser. Pois que eu vivo pelos encontros verdadeiros, que me mostram, com sua gentileza, que generosidade, entrega e alegria são a cola mais potente pra juntar, como ouro, os nossos pedaços.

quinta-feira, 23 de maio de 2019

cartografia 6

A verdade é que nós estamos fodidos para caralho. Ontem peguei um táxi e o rádio estava na Jovem Pan; fiquei ouvindo, entre o pavor e a curiosidade mórbida, por uns 30 minutos, um programa de humor e política. E a única certeza que eu tenho é esta: nós estamos muito fodidos. Na merda mesmo, chafurdando, afogados, cocô em todos os buracos e teimando em acreditar, alucinados, que ainda tem alguma saída, mágica ou lógica. Mas depois dessa meia hora... não, não tem. Nós estamos fingindo que não, mas estamos fodidos. Deprimidos. Exaustos. Desesperados. Com medo de não ter dinheiro, trabalho, palco, fôlego, voz, corpo, espírito, velhice, espaço, tempo, filhos, emprego, comida, cachaça, café, cafuné, abraço, cigarro, escola, universidade, bolsa, aluno, instrumento, lugar. Uma falta de mil palavras. Não tem mais lugar pra gente. Gente que nem eu, corpo, alma, espírito, gesto, afeto, alegria, amor e poesia. Saí do táxi como quem sai do liquidificador.

Cheguei no terreiro. Bati cabeça, cantei,  dancei, entreguei o corpo, dei passagem, recebi, ofereci. Imediato, a mensagem: isso tudo é verdade, e ainda assim, não é motivo pra des-viver. Te vira, Juliana. Você não é fogo, não é água? Respira, faz a curva e vai achar a leveza.

Minhas articulações não dóem, o que já é alguma saúde. Mas todos os meus músculos gritam, reclamam sua existência. Menstruei hoje e vou ter enxaqueca, certeza. O dia é cheio e vai longe, eu de novo na travessia.

Mas nada disso tem importância.

Pára tudo e vai ouvir o disco do Douglas Germano. É sério: Escumalha. Flecha de caboclo, pedrada de Exu. Canção que atravessa e ilumina o escuro da morte, pra nos salvar do desencantamento.

sábado, 18 de maio de 2019

cartografia 5

Ao final do quarto dia dançando, pela primeira vez eu sinto prazer. E um silêncio toma conta da minha alma.

Pausa.

Há 15 meses fui pra uma gira de passe e consulta num terreiro de umbanda, e como em outras vezes em outros lugares, fui tomada - admiração, surpresa, reconhecimento, compaixão, generosidade. Como das outras vezes, algum tremelique no corpo, a vontade solta de chorar, um descabimento e certa ansiedade. Mas naquela noite de fevereiro eu fui invadida subitamente por um amor de uma qualidade inédita pra mim, e, diferentemente das outras vezes, eu abri a guarda. Meu joelho soltou. Minha cabeça sumiu. Meu corpo cedeu. Eu virei. Não foi exatamente bom, não foi como eu imaginava. Foi absoluto. Um espanto, uma honra, uma verdade. Naquela última sexta-feira calorenta de um fevereiro quente, pelas mãos da Pombogira Maria Padilha da mãe Trícia, eu encontrei meu ilê e meu congá.

De lá pra cá eu significo e ressignifico, diariamente, as palavras entrega, confiança, amor, justiça e verdade. Devagarinho, com devoção e humildade, entrego meu corpo à passagem mais formosa, que vem de muito antes e vai pra muito além. Sou parte. Sinto a sombra e a luz, seus contornos difusos ou precisos, misturo, digiro e ofereço, elevo e assento, firmo e assopro, macumbo, trabalho. Eu trabalho. Trabalho muito pra entender, com todas as fibras de que sou feita, que tamanho é o tamanho da alma.

Volta.

Ao final do quarto dia eu reencontro o prazer silencioso de constatar que tudo é a mesma coisa. Sou e estou para a poesia. Meu corpo real é pesado e é passarinho, feito de água, vento e música, e está a serviço.

sexta-feira, 17 de maio de 2019

cartografia 4

Mapas servem ao movimento; em estado de inércia ou paralisia, não há necessidade de rosa dos ventos, estrelas, bússola. Desenhar um mapa é revelar o desejo do percurso. É sem volta e é infinito.

* * *
Assumir-se na travessia no meio da noite escura do pior pesadelo, e aceitar serenamente o que é estranho, difícil, dolorido, feio, e também o que é flor florida, rosal formoso, presente com laço de fita, amor inconteste. Meu corpo-relevo se desenha em relação, junto, com. Minha cartografia solitária só existe em estado de alteridade.

* * *
Hoje percebo que este mapa-movimento do meu corpo é na verdade uma carta de marear, pois que vivemos num naufrágio continuado: desespero, horror, pesadelo cotidianos sucessivos a invadir os buracos do meu corpo pessoal e do nosso corpo coletivo, infectados de lama tóxica, injustiça e deficiência cognitiva. Estar em movimento é condição de sobrevivência; um corpo inerte, parado, inexoravelmente afunda.

sexta-feira, 10 de maio de 2019

cartografia 3

Eu fiz 12 anos de análise. Os 10 primeiros foram só resistência.

Eu não queria estar ali. Chegava atrasada, não ia, não pagava, não queria deitar no divã, discutia detalhes semânticos estúpidos, duvidei da competência da minha analista porque ela tinha joanetes e um nome estranho. Chorei muito, falei demais e disse muito pouco. Adoeci, machuquei um tanto de gente, inclusive a mim mesma, fui pro hospital, quase morri, tive que tomar remédio pra não enlouquecer. Era peixe no samburá, debatendo desesperada como fosse asfixiar. Eu não queria ser, mas sim parecer com aquilo que eu achava que todo mundo ia achar bonito que eu tivesse sendo. E aquele processo violento me colocava diante da escolha única possível: ou a gente morre, ou a gente vive. E é tão mais fácil morrer.

Mas nos dois últimos anos de análise experimentei a sensação única e maravilhosa de entrega, perdão, amor e profundidade. E ouvi então o silêncio escuro transparente do oceano mais limpo e mais bonito que habita o centro do meu coração e da minha inteligência. Eu gostei molhado do que encontrei. Mudei a vida, ensolarei, no pra-sempre-bom das alegrias desimportantes e na beleza do dia-a-dia predestinado de poesia.

Escolho viver. Meu coração cavalo sem domar. Minha voz vento e água, condão e condenação, a serviço. Olhos molhados. Não ando só. E dou graças.

Hoje, é meu corpo envelhecendo que resiste, volta a ser lambari no samburá. Tem sono, dor, perde o tempo, debate, machuca, desencontra, arfa, desmaia. O movimento que nasce nos meus olhos e no meu peito lhe é estranho, alheio, como se os contornos e os preenchimentos não me pertencessem. Eu não sei onde estão minhas costas, minha espinha é esfarelada, meus pés fazem bolhas internas sanguíneas sucessivas, como se não pudessem tocar o chão, ao tempo que meus quadris, que sempre julguei fáceis, são um peso rígido mal esculpido em pedra seca, áspera e sem formosura.

No meu corpo ainda não acho a música, tampouco o silêncio, menos ainda a leveza. Ainda quero parecer. Mas a escolha permanece a mesma. E a minha resposta também.

domingo, 28 de abril de 2019

cartografia 2

Meu corpo está a deriva, e desenha riscos disformes.
Rígido e frouxo, ele dói.
Constato, perturbada, que não sei onde está o centro, meu umbigo perdido pesa duas toneladas. Meus olhos, junto com ele, querem afundar definitivo no assoalho da sala ensolarada e quente, cheia de gente tão perto e tão longe. Ninguém me reconhece. Eu não me conheço.

Mas levanto o rosto, em resignação religiosa.
Não sinto prazer, nem alegria. Ainda. O que sinto é da ordem das certezas.
Tudo ao redor parece um grande, sorridente e ainda distante devir.
Meu corpo tem pressa e vergonha. Meu corpo dói.

Há uma beleza sofrida em abandonar-se ao ridículo.

cartografia ou um corpo que res/existe - abertura

Exu acertou o pássaro ontem com a pedra que lançou hoje
 e acertará, com a pedra que lançou ontem,
 o pássaro que ainda não voou


Começo aqui um registro cartográfico do meu corpo. 

Viagem anunciada: desconforto, desformatura, deslocamento.

Dançar nunca foi uma opção.
Dançar nem sequer foi um desejo.
Dançar sempre foi a saudade do que eu jamais fui.

Mas à semelhança dos meus partos - filhos, discos, espetáculos - meu corpo conhece a inércia e a iminência, e entre uma e outra, o vazio silencioso que antecede as importâncias. Feito de água, vento e palavra, a um só tempo continente e cachoeira.

Dançar é agora urgência. Ato político. Gravidez da voz que sempre tive e da que ainda terei. Procedimento e polinização.

Risco aqui a cartografia do meu corpo. Um corpo cruzado, atravessado e na travessia. Corpo-percurso, subversivo, resiliente, e que envelhece. Um corpo em busca do que já foi, e que quer lembrar o que será.

cartografia ou um corpo que res/existe - prelúdio

"... o projeto de normatização deste Brasil de horrores, para que seja bem sucedido, precisou de estratégias de desencantamento do mundo e aprofundamento da colonização dos corpos. É o corpo, afinal, que sempre ameaçou, mais do que as palavras, de forma mais contundente o projeto colonizador fundamentado na catequese, no trabalho forçado, na submissão ostensiva da mulher e na preparação dos homens para a virilidade expressa na cultura da curra: o corpo convertido, o corpo escravizado, o corpo feito objeto e o corpo como arma letal. Este Brasil é um país de corpos doentes, condicionados e educados para o horror como empreendimento.
(...)
É neste sentido que não acho que o Brasil deu errado. (...) O Brasil foi projetado pelos homens do poder para ser isso aí: excludente, racista, machista, homofóbico, concentrador de renda, inimigo da educação, violento, assassino de sua gente, intolerante, boçal, misógino, castrador, faminto e grosseiro. Somos isso tudo, não? Nosso problema não é ter dado errado. O Brasil como projeto, até agora, deu certo.
Eu não desisto. O trabalho é miúdo, constante, longo, de enfrentamento e aprendizado. A ideia de resistir não é mais suficiente. O papo é reexistir mesmo, com a paciência da mulher rendeira, a ginga do capoeira e a destreza de Ogunhê na forja das ferramentas: arado, lança, pilão e cimitarra.
(...)
A nossa chance é começar a dar errado, como indivíduos e coletividade, com a maior urgência. Essa é a tarefa/jangada do Dragão no mar de Aracati para os próximos dias, meses e anos. Embarquemos nela desde já, desafiando os ventos da tempestade."

