Na tarde ensolarada de um dia bom, a moça de saia justa sai do fórum e enquanto aguarda o verde troca os saltos por sandalinhas ordinárias, rasteiras, em brilhos.
Atravessa a rua.
Vejo seus pés marcados respirando. Ela rebola devagar, feminil.
Acho isso de trocar os sapatos na rua tão bonito.
Não fosse a miséria toda, eu tinha certeza da poesia que resiste na cidade feia do meu país incivilizado.
(Todas as palavras esdrúxulas, Como os sentimentos esdrúxulos, São naturalmente Ridículas.)
quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014
sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014
valentice
each day is valentine's day
menos este, em que uma nuvem cinza, invariavelmente, pousa sobre minha casa e minha coragem acha graça em se esconder na mastigada das mandíbulas das palavras que não entendo.
então, sofro.
menos este, em que uma nuvem cinza, invariavelmente, pousa sobre minha casa e minha coragem acha graça em se esconder na mastigada das mandíbulas das palavras que não entendo.
então, sofro.
quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014
estio
secos os pés.
seca a garganta, que dói.
um liso do sussuarão no meio do meu peito, da ordem do intransponível.
seco e quente.
imenso.
nasci no inverno, um decimalzinho augusto, mínima, ridícula.
só minhas mãos orientais talvez me salvem.
seca a garganta, que dói.
um liso do sussuarão no meio do meu peito, da ordem do intransponível.
seco e quente.
imenso.
nasci no inverno, um decimalzinho augusto, mínima, ridícula.
só minhas mãos orientais talvez me salvem.
sexta-feira, 8 de novembro de 2013
sete anos
E na virada do sétimo ano, recebo uma bordoada de origem tão improvável.
O frequentador assíduo, sempre sorridente, atleta vencedor, sentencia: você não tem carisma, não cumprimenta as pessoas, eu venho aqui há tantos anos, você sempre passa do meu lado e me ignora, nunca recebi um olá; você devia descer do seu pedestal, você banca a estrela, você não se importa com o público, todo mundo acha isso.
Desrnorteio, ardo na garganta, embaço a vista, peço desculpas, corro pro banheiro, choro infantil.
Ontem, hoje e ainda agora. Infantil.
Tanto amor, meu deus, tanto amor pisoteado no chão sujo e feio. Num dia que cantei bonito, em homenagem ao nosso aniversário. Sete anos, um amor de ouro.
Não tenho determinadas fortalezas, sou só formosura.
Não sei o que fazer com isso.
Queria saber dançar.
sexta-feira, 23 de novembro de 2012
revolver
de volta:
vontade de chorar
não sei como acabar o ano
mais um não
um deserto de talvezes
tanto desejo
tenho sonhado muito
esqueci meus adjetivos em algum lugar
sinto cansaço, preguiça, calor
o trabalho rasteja, o tempo desembesta
esqueci os livros em algum lugar
saudade
envelheço
estou bonita (achei um)
perdi a música que cobria este silêncio
o desejo permanece sentado
não li o tao, não faço ioga
meu amor sobeja.
o dicionário e minha professora de latim sempre sabem de mim.
esperar (verbo)
vontade de chorar
não sei como acabar o ano
mais um não
um deserto de talvezes
tanto desejo
tenho sonhado muito
esqueci meus adjetivos em algum lugar
sinto cansaço, preguiça, calor
o trabalho rasteja, o tempo desembesta
esqueci os livros em algum lugar
saudade
envelheço
estou bonita (achei um)
perdi a música que cobria este silêncio
o desejo permanece sentado
não li o tao, não faço ioga
meu amor sobeja.
o dicionário e minha professora de latim sempre sabem de mim.
esperar (verbo)
1 ter esperança (em), contar com, confiar em
2 não agir, não tomar decisões, não desistir de algo, não ir embora etc., até a efetuação de um evento que se tem por certo, ou muito provável, ou muito desejável
3 estar ou ficar à espera (de); aguardar
2 não agir, não tomar decisões, não desistir de algo, não ir embora etc., até a efetuação de um evento que se tem por certo, ou muito provável, ou muito desejável
3 estar ou ficar à espera (de); aguardar
4 contar com a realização de algo; desejar, torcer para
5 estar reservado ou destinado a
6 considerar (algo) como provável, com base em indícios; supor, presumir, conjecturar, imaginar
5 estar reservado ou destinado a
6 considerar (algo) como provável, com base em indícios; supor, presumir, conjecturar, imaginar
sábado, 6 de outubro de 2012
carta do encontro #3
sete.
ela, mais sorridente que nunca, iluminava o decote descuidado, generosa de seus amores.
ele tem a voz mais baixa que imaginei, remexia na cadeira desafeita ao joelho, e me abraçou inteiro.
ela, dupla, miúda, olhos molhados imensos, cantarolou em silêncio a canção de ninar que dediquei.
ele é tão alto, de sorriso surpreendentemente imenso, fechava os olhos pequenos, devagarinho-vagarim.
ele ao meu lado, meu, as patas doloridas nos meus ombros e nas minhas coxas, minha rosa em tuas mãos, nós navegantes da certeza, pois que bordei com a linha celeste dos teus olhos as iniciais nas sete camisas de dormir, e sucumbo inconteste à tua fome de tantos nomes, continente da tua ordem, vassala, prostituta, mulherzinha, tua.
eu derramada e úmida, sangrei a calcinha de renda pérola e cor de rosa.
sete.
ela não dorme e faz girar o mundo.
ele a sustenta com seus olhos de tantas encarnações.
ela tem acento infantil, litorânea.
ele me perscrutava franca e docemente.
ele me chama vagabunda, e eu gosto, mais.
eu os admiro.
porque sou devota dos encontros verdadeiros.
porque apesar de toda dor, não endureci e trago sorriso sanguíneo, choro solto e quadris fáceis.
e porque fui forjada no afeto e sinto amor desmedido, cuido, de longe, que estejam protegidos: que a malvadeza desse mundo é grande em extensão, e muita vez tem ar de anjo e garras de dragão.
ela, mais sorridente que nunca, iluminava o decote descuidado, generosa de seus amores.
ele tem a voz mais baixa que imaginei, remexia na cadeira desafeita ao joelho, e me abraçou inteiro.
ela, dupla, miúda, olhos molhados imensos, cantarolou em silêncio a canção de ninar que dediquei.
ele é tão alto, de sorriso surpreendentemente imenso, fechava os olhos pequenos, devagarinho-vagarim.
ele ao meu lado, meu, as patas doloridas nos meus ombros e nas minhas coxas, minha rosa em tuas mãos, nós navegantes da certeza, pois que bordei com a linha celeste dos teus olhos as iniciais nas sete camisas de dormir, e sucumbo inconteste à tua fome de tantos nomes, continente da tua ordem, vassala, prostituta, mulherzinha, tua.
eu derramada e úmida, sangrei a calcinha de renda pérola e cor de rosa.
sete.
ela não dorme e faz girar o mundo.
ele a sustenta com seus olhos de tantas encarnações.
ela tem acento infantil, litorânea.
ele me perscrutava franca e docemente.
ele me chama vagabunda, e eu gosto, mais.
eu os admiro.
porque sou devota dos encontros verdadeiros.
porque apesar de toda dor, não endureci e trago sorriso sanguíneo, choro solto e quadris fáceis.
e porque fui forjada no afeto e sinto amor desmedido, cuido, de longe, que estejam protegidos: que a malvadeza desse mundo é grande em extensão, e muita vez tem ar de anjo e garras de dragão.
sexta-feira, 25 de maio de 2012
carta do encontro, #2
e se eu te trazia pra nossa casa, e te mostrava nosso horizonte dos dois lados, os ex-votos, as minhas rosas?
e se eu te oferecia minhas mãos dedicadas, as barbas fartas e macias dele, e todo o resto?
e se eu não te abandonava pra reencontrar aquela barulheira desatenta e desinteressada?
e se não tivesse metido os pés pelas mãos? e se tivesse havido aquele novembro de revelação, abençoado pela brisa marítima e pelas janelas do bairro da tua infância?
tenho tanta raiva da minha histeria, da minha desmesura. e um ódio profundo daquele caipira saltitante. ódio feminino, monolítico, que eu destilo em totalidade absoluta, uma vez que o destino teve a delicadeza de me poupar o desgosto de saber-lhe as feições e as fuças.
esse gosto amargo e conhecido do arrependimento e da saudade do que não vivi.
olhos pequenos, lábios finos, sorriso inteiro.
queria ter te perguntado de quantos sabores é feito nosso paladar.
abraço.
cheiro.
meus olhos úmidos.
silêncio.
e se eu te oferecia minhas mãos dedicadas, as barbas fartas e macias dele, e todo o resto?
e se eu não te abandonava pra reencontrar aquela barulheira desatenta e desinteressada?
e se não tivesse metido os pés pelas mãos? e se tivesse havido aquele novembro de revelação, abençoado pela brisa marítima e pelas janelas do bairro da tua infância?
tenho tanta raiva da minha histeria, da minha desmesura. e um ódio profundo daquele caipira saltitante. ódio feminino, monolítico, que eu destilo em totalidade absoluta, uma vez que o destino teve a delicadeza de me poupar o desgosto de saber-lhe as feições e as fuças.
esse gosto amargo e conhecido do arrependimento e da saudade do que não vivi.
olhos pequenos, lábios finos, sorriso inteiro.
queria ter te perguntado de quantos sabores é feito nosso paladar.
abraço.
cheiro.
meus olhos úmidos.
silêncio.
sábado, 25 de fevereiro de 2012
carta do encontro, #1
o silêncio que sucede os grandes encontros, aquele, que vem depois da canção preferida.
queria ter ouvido mais, falado menos.
e mais tempo, um tempo sem véspera.
que tivesses conhecido o horizonte da nossa casa, do poente ao nascente; entre eles, vinho, confissões, segredos, promessas.
e que na despedida, ali mesmo dentro do taxi, ele beijasse tua boca, demoradamente e sem escândalo, pousando as patas pesadas na tua nuca, até te afrouxar os joelhos e ofegar teu discurso.
a surpresa do drink fora de moda. inflexão confirmada. olhos íntimos. palavras e mãos perscrutadoras. algum descompasso. abraço de calor imenso. e uma doce certeza.
terça-feira, 14 de fevereiro de 2012
carta da espera
estranho.
bem nesse dia, em que parece haver uma nuvem escura sobre a minha casa, anual, desde a primeira vez. e mesmo que eu cante a mais bela canção, ele permanecerá estranho, porque ele não me pertence.
e no meio disso, fico pensando se deveria procurar entre os transeuntes um rosto que eu mal conheço. ou se aquele texto foi pra mim. ou se não foi. e se, em um ou outro caso, deveria ficar lisonjeada, envergonhada, chateada, triste.
o dia está estranho.
estou estranha, e eu tenho medo.
bem nesse dia, em que parece haver uma nuvem escura sobre a minha casa, anual, desde a primeira vez. e mesmo que eu cante a mais bela canção, ele permanecerá estranho, porque ele não me pertence.
e no meio disso, fico pensando se deveria procurar entre os transeuntes um rosto que eu mal conheço. ou se aquele texto foi pra mim. ou se não foi. e se, em um ou outro caso, deveria ficar lisonjeada, envergonhada, chateada, triste.
o dia está estranho.
estou estranha, e eu tenho medo.
terça-feira, 3 de janeiro de 2012
2012
Meio do mato.
Na cambalhota do ano, desde muito é assim, cuido de agradecer:
à felicidade do encontro - nossa doce princesa, a cozinheira das palavras, os sócios cada vez mais irmãos, meu cúmplice palhaço, meus comparsas de mínimo: "Amigo, para mim, é só isto: é a pessoa com quem a gente gosta de conversar, do igual o igual, desarmado. O de que um tira prazer de estar próximo. Só isto, quase; e os todos sacrifícios.";
à alegria dos presságios: o disco extra-super e o livro de retratos, som e silêncio, construídos com carinho e em boa companhia, mãos em mãos, que transbordarão, reluzentes, em tons de cru, ouro, magenta, preto e ferrugem, como as placas de lata fora de registro e os tapetes impressos garimpados da sucata da cidade, luxo no avesso espelhado, brasis;
ao amor infinito e profundo: pai, mãe, irmãs e irmão, e os seus; meus dois filhos; meu homem - eu não canso de me surpreender por ser tão assombrosamente afortunada, a mulher mais feliz da cidade.
O ano começa ensolarado e quieto.
Releio a terceira margem do rio pra não esquecer de angariar coragem e vigilância. Releio as cidades invisíveis pra guardar na memória a travessia e todos os confins. Leio a arte cavalheiresca do arqueiro zen pra aprender a leveza e o vazio.
Meu coração e meu corpo sabem do cuidado que cada flor requer: devir.
Na cambalhota do ano, desde muito é assim, cuido de agradecer:
à felicidade do encontro - nossa doce princesa, a cozinheira das palavras, os sócios cada vez mais irmãos, meu cúmplice palhaço, meus comparsas de mínimo: "Amigo, para mim, é só isto: é a pessoa com quem a gente gosta de conversar, do igual o igual, desarmado. O de que um tira prazer de estar próximo. Só isto, quase; e os todos sacrifícios.";
à alegria dos presságios: o disco extra-super e o livro de retratos, som e silêncio, construídos com carinho e em boa companhia, mãos em mãos, que transbordarão, reluzentes, em tons de cru, ouro, magenta, preto e ferrugem, como as placas de lata fora de registro e os tapetes impressos garimpados da sucata da cidade, luxo no avesso espelhado, brasis;
ao amor infinito e profundo: pai, mãe, irmãs e irmão, e os seus; meus dois filhos; meu homem - eu não canso de me surpreender por ser tão assombrosamente afortunada, a mulher mais feliz da cidade.
O ano começa ensolarado e quieto.
Releio a terceira margem do rio pra não esquecer de angariar coragem e vigilância. Releio as cidades invisíveis pra guardar na memória a travessia e todos os confins. Leio a arte cavalheiresca do arqueiro zen pra aprender a leveza e o vazio.