Luiz Antonio Simas, 26 de outubro 2018

sábado, 27 de janeiro de 2018

carta para meus filhos

Há algum tempo, vocês sabem, não comemoro datas tradicionais, aniversários, dia das mães, natal. Acho mais bonita a celebração dos pequenos milagres cotidianos, o cheiro do café coado de manhã cedo, a comida fresca na mesa, um vinho ocasional, a alegria incomparável das pequenas e profundas conquistas. Talvez porque saiba, definitivamente, que minha sina (dor e prazer) é cuidar de gente, com minha voz e com minhas mãos, e isso não é coisa que valha algum dinheiro nesse mundo todo torto, e no final das contas, nem me importa mais, a gente vai equilibrando os pratinhos. Talvez também porque envelheça rápido e entenda, cada vez mais profundamente, aquilo que aprendi nas aulas de filosofia, e que está no evangelho de São João: os atos de amor são a única coisa que realmente fica - e entendo por ato de amor as diversas e imprescindíveis formas de gentileza, compaixão, justiça, alimento e beleza, e ainda todas as maneiras com que duas ou mais pessoas resolvam se relacionar verdadeiramente com seus corpos e seus espíritos.
Enfim, tudo isso pra dizer que não escrevi pra vocês no ano novo ou aniversário, mas agora, numa tarde quente de janeiro, em que percebo que temos coisas a comemorar, miúda e emocionadamente, pois que nas últimas semanas vivemos pequenos milagres e singelas conquistas, resultados de nossa valentia, teimosia, inteligência, da generosidade dos que nos cercam, e de uma pequena dose de sorte (que tantas vezes nos falta).
Pois vejam.
O Uruguay é um imenso azul celeste de horizonte infinito e além, com um vento incessante, e a gente se sente grande e pequeno ao mesmo tempo. Quando vocês vierem (e tenho certeza que virão), vão ver uma gente comprometida, sabida, que usa suas coisas à exaustão (me lembrei a todo tempo de um dos meus poemas preferidos do Brecht, "De todas as obras", e a sublime beleza das coisas que foram tocadas por muitas mãos...), que ri largo, que já sofreu muito, não tem quase nada, e se orgulha do lugar que está construindo; que te beija as bochechas e aperta a mão de verdade; que põe plantinhas pra crescer em todos os cantos; que tem muitos livros, muitos!; que fica na rua até tarde aproveitando o pôr do sol. Enfim, uma gente e um lugar pra viver.
E aqui, miúda, quente e cheia de ventos, eu lembrei de uma coisa esquecida.
Estar num lugar em que ninguém te conhece é das sensações mais magníficas que existem, a inebriante iminência de se ser tudo o que você queria ser sem medo. Conhecer gente muito diferente da gente, no variado comezinho, e ainda assim, reconhecer-se semelhante e partícipe, é sublime. Uma combinação linda de solidão, alegria, surpresa e completude. Incerteza e poesia.
E olha que coisa: vocês estão, por outras circunstâncias, diante dessas mesmas possibilidades, e eu me emociono (e é exatamente isso que queria lhes dizer) com a importância desse momento: você, João, e você, Luiza, e a imensa potência do que estão construindo em e para suas vidas, sozinhos, mas de mãos dadas a uma grande força amorosa erguida desde muito tempo por aqueles que estão juntos de vocês e sempre estiveram. Neste ponto do caminho, de incerteza e poesia, vocês podem se inventar e se reinventar. Vocês podem ser o que quiserem ser, não ser nada e ser tudo. Vocês podem conhecer gente diferente e igual. Mesmo que a realidade feia e imperativa mostre suas unhas e seus limites, mesmo que estejamos condenados a uma engrenagem perversa e injusta (e mudar isso nos custe talvez a vida), vocês podem ser, onde for, do jeito que for, com quem for; com frio na barriga e tremor nas mãos, vocês podem, intransitivamente - a tal combinação linda de solidão, alegria, surpresa e completude.
Isso fez um tcharam aqui, e preenche agora meu peito vermelho de um sentimento único e indizível. Choro. Porque eu sei (ao tempo que também não sei) o tamanho das suas asas, a profundidade dos seus olhos, da água e do sangue que corre na carne de que são feitos. E dou graças.
A isso, a esse horizonte igualmente celeste e infinito, cheio de vento, sol e sorrisos largos, à solidão e à alegria, eu ergo meu copo, e brindo a vocês dois, João dos olhos de floresta, Luiza ensolarada dos dias, meus amores de ouro, e agradeço a sorte, honra e grandeza que é ser sua mãe.
Montevidéu, 17 de janeiro de 2018.

sexta-feira, 9 de junho de 2017

carta para lívia

Sabe, eu demoro muito pra ouvir os discos que ganho. Porque eu preciso ouvir sentada, só ouvir e mais nada, não sei fazer outra coisa quando estou ouvindo música, acaba que vira um tormento, as pilhas que vão se acumulando na estante, e eu olhando pra elas morrendo de culpa de não saber o que tem dentro das infinitas caixinhas e portanto correndo o risco de não ser acometida por um encontro verdadeiro, um susto inesperado de beleza, que está ali, escondido, bem na minha frente, enfim.
Mas hoje eu parei, sentei e escutei.
E que assombro que foi.
De partida, eu já ia gostar do disco porque vocês gravaram a música mais linda que há (Clube da esquina, a mesma que me fez chorar ridícula no Tupi). Depois, sua afinação é tão linda, tão linda, que dá um gosto – todas as notas, e tantas notas, e cada uma delas em seu mais perfeito lugar –, um sopro fresco e claro de alívio, vou dizer.
Mas o disco é mais que a primeira canção e é mais que sua voz impressionante (im-pres-si-o-nan-te). Ele vai abrindo nosso peito pras canções que já conhecemos, e isso é tão bonito (que eu acho um saco essa obrigação modernosa do "tem que ser só música inédita, tem que ser compositora também", como se o difícil e imenso ofício da intérprete fosse menor, e como se não houvesse tanta canção absolutamente imprescindível de se cantar e cantar e cantar de novo e de novo).
E tem esse seu moço bonito que é tão elegante e que vai junto de mãos dadas ao lado seu, que é outra coisa linda de se ver e ouvir. De novo, cada nota em seu lugar, sem mesquinharia e sem desperdício.
A música que vocês fazem (juntando aqui o disco e o show) é uma surpresa, é generosa e é livre. E se tem uma coisa que a gente precisa não perder (inda mais nesse mundo tão esquisito) é a capacidade de surpreender e ser surpreendido, e de ser veículo da música, estar na prontidão e a serviço, e deixar ela fazer o que ela quiser da gente.
Eu ouço às vezes um quase-infantil (não sei como dizer doutro modo...) no seu jeito de dizer algumas palavras, como se não desse conta do tamanho delas, como se houvesse uma distância entre a boca e a carne... será? Aparece às vezes numa nota longa, às vezes num grave, ou numa vontade de mais volume, num gesto, nos olhos fechados ou lá-longe. Eu poderia falar ainda (já pedindo desculpas pelo falatório) que eu queria ouvir no disco as guitarras mais adiante na mix, mas abraçadas à sua voz, mais perto.
Mas esqueça isso, que não tem qualquer importância.
O que fica e interessa é a formosura docês, no disco e no show. Uma coisa importantemente bonita.
Muito obrigada pelo assombro e pelo encontro. Por encharcarem meus olhos no meio da tarde. Uma sorte límpida. Que a gente não se perca mais.

terça-feira, 21 de março de 2017

cartografia 1

O colo exibe pequenas marcas verticais, inveja talvez a tez de um róseo crepe de seda pura.

Os seios melancolizam as formas de outras encarnações - pequenos, túrgidos, lactantes. Agora maiores, assimétricos, vão cansados de um outro orgulho e aos poucos perdem a batalha.

As espaldas seguem rígidas e carregadas. Aguentam. Suportam. Mentem.

A dobra das axilas, ou mais precisamente o encontro do torso com a cavidade por baixo da articulação do ombro, forma desde sempre uma prega levemente curva, reconhecível. Ali restam escondidos os desejos, dos quais a menor lembrança viça os mamilos, estes ainda espertos e responsivos. Dois olhos da alma.

A distância entre o esterno e as cristas aparece preenchida de acúmulos, ondas, maciezas. Sucedem-se em teimosia. Alteram, vagarosa e subitamente, números e molde. Autoconfiantes, ficam. Desconformam, desconfortam, ainda que a cintura insista em desenhar sua linha umectante, sinuosa e potente.

Pelos nascem e povoam rápido a partir da cicatriz.

***

Eu não tenho medo da morte. Eu acho digno envelhecer.

Quando fecho os olhos, no entanto, a memória da minha carne agarrada nos meus ossos, coberta por minha pele, manipulada por meus tendões e nervos, encharcada do meu sangue fino e vermelho, tem outra formatura. A imagem da mulher que eu fui parece tão distante desta que eu sou. Como se de tão leve os pés daquela mulher não tocassem o chão. Como se pertencesse a um filme italiano. Como se eu algum dia soubesse dançar.

Eu sinto saudade. Minha alma está deslocada, inquilina. Preciso reabitar o meu corpo.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

carta acorde

minha única resolução no novo ano foi deixar meus cabelos crescerem.

a coragem das células que obedecem seu desígneo.
a teimosia das células que insistem na multiplicação.
o afeto das células que entrelaçam sua dança em espiral.

meus cabelos crescem em silêncio.
vagarosamente.

quinta-feira, 11 de agosto de 2016

carta avoenga

Quando eu nasci, minha mãe queria me dar o nome de Júlia, em homenagem à minha avó paterna. Minha vó não deixou: achava seu nome triste. Então minha mãe, espertinha, alegrou o nome e a avó, virei Juliana.

Minha vó Júlia era de fé. Noviça tirada do convento pra casar contra sua vontade, teve 14 filhos em silêncio, entre eles um padre, duas freiras missionárias, outras duas freiras de clausura carmelitas descalças. Carregava o mundo todo em suas orações e tinha um candeeiro na igreja de Itajubá cujo óleo ela renovava semanalmente, pra que nunca apagasse a fé da sua família. Em louvor a Nossa Senhora, crochetou com linha fina toalhas de banquete para as mulheres suas filhas e noras, milhares e milhares de pontos, infinitos, e a cada um, uma Ave Maria. Quando morreu, minha vó Júlia foi enterrada vestida como religiosa, após permissão enviada diretamente pelo Papa.