Meu coração e meu corpo sabem do cuidado que cada flor requer: devir.
terça-feira, 13 de dezembro de 2011
desejo
Datação
sXIII cf. IVPM
Acepções
■ substantivo masculino
ato ou efeito de desejar; aspiração humana diante de algo que corresponda ao esperado
1 aspiração humana de preencher um sentimento de falta ou incompletude; querer, vontade
1.1 Rubrica: psicanálise.
segundo Sigmund Freud, moção psíquica que procura restabelecer a situação da primeira satisfação
2 expectativa consciente ou inconsciente de possuir (um objeto) ou alcançar (determinada situação que supra uma aspiração do corpo ou do espírito); ambição, exigência
2.1 ambição incontrolada ou excessiva; cobiça, sede
3 instinto físico que impulsiona o ser humano ao prazer sexual; atração física; lubricidade, excitação
4 Uso: informal.
ânsia de satisfazer certos apetites durante a gravidez; apetência
5 Regionalismo: Portugal.
pesar devido à ausência de (alguém ou algo); saudade
6 alvo, objeto do desejo; anelo, pretensão, propósito
Etimologia
lat. *desèdium, prov. der. do lat.cl. desidìa,ae 'estar sentado' (< lat. desidére 'permanecer sentado'), mas com evolução semântica para 'ócio', donde desidìa com acp. de 'inércia, indolência, repouso, prazer', o que teria mantido nessa pal. o signf. de desiderìum,ìi 'desejo', que não teria passado para todas as línguas românicas; ver desej-; f.hist. sXIII desejo, sXIII desege, sXIV desego, sXIV dessego, sXV deseijo, sXV dezejo
Sinônimos
ver sinonímia de capricho, impulso, lubricidade, talante e tentação e antonímia de desprendimento
sXIII cf. IVPM
Acepções
■ substantivo masculino
ato ou efeito de desejar; aspiração humana diante de algo que corresponda ao esperado
1 aspiração humana de preencher um sentimento de falta ou incompletude; querer, vontade
1.1 Rubrica: psicanálise.
segundo Sigmund Freud, moção psíquica que procura restabelecer a situação da primeira satisfação
2 expectativa consciente ou inconsciente de possuir (um objeto) ou alcançar (determinada situação que supra uma aspiração do corpo ou do espírito); ambição, exigência
2.1 ambição incontrolada ou excessiva; cobiça, sede
3 instinto físico que impulsiona o ser humano ao prazer sexual; atração física; lubricidade, excitação
4 Uso: informal.
ânsia de satisfazer certos apetites durante a gravidez; apetência
5 Regionalismo: Portugal.
pesar devido à ausência de (alguém ou algo); saudade
6 alvo, objeto do desejo; anelo, pretensão, propósito
Etimologia
lat. *desèdium, prov. der. do lat.cl. desidìa,ae 'estar sentado' (< lat. desidére 'permanecer sentado'), mas com evolução semântica para 'ócio', donde desidìa com acp. de 'inércia, indolência, repouso, prazer', o que teria mantido nessa pal. o signf. de desiderìum,ìi 'desejo', que não teria passado para todas as línguas românicas; ver desej-; f.hist. sXIII desejo, sXIII desege, sXIV desego, sXIV dessego, sXV deseijo, sXV dezejo
Sinônimos
ver sinonímia de capricho, impulso, lubricidade, talante e tentação e antonímia de desprendimento
O Houaiss sabe de mim. Os lusitanos também.
Minha inesquecível professora de latim, Dona Maria da Graça, não entrava em greve por vergonha de discutir seu salário. Era nascida na cidade do Porto e ainda criança veio escondida num navio pro Rio de Janeiro, onde cresceu e formou-se, e saberá Deus porque infortúnio celeste acabou lecionando Latim I e II na USP. Era vaidosa, muito velha, cheirava a água de rosas, e falava um português lindíssimo. Aplicava provas orais numa classe de 200 alunos. Dona Maria da Graça sabia explicar de onde vinham todos meus sentimentos.
sábado, 26 de novembro de 2011
sincronicidade
abro as cidades invisíveis, no ponto em que deixei na cabeceira, antes de dormir.
As cidades ocultas
2
A vida em Raíssa não é feliz. Pelas ruas, as pessoas caminham retorcendo as mãos, imprecam às crianças que choram, encostam-se nos parapeitos do rio com a cabeça apoiada nas mãos, acordam de manhã com um pesadelo e logo começa outro. Nas mesas em que todos os momentos alguém esmaga os dedos com o martelo ou fura-se com a agulha, ou nas colunas de números negativos dos registros dos comerciantes ou dos banqueiros, ou diante da fila de copos vazios sobre o balcão dos botequins, ainda bem que as cabeças abaixadas poupam olhares tortos. Dentro das casas é pior, e não é necessário entrar para sabê-lo: no verão, as janelas ribombam de brigas e pratos quebrados.
Todavia, em Raíssa, sempre há uma criança que da janela sorri para um cão que pulou num alpendre para comer um pedaço de polenta que caiu das mãos de um pedreiro que do alto do andaime exclamou: "Minha jóia, tem um pouco para mim?" para uma jovem hospedeira que ergue um prato de sopa sob a pérgula, contente de servi-lo ao vendedor de guarda-chuvas que comemora um bom negócio, uma sombrinha de renda branca comprada por uma grande dama para pavonear-se durante as corridas, apaixonada por um oficial que lhe sorriu ao saltar o último obstáculo que estava feliz mas mais feliz ainda estava o seu cavalo, que voava sobre os obstáculos vendo voar nos céus uma perdiz, pássaro feliz liberado da gaiola por um pintor feliz de tê-lo pintado pena por pena, salpicado de vermelho e amarelo na miniatura daquela página de livro em que o filósofo diz: "Em Raíssa, cidade triste, também corre um fio invisível que, por um instante, liga um ser vivo ao outro e se desfaz, depois volta a se estender entre pontos em movimento, desenhando rapidamente novas figuras de modo que a cada segundo a cidade infeliz contém uma cidade feliz que nem mesmo sabe que existe".
As cidades ocultas
2
A vida em Raíssa não é feliz. Pelas ruas, as pessoas caminham retorcendo as mãos, imprecam às crianças que choram, encostam-se nos parapeitos do rio com a cabeça apoiada nas mãos, acordam de manhã com um pesadelo e logo começa outro. Nas mesas em que todos os momentos alguém esmaga os dedos com o martelo ou fura-se com a agulha, ou nas colunas de números negativos dos registros dos comerciantes ou dos banqueiros, ou diante da fila de copos vazios sobre o balcão dos botequins, ainda bem que as cabeças abaixadas poupam olhares tortos. Dentro das casas é pior, e não é necessário entrar para sabê-lo: no verão, as janelas ribombam de brigas e pratos quebrados.
Todavia, em Raíssa, sempre há uma criança que da janela sorri para um cão que pulou num alpendre para comer um pedaço de polenta que caiu das mãos de um pedreiro que do alto do andaime exclamou: "Minha jóia, tem um pouco para mim?" para uma jovem hospedeira que ergue um prato de sopa sob a pérgula, contente de servi-lo ao vendedor de guarda-chuvas que comemora um bom negócio, uma sombrinha de renda branca comprada por uma grande dama para pavonear-se durante as corridas, apaixonada por um oficial que lhe sorriu ao saltar o último obstáculo que estava feliz mas mais feliz ainda estava o seu cavalo, que voava sobre os obstáculos vendo voar nos céus uma perdiz, pássaro feliz liberado da gaiola por um pintor feliz de tê-lo pintado pena por pena, salpicado de vermelho e amarelo na miniatura daquela página de livro em que o filósofo diz: "Em Raíssa, cidade triste, também corre um fio invisível que, por um instante, liga um ser vivo ao outro e se desfaz, depois volta a se estender entre pontos em movimento, desenhando rapidamente novas figuras de modo que a cada segundo a cidade infeliz contém uma cidade feliz que nem mesmo sabe que existe".
sexta-feira, 25 de novembro de 2011
exílio
Datação
sXIII cf. FichIVPM
Acepções
substantivo masculino
ato ou efeito de exilar
1 expatriação forçada ou por livre escolha; degredo
2 Derivação: por metonímia.
lugar em que vive o exilado
3 Derivação: sentido figurado.
lugar longínquo, afastado, remoto
4 Derivação: sentido figurado.
isolamento do convívio social; solidão
quando tudo parecia fácil, como o abrir das minhas pernas.
e agora essas seis ou sete letras batendo na minha cabeça, o gosto salgado, desalinho de planetas no meio do meu peito.
sorteio palavras no dicionário, como cartas de tarô:
carpir
escapulário
escarificar
procatalético
subáptero
vacuidade
...
não encontro. não sei.
e esse quarto feio, essa luz fria, esse dia desnecessariamente quente.
não há resquício de poesia no reencontro com velhos fantasmas.
sXIII cf. FichIVPM
Acepções
substantivo masculino
ato ou efeito de exilar
1 expatriação forçada ou por livre escolha; degredo
2 Derivação: por metonímia.
lugar em que vive o exilado
3 Derivação: sentido figurado.
lugar longínquo, afastado, remoto
4 Derivação: sentido figurado.
isolamento do convívio social; solidão
quando tudo parecia fácil, como o abrir das minhas pernas.
e agora essas seis ou sete letras batendo na minha cabeça, o gosto salgado, desalinho de planetas no meio do meu peito.
sorteio palavras no dicionário, como cartas de tarô:
carpir
escapulário
escarificar
procatalético
subáptero
vacuidade
...
não encontro. não sei.
e esse quarto feio, essa luz fria, esse dia desnecessariamente quente.
não há resquício de poesia no reencontro com velhos fantasmas.
segunda-feira, 10 de outubro de 2011
carta em carinho
o que quero lhe dizer, meu benzinho, é que o amor pode travestir-se de tantas coisas, de intensidades e cores diferentes, mas ele, o amor, no fundo, é despido, desprovido de razão, de moral, de explicação. os atos de amor (me disseram um dia e eu sigo assim desde então) são a única coisa que vale à pena, que perpetua; e a escolha é sempre a mesma, viver ou não, e estamos aqui, preferindo viver.
o que quero lhe dizer, meu benzinho, é que escolhemos viver isso com você.
se houvesse como, roubávamos você. levávamos pra longe, pra construir nossas próprias memórias, reinventar o tempo, e aos poucos substituir cada desnecessário instante de violência e rudeza por segundos infinitos de delicadeza e generosidade.
porque ninguém nesse mundo mais do que você merece toda a doçura, toda a beleza.
o que quero lhe dizer, em derramada desmesura, é que seu cheiro e seu gosto não saem daqui, não passam, e esperamos você, esperaremos o quanto for preciso, porque nossos corpos gostam do seu, e nossa alma também, e não há encontro mais verdadeiro e sublime do que de corpos e almas que se desejam.
o que quero lhe dizer, amor, é que dedicaremos a você, tranquila e ardentemente, tudo o que sabemos, e saberemos com você o que houver para descobrir, com o mesmo espanto e silêncio que invadiu nossos olhos quando pousaram pela primeira vez em sua indefectível formosura.
o que quero lhe dizer, meu benzinho, é que escolhemos viver isso com você.
se houvesse como, roubávamos você. levávamos pra longe, pra construir nossas próprias memórias, reinventar o tempo, e aos poucos substituir cada desnecessário instante de violência e rudeza por segundos infinitos de delicadeza e generosidade.
porque ninguém nesse mundo mais do que você merece toda a doçura, toda a beleza.
o que quero lhe dizer, em derramada desmesura, é que seu cheiro e seu gosto não saem daqui, não passam, e esperamos você, esperaremos o quanto for preciso, porque nossos corpos gostam do seu, e nossa alma também, e não há encontro mais verdadeiro e sublime do que de corpos e almas que se desejam.
o que quero lhe dizer, amor, é que dedicaremos a você, tranquila e ardentemente, tudo o que sabemos, e saberemos com você o que houver para descobrir, com o mesmo espanto e silêncio que invadiu nossos olhos quando pousaram pela primeira vez em sua indefectível formosura.
terça-feira, 16 de agosto de 2011
quarta-feira, 10 de agosto de 2011
transitivos
cometemos a imprudência de publicar, em papel bonito e desenhado, uma lindeza.
felicidade sem tamanho nem medida.
festa no meio do peito.
felicidade sem tamanho nem medida.
festa no meio do peito.
sexta-feira, 29 de abril de 2011
carta celular
e entre as posturas mais urgentes, o coração aos poucos reencontra o lugar no corpo, que é mais meu desde que tuas patas pousam na minha cintura.
e entre as mesmas posturas, os sonhos têm vindo ao meu auxílio. pois aprendi com você a tê-los de cor, a decorá-los como canção.
sonhos de dor e revelação.
assim, alumbrada, limpa e clara, ainda que lentamente, posso voltar a olhar teus azuis sem pejo.
porque te amo, sempre amei e sempre amarei passarinha, passarada, e me encaixo, justa e confortável, nas tuas mãos.
e entre as mesmas posturas, os sonhos têm vindo ao meu auxílio. pois aprendi com você a tê-los de cor, a decorá-los como canção.
sonhos de dor e revelação.
assim, alumbrada, limpa e clara, ainda que lentamente, posso voltar a olhar teus azuis sem pejo.
porque te amo, sempre amei e sempre amarei passarinha, passarada, e me encaixo, justa e confortável, nas tuas mãos.
segunda-feira, 28 de março de 2011
quatro
comemorados com bandeirinhas de seda, paredes encantadas, vinho, alegria, desejo, cansaço e formosura, embalados caixas viajantes, com bênçãos de velhos fazedores de beleza.
4 mãos.
4 patas.
de 4.
que venham os próximos 400.
4 mãos.