Meu avô materno era Luiz, e deu seu nome pra minha irmã e minha filha. Meu vô fazia bolo enfeitado pros filhos quando caíam-lhe os dentes de leite e construía com madeira e lata os brinquedos de presente para o Natal. Quando criança, sua mãe queria dissuadi-lo de jogar futebol, e só deixava o garoto sair pra rua depois de passar algumas horas bordando, coisa de menina. Meu vô aprendeu a fazer barrado de pano de prato, monograma e caminho de mesa, e toda tarde estava na rua jogando bola com os pretos. Dele não herdei os olhos azuis, mas o nome que me define.

Essa madrugada, eu não consegui dormir. Olhei mais uma vez pro presente que ganhei do meu Guimarães, o anel de prata com a libélula das águas doces enfeitada de madre-pérolas do mar profundo e que bate asas! A vida é sopro. Lembrei no meu nome e da minha vó que não conheci e do meu vô que pouco conheci. Acendi uma vela, lavei nossa quartinha d'Oxum, enchi o copo do nosso São Jorge, cantei em silêncio a oração mais linda que meu pai me ensinou.

Minha vó e suas mãos estão em mim.
Meu vô e suas mãos estão em mim.

E eu sou essa bagunça, nós e pontos infinitos bordados de fé, água, tristeza, sopro, paciência e teimosia. Amar está no meu nome. Teço com dor e alegria o pano limpo do meu destino e tenho orgulho dos meus avessos. E canto pra não morrer.

terça-feira, 17 de maio de 2016

carta poente

quando o sol se põe diante do meu horizonte o mundo pára de girar por um instante.
tanto a dizer nesses dias cheios de presságios lindos e apocalípticos - o disco alimentado de afeto, a catástrofe de um país despedaçado, o disco parido em dor e beleza, a violência institucionalizada, o espetáculo do disco que se predestina formoso, o país e todas as suas pessoas vivas e mortas sendo afogados na merda e na barbárie.
tanto a pensar, tanto.
não sei onde arrumaremos as forças.
tanto a fazer, meu deus, tanto.
mas nessa hora em que o céu laranja invade as paredes da minha casa e o sol se põe deslumbrante diante dos meus olhos imensos e ofuscados, eu não sou nada além da versão cega, aguada, doente, fácil, egoísta, medrosa, baixa, vagabunda e triste de mim mesma, e tudo dentro do meu corpo se transforma nesta saudade colossal.

terça-feira, 1 de setembro de 2015

as pedras no caminho [ou amor mineral

lapidar - adjetivo de dois gêneros (1727)

1 relativo a lápides ou pedras

2 gravado em pedra (diz-se de inscrição)

3 (fig) que é conciso como as inscrições gravadas na pedra (falando-se de declaração, forma, fórmula, frase, estilo, verso etc.); nítido, claro, preciso

4 (fig) de qualidade superior; primoroso, perfeito

5 (gráf) diz-se de variedade de caracteres tipográficos que se distinguem pelas hastes quase uniformes, sem cerifas, e se inspiram no talho disciplinado de inscrições feitas a cinzel no mármore ou em outras pedras


lapidar - verbo (1789)

1 (t.d.) atacar ou matar com pedras; infligir o suplício da lapidação a; apedrejar

2 (t.d.) fig. submeter ao processo de lapidação (uma pedra preciosa bruta)

3 (t.d.) fig. tornar apresentável (o que é tosco e grosseiro); aperfeiçoar, aprimorar, burilar; educar


[meus olhos cheios de areia, minha garganta de rubis magmáticos, minhas mãos esmeraldinas, nosso amor diamante, e o futuro cristalino ao teu lado. 
ao teu lado, os números que são os nossos: 1, 2 e 7.
ao teu lado, que são dois: dentro e fora.
teus olhos turmalina em todos os tons de azul do mar que está em teu nome. 
o amar do meu é todo teu, monolito, esférico, inteiriço, infinito e além.

sexta-feira, 28 de agosto de 2015

do destempo

minha saudade é futuro do pretérito
futuro imperfeito

esperava tua figura na platéia
procurava até o último acorde
meu coração amarrado nos saltos vermelhos da trapezista

estaríamos na tua audiência
encharcaríamos tuas notas uma a uma
preencheríamos o horizonte de belezas

predestinaríamos

constituiríamos, enfim, em doce escândalo
a nova ordem das coisas
casa, mar de todos os santos
ouro mato vento
santíssima trindade

– teu nome dentro do meu
mar e amar dentro dos nossos
cond(enaç)ão –

a ausência do que viveríamos é mais presente que tua memória
que ainda exala
teimosa
seus odores

todos os dias

terça-feira, 25 de agosto de 2015

carta turva

os dias, inexoravelmente, passam.
desnorteados.
chega de repente uma lembrança, um vento bom. vai embora. não sei nem da saudade.
vez por outra a macaca pergunta rápido e meu coração dói doído; mas ela, como sempre, sabe de tudo. ela também está em silêncio.
não sei onde enfiar a poesia, os desejos partilhados, a risada solta, o calor do corpo.
meus olhos cansados teimam em não dormir direito atrapalhados pelos sonhos confusos que desde então me visitam toda noite - sonho muito e nada se aproveita. nosso dia seguinte nunca esteve tão incerto, o presente de oito anos acumulando faturas, os cadáveres de leões moribundos pela sala, os seus olhos de azul profundo miúdos se acinzentando, os corações mudos procurando remontar-se dos caquinhos, a cicatriz que ainda não fecha.
as contas, todas elas, não fecham.
é que não basta a saudade. não bastou o amor desigual. não bastou o esforço díspar. nosso futuro era maior e mais bonito que isso, e eu não me perdôo por não ter entendido a tempo de suspender o tempo e não deixar o sofrimento entrar na minha casa e na minha cama. minha cama que ainda padece.
envelheço rápido. estou tão triste. meu corpo está cansado, murcho, adoeço.
ainda vou esquecer as palavras que não queria ter lido e ficar só com a memória, ainda que pouca, do que foi bom.
por enquanto, só arde.
mas os dias, inexoravelmente, os dias passam.

domingo, 23 de agosto de 2015

carta diáfana

No dia 13 de dezembro de 2006 eu fui internada com uma infecção renal que evoluiu para uma septicemia. Eu tinha 33 anos, e além dos meus dois filhos lindos, minha vida valia uma separação e meio casamento em andamento, um disco inacabado, 50 e poucos quilos, um emprego de merda na repartição, cigarros, insônia, um gato maltratado. Minhas tardes de amor acabavam de virar brevidade, meus domingos eram tão tristes. Mamãe veio cuidar de mim. Papai telefonou pra tia Lucy, que enviou consecutivo um envelope anunciando em caligrafia antiga "Valdo e Hebe Pétalas Bentas de Santa Terezinha para Juliana". Dentro dele, duas dúzias de pétalas róseas de rosas secas, ainda perfumadas, fazedoras de milagres.

Tia Lucy era freira carmelita descalça, viveu sessenta e cinco anos em clausura, cada um e todos eles dedicados a rezar. Ainda menina fui visitá-la com meu pai e seus olhos eram maiores que os meus, do azul mais claro e mais transparente que jamais vi ou verei. Sessenta e cinco anos de joelhos e mãos entrelaçadas, carregando os pecados do mundo nas suas costas.

Depois de dez dias dormindo com o envelope sob o travesseiro, eu saí viva do hospital. Era antevéspera de Natal, fazia tanto calor, não comprei presentes pros meus filhos, não telefonei pra Tia Lucy. As pétalas de rosa foram parar na capa do disco, que a ela dediquei. O meio-casamento acabou. O emprego também, e a insônia, os cigarros, o gato. Meus domingos não são mais tristes e as tardes de brevidade se converteram em horizonte, casa e barco, rosal formoso, e além.

Pétalas de Santa Terezinha fazedoras de milagres.

Minha tia Lucy morreu esta manhã. Eu sinto tristeza e desamparo. Minha tia Lucy morreu neste domingo de sol e eu sinto algum desespero, apesar de saber que ela vai seguir olhando por mim, por meus filhos que ela não conheceu, por meus olhos grandes como os seus, por nossa casa e barco, nosso rosal formoso, e além.

Meu pai disse que hoje tem festa no céu porque a tia Lucy chegou lá. Eu, aqui, miúda, encolhida, vou dormir com o envelope sob o travesseiro.



quinta-feira, 12 de março de 2015

carta para Douglas

Então na tarde da quinta-feira, a chuva fria, o coletivo, avenida parada, internet ruim, vou tentado pescar a notícia e a história antes de ouvir a canção. Entendo, e o ar encurta. Na consolação, enquanto troco de ônibus e vejo os muitos carros descendo aguados, ouço o violão-anúncio desdobrado, o samba, a frase no grave consecutiva: pressinto; predestino. Que daí vem facada, certeza. 

Choro na cidade. A cidade me transpassa. 

Se a franqueza rude não está em meu repertório (e antes assim fosse...), saiba que a dor está, monolítica, vulcânica, abissal. E é disso que se alimenta o canto que, daqui a pouco, vou vomitar violenta e docemente no bar dessa contenda tão horrorosa em que estamos metidos. 

Que tempos os nossos. Que tempos. 

O que alivia (alivia?), é que, apesar das minhas tantas covardias, desesperos e inércias, ainda não endureci o coração nem sequei os olhos, e tenho quem ao meu lado na mesma condição. Valei-me, que isso há de ser alguma valentia. E dou graças. 

Vamos juntos, Douglas, de mãos dadas. Obrigada por mais esse presente, que, de novo em igual medida, não vou ter como agradecer. 

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

na travessia, dia 10

mantena, mg - são paulo, sp

1034 quilômetros, 17 horas de viagem.

depois de passar por belo horizonte, entardece. viagem de ventania, nem lembra se olhou pra trás ao primeiro passo aço aço. meus olhos enchem, escorrem, explico pra luiza que esta é minha música preferida, e que este disco me acompanhou nos 27 dias de hospital que antecederam seu nascimento. também se chamavam sonhos e sonhos não envelhecem. meu coração transborda, as montanhas de minas gerais ao meu lado. em meio a tantos gases lacrimogênios ficam calmos calmos. olho nos seus olhos tão azuis, cada coisa no seu lugar. e lá se vai mais um dia. quero cegar as retinas no sol desta tarde e afogar meus ouvidos nesta voz. de tudo se faz canção e o coração na curva de um rio rio rio. respiramos juntos, gostamos o mesmo gosto, nossa memória compartilhada, nosso amor muito e no real diverso, que aprendi o presente que ganhei: tamanho é o tamanho da alma. esquina mais de um milhão, quero ver então a gente gente gente.

e lá se vai mais um dia.

"E me cerro, aqui, mire e veja. Isto não é o de um relatar passagens de sua vida, em toda admiração. Conto o que fui e vi, no levantar do dia. Auroras. Cerro. O senhor vê. Contei tudo. Agora estou aqui, quase barranqueiro. Para a velhice vou, com ordem e trabalho. Sei de mim? Cumpro. O Rio de São Francisco – que de tão grande se comparece – parece é um pau grosso, em pé, enorme... Amável o senhor me ouviu, minha idéia confirmou: que o Diabo não existe. Pois não? O senhor é um homem soberano, circunspecto. Amigos somos. Nonada. O diabo não há! É o que eu digo, se for... Existe é homem humano. Travessia."

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

na travessia, dia 9

voltamos à loja de tecidos pra comprar o chapéu que tínhamos visto no primeiro dia, ramenzoni xxx pele de coelho cor pino e fita de gorgurão marrom, a caixa com diversas anotações de preços, rabiscos e códigos feitos com as letras trêmulas do seu archimedes que nos recebeu com delicadeza e camisa de linho, dessa vez azulzinha. escolho um corte de algodão com rosas vermelhas e amarelas sobre o fundo branco, antigo. seu archimedes conversou mais um tiquinho conosco, a mesma voz rouca e dicção cuidadosa, perguntou se estávamos de partida, a viagem é longa, eu sei, já fiz muito, mas agora compro tudo em santa catarina, vou de avião, bem melhor, e abençoou minha casa e minha família, deu dois beijos secos nos meus rosto quente e nas bochechas da minha menina linda, abraçou-nos com doçura, meus olhos encheram súbito descontrolado, os teus também, a camisa azul de seu archimedes refletindo nos olhinhos molhados sob a sombra do novo chapéu. primeira despedida.

o caminho de volta foi dar no cemitério da cidade, no alto. todo torto e amontoado, não tem corredores definidos e árvores de sombra, parece que os mortos vão estar todos reunidos de mãos dadas debaixo da terra tamanha a confusão de lápides, tijolos, flores de plástico, cruzes, retratos descoloridos, datas nomes cimento. lá no canto de cima, a chuva do ano passado levou um tanto do terreno barranco abaixo, imagina o susto, e alguns homens refazem o arrimo. nenhum funcionário pra nos dizer onde estaria a lápide da vó e do vô, então fomos tropeçando tentando achar algum sinal. datas nomes cimento. calor. o corpo desistente procura desesperado por um alento. segunda despedida.

asa de ouro foi enterrada depois do almoço, no pé da árvore que fica junto à cerca lateral, folhas de mangueira trançadas por baixo, uns raminhos de carambola por cima, e junto do corpinho um pedaço da pedra preciosa que quebrou dias atrás, a outra parte quero fazer um pingente, cê me ajuda, mãe? depois terra por cima alisada com carinho, uma cruz de gravetinhos e florzinhas apanhadas por ali. lulu me abraça e chora doído, escreveu um poema na primeira página do caderninho da coleção de minerais, o maior que eu já fiz, mãe. lembro o verso decorado do bandeira, olho teus olhos, respiramos juntos. terceira despedida.

o sol se pôs na cachoeira dos padres, uma parede de pedra rasgando a mata. um pouco de medo nos pés. lembro a canção inteira dessa vez, canto alto, peço licença, agradeço. vou ter saudade dessa água. quarta despedida.

hoje teria sido aniversário de 20 anos do meu primeiro casamento, e eu não sinto nada. quinta despedida.

no começo da noite de lua cheia, os cães todos latem muito, uivam forte, uma barulheira. o céu é inteiro. venta na varanda. a vizinha traz mandioca que acabou de tirar do quintal. calango fala, tia jovina do sertão fala, nós rimos. sexta despedida.

fechamos as malas, amanhã partimos cedo. sétima despedida.

recebo teu carinho nos meus cabelos curtos. ama-me? mais. promete? juro. sempre? pra sempre. teamante. teamantena.

"– “... Mas, porém, quando isto tudo findar, Diá, Di, então, quando eu casar, tu deve de vir viver em companhia com a gente, numa fazenda, em boa beira do Urucuia... O Urucuia, perto da barra, também tem belas troas de areia, e ilhas que forma, com verdes árvores debruçadas. E a lá se dão os pássaros: de todos os mesmos prazentes pássaros do Rio das Velhas, da saudade – jaburu e galinhol e garça-branca, a garçarosada que repassa em extensos no ar, feito vestido de mulher... E o manuelzinho-da-troa, que pisa e se desempenha tão catita – o manuelzinho não é mesmo de todos o passarinho lindo de mais amor?...”

Podia ser? Impossivelmente.

Eu não tinha sido capaz de perguntar aqueles ensalmos a Diadorim, de fato só em coisa à-toa se conversou, trivial a respeito de munição e meus armamentos, e avio de guerra. Véspera. As horas é que formam o longe."

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

na travessia, dia 8

o dia amanheceu ao meu olhar igual aos demais, azul inteiro vastidão calor monolito, mas calango anunciou, hoje chove. transcorreu o dia quase parado, eu querendo murchar, luiza indisposta, e quando foi o fim da tarde, ventou diferente, as nuvens escureceram rápido e choveu, amém.

a vida muda inteira com a chuva.

nesses dias crus do sertão, o tempo é mais lento e farto, minha pele vigora ao sol e água limpa, ao tempo que envelheço. envelhecemos, e eu acho isso tão bonito. meus olhos imensos querem guardar o cheiro abençoado da terra molhada e todo o mundo de delicadezas e misérias que vasculho em cada buraco desse lugar. teus olhos azuis estão diamantinos. nosso amor cresce e predestina, rosal formoso.

a vida muda inteira a toda hora, aqui e onde quer que eu esteja, a despeito do meu coração riobaldiano que quer o feio apartado do bonito e todos os pastos demarcados. eita. mas aprendo, envelheço e aprendo, miúda, devota e teimosa.

"Que fosse como sendo o trivial do viver feito uma água, dentro dela se esteja, e que tudo ajunta e amortece – só rara vez se consegue subir com a cabeça fora dela, feito um milagre: peixinho pediu. Por quê? Diz-que-direi ao senhor o que nem tanto é sabido: sempre que se começa a ter amor a alguém, no ramerrão, o amor pega e cresce é porque, de certo jeito, a gente quer que isso seja, e vai, na idéia, querendo e ajudando; mas, quando é destino dado, maior que o miúdo, a gente ama inteiriço fatal, carecendo de querer, e é um só facear com as surpresas. Amor desse, cresce primeiro; brota é depois."

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

na travessia, dia 7

no sétimo dia, começo a sentir saudade.

saudade do meu filho de olhos de floresta. da minha casa, meu chuveiro, meu quintal e a mesa de madeira imensa, meu armário de louças. saudade de dormir e trepar na minha cama. memória dos seus olhos, da sua risada solta, dos cabelos enroscados nos meus dedos. saudade do meu horizonte de dois lados e do café, todos eles. saudade de cantar, dos meus amigos, do risco, trabalho em alegria. saudade sobretudo do algum silêncio.

dias atrás, no almoço, um anu branco bicou um filhote de rolinha já emplumado que caiu do ninho ao pé da caramboleira. minha macaca e o calango acudiram o passarinho, a asa muito machucada, limparam a ferida e colocaram protegida numa gaiola, com água e quirera, até se recuperar. luiza deu nome: asa de ouro. hoje soltaram no terreiro que é pro bichinho não acostumar na gaiola e pra ver se já consegue bater a asinha. asa de ouro andou, ciscou, comeu, até deu uns pulinhos, mas no entanto ainda não voltou a voar.

"Reinaldo, Diadorim, me dizendo que este era real o nome dele – foi como dissesse notícia do que em terras longes se passava. Era um nome, ver o quê. Que é que é um nome? Nome não dá: nome recebe. Da razão desse encoberto, nem resumi curiosidades. Caso de algum crime arrependido, fosse, fuga de alguma outra parte; ou devoção a um santo-forte. Mas havendo o ele querer que só eu soubesse, e que só eu esse nome verdadeiro pronunciasse. Entendi aquele valor. Amizade nossa ele não queria acontecida simples, no comum, sem encalço. A amizade dele, ele me dava. E amizade dada é amor. Eu vinha pensando, feito toda alegria em brados pede: pensando por prolongar. Como toda alegria, no mesmo do momento, abre saudade. Até aquela-alegria sem licença, nascida esbarrada. Passarinho cai de voar, mas bate suas asinhas no chão."

domingo, 4 de janeiro de 2015

na travessia, dia 6

assembléia de deus ministério de madureira, igreja batista do campo novo, igreja evangélica assembléia de deus pentecostal da promessa de jesus cristo, comunidade evangélica plenitude de deus, congregação batista igreja batista memorial, igreja cristã evangélica casa de oração, primeira igreja batista de mantena, seja bem vindo comunidade nossa senhora do amparo, igreja pentecostal raio de luz, igreja cristã apostólica moriá, igreja assembléia de deus, ceb centro educacional batista mantena, loja maçônica luz e caridade, católica nicoline, igreja metodista wesleyana santidade como estilo de vida, templo pentecostal, igreja presbiteriana de mantena congregação bairro bela vista, igreja assembléia de deus reviver, igreja cristã maranata, igreja presbiteriana filadelfia, igreja presbiteriana de mantena, igreja adventista do sétimo dia, liga católica jesus maria josé, matriz de santo antônio, cemitério santa luzia, jesus cristo é o senhor, igreja evangélica assembléia de deus, lar santo antônio, igreja pentecostal deus é amor, igreja batista getsêmani, igreja metodista missionária de mantena, comunidade são pedro, ipb igreja presbiteriana de vila nova, missão evangélica resgate, paróquia nossa senhora das graças, assembléia de deus ministério de madureira, assembléia de deus ministério belém vitória do espírito santo, igreja o brasil para cristo em avivamento espiritual, assembléia de deus fogo no altar uma igreja viva servindo ao deus vivo!, comunidade nossa senhora aparecida, igreja pentecostal tanque de betesda, assembléia de deus ministério morada do altíssimo.

pela manhã, visitamos a casa do filho da solange, amiga de infância das tias, vizinha da casa da vó elza. solange com 18 anos já tinha dois filhos, depois morou nos quatro cantos do mundo, casou com um americano, e agora com mais de 50 voltou a mantena; passa o dia cuidando da mãe com alzheimer e construindo sua vida no second life. seu filho geraldo, o gezinho, é colecionador e comerciante de minerais, e fomos à sua casa pra conhecer seu tesouro. estantes de fórmica de madeira expõem com cuidado mais de 3 mil minerais e fósseis, incríveis, que o gezinho vai dedicadamente apresentando, nome científico, origem, grau de dureza, preciosidade, valor, tipo de minério e outras curiosidades. ao saber do gosto da minha luiza pelo assunto, abre as gavetas e presenteia a macaca, topázio, dioptásio, cianita, muscovita, rubi, esmeralda, aghata, granada, fóssil de escargot que veio da frança, labradorita de madagascar, e então configura-se o início da coleção de minerais da luiza, com 20 pedras e 2 fósseis, e ela, siderada, começa a registrar em seu caderninho o nome e o desenho de cada pedra, pra não esquecer. gezinho é muito tranquilo, sorridente, tímido, mineiro. depois leva pra conhecer a casa, quartos, banheiros, cozinha, quintal e a escada já pronta pra construção do escritório sobre a laje que vai ter vista pra monumental pedra do emiliano. na garagem, mostra um tronco de árvore fossilizado, e perguntamos, quanto tempo demora pra ficar assim? bom, eu sou criacionista, mas se eu fosse evolucionista, diria que demora uns 300 milhões de anos pra fossilizar.

domingo é o dia do senhor.