4 patas.
de 4.
que venham os próximos 400.
quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011
ridículas revisited
quando estás assim, longe, sinto vontade de voltar, escrevo e apago repetidas vezes um texto estranho e manco que não serve. ainda sinto, acho, o impacto de ter revisitado as cartas daqui, remexido em feridas antigas, reencontrado tempos de palavras bonitas urdidas em muita água e muita dor. estou atrapalhada. vejo o vídeo do menino que dança a morte do cisne. choro muito. sinto saudade daquilo que não serei mais.
terça-feira, 15 de fevereiro de 2011
sorte
então ela, minha ensolarada dos dias que sempre sabe de tudo, traz a notícia alvissareira, em seu primeiro registro, números dobrados, todos os nossos: 55 22 77 55-1.
na tarde de chuva caminho pelas ruas sujas da cidade abraçadíssima com ela, pensando que queria ser matemática pra poder calcular a probabilidade de tamanha fortuna, e reencontro a certeza de que sou uma mulher feliz.
na tarde de chuva caminho pelas ruas sujas da cidade abraçadíssima com ela, pensando que queria ser matemática pra poder calcular a probabilidade de tamanha fortuna, e reencontro a certeza de que sou uma mulher feliz.
terça-feira, 11 de janeiro de 2011
aritmética, 2011
verbos, em ar:
amar, trepar, cantar, andar, cozinhar, trabalhar, engendrar, lavrar, ordenar, encerrar, bordar (nos panos e sonhos, rosas e ensolaradas)
a mancheias, nomes:
alegria, beleza, vinho, encontro, dinheiro, saúde, delicadeza
com cautela, advérbios:
mais, bem, sempre, tanto
coisinhas numeráveis:
4 bicicletas, -1 carro, 4 vasos de ervas, 6 vidros de mantimentos, uns quadros e 2 colméias nas paredes, 1 máquina de fazer de pão, +1 disco, 271 espetáculos.
= 72 palavras.
amar, trepar, cantar, andar, cozinhar, trabalhar, engendrar, lavrar, ordenar, encerrar, bordar (nos panos e sonhos, rosas e ensolaradas)
a mancheias, nomes:
alegria, beleza, vinho, encontro, dinheiro, saúde, delicadeza
com cautela, advérbios:
mais, bem, sempre, tanto
coisinhas numeráveis:
4 bicicletas, -1 carro, 4 vasos de ervas, 6 vidros de mantimentos, uns quadros e 2 colméias nas paredes, 1 máquina de fazer de pão, +1 disco, 271 espetáculos.
= 72 palavras.
terça-feira, 7 de setembro de 2010
diário de BsAs, 1
madrugada de aeroporto, embarque às 5h15, chegada às 3h30, olhos de areia e uma felicidade transitiva, um gosto, uma vontade. na mala, as cidades invisíveis, livro repetido de viagens, como o grande sertão é sempre o de cabeceira, e sempre será. no peito um desejo do silêncio dos viajantes solitários, aqueles que vivem mais. quererei uma xícara de café, um caderno em branco, uma caneta nova, quiçá um vestido ou um xale fora de moda, e reconhecerei idéias de predestinação, na cidade que, tenho certeza, reencontrarei com a saudade das coisas desconhecidas.
quarta-feira, 3 de março de 2010
da memória, número três, final
de tanto andar no escuro, desenvolvia olhos de gato, gestos silenciosos em movimentos delinquentes.
de tanto chorar dissimulada, trazia bolsas transparentes líquidas e invisíveis sob os olhos.
de tanto desejar alegrias intangíveis, transfigurava o rosto em sorriso permanente fácil.
de tanto silenciar palavras ásperas, talhava espinhos na garganta de gritos surdos de pesadelo, voz salobra e marítima.
de tantos impossivelmentes, predestinava passarinhada:
o filho de olhos imensos em verde floresta, herança de tristeza e esperança, sonha tanto.
a filha ensolarada de risada farta, herança de tristeza e esperança, sabe sempre de tudo.
nada mais para lembrar.
o amor sempre aqui fica aqui.
de tanto chorar dissimulada, trazia bolsas transparentes líquidas e invisíveis sob os olhos.
de tanto desejar alegrias intangíveis, transfigurava o rosto em sorriso permanente fácil.
de tanto silenciar palavras ásperas, talhava espinhos na garganta de gritos surdos de pesadelo, voz salobra e marítima.
de tantos impossivelmentes, predestinava passarinhada:
o filho de olhos imensos em verde floresta, herança de tristeza e esperança, sonha tanto.
a filha ensolarada de risada farta, herança de tristeza e esperança, sabe sempre de tudo.
nada mais para lembrar.
o amor sempre aqui fica aqui.
segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010
da memória, número dois
no jantar veio a proposta, e tomada de uma alegria súbita, sem pensar muito pra ver se espantava a hora da abóbora, discutimos os quandos e os comos. liguei pra amiga. contei pro garçom. avisei a mãe e a irmã.
inventei que podia ser feliz.
visitamos uns apartamentos, em desajeito.
não tinha poesia.
não tinha beleza.
apenas a vontade incontrolável de poder ter uma ou outra certeza apesar de todos os apesares que fingi não terem muita importância, aqueles que prometi de joelhos na solidão do último cigarro que não estariam ali se chegasse o tempo de algum conforto.
o filho teve olhos imensos, e sonhou. a filha, como sempre, sabia de tudo.
a meia noite chegou dois meses depois, era meu aniversário, e fazia um calor despropositado pra uma tarde de agosto.
inventei que podia ser feliz.
visitamos uns apartamentos, em desajeito.
não tinha poesia.
não tinha beleza.
apenas a vontade incontrolável de poder ter uma ou outra certeza apesar de todos os apesares que fingi não terem muita importância, aqueles que prometi de joelhos na solidão do último cigarro que não estariam ali se chegasse o tempo de algum conforto.
o filho teve olhos imensos, e sonhou. a filha, como sempre, sabia de tudo.
a meia noite chegou dois meses depois, era meu aniversário, e fazia um calor despropositado pra uma tarde de agosto.
sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010
da memória, número um
visitamos meia dúzia de casas que eu sempre quis uma casa, e havia aquela com portões de chapa metálica pintada de amarelo, um sobradinho, no térreo a primeira porta que dava pra cozinha ensolarada acompanhada de um terreiro de cimento, e preocuparam-me os azulejos todos esburacados por armários que lá estiveram, eu bem quereria as paredes limpas e um guarda-pratos como o da minha avó. a porta da sala era mais pra adiante no corredor lateral que ia até o fundo, e abria para tacos grandes cobrindo o chão da sala retangular, a mesa de jantar não cabia, logo vi, mas janelas no fundo tinham vista voadora, quase generosa, e fingi que não pecebia. a escada estreita no lado oposto levava ao mezanino superior com três quartos, um deles tão pequeno que nada servia e eram dois quartos e meio na verdade, quase uma enganação. na parte mais de baixo ao fundo era o quintal e a lavanderia sob a laje da sala, que aproveitava a inclinação do terreno, as crianças até poderiam brincar, quem sabe um cachorro e um pouco de grama, uma horta, uma piscina de plástico, uma sombra de árvore.
inventei que podia ser feliz.
e apesar do preço impossível, do financiamento inexistente, da ajuda familiar fictícia, do bom futuro falso, desatei a embalar as coisas como houvesse data pra mudança, arrastei móveis, mal cobri o chão de plástico, desparafusei os espelhos dos interruptores, e providenciei nas paredes uma pintura ruim pra melhorar o preço da venda, nas portas, rodapés, batentes e janelas uma cor bege e estranha, sobra de tinta esmalte brilhante de não sei onde.
o filho tinha olhos imensos, e sonhou. a filha morava aqui dentro de mim, e como sempre sabia de tudo.
os espelhos foram recolocados meses depois, com olhos inchados e sangue nas mãos.
inventei que podia ser feliz.
e apesar do preço impossível, do financiamento inexistente, da ajuda familiar fictícia, do bom futuro falso, desatei a embalar as coisas como houvesse data pra mudança, arrastei móveis, mal cobri o chão de plástico, desparafusei os espelhos dos interruptores, e providenciei nas paredes uma pintura ruim pra melhorar o preço da venda, nas portas, rodapés, batentes e janelas uma cor bege e estranha, sobra de tinta esmalte brilhante de não sei onde.
o filho tinha olhos imensos, e sonhou. a filha morava aqui dentro de mim, e como sempre sabia de tudo.
os espelhos foram recolocados meses depois, com olhos inchados e sangue nas mãos.
quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010
volta
quando tudo parece desajustado - o beijo que te dou atrapalha a vista, meu brinco arranha teu rosto, meus pés machucam tua perna, meus dentes ardem a tua pele, a vizinha ronda nossa porta, a memória assombra nossas noites, o tormento ocupa meus olhos - volto.
quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010
um ano
há um ano postava meu último texto.
um ano sem escrever.
às vezes acho que sequei.
às vezes acho que estive tão feliz que não havia porquê.
às vezes acho que envelheci.
ainda choro por quase as mesmas coisas.
às vezes acho que o amor movimenta todas as montanhas, universos, mãos, passos, em gestos tão miúdos ou tão gigantescos que não cabem na minha retina.
às vezes acho que dei errado.
às vezes sinto alegrias impossíveis.
às vezes tenho muito medo.
terça-feira, 17 de fevereiro de 2009
carta dolorida
não sei mais escrever.
queria saber fazer outra coisa.
coloria a folha grande branca com gotas de vermelho e gravava em minha retina a velocidade da absorção e da cicatriz, uma a uma, repetido, molhado e seco circular.
silenciava o vazio com o risco assertivo e no movimento para o infinito imprimia meu gesto no ar que ficava ali, mudo, respirando.
construía um labirinto medieval de seqüência numérica perfeita e indecifrável e dentro dele, uma rosa e um minotauro, paredes enfeitadas de fotos impublicáveis, silêncio, tuas patas, meus olhos tristes.
e nenhuma palavra: só o ar do tempo.
meu corpo está pesado e seco, não posso aprender nada.
não sei mais escrever.
queria saber fazer outra coisa.
coloria a folha grande branca com gotas de vermelho e gravava em minha retina a velocidade da absorção e da cicatriz, uma a uma, repetido, molhado e seco circular.
silenciava o vazio com o risco assertivo e no movimento para o infinito imprimia meu gesto no ar que ficava ali, mudo, respirando.
construía um labirinto medieval de seqüência numérica perfeita e indecifrável e dentro dele, uma rosa e um minotauro, paredes enfeitadas de fotos impublicáveis, silêncio, tuas patas, meus olhos tristes.
e nenhuma palavra: só o ar do tempo.
meu corpo está pesado e seco, não posso aprender nada.
não sei mais escrever.
sábado, 3 de janeiro de 2009
ano novo
na chegada, cotonetes pelo chão, um cheiro de velhice e sujeira, a bagunça esquecida sobre a mesa, estranheza na caixa postal, uma tristeza aqui dentro comigo.
vou comprar um fogão novo, prometo, porque queria bater um bolo pra fingir que inundava esse lugar de alguma alegria.
não gosto de voltar de viagem.
não gosto da minha casa.
mas esse ano será melhor, ele disse e eu acredito: estamos mais perto de 2010.
vou comprar um fogão novo, prometo, porque queria bater um bolo pra fingir que inundava esse lugar de alguma alegria.
não gosto de voltar de viagem.
não gosto da minha casa.
mas esse ano será melhor, ele disse e eu acredito: estamos mais perto de 2010.
terça-feira, 23 de dezembro de 2008
segunda-feira, 10 de novembro de 2008
terça-feira, 28 de outubro de 2008
ridiculinha, 32
cenografia:
eu fazia as perguntas e tu gargalhavas respostas.
inclusive sobre abraçadeiras.
eu fazia as perguntas e tu gargalhavas respostas.
inclusive sobre abraçadeiras.
domingo, 26 de outubro de 2008
semanário de poa, 2
eu não consigo cumprir a promessa. nenhuma delas.
sinto tristeza de passarinho.
trabalho sem respiro na cidade que queima sufocante só pra que os dias corram velozes ao teu encontro. mas são as noites sozinhas que pesam como um pano preto em meus olhos ásperos e cheios.
quando choro, minha princesa oferece-me um lenço: ela também tem saudade.
sinto tristeza de passarinho.
trabalho sem respiro na cidade que queima sufocante só pra que os dias corram velozes ao teu encontro. mas são as noites sozinhas que pesam como um pano preto em meus olhos ásperos e cheios.
quando choro, minha princesa oferece-me um lenço: ela também tem saudade.
domingo, 19 de outubro de 2008
semanário de poa
a casa esteve muito vazia.
fez muito calor.
cortei os cabelos.
ontem e hoje os dias esqueceram de amanhecer.
cantei por ti e a luz nova trouxe uma felicidade.
a saudade é tanta que ensurdece.
fez muito calor.
cortei os cabelos.
ontem e hoje os dias esqueceram de amanhecer.
cantei por ti e a luz nova trouxe uma felicidade.
a saudade é tanta que ensurdece.
segunda-feira, 8 de setembro de 2008
revisão
a noite foi acesa como meu estômago em chamas, as horas dormidas de confusão mal sonhada, e acordei como se saída da boca de um dragão; na manhã madrugada, um sono sem solução nem repouso, um quase trabalho; o almoço trivial de alegria e cansaço maternos, bis e cochilo de sobremesa, lembrei-me da minha mãe, acho que envelheço; no fim da tarde estranha desse dia estranhíssimo, boto os filhos e meu corpo desencontrado no eldorado pra encomendar os óculos, e enquanto espero bato pernas por ali fingindo ser uma daquelas, calcinha sapatilha meia tic-tac pedraria telefone vestido sanduíche, pago tudo com o dinheiro que não tenho, e de posse do novo adorno, subitamente, pretendo transformar-me, borboleta: compro o bilhete da loteria e a certeza poder agora sim enxergar o caminho.
segunda-feira, 1 de setembro de 2008
terça-feira, 26 de agosto de 2008
fatura
escuta, por favor, eu não quero muito, quantas vezes tenho de repetir isso, preciso de tão pouco, é tão simples o que peço, uma casa em que caibam os meus amores, todos juntos e debaixo do mesmo teto, e o resto eu asseguro que florescerá ensolarado porque é muito amor que tem aqui, muito mesmo, mas o amor nesse mundo horroroso medonho fedorento não vale aluguel nem amores todos juntos, eu sei, mas eu não tenho preguiça, não tenho não, não tenho medo do trabalho, sei fazer algumas belezas e só quero poder dizer, só isso, e esse pequeno isso tem alguma valia e muita valentia e portanto não é justo que passe meus dias de olhos inchados e mãos desajustadas, pois que disseram em teu nome que o que importa são os atos de amor e que eu mereço a graça infinita das tuas bênçãos.
meu rosal só tem atos de amor.
eu agradeço todos os dias por ser capaz de amar.
por favor, escuta por favor, faça a tua parte.
meu rosal só tem atos de amor.
eu agradeço todos os dias por ser capaz de amar.
por favor, escuta por favor, faça a tua parte.
sexta-feira, 1 de agosto de 2008
mística
hoje lembrei-me que há alguns anos fui a uma numeróloga que fez incontáveis cálculos com todos os meus números e com os números de todas as minhas letras, e ao final disse-me numa mistura de júbilo e preocupação que pra melhorar meu nome-próprio se fazia imprescindível acrescentar-lhe um agá.