"Baixei, mas fui ponteando opostos. Que isso foi o que sempre me invocou, o senhor sabe: eu careço de que o bom seja bom e o rúim ruim, que dum lado esteja o preto e do outro o branco, que o feio fique bem apartado do bonito e a alegria longe da tristeza! Quero os todos pastos demarcados... Como é que posso com este mundo? A vida é ingrata no macio de si; mas transtraz a esperança mesmo do meio do fel do desespero. Ao que, este mundo é muito misturado..."

sábado, 3 de janeiro de 2015

na travessia, dia 5

tem dia que é tão grande que a escritura estraga.

manhã de feira, o gesto ancestral de apanhar tudo fresco, cozinhar dedicado pro povo todo, fartar, e depois o cheiro de café, que eu podia fazer só isso pro resto da vida, valei-me.

na tarde ensolarada, estrada, pedra e cachoeira, correr das águas que tudo levam, tudo curam, tudo limpam, peço licença, ofereço o corpo cantando minha oração e agradeço o meu lugar.

o que conforta é que a poesia resiste: toda a delicadeza mora nos moços que levam na garupa de suas bicicletas, de ladinho, suas namoradas em vestido de algodão.

"Sertão velho de idades. Porque – serra pede serra – e dessas, altas, é que o senhor vê bem: como é que o sertão vem e volta. Não adianta se dar as costas. Ele beira aqui, e vai beirar outros lugares, tão distantes. Rumor dele se escuta. Sertão sendo do sol e os pássaros: urubu, gavião – que sempre voam, às imensidões, por sobre... Travessia perigosa, mas é a da vida. Sertão que se alteia e se abaixa. Mas que as curvas dos campos estendem sempre para mais longe. Ali envelhece vento. E os brabos bichos, do fundo dele..."

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

na travessia, dia 4

os armários de madeira, metros e metros de prateleiras, vitrines e bancas espalhados na loja grande, alta e arejada abrigam toda sorte de tecidos. a enchente do ano passado estragou muita coisa, mais de duzentos mil de mercadoria perdida. alguns cortes atingidos pela água barrenta são vendidos a seis reais o metro, com o aviso cuidadoso da vendedora que mostra a mancha e me pergunta, vai querer assim mesmo? quero, gosto de tecido com história e a blusa de algodão florido carregará pra sempre a água de mantena em sua trama. loja de tecido me enternece tanto, guarda um silêncio antigo. os olhos velhos de seu archimedes brilham quando pergunto se ele tem linho - mostra a camisa cinza clara que usa sobre os ombros franzinos, a senhora conhece, não é, é caro porque não tem nada igual a isto, e quando eu cismo com coisa boa, pode custar cem, duzentos, trezentos, não tem jeito, eu compro mesmo, só tem uma fábrica hoje, acabou tudo. a voz é rouca e a fala pausada pra garantir o perfeito entendimento. peço pra ver aquele lá em cima, então ele sobe as escadas, trepa ágil nas estantes, suas mãos artríticas deslizam pelas peças, eu sei que mesmo no escuro de dentro da morte ele saberia reconhecer e nomear cada urdidura com essas mãos velhas. a blusa de linho cinza pousará no meu corpo com o carinho das mãos de seu archimedes.

• • • • • • •

eu gosto quando seu beijo e sua língua enfraquecem meus joelhos e enxarcam minha calcinha.
eu gosto quando me surpreende enfiando suas patas de minotauro entre as minhas pernas.
eu gosto quando seu pau fica duro, descontrolado, e me ataca debaixo da bica d'água, ao lado da cerca viva, e qualquer passante mais atento perceberia que estamos trepando enquanto as pessoas conversam na varanda.
eu gosto de você e da sua fome.
e mais ainda quando me chama de galega.

"Diadorim mesmo repassava carinho naquela fala. Melar mel de flor. E me embebia – o que estava me ensinando a gostar da minha Otacília. Era? Agora falava devagarinho, de sonsom, feito se imaginasse sempre, a si mesmo uma estória recontasse. Altas borboletas num desvoejar. Como se eu nem estivesse ali ao pé. Ele falava de Otacília. Dela vivendo o razoável de cada dia, no estar. Otacília penteando compridos cabelos e perfumando com óleo de sete-amores, para que minhas mãos gostassem deles mais. E Otacília tomando conta da casa, de nossos filhos, que decerto íamos ter. Otacília no quarto, rezando ajoelhada diante de imagem, e já aprontada para a noite, em camisola fina de ló. Otacília indo por meu braço às festas da cidade, vaidosa de se feliz e de tudo, em seu vestido novo de molmol. Ao tanto, deusdadamente ele discorresse. De meu juízo eu perdi o que tinha sido o começo da nossa discussão, agora só ficava ouvinte, descambava numa sonhice. Com o coração que batia ligeiro como o de um passarinho pombo. Mas me lembro que no desamparo repentino de Diadorim sucedia uma estranhez – alguma causa que ele até de si guardava, e que eu não podia
inteligir. Uma tristeza meiga, muito definitiva. No tempo, não apareci no meio daquilo. Assim foi que foi."


quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

na travessia, dia 3

no primeiro dia do ano, o amor e a casa.

ela está doente, câncer, metástase. mais de 60. tem tanta força, tanta, que quando passa os passarinhos suspendem o ar. seus movimentos são ligeiros, passos e olhos miúdos rápidos, língua ferina, humor colérico. ela tem um sorriso imenso. o amor dos filhos e netos que não teve está costurado nas incontáveis toalhinhas espalhadas pela casa, nas coisas velhas expostas pelas prateleiras, nas relíquias escondidas nos baús. ela é pequena, não sente nenhuma dor, e seu nome jovina ganhou aqui o sobrenome do sertão. ela é.

ele é rústico; fala um idioma pessoal; tem um sistema próprio; meio bicho, meio homem, tem 46 mas parece menos; alfabetizado; cheira a terra e cerveja. não suporta o silêncio, deve ser alto demais pra seus ouvidos de poucos pensamentos. ele faz tudo que ela quer sem se saber mandado: água o jardim, enche o filtro, pendura as roupas no varal, lava as panelas de ferro, passa o café, varre o terreiro, ri muito, e à noite, encharcado, dorme na varanda, com os pés-cascos para cima. ele é forte, e a cidade toda o conhece, o calango.

quando soube da doença, ele chorou igual criança e ela deu-lhe uma bronca, que eu ainda não morri. na noite de ontem, ele a tirou pra dançar, sorridentes e cúmplices. trepam, menos às vésperas da quimio porque diminui as plaquetas. ele lembra o horário dos remédios e de beber água sempre, cultiva mudas pro jardim da casa nova que não fosse a doença já estaria pronta. ela o levou pra passear de avião, escada rolante e elevador, estudou com ele pra prova de motorista, dá presentes, administra o dinheiro e orienta cada passo. Cuidam tanto um do outro, tanto, de um modo intumescido e brutale (como ela diz), e ainda assim, tanto. meus olhos derramam de admirar: o amor é tão imenso quanto improvável.

• • • • • • •

no fim da tarde, a casa nos recebeu.

corredor estreito coberto de heras, um parto, travessia.

ele à frente, os olhos azuisinhos ganhando a cor da infância, e enquanto percorre os caminhos tantas vezes redesenhados vai dizendo aqui era o rosal da vó, aqui as casinhas dos tios-avós, depois o tio júlio morou aqui até ir pra belo horizonte tratar o câncer, aqui a porta da frente e a primeira sala mas a gente entrava mesmo pela porta lateral da cozinha, aqui a vó elza fazia crochê e via televisão e eu bati a cabeça milhões de vezes porque levantava e esquecia da janela, aqui era a sala de jantar mas ninguém usava, e aqui era o melhor lugar, tinha uma mesa e a gente passava o dia inteiro aqui, aqui a casa de boneca das meninas que depois virou a cozinha de fora da vó, a vida toda atravessando o quintal pra subir com as vasilhas pra mesa, aqui o rio, mas não tinha esses muros, era tudo emendado e a gente ia andando pela beirada até lá na frente, aqui tinha uma mangueira ainda maior que esta, enorme, cortaram, aqui meu bequinho preferido, será que eu passo, ainda passo mas é mais difícil.

o forro apodrecido revela o telhado ancestral. as janelas quebradas mostram o jardim teimoso, cambuquiras, acerolas, jaboticabeira, manga espada, hera, mato. a platibanda tem adornos geométricos no centro e nas extremidades. no alpendre do fundo, cimento queimado amarelo perfeito, não sabem mais fazer assim. um fogão de ágata esquecido. um cofre. teias de aranha, formigas, cupim.

o céu azul . meu amor . memória . monolito

"Só se pode viver perto de outro, e conhecer outra pessoa, sem perigo de ódio, se a gente tem amor. Qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura."

quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

na travessia, dia 2

governador valadares, mg - mantena, mg

quase três horas, 135 quilômetros, e no fim da tarde a terra boa nos recebeu azul, azul que ainda permanece acesso nos olhos do meu amor.

pedra. terra batida e poeira. asfalto ruim. casas com mulheres nas janelas, nos alpendres, nas calçadas. bares de homens inchados. calor.

depois de uma volta na cidade já irreconhecível, chegamos à casa da tia, um oásis de plantas, árvores, pássaros, madeira velha, panelas de ferro, bacias e toda sorte de coleções, enfeitadas com toalhinhas de crochê e com um vento que passeia só aqui.

chegamos.

aqui ficaremos até o corpo entender o calor e refazer as memórias mais profundas. aqui estamos pra presenciar e aprender sobre o amor, a doença, a cura, o tempo, a fartura, a miséria, o silêncio.

o último dente de leite da macaca caiu, e minha ensolarada dos dias desabrocha na flor mais formosa. os olhos de floresta do meu filho estão longe, mas ouço sua voz e sei que tudo está certo.

no último dia do ano não rezei porque minha certeza é tão vasta que tudo em mim é amor, oração e agradecimento.

"A gente vive repetido, o repetido, e, escorregável, num mim minuto, já está empurrado noutro galho. Acertasse eu com o que depois sabendo fiquei, para de lá de tantos assombros... Um está sempre no escuro, só no último derradeiro é que clareiam a sala. Digo: o real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia."

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

na travessia, dia 1

mococa, sp - governador valadares, mg

(quando quis ler o grande sertão, tentei tantas vezes e não consegui, então um professor, davi, disse pra ler de uma só vez umas 50 páginas, sem parar, sem entender, sem dicionário, sem resistir. talvez tenha sido este o melhor conselho da minha vida. esta é a sétima vez que volto a ele, e cada vez dum jeito diferente, misturado com os todos cantos do meu peito sanguíneo: assim a viagem, uma talagada duma vez, pra despertar desafogada no meio do redemunho; assim a vida, vestida de carmim; assim o amor que está em meu nome)

777 quilômetros, 12 horas. carro gente caminhão feiúra estrada gente carro buraco gente miséria caminhão carro carro. o céu dum azul sólido. a terra aberta em feridas. o verde que não desiste. uns passarinhos amarelos lindos de pequenos, meu pai ia saber, certeza.

de repente, o trem de ferro que carrega ferro infinito, e então sei que cheguei às portas das gerais.

o corpo aos poucos cede ao calor que parece apertá-lo pra dentro de si, já não resiste mais, procura algum conforto numa memória que não sei. quase não venta. encurto as saias, tiro as mangas e aceito o úmido que escorre entre meus seios.

na cama dos outros, nossa pele arde, nomeia e lembra: rosal em botão.

"Eu atravesso as coisas – e no meio da travessia não vejo! – só estava era entretido na idéia dos lugares de saída e de chegada. Assaz o senhor sabe: a gente quer passar um rio a nado, e passa; mas vai dar na outra banda é num ponto muito mais embaixo, bem diverso do em que primeiro se pensou. Viver nem não é muito perigoso?"

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

nevo azul

no ano que você nasceu uma mãe de santo negra, pequena e muito sorridente jogou búzios e me disse que eu sou filha de oxum e oxossi, que sou oxum velha, velha, velha cantadora de histórias, e que carrego em mim o cerne espiritual da minha família, que eu não ia querer isso mas era assim que era, e contou mais uma porção de coisas lindas que eu esqueci.
meus olhos aguados cresceram um pouco mais naquele dia, assombrei.
tempo depois fiz uma guia amarela que não voltei pra rezar.

vieram os redemunhos todos, minha vida de roldão.
oito-infinito
.O amor O.

mãos pequenas e fortes.
traça linhas de destino sob a lógica dos deuses que desconheço ao tempo que repete as palavras róseas que sei de cor.
pés bailarinos.
tanta tristeza nos olhos verdes, tanta.

me deu gosto abissal ver vocês atracados; a memória dos corpos confundidos e dos cabelos enroscados nos meus dedos ainda umedece meus joelhos; nosso sábado maiúsculo me faz acreditar que este ano estranho errado torto tornou e entornou finalmente em formosura.

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

carta humoral

meu corpo é feito de água.
minha pele não é macia. é líquida.
enganam-se os homens, as moças, os astros: sou aquática.
não sou forma, tenho fôrma.

só que derramo por todos os buracos, escapo, escorro, meu corpo não é recipiente, não me estanca, não contém.
sou vazante.
enchente.
naufrágio.
deriva.
redemunho.

tudo em minha volta é afogamento - mãos, palavra, quadris, canção.
e minhas moléculas resilientes forjadas na dor e no afeto guardam a memória das encarnações.
sou orvalho envelhecido.

o que me molda são tuas patas, meu senhor meu, teus pequenos olhos azuis de profundeza e infinito, teus humores brotando de todos os poros para dissolver e acalmar os meus, nosso tempo sem paredes, nosso desejo compartilhado, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, por todos os dias de nossas vidas.

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

bailado

eu trocava tudo, tudo mesmo, por poder dançar.
mas nasci sem as certas disponibilidades nas juntas e músculos.
então, por consolação, deus me deu mãos bailarinas.
valha-me, que tudo nessa vida tem sua justiça.

deve ser porque meu nome foi herança torta da minha vó Julia, que fazia crochê do tamanho do infinito, e criou seus 14 filhos em silêncio.

minha vó achava seu nome triste.

lembro dos olhos líquidos da tia Lucy por trás das grades da clausura, transparentes de tão azuis.

minhas mãos e meus olhos carregam o mundo do mesmo jeito que as minhas tias carmelitas em suas orações cegas, incessantes e infantis.

com a diferença de que elas não o conhecem.
elas têm sorte.

terça-feira, 29 de abril de 2014

coliseu

todo dia eu canto.
todo dia eu cozinho.
todo dia.
todo dia eu mato um leão, às vezes dois.
tem dia que costuro, tem dia que bordo, a beleza dos avessos.
tem dia que desenho, e capricho.
tem dia até que faço filmim, meu olhar.
todo dia alguma alegria.
todo dia palavra.
todo dia o amor.
todo dia agradeço por minhas mãos, meus ouvidos e meu coração.
todo dia.
todo dia tenho medo: a solidão.

nesta noite, aqui, tropeçando nos cadáveres espalhados no chão dos dias difíceis, penso que esse mundo tinha de ser gentil e justo, porque eu fui forjada no afeto, sabe, e não suporto tanta dor.

quarta-feira, 9 de abril de 2014

carta para celso

Tem uma coisa que não sabes sobre mim: eu gosto das palavras como das pessoas. E vou gostando de pessoas como fossem palavras, prefiro assim - carne, gesto, tempo, e o silêncio que antecede o nascer, a pausa que suspende o mundo no ar. Daí digo assim o que quero dizer pras pessoas que quero.
Então.
Felicidade única é re-encontrar nossos irmãos no mundo, filhos da mesma família ancestral.
Alegria é ouvir uma voz sem roupas, repleta. As palavras claras, certeiras como a flecha do índio, empunhadas com tamanha dignidade, explicitamente sorridas e choradas, na verdade de quem viveu intransitivo - não adianta fingir, meu bem, homem ou mulher, o gozo, a raiva e o amor não são dissimuláveis, mau hálito, buceta seca e pau mole não aceitam maquiagem, rá.
Como ela disse, cada sílaba um parto.
E tudo ao redor que constrói e destrói, batendo doído no meio do meu peito vermelho - sobretudo o moço de olhos claros que viu meu filho nascer, outro reencontro de felicidade, eita.
É isso.
E tudo outro, e tudo mais.
Teu tremor, Celso, briga e me abriga. Tua voz é colo de mãe menininha. Eu vou estar por perto, porque temos o mesmo endereço. E dou graças.

quinta-feira, 13 de março de 2014

insígnia

eu sinto tanta tristeza.

deve ser por causa dos 20 policiais militares entraram no ônibus.
mais que isso, o meu olho esquerdo ficou na altura do revólver daquele um que estava em pé ao meu lado.
sabe, tinha ali uma estrelinha escura.
ou antes, parece que tem uma conjunção planetária estranha.
e além, que eu não entendo nada disso.

o que não tem nome em mim chama-se tristeza.

eu sinto tanto.
inclusive uma dor de cabeça, uma saudade, um medo.

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

vesperal

Na tarde ensolarada de um dia bom, a moça de saia justa sai do fórum e enquanto aguarda o verde troca os saltos por sandalinhas ordinárias, rasteiras, em brilhos.

Atravessa a rua.

Vejo seus pés marcados respirando. Ela rebola devagar, feminil.

Acho isso de trocar os sapatos na rua tão bonito.

Não fosse a miséria toda, eu tinha certeza da poesia que resiste na cidade feia do meu país incivilizado.

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

valentice

each day is valentine's day
menos este, em que uma nuvem cinza, invariavelmente, pousa sobre minha casa e minha coragem acha graça em se esconder na mastigada das mandíbulas das palavras que não entendo.
então, sofro.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

estio

secos os pés.
seca a garganta, que dói.
um liso do sussuarão no meio do meu peito, da ordem do intransponível.
seco e quente.
imenso.
nasci no inverno, um decimalzinho augusto, mínima, ridícula.
só minhas mãos orientais talvez me salvem.

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

sete anos

E na virada do sétimo ano, recebo uma bordoada de origem tão improvável. 
O frequentador assíduo, sempre sorridente, atleta vencedor, sentencia: você não tem carisma, não cumprimenta as pessoas, eu venho aqui há tantos anos, você sempre passa do meu lado e me ignora, nunca recebi um olá; você devia descer do seu pedestal, você banca a estrela, você não se importa com o público, todo mundo acha isso. 
Desrnorteio, ardo na garganta, embaço a vista, peço desculpas, corro pro banheiro, choro infantil.
Ontem, hoje e ainda agora. Infantil. 
Tanto amor, meu deus, tanto amor pisoteado no chão sujo e feio. Num dia que cantei bonito, em homenagem ao nosso aniversário. Sete anos, um amor de ouro.
Não tenho determinadas fortalezas, sou só formosura.
Não sei o que fazer com isso.
Queria saber dançar.