ótima essa numeróloga, ela sabe mesmo tudo sobre mim, como se vê em seus vaticínios substantivos confirmados, incontestes.
hoje lembrei-me dela, pois que tua ausência pesa-me como uma mortalha.
ótima essa numeróloga, ela sabe mesmo tudo sobre mim, como se vê em seus vaticínios substantivos confirmados, incontestes.
hoje lembrei-me dela, pois que tua ausência pesa-me como uma mortalha.
quinta-feira, 17 de julho de 2008
carta feia
Pois que desgosto, meu senhor meu, das noites em que não estás aqui, elas que dessarte não ganham seu contorno melhor. Então, à guisa de sonífero, aproximo-te na pena do meu abraço para ver se durmo bonita, como ordenas: se estavas aqui via que o forno de ferrugem partiu-se definitivo e que precisarei de um fogão novo, o que já não era sem tempo já que este deve ter mais de três encarnações e das quatro bocas funcionavam uma e meia e o forno, embora o tampo de ágata seja do meu gosto como sabes, e não exitem mais tampos de ágata como estes, mas enfim, era velho e até que durou muito, mas não mais serve e então precisarei de um fogão novo; soletrava os nomes todos na sopa colorida com cenouras e ervilhas e letrinhas que preparei maternal para a princesa macaca e depois carregava para o dossel a bela adormecida em seu sono absoluto de justeza; respondia às perguntas desimportantemente ansiosas do meu olhos-de-floresta sobre a cidade de ar bom para onde viaja amanhã pela manhã, e por isso não consegue dormir, seus olhos imensos vão engolir o mundo um dia; e sobretudo sabia curioso da calcinha nova em mim vestida a esperar tuas patas impredicáveis. Tuas patas não estão aqui, meu senhor meu, e isso faz de mim uma mulher mais triste nesse falatório desencontrado todo. Pois perdôa-me meu senhor meu que desgosto mesmo é desse teu silêncio cinzento do mesmo modo que desgosto dessas minhas palavras aqui, feiúras que não funcionam. Esqueci como é escrever.
segunda-feira, 7 de julho de 2008
depois
depois de quase três meses, acho que vou voltar.
pois que preparo aqui dentro do peito e ali pertinho na ponta da pena a edição manuscrita das cartas ridículas.
vou assim devagarinho, passarinha, reaprendendo o passo, já que do tropeço aprendi todos os movimentos.
respira, respiro: lembro com aquela conhecida felicidade que gosto das palavras como das pessoas. e amo muito, graças a deus.
pois que preparo aqui dentro do peito e ali pertinho na ponta da pena a edição manuscrita das cartas ridículas.
vou assim devagarinho, passarinha, reaprendendo o passo, já que do tropeço aprendi todos os movimentos.
respira, respiro: lembro com aquela conhecida felicidade que gosto das palavras como das pessoas. e amo muito, graças a deus.
terça-feira, 15 de abril de 2008
estado
está tudo errado.
o certo é que tudo é muito pouco, e o pouco não é suficiente.
errado o tempo, errado o verso, errado o vão entre o certo e o outro.
uma vida de verdade não pode ter mais ou menos, viver requer coragem.
ridícula, imbecil, covarde, será possível que o repetir desse verso nunca te fará ação?
e aquele filho da puta quer mais de mim quando o que lhe dou me tira a valia mais preciosa, e que faz a falta no reverso, naquilo que deveras deveria ser o devir desejado.
havia de haver uma formosura qualquer, mas me salta dos olhos meu cansaço de encarnações
e o vento escapando entre os dedos, pára, por favor não vai revirando assim as poeirinhas que já estavam ali de longe, na distância real do que não precisa mais de ser, não é mais meu, não preciso mais, já foi e pronto, sai de mim, sai que não mais te pertence o que é meu por merecimento, eu assim, mininteira, como sei de ser, minha fôrma, minha forja, meu afeto.
está tudo errado, mas minha sombra, aprendo, é aquilo que é meu sem a minha carne mas com o meu contorno: não há que reclamar, está tudo iluminado.
viver, isso sim, é muito perigoso.
não vou chorar.
vou dar um salto mortal.
por que, meu deus, por que não me fizeste bailarina?
o certo é que tudo é muito pouco, e o pouco não é suficiente.
errado o tempo, errado o verso, errado o vão entre o certo e o outro.
uma vida de verdade não pode ter mais ou menos, viver requer coragem.
ridícula, imbecil, covarde, será possível que o repetir desse verso nunca te fará ação?
e aquele filho da puta quer mais de mim quando o que lhe dou me tira a valia mais preciosa, e que faz a falta no reverso, naquilo que deveras deveria ser o devir desejado.
havia de haver uma formosura qualquer, mas me salta dos olhos meu cansaço de encarnações
e o vento escapando entre os dedos, pára, por favor não vai revirando assim as poeirinhas que já estavam ali de longe, na distância real do que não precisa mais de ser, não é mais meu, não preciso mais, já foi e pronto, sai de mim, sai que não mais te pertence o que é meu por merecimento, eu assim, mininteira, como sei de ser, minha fôrma, minha forja, meu afeto.
está tudo errado, mas minha sombra, aprendo, é aquilo que é meu sem a minha carne mas com o meu contorno: não há que reclamar, está tudo iluminado.
viver, isso sim, é muito perigoso.
não vou chorar.
vou dar um salto mortal.
por que, meu deus, por que não me fizeste bailarina?
quinta-feira, 27 de março de 2008
27,1
eu hoje me caso contigo, senhor meu, virgem de todos os buracos.
continente
eu hoje te me ofereço completa tua, prostituta ordinária, como se a primeira e a última vez.
imensidade
é no nosso desconhecido certo de cada um desses diazinhos, rendados vividos um a um, que cultivamos aquele rosal, particular impublicável, beirada invisível, meio do mundo.
labirinto
pois que te amo passarinha, passarada.
devir
continente
eu hoje te me ofereço completa tua, prostituta ordinária, como se a primeira e a última vez.
imensidade
é no nosso desconhecido certo de cada um desses diazinhos, rendados vividos um a um, que cultivamos aquele rosal, particular impublicável, beirada invisível, meio do mundo.
labirinto
pois que te amo passarinha, passarada.
devir
segunda-feira, 17 de março de 2008
tudo ao mesmo tempo
tem o samba mínimo nas terças até o fim de abril, blim blim de orvalhada esquisitinho;
tem o juliana samba, que quase se acerta mas ainda não está lá, e que ainda não tem quando de novo, mas vai ter;
tem o rubens nogueira e suas canções perfeitinhas, amanhã, terça, no teatro do santa cruz (depois de tantos anos vou voltar pra escola...);
tem o ó, que é o ó, mas é o ó;
tem o risco (e no risco tem todos nós querendo muito que possamos ser do risco no mais do nosso tempo) que agora vai passear junto com a base móvel riscando de amarelo o chão no centro cultural são paulo em abril;
tem minha vontade de casar, de mudar de casa, e de ver meus filhos na hora do almoço, isso vai ser assim tão insuportavelmente bom;
mas tem o vermelho por todos os lados todos. e essa segunda feira com cara de fim de mundo.
tem o juliana samba, que quase se acerta mas ainda não está lá, e que ainda não tem quando de novo, mas vai ter;
tem o rubens nogueira e suas canções perfeitinhas, amanhã, terça, no teatro do santa cruz (depois de tantos anos vou voltar pra escola...);
tem o ó, que é o ó, mas é o ó;
tem o risco (e no risco tem todos nós querendo muito que possamos ser do risco no mais do nosso tempo) que agora vai passear junto com a base móvel riscando de amarelo o chão no centro cultural são paulo em abril;
tem minha vontade de casar, de mudar de casa, e de ver meus filhos na hora do almoço, isso vai ser assim tão insuportavelmente bom;
mas tem o vermelho por todos os lados todos. e essa segunda feira com cara de fim de mundo.
terça-feira, 4 de março de 2008
samba mínimo
domingo, 17 de fevereiro de 2008
meu peito arde desencontrado.
a certeza de ter um espetáculo e um movimento, a angústia de não vê-lo ainda inteiro e plástico.
a felicidade encarnada dos encontros verdadeiros de gentileza e gratidão, a tristeza oca e silenciosa de rever ou não ver as pessoas que se tornam doloridamente distantes.
dos presentes recebidos, de alegria irretribuível, tem a luiza com seus olhos imensos dizendo-me você estava linda como uma princesa, tem o sorriso orgulhoso e sem palavra do joão, tem o regalo do meu amor cada vez mais meu amor mais meu mais - essas preciosidades fazem de mim a mulher mais feliz do balcão e do mundo, pois que posso dizer que minha condenação de amar muito transmuta-se no diário amar-melhor, enreda o fio úmido do meu destino em formoso tecido roseado que não rompe nem desfaz, enche a casa de flores, e prepara minha velhice dada às mãos que escolhi e que me escolheram.
agradeço, meu deus, humílima, nem sei se mereço, e recebo tuas bênçãos acarinhada.
e peço, se sou digna de pedir, que isso traga sustento, pois que somos feitos de pão e beleza.
a certeza de ter um espetáculo e um movimento, a angústia de não vê-lo ainda inteiro e plástico.
a felicidade encarnada dos encontros verdadeiros de gentileza e gratidão, a tristeza oca e silenciosa de rever ou não ver as pessoas que se tornam doloridamente distantes.
dos presentes recebidos, de alegria irretribuível, tem a luiza com seus olhos imensos dizendo-me você estava linda como uma princesa, tem o sorriso orgulhoso e sem palavra do joão, tem o regalo do meu amor cada vez mais meu amor mais meu mais - essas preciosidades fazem de mim a mulher mais feliz do balcão e do mundo, pois que posso dizer que minha condenação de amar muito transmuta-se no diário amar-melhor, enreda o fio úmido do meu destino em formoso tecido roseado que não rompe nem desfaz, enche a casa de flores, e prepara minha velhice dada às mãos que escolhi e que me escolheram.
agradeço, meu deus, humílima, nem sei se mereço, e recebo tuas bênçãos acarinhada.
e peço, se sou digna de pedir, que isso traga sustento, pois que somos feitos de pão e beleza.
sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008
ridiculinha, 30
evoé de avesso:
ei, escuta, meu amor, o silêncio
um desfile de ventania no meio do peito...
ei, escuta, meu amor, o silêncio
um desfile de ventania no meio do peito...
sábado, 12 de janeiro de 2008
suspensão
as cartas vão silenciar por tempo indeterminado.
quando não se tem nada a dizer e os olhos só querem chorar, melhor repousar a palavra e a cabeça no dorso das mãos pra sentir o ar do tempo, como disse o pastor de cabras.
é que tem hora que a poesia também cala, e então só resta o perdão e a espera, em dor e solidão.
a memória não tem contorno certo e vaga por caminhos incompreensíveis, por vezes tão feios, e invariável obedece a outras velocidades.
queria ser melhor.
o amor segue infinito e intransitivo, flor de formosura, beleza violenta, rosa tatuada, grandeza, redemoinho.
na travessia.
(mãe, não se assuste, está tudo bem)
quando não se tem nada a dizer e os olhos só querem chorar, melhor repousar a palavra e a cabeça no dorso das mãos pra sentir o ar do tempo, como disse o pastor de cabras.
é que tem hora que a poesia também cala, e então só resta o perdão e a espera, em dor e solidão.
a memória não tem contorno certo e vaga por caminhos incompreensíveis, por vezes tão feios, e invariável obedece a outras velocidades.
queria ser melhor.
o amor segue infinito e intransitivo, flor de formosura, beleza violenta, rosa tatuada, grandeza, redemoinho.
na travessia.
(mãe, não se assuste, está tudo bem)
terça-feira, 8 de janeiro de 2008
reviverso
Começo 2008 miúda mas em gratidão: o caminhãozinho preto, o ano novo familiar e quente, a piscina do bb, os filmes no sofá, o projeto da casa, os espetáculos por vir, enfim, um ano que já começou começando, e isso só pode ser um bom prenúncio.
Assim espero. Assim seja.
Pois meu peito está pequeno, minh'alma apertada, os olhos opacos, vejo que minhas alvíssaras no ano passado tinham mais tristeza, mas também mais poesia, e hoje não tenho nem uma coisa nem outra, olho os papéis espalhados pelo chão mas minhas mãos desnorteadas esqueceram o caminho das gavetas, procuro, rezo, choro porque preciso urgentemente de uma boa notícia numeral pra que meu desespero não escureça o ensolarado do dia.
Assim espero. Assim seja.
Pois meu peito está pequeno, minh'alma apertada, os olhos opacos, vejo que minhas alvíssaras no ano passado tinham mais tristeza, mas também mais poesia, e hoje não tenho nem uma coisa nem outra, olho os papéis espalhados pelo chão mas minhas mãos desnorteadas esqueceram o caminho das gavetas, procuro, rezo, choro porque preciso urgentemente de uma boa notícia numeral pra que meu desespero não escureça o ensolarado do dia.
quinta-feira, 27 de dezembro de 2007
retroverso
Termino 2007 como quem come depressa demais: tudo foi tanto e tão rápido que não estou capaz de entender cada parte, de repartir a misturada em pequenas e coloridas moléculas, diferentes e minúsculas, cada uma alimento específico de um lugarzinho do meu corpo.
Termino o ano com a dor da ferida aberta e latejante, avesso repugnante purulento exposto que precisa renascer pra quem sabe cicatrizar de dentro pra fora, e que volta de novo pra me cuspir na cara aquela única certeza de que não posso perder a vigilância, nunca, não há descanso, sei disso, sei disso, e embora saber não seja suficiente, eu sei e isso precisa ser um começo.
Termino o ano repleta e transbordada de amor verdadeiro: uns frescos, desses de alegria suspensa no ar; uns renovados pela beleza do encontro; alguns em tristeza de plataforma, natureza do caminho que nem sempre é o mais fácil; amores-pra-sempre de infinitude e formosura, reinventados e sempre os mesmos; amores de gentileza; amores de solidão.
Mas termino inteira, com minha alegria simples, meus olhos imensos abertos e molhados, as mãos dedicadas, um pouco de cansaço, algum desencanto talvez, o medo sempre aqui e ali em meu desespero cotidiano.
Termino 2007 de mãos dadas a outras mãos, que é pra não esquecer e pra poder seguir adiante.
Que venha 2008, estamos prontos.
Alvíssaras.
Termino o ano com a dor da ferida aberta e latejante, avesso repugnante purulento exposto que precisa renascer pra quem sabe cicatrizar de dentro pra fora, e que volta de novo pra me cuspir na cara aquela única certeza de que não posso perder a vigilância, nunca, não há descanso, sei disso, sei disso, e embora saber não seja suficiente, eu sei e isso precisa ser um começo.
Termino o ano repleta e transbordada de amor verdadeiro: uns frescos, desses de alegria suspensa no ar; uns renovados pela beleza do encontro; alguns em tristeza de plataforma, natureza do caminho que nem sempre é o mais fácil; amores-pra-sempre de infinitude e formosura, reinventados e sempre os mesmos; amores de gentileza; amores de solidão.
Mas termino inteira, com minha alegria simples, meus olhos imensos abertos e molhados, as mãos dedicadas, um pouco de cansaço, algum desencanto talvez, o medo sempre aqui e ali em meu desespero cotidiano.
Termino 2007 de mãos dadas a outras mãos, que é pra não esquecer e pra poder seguir adiante.
Que venha 2008, estamos prontos.
Alvíssaras.
segunda-feira, 17 de dezembro de 2007
carta leal
Quando estiveres com outra mulher, meu senhor meu, peço:
que guardes na memória a angulação das ancas, a curva dos quadris, o ponto exato onde terminam as nádegas e iniciam as coxas, o recorte anterior dos joelhos, a profundidade dos tornozelos, a concha da planta e do peito dos pés, a distribuição dos dedos;
que desenhes com as mãos o ventre e o umbigo, a lateral das costelas, a junção delas com o colo e com a espinha, o caminho dos ossos que sustentam os ombros e o pescoço e os vãos preenchidos de pele e suspiro;
que descubras o comprimento dos braços, a fundura das axilas, o ranger silencioso dos cotovelos, as dobras da chegada ao punho, a maciez das mãos, as linhas da palma, a parábola entre os dedos, os nós, o nascimento das unhas e sua forma e cor, o relevo das veias sob a tez fina;
que acompanhes atenciosamente o movimento dos lábios e da língua, das pálpebras, dos cílios, das narinas em inspiração, das maçãs do rosto, do queixo, das orelhas, dos fios de cabelo em torno da testa e diante das têmporas;
que meças a densidade dos seios, o raio de cada auréola, a geografia dos mamilos, a velocidade da contração quando morderes cada um deles com carinho, a redondeza das glândulas e gosto presumível do seu leite;
que determines com precisão a dimensão de cada parte do seu sexo, especialmente do vale entre os pequenos e grandes lábios, do clitóris em todos os seus possíveis estados e do espaço entre a entrada da vagina e as pregas do ânus;
que afiras a extensão e o volume dos pelos e a trama do seu rendado, e ainda as variações de temperatura e umidade da pele e das mucosas de cada vão, de cada membro, de cada buraco.
Peço, meu senhor meu, que saibas de cor tudo o que haverá para saber e até mais, sobretudo a composição dos seus odores e a música escondida no arrepiar dos poros e no encontro do corpo com o ar. Decores e, depois, ainda quente, descreva-me pormenorizadamente: assim poderei sê-la para continuar a ser tua.
que guardes na memória a angulação das ancas, a curva dos quadris, o ponto exato onde terminam as nádegas e iniciam as coxas, o recorte anterior dos joelhos, a profundidade dos tornozelos, a concha da planta e do peito dos pés, a distribuição dos dedos;
que desenhes com as mãos o ventre e o umbigo, a lateral das costelas, a junção delas com o colo e com a espinha, o caminho dos ossos que sustentam os ombros e o pescoço e os vãos preenchidos de pele e suspiro;
que descubras o comprimento dos braços, a fundura das axilas, o ranger silencioso dos cotovelos, as dobras da chegada ao punho, a maciez das mãos, as linhas da palma, a parábola entre os dedos, os nós, o nascimento das unhas e sua forma e cor, o relevo das veias sob a tez fina;
que acompanhes atenciosamente o movimento dos lábios e da língua, das pálpebras, dos cílios, das narinas em inspiração, das maçãs do rosto, do queixo, das orelhas, dos fios de cabelo em torno da testa e diante das têmporas;
que meças a densidade dos seios, o raio de cada auréola, a geografia dos mamilos, a velocidade da contração quando morderes cada um deles com carinho, a redondeza das glândulas e gosto presumível do seu leite;
que determines com precisão a dimensão de cada parte do seu sexo, especialmente do vale entre os pequenos e grandes lábios, do clitóris em todos os seus possíveis estados e do espaço entre a entrada da vagina e as pregas do ânus;
que afiras a extensão e o volume dos pelos e a trama do seu rendado, e ainda as variações de temperatura e umidade da pele e das mucosas de cada vão, de cada membro, de cada buraco.
Peço, meu senhor meu, que saibas de cor tudo o que haverá para saber e até mais, sobretudo a composição dos seus odores e a música escondida no arrepiar dos poros e no encontro do corpo com o ar. Decores e, depois, ainda quente, descreva-me pormenorizadamente: assim poderei sê-la para continuar a ser tua.
segunda-feira, 10 de dezembro de 2007
ridiculinha, 29
férias:
arrumar a casa, tirar os monstros de dentro do armário.
nenhum alívio, só o cansaço pesado e triste de todas as encarnações.
e aquela vontade, de novo, infantil, de fechar os olhos.
arrumar a casa, tirar os monstros de dentro do armário.
nenhum alívio, só o cansaço pesado e triste de todas as encarnações.
e aquela vontade, de novo, infantil, de fechar os olhos.
quarta-feira, 5 de dezembro de 2007
idílio
Ele chega assim desavisado ao telefone, e fala comigo como se no programa de entrevistas na televisão, mas diante dos meus olhos vejo as imagens infantis do bruxo da novela, como sou ridícula, e a conversa se distende na contra-mão do costume da repartição, o assunto que começou na morte repentina da secretária e na inaptidão por procedimentos vai viajar para outras paragens, paris, samuel e bertolt, romance do novaiorquino, museu alemão das separações, tudo assim de correnteza, finalizada na promessa de um idílio internético e contemporâneo, como são as relações sem abraço.
Eu envio um link, ele deseja passear em Istambul, eu devolvo um parágrafo, ele retorna com uns versos decorados na infância, eu ofereço meia dúzia de idéias aborrecidas na minha tristeza precoce de quem envelheceu cedo, ele me presenteia com sua alegria ligeira de quem não perdeu o tempo da história e viveu como tinha de ser, eu cumpro a promessa com gentileza, ele me faz as perguntas certas e sempre as mesmas, eu desenterro a memória da menina cheia de vontade e certeza que um dia eu fui, ele me predestina feroz dizendo que sou de aço e que tenho muitos corações.
Ele assina desespoir, e mal sabe ele que esse é, no avesso, meu nome.
Eu envio um link, ele deseja passear em Istambul, eu devolvo um parágrafo, ele retorna com uns versos decorados na infância, eu ofereço meia dúzia de idéias aborrecidas na minha tristeza precoce de quem envelheceu cedo, ele me presenteia com sua alegria ligeira de quem não perdeu o tempo da história e viveu como tinha de ser, eu cumpro a promessa com gentileza, ele me faz as perguntas certas e sempre as mesmas, eu desenterro a memória da menina cheia de vontade e certeza que um dia eu fui, ele me predestina feroz dizendo que sou de aço e que tenho muitos corações.
Ele assina desespoir, e mal sabe ele que esse é, no avesso, meu nome.
quinta-feira, 29 de novembro de 2007
cartesiana
são duas casas, a do centro e a do bairro.
são duas noites, as solitárias e as infinitamente.
são duas manhãs, as cinzentas e as macias.
são duas mulheres, a contigo e a tristonha.
são dois filhos, um floresta e uma ensolarada.
são duas escolhas, viver ou não.
na misturada do mundo, no nó da tempestade, na espera dolorida, no diminutivo do peito, na limpeza da pele, no augúrio reservado, aprendo em velocidade variada a ser sempre a mesma por ser muitas.
são duas noites, as solitárias e as infinitamente.
são duas manhãs, as cinzentas e as macias.
são duas mulheres, a contigo e a tristonha.
são dois filhos, um floresta e uma ensolarada.
são duas escolhas, viver ou não.
na misturada do mundo, no nó da tempestade, na espera dolorida, no diminutivo do peito, na limpeza da pele, no augúrio reservado, aprendo em velocidade variada a ser sempre a mesma por ser muitas.
sexta-feira, 23 de novembro de 2007
arestas
os dias recentes eram ventureiros: um sorvete rápido no almoço, metade de uma noite mal dormida juntos, algumas horas barulhentas entre os sócios, um telefonema mal acabado, um jantar de primeiro tempo indigesto, um recado não respondido, uma palavra atravessada.
é certo e verdadeiro e natural que num ou noutro canto, mesmo no meio do mundo que parecia anti-horário, reencontravam aquela mesma formosura pertinaz que os sustentará por todos os séculos e séculos amém, mas nos dias recentes ela entristecida e arenosa repetia no coração a pergunta impronunciável e ele trazia nas narinas e nos duros olhos agora acinzentados o desconforto teimoso, soprados pelo passado exator no viés do vento frio do entardecer estranho de uma primavera sem estação.
é certo e verdadeiro e natural que num ou noutro canto, mesmo no meio do mundo que parecia anti-horário, reencontravam aquela mesma formosura pertinaz que os sustentará por todos os séculos e séculos amém, mas nos dias recentes ela entristecida e arenosa repetia no coração a pergunta impronunciável e ele trazia nas narinas e nos duros olhos agora acinzentados o desconforto teimoso, soprados pelo passado exator no viés do vento frio do entardecer estranho de uma primavera sem estação.
quinta-feira, 22 de novembro de 2007
sofro calado pra não lhe dizer a cada segundo o que é um segundo sem você
sem tempo, sem pouso: dragão.
segunda-feira, 19 de novembro de 2007
flores de papel
pois que essa vida é mesmo circular: minhas dobraduras adolescentes (aprendidas com carinho no livro presenteado pelo primeiro namorado) nas doze mãos contemporâneas e dadivosas vão espocar num jardim azul de risco no meio da rua mais capital da capital...
que de minhas mãos pequenas nasçam sempre lírios brancos, bênção dos descaminhos tortos da minha ancestralidade oriental, longínqua mas ainda presente nos fios finos dos meus cabelos e na ponta dos dedos que sabem, dramáticos, dobrar flores.
quiçá seja esse o sinal esperado para que assim os dias sem cor voltem a ensolarar.
que de minhas mãos pequenas nasçam sempre lírios brancos, bênção dos descaminhos tortos da minha ancestralidade oriental, longínqua mas ainda presente nos fios finos dos meus cabelos e na ponta dos dedos que sabem, dramáticos, dobrar flores.
quiçá seja esse o sinal esperado para que assim os dias sem cor voltem a ensolarar.
terça-feira, 13 de novembro de 2007
carta férrea
Precisaria, meu senhor meu, de uma bigorna amarrada aos meus pés pequenos pra que fiquem no chão, mas a memória é tão mais concreta e meu corpo fácil sobrevoa as mesas feias e os papéis acumulados, o tempo escoa entre os dedos finos, prejudico o erário em favor da nossa coleção agora compilada. Passo as horas ao largo, em outro sítio, a todo instante sofro o assalto da tua presença que me leva a firmeza dos joelhos, tu que como nenhum sabes derrubar-me dos saltos. Tua dor diante das minhas mãos não desgruda do dentro dos meus olhos, arrefece o meio do umbigo, suspendo, e lá estou eu de volta ao nosso calendário lunar, às noites imensas e horizontais e sem sono nenhum. Visito, como gostas, várias vezes meu próprio corpo na tentativa transversa de que vás embora daqui, mas no reverso e inverso estás em mim ainda mais definitivo, cadeado que perdeu a chave, âncora de profundezas profundas, navio atracado sem possibilidade de partir.
segunda-feira, 12 de novembro de 2007
quarta-feira, 7 de novembro de 2007
ano um
olha de perto, espia só:
nosso rosal formoso contumaz florido, desde aquela primeira que esqueceu de morrer.
pois que vamos juntos, de mãos dadas, na saúde e na doença, na alegria e na tristeza, no meio da rua, no umbigo do mundo, no olho dos redemoinhos todos e das tempestades, correntezas e ensolaradas, por todos e cada um dos dias de nossas vidas.
sim, nós sabemos dançar.
nosso rosal formoso contumaz florido, desde aquela primeira que esqueceu de morrer.
pois que vamos juntos, de mãos dadas, na saúde e na doença, na alegria e na tristeza, no meio da rua, no umbigo do mundo, no olho dos redemoinhos todos e das tempestades, correntezas e ensolaradas, por todos e cada um dos dias de nossas vidas.
sim, nós sabemos dançar.
terça-feira, 6 de novembro de 2007
repastagem
Deus pai, São Jorge, Santa Teresinha das minhas rosas:
olhem por mim, lupanares sagrados de aleluias, no sombrio da noitinha de vento temeroso, na simesmice das escolhas sempre solitárias, no caminho enevoado que não mostra o passo depois do passo dado.
Guimarães de rosas e de passarada: esteja sempre aqui comigo pra dar a mão de palavras que desconheço, pra reinventar aquelas que amorosam meu dizer e meu desdizer em belezuras e desdiversos, pra sorrir e chorar com estas que são o meu eumesmim, pra desenhar nosso devir em mãos-patas-dadas, barcais tatuado na carne e na delicadeza, dor e alegria, todos infinitos tudos.
Frutos meus, olhos de imensidão de floresta e ensolarada dos dias: saibam de todos os jeitos de que fomos feitos por sentir, e mesmo daqueles que ainda aprenderemos, que minha vida, meus olhos, meu cantar, minhas mãos, meu sonhar e meu desfazer são seus, desde sempre e para o sempre, pois que o amor não tem fim nem começo.