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

revolver

de volta:
vontade de chorar
não sei como acabar o ano
mais um não
um deserto de talvezes
tanto desejo
tenho sonhado muito
esqueci meus adjetivos em algum lugar
sinto cansaço, preguiça, calor
o trabalho rasteja, o tempo desembesta
esqueci os livros em algum lugar
saudade
envelheço
estou bonita (achei um)
perdi a música que cobria este silêncio
o desejo permanece sentado
não li o tao, não faço ioga
meu amor sobeja.

o dicionário e minha professora de latim sempre sabem de mim.

esperar (verbo)

1 ter esperança (em), contar com, confiar em
2 não agir, não tomar decisões, não desistir de algo, não ir embora etc., até a efetuação de um evento que se tem por certo, ou muito provável, ou muito desejável
3 estar ou ficar à espera (de); aguardar
4 contar com a realização de algo; desejar, torcer para
5 estar reservado ou destinado a
6 considerar (algo) como provável, com base em indícios; supor, presumir, conjecturar, imaginar

sábado, 6 de outubro de 2012

carta do encontro #3

sete.
ela, mais sorridente que nunca, iluminava o decote descuidado, generosa de seus amores.
ele tem a voz mais baixa que imaginei, remexia na cadeira desafeita ao joelho, e me abraçou inteiro.
ela, dupla, miúda, olhos molhados imensos, cantarolou em silêncio a canção de ninar que dediquei.
ele é tão alto, de sorriso surpreendentemente imenso, fechava os olhos pequenos, devagarinho-vagarim.
ele ao meu lado, meu, as patas doloridas nos meus ombros e nas minhas coxas, minha rosa em tuas mãos, nós navegantes da certeza, pois que bordei com a linha celeste dos teus olhos as iniciais nas sete camisas de dormir, e sucumbo inconteste à tua fome de tantos nomes, continente da tua ordem, vassala, prostituta, mulherzinha, tua.
eu derramada e úmida, sangrei a calcinha de renda pérola e cor de rosa.
sete.
ela não dorme e faz girar o mundo.
ele a sustenta com seus olhos de tantas encarnações.
ela tem acento infantil, litorânea.
ele me perscrutava franca e docemente.
ele me chama vagabunda, e eu gosto, mais.
eu os admiro.
porque sou devota dos encontros verdadeiros.
porque apesar de toda dor, não endureci e trago sorriso sanguíneo, choro solto e quadris fáceis.
e porque fui forjada no afeto e sinto amor desmedido, cuido, de longe, que estejam protegidos: que a malvadeza desse mundo é grande em extensão, e muita vez tem ar de anjo e garras de dragão.

sexta-feira, 25 de maio de 2012

carta do encontro, #2

e se eu te trazia pra nossa casa, e te mostrava nosso horizonte dos dois lados, os ex-votos, as minhas rosas?
e se eu te oferecia minhas mãos dedicadas, as barbas fartas e macias dele, e todo o resto?
e se eu não te abandonava pra reencontrar aquela barulheira desatenta e desinteressada?

e se não tivesse metido os pés pelas mãos? e se tivesse havido aquele novembro de revelação, abençoado pela brisa marítima e pelas janelas do bairro da tua infância?

tenho tanta raiva da minha histeria, da minha desmesura. e um ódio profundo daquele caipira saltitante. ódio feminino, monolítico, que eu destilo em totalidade absoluta, uma vez que o destino teve a delicadeza de me poupar o desgosto de saber-lhe as feições e as fuças.

esse gosto amargo e conhecido do arrependimento e da saudade do que não vivi.

olhos pequenos, lábios finos, sorriso inteiro.
queria ter te perguntado de quantos sabores é feito nosso paladar.
abraço.
cheiro.

meus olhos úmidos.

silêncio.

sábado, 25 de fevereiro de 2012

carta do encontro, #1

o silêncio que sucede os grandes encontros, aquele, que vem depois da canção preferida.


queria ter ouvido mais, falado menos. 
e mais tempo, um tempo sem véspera.
que tivesses conhecido o horizonte da nossa casa, do poente ao nascente; entre eles, vinho, confissões, segredos, promessas.
e que na despedida, ali mesmo dentro do taxi, ele beijasse tua boca, demoradamente e sem escândalo, pousando as patas pesadas na tua nuca, até te afrouxar os joelhos e ofegar teu discurso.

a surpresa do drink fora de moda. inflexão confirmada. olhos íntimos. palavras e mãos perscrutadoras. algum descompasso. abraço de calor imenso. e uma doce certeza.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

carta da espera

estranho.
bem nesse dia, em que parece haver uma nuvem escura sobre a minha casa, anual, desde a primeira vez. e mesmo que eu cante a mais bela canção, ele permanecerá estranho, porque ele não me pertence.
e no meio disso, fico pensando se deveria procurar entre os transeuntes um rosto que eu mal conheço. ou se aquele texto foi pra mim. ou se não foi. e se, em um ou outro caso, deveria ficar lisonjeada, envergonhada, chateada, triste.
o dia está estranho.
estou estranha, e eu tenho medo.

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

2012

Meio do mato.
Na cambalhota do ano, desde muito é assim, cuido de agradecer:
à felicidade do encontro - nossa doce princesa, a cozinheira das palavras, os sócios cada vez mais irmãos, meu cúmplice palhaço, meus comparsas de mínimo: "Amigo, para mim, é só isto: é a pessoa com quem a gente gosta de conversar, do igual o igual, desarmado. O de que um tira prazer de estar próximo. Só isto, quase; e os todos sacrifícios.";
à alegria dos presságios: o disco extra-super e o livro de retratos, som e silêncio, construídos com carinho e em boa companhia, mãos em mãos, que transbordarão, reluzentes, em tons de cru, ouro, magenta, preto e ferrugem, como as placas de lata fora de registro e os tapetes impressos garimpados da sucata da cidade, luxo no avesso espelhado, brasis;
ao amor infinito e profundo: pai, mãe, irmãs e irmão, e os seus; meus dois filhos; meu homem - eu não canso de me surpreender por ser tão assombrosamente afortunada, a mulher mais feliz da cidade.
O ano começa ensolarado e quieto.
Releio a terceira margem do rio pra não esquecer de angariar coragem e vigilância. Releio as cidades invisíveis pra guardar na memória a travessia e todos os confins. Leio a arte cavalheiresca do arqueiro zen pra aprender a leveza e o vazio.
Meu coração e meu corpo sabem do cuidado que cada flor requer: devir.

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

desejo

Datação
sXIII cf. IVPM

Acepções
■ substantivo masculino
ato ou efeito de desejar; aspiração humana diante de algo que corresponda ao esperado
1 aspiração humana de preencher um sentimento de falta ou incompletude; querer, vontade
1.1 Rubrica: psicanálise.
segundo Sigmund Freud, moção psíquica que procura restabelecer a situação da primeira satisfação
2 expectativa consciente ou inconsciente de possuir (um objeto) ou alcançar (determinada situação que supra uma aspiração do corpo ou do espírito); ambição, exigência
2.1 ambição incontrolada ou excessiva; cobiça, sede
3 instinto físico que impulsiona o ser humano ao prazer sexual; atração física; lubricidade, excitação
4 Uso: informal.
ânsia de satisfazer certos apetites durante a gravidez; apetência
5 Regionalismo: Portugal.
pesar devido à ausência de (alguém ou algo); saudade
6 alvo, objeto do desejo; anelo, pretensão, propósito

Etimologia
lat. *desèdium, prov. der. do lat.cl. desidìa,ae 'estar sentado' (< lat. desidére 'permanecer sentado'), mas com evolução semântica para 'ócio', donde desidìa com acp. de 'inércia, indolência, repouso, prazer', o que teria mantido nessa pal. o signf. de desiderìum,ìi 'desejo', que não teria passado para todas as línguas românicas; ver desej-; f.hist. sXIII desejo, sXIII desege, sXIV desego, sXIV dessego, sXV deseijo, sXV dezejo

Sinônimos
ver sinonímia de capricho, impulso, lubricidade, talante e tentação e antonímia de desprendimento


O Houaiss sabe de mim. Os lusitanos também. 

Minha inesquecível professora de latim, Dona Maria da Graça, não entrava em greve por vergonha de discutir seu salário. Era nascida na cidade do Porto e ainda criança veio escondida num navio pro Rio de Janeiro, onde cresceu e formou-se, e saberá Deus porque infortúnio celeste acabou lecionando Latim I e II na USP. Era vaidosa, muito velha, cheirava a água de rosas, e falava um português lindíssimo. Aplicava provas orais numa classe de 200 alunos. Dona Maria da Graça sabia explicar de onde vinham todos meus sentimentos.

sábado, 26 de novembro de 2011

sincronicidade

abro as cidades invisíveis, no ponto em que deixei na cabeceira, antes de dormir.

As cidades ocultas
2

A vida em Raíssa não é feliz. Pelas ruas, as pessoas caminham retorcendo as mãos, imprecam às crianças que choram, encostam-se nos parapeitos do rio com a cabeça apoiada nas mãos, acordam de manhã com um pesadelo e logo começa outro. Nas mesas em que todos os momentos alguém esmaga os dedos com o martelo ou fura-se com a agulha, ou nas colunas de números negativos dos registros dos comerciantes ou dos banqueiros, ou diante da fila de copos vazios sobre o balcão dos botequins, ainda bem que as cabeças abaixadas poupam olhares tortos. Dentro das casas é pior, e não é necessário entrar para sabê-lo: no verão, as janelas ribombam de brigas e pratos quebrados.

Todavia, em Raíssa, sempre há uma criança que da janela sorri para um cão que pulou num alpendre para comer um pedaço de polenta que caiu das mãos de um pedreiro que do alto do andaime exclamou: "Minha jóia, tem um pouco para mim?" para uma jovem hospedeira que ergue um prato de sopa sob a pérgula, contente de servi-lo ao vendedor de guarda-chuvas que comemora um bom negócio, uma sombrinha de renda branca comprada por uma grande dama para pavonear-se durante as corridas, apaixonada por um oficial que lhe sorriu ao saltar o último obstáculo que estava feliz mas mais feliz ainda estava o seu cavalo, que voava sobre os obstáculos vendo voar nos céus uma perdiz, pássaro feliz liberado da gaiola por um pintor feliz de tê-lo pintado pena por pena, salpicado de vermelho e amarelo na miniatura daquela página de livro em que o filósofo diz: "Em Raíssa, cidade triste, também corre um fio invisível que, por um instante, liga um ser vivo ao outro e se desfaz, depois volta a se estender entre pontos em movimento, desenhando rapidamente novas figuras de modo que a cada segundo a cidade infeliz contém uma cidade feliz que nem mesmo sabe que existe".

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

exílio

Datação
sXIII cf. FichIVPM

Acepções
substantivo masculino
ato ou efeito de exilar
1    expatriação forçada ou por livre escolha; degredo
2    Derivação: por metonímia.
     lugar em que vive o exilado
3    Derivação: sentido figurado.
     lugar longínquo, afastado, remoto
4    Derivação: sentido figurado.
     isolamento do convívio social; solidão


quando tudo parecia fácil, como o abrir das minhas pernas.
e agora essas seis ou sete letras batendo na minha cabeça, o gosto salgado, desalinho de planetas no meio do meu peito.
sorteio palavras no dicionário, como cartas de tarô:
carpir
escapulário
escarificar
procatalético
subáptero
vacuidade
...
não encontro. não sei. 
e esse quarto feio, essa luz fria, esse dia desnecessariamente quente.
não há resquício de poesia no reencontro com velhos fantasmas.