E a mim mesma, em nome de todos os anteriores e posteriores: rogo estar inteira e forte misturada confundida no meu próprio sangue que de muitos é formado formoso, que preciso de mim, e que estes outros precisam ser inteiros para desprecisarem-me.
Amém.
olhem por mim, lupanares sagrados de aleluias, no sombrio da noitinha de vento temeroso, na simesmice das escolhas sempre solitárias, no caminho enevoado que não mostra o passo depois do passo dado.
Guimarães de rosas e de passarada: esteja sempre aqui comigo pra dar a mão de palavras que desconheço, pra reinventar aquelas que amorosam meu dizer e meu desdizer em belezuras e desdiversos, pra sorrir e chorar com estas que são o meu eumesmim, pra desenhar nosso devir em mãos-patas-dadas, barcais tatuado na carne e na delicadeza, dor e alegria, todos infinitos tudos.
Frutos meus, olhos de imensidão de floresta e ensolarada dos dias: saibam de todos os jeitos de que fomos feitos por sentir, e mesmo daqueles que ainda aprenderemos, que minha vida, meus olhos, meu cantar, minhas mãos, meu sonhar e meu desfazer são seus, desde sempre e para o sempre, pois que o amor não tem fim nem começo.
E a mim mesma, em nome de todos os anteriores e posteriores: rogo estar inteira e forte misturada confundida no meu próprio sangue que de muitos é formado formoso, que preciso de mim, e que estes outros precisam ser inteiros para desprecisarem-me.
Amém.
segunda-feira, 5 de novembro de 2007
caverna
o oco do mundo está posto no meio do peito:
bolha de ar cuspida de baixo pra cima no ausente de ti e no presente em mim, contornos desenhados de vergonha triste e jorrados em pranto de desvio lamacento e sujo, barranco das encarnações, ar de fel, veneno e umidade.
escuridão.
silêncio.
mas no depois tem a pedra que vira fumaça que vira fogo, alumeia inconteste.
mas no antes tem o náutilo das funduras infinitas em ausência de qualquerzinha luz.
nos abismos abissais, não to esqueças, o amor resiste.
eu sei, o dia não amanheceu.
bolha de ar cuspida de baixo pra cima no ausente de ti e no presente em mim, contornos desenhados de vergonha triste e jorrados em pranto de desvio lamacento e sujo, barranco das encarnações, ar de fel, veneno e umidade.
escuridão.
silêncio.
mas no depois tem a pedra que vira fumaça que vira fogo, alumeia inconteste.
mas no antes tem o náutilo das funduras infinitas em ausência de qualquerzinha luz.
nos abismos abissais, não to esqueças, o amor resiste.
eu sei, o dia não amanheceu.
quarta-feira, 31 de outubro de 2007
diário da ausência, segundo dia
ontem tive vergonha de mim.
estavas lá, na praça, na cidade das cavernas, com as crianças correndo ao redor do coreto - o tempo dos viajantes é outro, bem sabes - e eu aqui, no meio da minha pequenez e do meu excesso, atrapalhando a tua noite de estrelas.
desliguei o telefone com vergonha da minha saudade, a inconveniência estalada no meio do peito, e fui dormir muito e adolescente, sem vontade de acordar.
perdoa-me, meu senhor meu, minha desmesura.
estavas lá, na praça, na cidade das cavernas, com as crianças correndo ao redor do coreto - o tempo dos viajantes é outro, bem sabes - e eu aqui, no meio da minha pequenez e do meu excesso, atrapalhando a tua noite de estrelas.
desliguei o telefone com vergonha da minha saudade, a inconveniência estalada no meio do peito, e fui dormir muito e adolescente, sem vontade de acordar.
perdoa-me, meu senhor meu, minha desmesura.
segunda-feira, 29 de outubro de 2007
diário da ausência, primeiro dia
meu senhor meu,
tenho muita saudade.
o dia foi de tumulto.
a noite foi de solidão.
tua ausência pesa-me dolorida.
te espero como nunca.
te espero como sempre.
tenho muita saudade.
o dia foi de tumulto.
a noite foi de solidão.
tua ausência pesa-me dolorida.
te espero como nunca.
te espero como sempre.
terça-feira, 23 de outubro de 2007
auguração
o ano será de sorte, costumávamos sussurrar sob a lua na janela; e nos já foi generoso, pois que ensolaramos infinitudes, pois que o disco saiu com minhas pétalas, minha tristeza e teus colchetes, pois que do encontro nasceu o risco.
o ano deveria ser de sorte, e acreditamos tanto no vôo dos pássaros, nas sincronicidades amontoadas, nas delicadezas; e tem sido verdadeiro, porque vamos juntos e sorridentes, apesar do escuro desconhecido, dos imponderáveis sucessivos, da velocidade intransigente.
são 70 dias ainda, e seguimos assim, as mãos dadas, agarradas às mãos, os joelhos empenhados em não despencar, os olhos encharcados e corajosos, muito e cada vez mais misturados, repetindo um para o outro mesmo às vezes sem certeza que tudo vai dar certo, esse é nosso ano de sorte, os números não haveriam de mentir, e o futuro logo ali pertinho nos reserva o lugar que merecemos, pois desejamos tão pouco, meu deus, só almoços de tumulto e noites de profundezas, aquele direito ao mais formoso dos desígnios e que nos prometeram inalienável: nosso rosal amoroso, teu norte no meu, o labirinto, e além.
o ano deveria ser de sorte, e acreditamos tanto no vôo dos pássaros, nas sincronicidades amontoadas, nas delicadezas; e tem sido verdadeiro, porque vamos juntos e sorridentes, apesar do escuro desconhecido, dos imponderáveis sucessivos, da velocidade intransigente.
são 70 dias ainda, e seguimos assim, as mãos dadas, agarradas às mãos, os joelhos empenhados em não despencar, os olhos encharcados e corajosos, muito e cada vez mais misturados, repetindo um para o outro mesmo às vezes sem certeza que tudo vai dar certo, esse é nosso ano de sorte, os números não haveriam de mentir, e o futuro logo ali pertinho nos reserva o lugar que merecemos, pois desejamos tão pouco, meu deus, só almoços de tumulto e noites de profundezas, aquele direito ao mais formoso dos desígnios e que nos prometeram inalienável: nosso rosal amoroso, teu norte no meu, o labirinto, e além.
quarta-feira, 10 de outubro de 2007
funcional 3
quero sumir, desaparecer.
não quero as capas de plástico, os telefonemas de bibliotecárias estúpidas, não quero a prestação de contas as notas fiscais os recibos de empenho as ordens de execução de serviço as locações de natureza artística os decretos de fixação de preços públicos as cessões por preço mínimo ou cinco por cento da bilheteria o que for de maior valor os aditamentos contratuais as dispensas de licitação a lei 8666 o despacho administrativo a reunião do conselho administrativo o grupo de obras os projetos especiais a rádio peão o alto clero, não quero mais.
minha contribuição não é frutífera, não tenho competência para bom serviço à municipalidade, minhas palavras enfeitadas e meus diminutivos não são adequados às averiguações disciplinares nem aos esclarecimentos de dolo culpa ou prejuízo ao erário.
não quero.
mereço, como disse hoje anita, um lugar mais parecido com meus sonhos:
as manhãs em casa com minhas rosas, a mesa posta, meus amores amanhecendo em tumulto ensolarado
as tardes com flores de plástico nos oratórios do meu pai
as noites tão somente de belezas.
no risco. na travessia.
não quero as capas de plástico, os telefonemas de bibliotecárias estúpidas, não quero a prestação de contas as notas fiscais os recibos de empenho as ordens de execução de serviço as locações de natureza artística os decretos de fixação de preços públicos as cessões por preço mínimo ou cinco por cento da bilheteria o que for de maior valor os aditamentos contratuais as dispensas de licitação a lei 8666 o despacho administrativo a reunião do conselho administrativo o grupo de obras os projetos especiais a rádio peão o alto clero, não quero mais.
minha contribuição não é frutífera, não tenho competência para bom serviço à municipalidade, minhas palavras enfeitadas e meus diminutivos não são adequados às averiguações disciplinares nem aos esclarecimentos de dolo culpa ou prejuízo ao erário.
não quero.
mereço, como disse hoje anita, um lugar mais parecido com meus sonhos:
as manhãs em casa com minhas rosas, a mesa posta, meus amores amanhecendo em tumulto ensolarado
as tardes com flores de plástico nos oratórios do meu pai
as noites tão somente de belezas.
no risco. na travessia.
segunda-feira, 8 de outubro de 2007
carta noturna
Quisera fossem, senhor meu, apenas noite nossos dias.
Debaixo do sol, senhor meu, as dobras no meu rosto aparecem e mostram a dor, o passar dos anos e as coisas que insistem em não passar; minhas mãos tremem diante do insucesso que não cansa de me derrubar em profundo desespero, este que me faz cantar chorando baixinho pra que Deus não me abandone, por favor, fica comigo; minhas pernas fraquejam, meu ar desnorteia, não como, não resulto, não consigo. Sob o dia, tudo aparece, ensurdecedor, e eu realizo que não vou aguentar. Minha derrrota, hoje sei, é diurna, inexorável e solar, zomba de mim com seus dentes claros e seus números perfeitos.
Mas escondidos do sol todos nossos anseios sobrevivem, vivem intensos em floradas escuras sucessivas e sorridentes, e minha certeza me reencontra entre teus braços macios, em tuas mãos pesadas. Nosso protetor aparece pra nos guardar, cavalgadura lunar. Nossa rosa ganha brilho e define sua luz escura, brilhante e inútil. Nossa alegria conquista toda a pele, sem limite, sem tempo, sem fim.
À noite sou feliz porque sou tua mulher, tua prostituta vadia, tua outra, tuas muitas e quaisquer. Assim, sou eu mesma.
Debaixo do sol, senhor meu, as dobras no meu rosto aparecem e mostram a dor, o passar dos anos e as coisas que insistem em não passar; minhas mãos tremem diante do insucesso que não cansa de me derrubar em profundo desespero, este que me faz cantar chorando baixinho pra que Deus não me abandone, por favor, fica comigo; minhas pernas fraquejam, meu ar desnorteia, não como, não resulto, não consigo. Sob o dia, tudo aparece, ensurdecedor, e eu realizo que não vou aguentar. Minha derrrota, hoje sei, é diurna, inexorável e solar, zomba de mim com seus dentes claros e seus números perfeitos.
Mas escondidos do sol todos nossos anseios sobrevivem, vivem intensos em floradas escuras sucessivas e sorridentes, e minha certeza me reencontra entre teus braços macios, em tuas mãos pesadas. Nosso protetor aparece pra nos guardar, cavalgadura lunar. Nossa rosa ganha brilho e define sua luz escura, brilhante e inútil. Nossa alegria conquista toda a pele, sem limite, sem tempo, sem fim.
À noite sou feliz porque sou tua mulher, tua prostituta vadia, tua outra, tuas muitas e quaisquer. Assim, sou eu mesma.
terça-feira, 2 de outubro de 2007
quarta-feira, 26 de setembro de 2007
sextante
eu vou cantar pra são jorge
eu vou cantar pro meu joão
eu vou cantar pra minha luiza
eu vou cantar pro meu minotauro
eu vou cantar pros meus amores, os presentes e os ausentes.
eu vou cantar em oração e a serviço
eu vou cantar em gratidão e oferecimento
eu vou cantar em tristeza e alegria
eu vou cantar em devoção
que é só como sei ser: amor generoso e intransitivo.
eu vou cantar pro meu joão
eu vou cantar pra minha luiza
eu vou cantar pro meu minotauro
eu vou cantar pros meus amores, os presentes e os ausentes.
eu vou cantar em oração e a serviço
eu vou cantar em gratidão e oferecimento
eu vou cantar em tristeza e alegria
eu vou cantar em devoção
que é só como sei ser: amor generoso e intransitivo.
segunda-feira, 24 de setembro de 2007
quinta-feira, 6 de setembro de 2007
mudança

amanhã vamos nos mudar.
amanhã começa uma outra história, feita de delicadezas, de memórias, e sobretudo de amor (aquele maior que mora na felicidade do encontro e nas pequenas alegrias, pois que nos descobrimos amigos de infância).
amanhã faremos um brinde ao devir.
e ao risco.
(dia 21 é a inauguração... http://www.risco6.com.br/)
sexta-feira, 31 de agosto de 2007
déjà vu
não há tempo pra escrever não há tempo pra dormir não dá tempo de maternar não tem tempo de pensar não tem tempo de fazer direito não tem tempo pra organizar o tempo e a falta de tempo não dá tempo de ligar pros amigos pra casa pro vidraceiro não deu tempo de pagar a conta não há tempo de terminar o que já está começado nem o que já foi mal começado não tem tempo de esvaziar a mesa não dá tempo de ver que o tempo passa rápido e daqui a pouco não vai dar mais tempo mesmo e tudo então vai ficar
desesperadamente
amaldiçoadamente
como sempre foi
atrasado atropelado aflito tenso ruim.
um cansaço de todas as encarnações pesa sobre meus ombros.
ele está impaciente, e tem razão, minhas mãos estão andando pelos pés.
pois que vejo o fantasma daquela inércia passar por perto, do outro lado da rua, ali olhando pra mim, acenando suas mãos feias e gordas, fagocitantes.
rezo, choro, chego a prometer, juro mesmo que dessa vez ele vai dobrar a esquina pra lá e encostar noutra mulherzinha desavisada.
desesperadamente
amaldiçoadamente
como sempre foi
atrasado atropelado aflito tenso ruim.
um cansaço de todas as encarnações pesa sobre meus ombros.
ele está impaciente, e tem razão, minhas mãos estão andando pelos pés.
pois que vejo o fantasma daquela inércia passar por perto, do outro lado da rua, ali olhando pra mim, acenando suas mãos feias e gordas, fagocitantes.
rezo, choro, chego a prometer, juro mesmo que dessa vez ele vai dobrar a esquina pra lá e encostar noutra mulherzinha desavisada.
sexta-feira, 24 de agosto de 2007
boda espiritual
Tu não estas comigo em momentos escassos:
No pensamento meu, amor, tu vives nua
- Toda nua, pudica e bela, nos meus braços.
O teu ombro no meu, ávido, se insinua.
Pende a tua cabeça. Eu amacio-a... Afago-a...
Ah, como a minha mão treme... Como ela é tua...
Põe no teu rosto o gozo uma expressão de mágoa.
O teu corpo crispado alucina. De escorço
O vejo estremecer como uma sombra n'água.
Gemes quase a chorar. Suplicas com esforço.
E para amortecer teu ardente desejo
Estendo longamente a mão pelo teu dorso...
Tua boca sem voz implora em um arquejo.
Eu te estreito cada vez mais, e espio absorto
A maravilha astral dessa nudez sem pejo...
E te amo como se ama um passarinho morto.
(manuel bandeira, in a cinza das horas, 1917)
No pensamento meu, amor, tu vives nua
- Toda nua, pudica e bela, nos meus braços.
O teu ombro no meu, ávido, se insinua.
Pende a tua cabeça. Eu amacio-a... Afago-a...
Ah, como a minha mão treme... Como ela é tua...
Põe no teu rosto o gozo uma expressão de mágoa.
O teu corpo crispado alucina. De escorço
O vejo estremecer como uma sombra n'água.
Gemes quase a chorar. Suplicas com esforço.
E para amortecer teu ardente desejo
Estendo longamente a mão pelo teu dorso...
Tua boca sem voz implora em um arquejo.
Eu te estreito cada vez mais, e espio absorto
A maravilha astral dessa nudez sem pejo...
E te amo como se ama um passarinho morto.
(manuel bandeira, in a cinza das horas, 1917)
carta da ausência
Voltou para casa rápido, mal despediu-se, no fundo achava que talvez ele a estivesse esperando. Abriu a porta ansiosa, atravessou o corredor, e encontrou a cama feita, como deveria ser, o quarto vazio. O frio quarto vazio. Fosse de outro jeito, teria despido-se em silêncio felino, banhado o corpo cansado para tirar o odor do bar, e então perfumada de rosas deitaria nua ao seu lado, escorregando as mãos sob o cobertor azul para sentir o calor da pele, e ao encontrá-lo já pronto, ainda adormecido, invadiria seus sonhos, desfrutaria dele como se de um estranho, diria barbaridades, prostituiria. Mas ele não estava lá. Sua inaptidão para dormir desacompanhada a fez insone, e por imediata conseqüência, rodopiou o pensamento naquilo que ainda carece de ordem, o conforto que não é possível dar aos filhos e a si mesma, a conta do telefone, a construção das novas condições demora um tempo que desconhece e desentende. Chorou miúdo de garganta ardida, teve de novo a vontade infantil, vou fechar os olhos e quando abrir tudo estará resolvido. Tentou diversas vezes, mas o quarto continuava vazio, tudo no mesmo lugar, sobretudo as coisas que insitem em trazer de volta um outro tempo, cujas felicidades viram lembrança e as tristezas horror. Mas ele não estava lá. Tentou um prazer imediato e mediano, enfiou os dedos entre as coxas, mas estava seca, ressecada, sem efeito, ele não estava lá. Teve medo. Chorou de medo. Lembrou-se de um verso preferido: te amo como se ama um passarinho morto. Dormiu vestida de olhos borrados, e no limite do seu desespero encontrou alguma beleza, aquela que reside no gesto delicado e generoso da equilibrista do circo vagabundo.
segunda-feira, 20 de agosto de 2007
labirinto
Ansiosos, trabalharam até a madrugada na costura das flores, no adorno das molduras, na composição das luzes, no combinado das cores, ele com suas patas de minotauro, ela com seus olhos de infinitudes, os dois no silêncio dos fundos da casa. Decidiram o nome, a seqüência dos dias e as imagens que estarão no fundo das lentes miúdas, corpos conhecidos, corpos anônimos, e os seus. Na confusão bonita da mesa velha, teceram o futuro, e os frutos do futuro; no rosal da etiqueta, o caminho e a saída, o risco.
terça-feira, 14 de agosto de 2007
salmo 27
1 O Senhor é a minha luz e a minha salvação; a quem temerei? O Senhor é a força da minha vida; de quem me recearei?
2 Quando os malvados investiram contra mim, para comerem as minhas carnes, eles, meus adversários e meus inimigos, tropeçaram e caíram.
3 Ainda que um exército se acampe contra mim, o meu coração não temerá; ainda que a guerra se levante contra mim, conservarei a minha confiança.
4 Uma coisa pedi ao Senhor, e a buscarei: que possa morar na casa do Senhor todos os dias da minha vida, para contemplar a formosura do Senhor, e inquirir no seu templo.
5 Pois no dia da adversidade me esconderá no seu pavilhão; no recôndito do seu tabernáculo me esconderá; sobre uma rocha me elevará.
6 E agora será exaltada a minha cabeça acima dos meus inimigos que estão ao redor de mim; e no seu tabernáculo oferecerei sacrifícios de júbilo; cantarei, sim, cantarei louvores ao Senhor.
7 Ouve, ó Senhor, a minha voz quando clamo; compadece-te de mim e responde-me.
8 Quando disseste: Buscai o meu rosto; o meu coração te disse a ti: O teu rosto, Senhor, buscarei.
9 Não escondas de mim o teu rosto, não rejeites com ira o teu servo, tu que tens sido a minha ajuda. Não me enjeites nem me desampares, ó Deus da minha salvação.
10 Se meu pai e minha mãe me abandonarem, então o Senhor me acolherá.
11 Ensina-me, ó Senhor, o teu caminho, e guia-me por uma vereda plana, por causa dos que me espreitam.
12 Não me entregues à vontade dos meus adversários; pois contra mim se levantaram falsas testemunhas e os que respiram violência.
13 Creio que hei de ver a bondade do Senhor na terra dos viventes.
14 Espera tu pelo Senhor; anima-te, e fortalece o teu coração; espera, pois, pelo Senhor.
2 Quando os malvados investiram contra mim, para comerem as minhas carnes, eles, meus adversários e meus inimigos, tropeçaram e caíram.
3 Ainda que um exército se acampe contra mim, o meu coração não temerá; ainda que a guerra se levante contra mim, conservarei a minha confiança.
4 Uma coisa pedi ao Senhor, e a buscarei: que possa morar na casa do Senhor todos os dias da minha vida, para contemplar a formosura do Senhor, e inquirir no seu templo.
5 Pois no dia da adversidade me esconderá no seu pavilhão; no recôndito do seu tabernáculo me esconderá; sobre uma rocha me elevará.
6 E agora será exaltada a minha cabeça acima dos meus inimigos que estão ao redor de mim; e no seu tabernáculo oferecerei sacrifícios de júbilo; cantarei, sim, cantarei louvores ao Senhor.
7 Ouve, ó Senhor, a minha voz quando clamo; compadece-te de mim e responde-me.
8 Quando disseste: Buscai o meu rosto; o meu coração te disse a ti: O teu rosto, Senhor, buscarei.
9 Não escondas de mim o teu rosto, não rejeites com ira o teu servo, tu que tens sido a minha ajuda. Não me enjeites nem me desampares, ó Deus da minha salvação.
10 Se meu pai e minha mãe me abandonarem, então o Senhor me acolherá.
11 Ensina-me, ó Senhor, o teu caminho, e guia-me por uma vereda plana, por causa dos que me espreitam.
12 Não me entregues à vontade dos meus adversários; pois contra mim se levantaram falsas testemunhas e os que respiram violência.
13 Creio que hei de ver a bondade do Senhor na terra dos viventes.
14 Espera tu pelo Senhor; anima-te, e fortalece o teu coração; espera, pois, pelo Senhor.
domingo, 12 de agosto de 2007
retroz adonis
Veio envolto em rosas, com suas cinco gavetas divididas em quinze compartimentos cada uma, de madeira encerada pelo tempo e gasta pelo uso de mãos que desconheço mas que faço minhas. Nos números precisos, escolhidos, as surpresas que, uma a uma, devolveram ao meu rosto o sorriso conhecido, aquele que tinha nas festas de quando criança: as três plaquinhas de ferro esmaltado, as nove rosas aveludadas, o anel de prata com o santo guerreiro, o cartãozinho florido, os sapatos de princesa, a outra rosa no vidro, os dois pássaros iluminados, uns versos pornográficos, as outras rosas de plástico, o papel de seda. Nas horas que abrem o novo ano, tudo volta a ter a certeza que eu tinha no sorriso que se me escapava orvalhado nas festas de quando criança. Visto o amuleto no anelar da mão esquerda, calço os sapatos, beijo tua boca como fosse a primeira e a última vez, sirvo-te com a calma e a urgência que são nossas e pra sempre serão, pronuncio as palavras sagradas enredada nos teus braços, adormeço protegida pelo teu calor como dormiria uma menina, sem medo do escuro, do silêncio ou da solidão. O dia amanhece perigoso como todos os outros, mas então me lembro quase e ainda assustada que tenho já uma nova memória e meu corpo conhece outro movimento, e este é o maior dos presentes.
A nossa flor segue com viço, perfume e cor: a rosa nas patas do minotauro, no labirinto, no meio do dia, no meio do mundo, no risco e na metrópole, na travessia.
A nossa flor segue com viço, perfume e cor: a rosa nas patas do minotauro, no labirinto, no meio do dia, no meio do mundo, no risco e na metrópole, na travessia.
quinta-feira, 9 de agosto de 2007
vésperas
Às vésperas de um novo ano sempre é assim, e eu que já devia me acostumar, ainda sofro sempre, insone: a filha fica doente, e estamos já no terceiro dia de hospital, a conta bancária de cabeça pra baixo, o trabalho sem nem mais ter os pés, tudo, tudo numa confusão tão desparatada, um vaudeville sem graça nenhuma.
Às vésperas sofro muito e choro à toa, sinto-me assim, miudinha.
Ridícula, eu sei, e pra acalmar vejo meu rosal ensolarado, os filhos lindos, meu amor todo meu que cuida de mim (infinitudes que desconhecia, benção por mim sonhada, amém), o risco que fica pronto e anuncia o seu, o nosso, devir.
É o medo, eu sei, superlativo, o tempo que passa depressa. E esse nó na garganta, um terror de não dar certo.
Calma, Juliana, respira: é só um dia depois do outro.
Às vésperas sofro muito e choro à toa, sinto-me assim, miudinha.
Ridícula, eu sei, e pra acalmar vejo meu rosal ensolarado, os filhos lindos, meu amor todo meu que cuida de mim (infinitudes que desconhecia, benção por mim sonhada, amém), o risco que fica pronto e anuncia o seu, o nosso, devir.
É o medo, eu sei, superlativo, o tempo que passa depressa. E esse nó na garganta, um terror de não dar certo.
Calma, Juliana, respira: é só um dia depois do outro.
sexta-feira, 3 de agosto de 2007
do real real
quinze anos. duas da madrugada, quase arrancou-lhe a cabeça. quarenta pontos. sem poder lavar-se até o exame de corpo-delito, só às dezoito horas. paciência, minha senhora. coquetel de remédios. a mãe de 43 anos já é avó e está grávida do terceiro. uma carona com o conhecido do conhecido. tão bonita, alta, magra, negra, eu a conheci na repartição. linda. que mundo é esse, meu deus, e essa sensação de estar tão perto, e tão sem ter o que fazer.
quarta-feira, 1 de agosto de 2007
o risco é...
... não ter mais tempo pra escrever;
... estar na repartição e simplesmente não conseguir;
... tomar vinho no copo de plástico no meio dos escombros, 12 mãos sorridentes;
... acordar às 5h da madrugada com dor de estômago;
... sonhar com flores de plástico, luminárias e rosas;
... construir, urgentemente, um outro tempo, um outro lugar.
em breve, na metrópole.
... estar na repartição e simplesmente não conseguir;
... tomar vinho no copo de plástico no meio dos escombros, 12 mãos sorridentes;
... acordar às 5h da madrugada com dor de estômago;
... sonhar com flores de plástico, luminárias e rosas;
... construir, urgentemente, um outro tempo, um outro lugar.
em breve, na metrópole.
quarta-feira, 25 de julho de 2007
carta predestinada
que as noites sejam sempre fartas e límpidas, de enxergar o horizonte e a cidade, e sem fim.
que o amor bem feito e o amanhecer bem perto sejam, ainda que poucos, sempre doces, vadios e urgentes, reinventados e sempre os mesmos - como se a primeira e a última vez.
que meu coração, às vezes leviano, às vezes tímido, mas nunca miúdo, possa estar sempre perto do teu.
meu corpo gosta do teu.
minha alma também.
(senhor meu: reescrevo a carta impúblicavel a ti enviada quando eram outros os tempos, para não esquecer nosso desígnio, o mais formoso, o de amar; para não perder o norte, ou o sul, agora que assumimos o risco; e para dizer, carinho no teu rosto, tudo vai dar certo, porque assim merecemos, maiusculamente)
que o amor bem feito e o amanhecer bem perto sejam, ainda que poucos, sempre doces, vadios e urgentes, reinventados e sempre os mesmos - como se a primeira e a última vez.
que meu coração, às vezes leviano, às vezes tímido, mas nunca miúdo, possa estar sempre perto do teu.
meu corpo gosta do teu.
minha alma também.
(senhor meu: reescrevo a carta impúblicavel a ti enviada quando eram outros os tempos, para não esquecer nosso desígnio, o mais formoso, o de amar; para não perder o norte, ou o sul, agora que assumimos o risco; e para dizer, carinho no teu rosto, tudo vai dar certo, porque assim merecemos, maiusculamente)
segunda-feira, 23 de julho de 2007
do real
... e eu, que fui forjada no afeto, não sei lidar com as coisas corriqueiras da vida, por isso as admiro tanto e as quero tanto, e reinvento a cada instante a sua beleza banal; eu, que fui forjada na beleza do afeto, não sei olhar para a feiúra do dia que não amanhece, não sei encontrar a saída para o problema diário, não sei lidar com o rasteiro que recheia as horas; eu, que fui forjada no agudo do afeto, sofro muito, muito mais do que devia, porque a disforia é a mãe do mesmo afeto, e da adversidade, e da dúvida, e de todas as coisas que não são a certeza, talvez também da covardia; eu, que fui forjada na dor do afeto, quero tudo assim, rápido e agora, geração desgraçada a minha que não sabe do sacrifício inerente; eu, que fui forjada na facilidade do afeto, tenho no íntimo que tudo vai findar feliz como uma brincadeira de criança, como um truque mágico, como um conto de fadas; eu, que fui forjada na falácia do afeto, acredito que sou digna de sorte, minto olhando no espelho, fujo pra dentro dele pra parecer que a mereço; eu, que fui forjada na mentira do afeto, teço palavras para enredar o tapete dos meus sonhos de felicidade que se desfaz frouxo e roto ao raiar da aurora dos dias de verdade, esses que não têm afeto nenhum, não têm beleza qualquer: nos dias de verdade, a régua tem números positivos e negativos, enfileirados, inexoráveis, sem perdão.