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

carta em carinho

o que quero lhe dizer, meu benzinho, é que o amor pode travestir-se de tantas coisas, de intensidades e cores diferentes, mas ele, o amor, no fundo, é despido, desprovido de razão, de moral, de explicação. os atos de amor (me disseram um dia e eu sigo assim desde então) são a única coisa que vale à pena, que perpetua; e a escolha é sempre a mesma, viver ou não, e estamos aqui, preferindo viver.
o que quero lhe dizer, meu benzinho, é que escolhemos viver isso com você.
se houvesse como, roubávamos você. levávamos pra longe, pra construir nossas próprias memórias, reinventar o tempo, e aos poucos substituir cada desnecessário instante de violência e rudeza por segundos infinitos de delicadeza e generosidade.
porque ninguém nesse mundo mais do que você merece toda a doçura, toda a beleza.
o que quero lhe dizer, em derramada desmesura, é que seu cheiro e seu gosto não saem daqui, não passam, e esperamos você, esperaremos o quanto for preciso, porque nossos corpos gostam do seu, e nossa alma também, e não há encontro mais verdadeiro e sublime do que de corpos e almas que se desejam.
o que quero lhe dizer, amor, é que dedicaremos a você, tranquila e ardentemente, tudo o que sabemos, e saberemos com você o que houver para descobrir, com o mesmo espanto e silêncio que invadiu nossos olhos quando pousaram pela primeira vez em sua indefectível formosura.

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

transitivos

cometemos a imprudência de publicar, em papel bonito e desenhado, uma lindeza.
felicidade sem tamanho nem medida.
festa no meio do peito.

sexta-feira, 29 de abril de 2011

carta celular

e entre as posturas mais urgentes, o coração aos poucos reencontra o lugar no corpo, que é mais meu desde que tuas patas pousam na minha cintura.
e entre as mesmas posturas, os sonhos têm vindo ao meu auxílio. pois aprendi com você a tê-los de cor, a decorá-los como canção.
sonhos de dor e revelação.
assim, alumbrada, limpa e clara, ainda que lentamente, posso voltar a olhar teus azuis sem pejo.
porque te amo, sempre amei e sempre amarei passarinha, passarada, e me encaixo, justa e confortável, nas tuas mãos.

segunda-feira, 28 de março de 2011

quatro

comemorados com bandeirinhas de seda, paredes encantadas, vinho, alegria, desejo, cansaço e formosura, embalados caixas viajantes, com bênçãos de velhos fazedores de beleza.
4 mãos.
4 patas.
de 4.
que venham os próximos 400.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

ridículas revisited

quando estás assim, longe, sinto vontade de voltar, escrevo e apago repetidas vezes um texto estranho e manco que não serve. ainda sinto, acho, o impacto de ter revisitado as cartas daqui, remexido em feridas antigas, reencontrado tempos de palavras bonitas urdidas em muita água e muita dor. estou atrapalhada. vejo o vídeo do menino que dança a morte do cisne. choro muito. sinto saudade daquilo que não serei mais.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

sorte

então ela, minha ensolarada dos dias que sempre sabe de tudo, traz a notícia alvissareira, em seu primeiro registro, números dobrados, todos os nossos: 55 22 77 55-1.
na tarde de chuva caminho pelas ruas sujas da cidade abraçadíssima com ela, pensando que queria ser matemática pra poder calcular a probabilidade de tamanha fortuna, e reencontro a certeza de que sou uma mulher feliz.

sete

será que eu te faço feliz?

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

aritmética, 2011

verbos, em ar:
amar, trepar, cantar, andar, cozinhar, trabalhar, engendrar, lavrar, ordenar, encerrar, bordar (nos panos e sonhos, rosas e ensolaradas)

a mancheias, nomes:
alegria, beleza, vinho, encontro, dinheiro, saúde, delicadeza

com cautela, advérbios:
mais, bem, sempre, tanto

coisinhas numeráveis:
4 bicicletas, -1 carro, 4 vasos de ervas, 6 vidros de mantimentos, uns quadros e 2 colméias nas paredes, 1 máquina de fazer de pão, +1 disco, 271 espetáculos.

= 72 palavras.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

diário de BsAs, 1

madrugada de aeroporto, embarque às 5h15, chegada às 3h30, olhos de areia e uma felicidade transitiva, um gosto, uma vontade. na mala, as cidades invisíveis, livro repetido de viagens, como o grande sertão é sempre o de cabeceira, e sempre será. no peito um desejo do silêncio dos viajantes solitários, aqueles que vivem mais. quererei uma xícara de café, um caderno em branco, uma caneta nova, quiçá um vestido ou um xale fora de moda, e reconhecerei idéias de predestinação, na cidade que, tenho certeza, reencontrarei com a saudade das coisas desconhecidas.

quarta-feira, 3 de março de 2010

da memória, número três, final

de tanto andar no escuro, desenvolvia olhos de gato, gestos silenciosos em movimentos delinquentes.
de tanto chorar dissimulada, trazia bolsas transparentes líquidas e invisíveis sob os olhos.
de tanto desejar alegrias intangíveis, transfigurava o rosto em sorriso permanente fácil.
de tanto silenciar palavras ásperas, talhava espinhos na garganta de gritos surdos de pesadelo, voz salobra e marítima.
de tantos impossivelmentes, predestinava passarinhada:
o filho de olhos imensos em verde floresta, herança de tristeza e esperança, sonha tanto.
a filha ensolarada de risada farta, herança de tristeza e esperança, sabe sempre de tudo.
nada mais para lembrar.
o amor sempre aqui fica aqui.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

da memória, número dois

no jantar veio a proposta, e tomada de uma alegria súbita, sem pensar muito pra ver se espantava a hora da abóbora, discutimos os quandos e os comos. liguei pra amiga. contei pro garçom. avisei a mãe e a irmã.
inventei que podia ser feliz.
visitamos uns apartamentos, em desajeito.
não tinha poesia.
não tinha beleza.
apenas a vontade incontrolável de poder ter uma ou outra certeza apesar de todos os apesares que fingi não terem muita importância, aqueles que prometi de joelhos na solidão do último cigarro que não estariam ali se chegasse o tempo de algum conforto.
o filho teve olhos imensos, e sonhou. a filha, como sempre, sabia de tudo.
a meia noite chegou dois meses depois, era meu aniversário, e fazia um calor despropositado pra uma tarde de agosto.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

da memória, número um

visitamos meia dúzia de casas que eu sempre quis uma casa, e havia aquela com portões de chapa metálica pintada de amarelo, um sobradinho, no térreo a primeira porta que dava pra cozinha ensolarada acompanhada de um terreiro de cimento, e preocuparam-me os azulejos todos esburacados por armários que lá estiveram, eu bem quereria as paredes limpas e um guarda-pratos como o da minha avó. a porta da sala era mais pra adiante no corredor lateral que ia até o fundo, e abria para tacos grandes cobrindo o chão da sala retangular, a mesa de jantar não cabia, logo vi, mas janelas no fundo tinham vista voadora, quase generosa, e fingi que não pecebia. a escada estreita no lado oposto levava ao mezanino superior com três quartos, um deles tão pequeno que nada servia e eram dois quartos e meio na verdade, quase uma enganação. na parte mais de baixo ao fundo era o quintal e a lavanderia sob a laje da sala, que aproveitava a inclinação do terreno, as crianças até poderiam brincar, quem sabe um cachorro e um pouco de grama, uma horta, uma piscina de plástico, uma sombra de árvore.
inventei que podia ser feliz.
e apesar do preço impossível, do financiamento inexistente, da ajuda familiar fictícia, do bom futuro falso, desatei a embalar as coisas como houvesse data pra mudança, arrastei móveis, mal cobri o chão de plástico, desparafusei os espelhos dos interruptores, e providenciei nas paredes uma pintura ruim pra melhorar o preço da venda, nas portas, rodapés, batentes e janelas uma cor bege e estranha, sobra de tinta esmalte brilhante de não sei onde.
o filho tinha olhos imensos, e sonhou. a filha morava aqui dentro de mim, e como sempre sabia de tudo.
os espelhos foram recolocados meses depois, com olhos inchados e sangue nas mãos.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

volta

quando tudo parece desajustado - o beijo que te dou atrapalha a vista, meu brinco arranha teu rosto, meus pés machucam tua perna, meus dentes ardem a tua pele, a vizinha ronda nossa porta, a memória assombra nossas noites, o tormento ocupa meus olhos - volto.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

um ano

há um ano postava meu último texto.
um ano sem escrever.
às vezes acho que sequei.
às vezes acho que estive tão feliz que não havia porquê.
às vezes acho que envelheci.
ainda choro por quase as mesmas coisas.
às vezes acho que o amor movimenta todas as montanhas, universos, mãos, passos, em gestos tão miúdos ou tão gigantescos que não cabem na minha retina.
às vezes acho que dei errado.
às vezes sinto alegrias impossíveis.
às vezes tenho muito medo.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

carta dolorida

não sei mais escrever.
queria saber fazer outra coisa.
coloria a folha grande branca com gotas de vermelho e gravava em minha retina a velocidade da absorção e da cicatriz, uma a uma, repetido, molhado e seco circular.
silenciava o vazio com o risco assertivo e no movimento para o infinito imprimia meu gesto no ar que ficava ali, mudo, respirando.
construía um labirinto medieval de seqüência numérica perfeita e indecifrável e dentro dele, uma rosa e um minotauro, paredes enfeitadas de fotos impublicáveis, silêncio, tuas patas, meus olhos tristes.
e nenhuma palavra: só o ar do tempo.
meu corpo está pesado e seco, não posso aprender nada.
não sei mais escrever.

sábado, 3 de janeiro de 2009

ano novo

na chegada, cotonetes pelo chão, um cheiro de velhice e sujeira, a bagunça esquecida sobre a mesa, estranheza na caixa postal, uma tristeza aqui dentro comigo.
vou comprar um fogão novo, prometo, porque queria bater um bolo pra fingir que inundava esse lugar de alguma alegria.
não gosto de voltar de viagem.
não gosto da minha casa.
mas esse ano será melhor, ele disse e eu acredito: estamos mais perto de 2010.

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

natal

não tenho saudade do natal.
sinto tristeza e cansaço, muito cansaço.
e todo o sono do mundo...