Eu, que fui forjada no afeto, não fui preparada para a verdade real: meu coração bruto, meu corpo gentil, minha voz triste, meus olhos imensos talvez de nada sirvam.
Eu, que fui forjada no afeto, não fui preparada para a verdade real: meu coração bruto, meu corpo gentil, minha voz triste, meus olhos imensos talvez de nada sirvam.
quinta-feira, 19 de julho de 2007
parido
E então, sozinha na sala, rompo o lacre de plástico e o toco pela primeira vez.
Rosa desabrochada em minhas mãos.
Fresco e antigo.
Mínimo gentil.
Claro.
O gesto um pouco impreciso, o sorriso florescido amoroso, o ardido na garganta consecutivo, os olhos completam e deságuam: ficou tão bonito, ô meu deus.
Agora é nascido; e como todos os meus, gestação e parto sofridos.
Agora é o risco.
Que venha.
Rosa desabrochada em minhas mãos.
Fresco e antigo.
Mínimo gentil.
Claro.
O gesto um pouco impreciso, o sorriso florescido amoroso, o ardido na garganta consecutivo, os olhos completam e deságuam: ficou tão bonito, ô meu deus.
Agora é nascido; e como todos os meus, gestação e parto sofridos.
Agora é o risco.
Que venha.
quarta-feira, 18 de julho de 2007
pe.risco.pio
(houaiss e seu auxílio luxuoso)
periscópio:
substantivo masculino
equipamento óptico, empregado especialmente em submarinos, que permite observar um objeto ou conjunto de objetos por cima de obstáculos que impedem sua visão direta.
periscópio:
substantivo masculino
equipamento óptico, empregado especialmente em submarinos, que permite observar um objeto ou conjunto de objetos por cima de obstáculos que impedem sua visão direta.
t.risco
trisco:
Acepções
verbo intransitivo e transitivo direto, 1ª pessoa do singular do presente do indicativo
1. meter-se em briga ou discussão, desordem
2. produzir (fogo) com a pederneira
3. provocar leve ruído
4. mover-se ligeiramente
5. roçar de leve, ligeiramente
Acepções
verbo intransitivo e transitivo direto, 1ª pessoa do singular do presente do indicativo
1. meter-se em briga ou discussão, desordem
2. produzir (fogo) com a pederneira
3. provocar leve ruído
4. mover-se ligeiramente
5. roçar de leve, ligeiramente
p.risco
prisco:
Acepções 1
adjetivo
que pertence a tempos idos; antigo, velho, prístino
Acepções 2
substantivo masculino
1. salto para o lado ou para a frente que o cavalo dá quando quer livrar-se do cavaleiro
2. cavalo que costuma dar priscos
Acepções 3
verbo intransitivo, 1ª pessoa do singular do presente do indicativo
1. dar priscos; pular para os lados
2. fugir, priscando
3. afastar-se de algum lugar; retirar-se
Acepções 1
adjetivo
que pertence a tempos idos; antigo, velho, prístino
Acepções 2
substantivo masculino
1. salto para o lado ou para a frente que o cavalo dá quando quer livrar-se do cavaleiro
2. cavalo que costuma dar priscos
Acepções 3
verbo intransitivo, 1ª pessoa do singular do presente do indicativo
1. dar priscos; pular para os lados
2. fugir, priscando
3. afastar-se de algum lugar; retirar-se
quinta-feira, 12 de julho de 2007
concepção
No dia 12 do 7 de 2007 é gerado o risco: parede de vidro, giramundos voadores, flores de plástico, rosas tatuadas, anitas fatoriais, carimbos desautorizados, cavalos investidos, livretos fotocopiados, oratórios pagãos, inutilidades diversas, versos empoleirados, coletivo de idéias, balaio de vontades, garimpo da delicadeza, traço do devir, miolo da cidade, meio da travessia.
Benvindo seja. Afortunado seja. Abençoado seja.
Traz em si, além do nome dimensional, as insígnias alvissareiras dos números e o carinho laborioso das 12 mãos fazedoras.
Benvindo seja. Afortunado seja. Abençoado seja.
Traz em si, além do nome dimensional, as insígnias alvissareiras dos números e o carinho laborioso das 12 mãos fazedoras.
quarta-feira, 11 de julho de 2007
a volta
Na volta dos dias de azul quase fictício esperam-me as feiúras de sempre: os papéis anotados sobre a mesa, a letargia do administrador, a pobreza do técnico, a conta no banco, o concreto pintado, a doutora impeditiva, as mensagens irritantes, a persiana empoeirada. Espera-me sobretudo essa vontade cristina: nossa casa de cortinas brancas, os filhos no sol, flores frescas, árvores cortando o céu, estrelas de que quase me esqueci, amanheceres de amor bem cedo... e meus impossíveis vão crescendo enormes e desesperados. Ontem chorei de novo sob seus braços, hoje meus olhos seguem turvados: saudade imensa dos meus, do que ainda não vivemos.
O outro lado do meu peito sorri no entanto e em outra velocidade:
camiseta branca tatuada
pano de prato e poeira no pára-brisa
fogão cosmopolita a cinquenta e cinco
fogo crispado na lareira
segredo gravado na mala de couro
Choro doído porque quero usufruir do direito inalienável de construir nossa felicidade.
O outro lado do meu peito sorri no entanto e em outra velocidade:
camiseta branca tatuada
pano de prato e poeira no pára-brisa
fogão cosmopolita a cinquenta e cinco
fogo crispado na lareira
segredo gravado na mala de couro
Choro doído porque quero usufruir do direito inalienável de construir nossa felicidade.
sexta-feira, 6 de julho de 2007
quarta-feira, 4 de julho de 2007
a escolha do nome e suas transmutações pertinentes
apropriação do houaiss, que ensina a não ser literal [
Risco
Etimologia: do lat. medv. risicum/riscum, não raro associado a fortuna; a acp. de 2risco 'traço' poderia derivar dos traços escritos nos eventuais contratos.
Acepções 1
substantivo masculino
2. Derivação: por extensão de sentido. Probabilidade de insucesso, de malogro de determinada coisa, em função de acontecimento eventual, incerto, cuja ocorrência não depende exclusivamente da vontade dos interessados
Acepções 2
substantivo masculino
1. traço colorido e/ou pouco acentuado sobre uma superfície, feito com um instrumento próprio (lápis, caneta etc.) ou um artefato pontiagudo; risca
1.1. (1720) traçado, esboço, debuxo de um bordado, de um quadro, de uma construção etc.
1.1.1. Rubrica: artes plásticas. Esboço de uma obra pictórica, feito com perfis, linhas etc. e desprovido de cores ou sombras
1.1.2. Rubrica: arquitetura, desenho, engenharia. Desenho esboçado ou definitivo de uma construção ainda por fazer ou já realizada, ger. com certos cálculos como a delimitação de área, a metragem etc.; traçado, projeto, planta
2. corte superficial; talho, vergão
3. Uso: informal. Golpe com arma cortante; navalhada, facada
4. Regionalismo: Bahia. linha do horizonte visual
Riscado
Acepções
adjetivo
2. marcado com riscos, para fins de realce ou de exclusão
4. Regionalismo: Brasil. Uso: informal. Dispensado do trabalho; demitido, cortado
5. Regionalismo: Nordeste do Brasil. Uso: informal. Um pouco embriagado; tocado
substantivo masculino
Locuções
entender (d)o riscado.
Regionalismo: Brasil. Uso: informal. Conhecer bem um assunto, ser competente em determinada coisa
Riscar
Acepções
verbo transitivo direto
1. fazer riscas ou traços em
1.1. Rubrica: artes gráficas. Passar, com utensílio próprio, um traço sobre; tachar
2. fazer um esboço, um desenho de; desenhar, debuxar, esboçar, bosquejar
2.1. Rubrica: arquitetura, desenho, engenharia. Fazer um projeto, uma planta ('desenho'); projetar, planejar
3. marcar, assinalar
4. acender friccionando
Ex.: riscar um fósforo
verbo transitivo direto e intransitivo
7. fazer parar subitamente (a cavalgadura)
Ex.: <o cavaleiro sentiu necessidade de riscar>
verbo intransitivo
8. brigar, lutar; provocar
10. Regionalismo: Amazonas. Começar a descer ou a vazar (a maré, as águas de um rio), deixando vestígios na vegetação das margens
11. Regionalismo: Nordeste do Brasil. Aparecer ou chegar inesperadamente
Ex.: nunca avisa quando vem, tem o hábito de riscar
verbo pronominal
12. esvanecer-se, apagar-se, desaparecer
Ex.: é sadio riscar-se da mente as grandes decepções
13. demitir-se
Ex.: insatisfeito no trabalho, riscou-se
risca-de-união
Acepções
substantivo feminino
Rubrica: artes gráficas. Mesmo que hífen ]
Risco
Etimologia: do lat. medv. risicum/riscum, não raro associado a fortuna; a acp. de 2risco 'traço' poderia derivar dos traços escritos nos eventuais contratos.
Acepções 1
substantivo masculino
2. Derivação: por extensão de sentido. Probabilidade de insucesso, de malogro de determinada coisa, em função de acontecimento eventual, incerto, cuja ocorrência não depende exclusivamente da vontade dos interessados
Acepções 2
substantivo masculino
1. traço colorido e/ou pouco acentuado sobre uma superfície, feito com um instrumento próprio (lápis, caneta etc.) ou um artefato pontiagudo; risca
1.1. (1720) traçado, esboço, debuxo de um bordado, de um quadro, de uma construção etc.
1.1.1. Rubrica: artes plásticas. Esboço de uma obra pictórica, feito com perfis, linhas etc. e desprovido de cores ou sombras
1.1.2. Rubrica: arquitetura, desenho, engenharia. Desenho esboçado ou definitivo de uma construção ainda por fazer ou já realizada, ger. com certos cálculos como a delimitação de área, a metragem etc.; traçado, projeto, planta
2. corte superficial; talho, vergão
3. Uso: informal. Golpe com arma cortante; navalhada, facada
4. Regionalismo: Bahia. linha do horizonte visual
Riscado
Acepções
adjetivo
2. marcado com riscos, para fins de realce ou de exclusão
4. Regionalismo: Brasil. Uso: informal. Dispensado do trabalho; demitido, cortado
5. Regionalismo: Nordeste do Brasil. Uso: informal. Um pouco embriagado; tocado
substantivo masculino
Locuções
entender (d)o riscado.
Regionalismo: Brasil. Uso: informal. Conhecer bem um assunto, ser competente em determinada coisa
Riscar
Acepções
verbo transitivo direto
1. fazer riscas ou traços em
1.1. Rubrica: artes gráficas. Passar, com utensílio próprio, um traço sobre; tachar
2. fazer um esboço, um desenho de; desenhar, debuxar, esboçar, bosquejar
2.1. Rubrica: arquitetura, desenho, engenharia. Fazer um projeto, uma planta ('desenho'); projetar, planejar
3. marcar, assinalar
4. acender friccionando
Ex.: riscar um fósforo
verbo transitivo direto e intransitivo
7. fazer parar subitamente (a cavalgadura)
Ex.: <o cavaleiro sentiu necessidade de riscar>
verbo intransitivo
8. brigar, lutar; provocar
10. Regionalismo: Amazonas. Começar a descer ou a vazar (a maré, as águas de um rio), deixando vestígios na vegetação das margens
11. Regionalismo: Nordeste do Brasil. Aparecer ou chegar inesperadamente
Ex.: nunca avisa quando vem, tem o hábito de riscar
verbo pronominal
12. esvanecer-se, apagar-se, desaparecer
Ex.: é sadio riscar-se da mente as grandes decepções
13. demitir-se
Ex.: insatisfeito no trabalho, riscou-se
risca-de-união
Acepções
substantivo feminino
Rubrica: artes gráficas. Mesmo que hífen ]
terça-feira, 3 de julho de 2007
carta encarnada
Na matemática dos nossos dias, meu senhor meu, sob nossa ordem os números conspiram, de modo que minha inteligência cheia de fé ganha a certeza dos vôos dos pássaros, e então os bons presságios preenchem de rosas vermelhas nossa casa, que já tem e terá as janelas mais ensolaradas, as coisas em seu melhor lugar, os horizontes de ambos os lados, a beleza em cada um dos cantos. E assim, em contagem regressiva e em doce convivência, vamos subtraindo as dores e as lembranças feias, somando as fortunas colecionadas, fracionando o labor, multiplicando as delicadezas, de modo que quando chegar o dia exponencial será como se sempre assim fosse, macio e simples, como um brinquedo antigo que funciona, como uma palavra mágica, um presente, um carinho.
Que sempre haverá noites de amor proibido, meu senhor meu, isso te prometo. Que com olhos cerrados e pensamentos alhures será sempre obediente o meu fazer, quando assim o quiseres, meu senhor meu, isso te juro. Que embrulhado em laços de fita e rendas púberes será sempre o meu segredo para ser devastado, meu senhor meu, isso a ti te oferto. Que prontos e generosos estão e estarão sempre os meus aléns, meu senhor meu, isso te faço saber.
As surpresas que minhas mãos e meus diminutivos sempre tecerão, meu senhor meu, isso a ti te dedico.
Pois que o que me define são teus olhos pousados nos meus. Pois que o que me nomeia são tuas palavras desordenando as minhas. Pois que em ti meus descaminhos ganham norte e história. Pois que minha alegria mora na tua contenteza.
Hoje, ontem, amanhã, desde sempre e para sempre.
Que sempre haverá noites de amor proibido, meu senhor meu, isso te prometo. Que com olhos cerrados e pensamentos alhures será sempre obediente o meu fazer, quando assim o quiseres, meu senhor meu, isso te juro. Que embrulhado em laços de fita e rendas púberes será sempre o meu segredo para ser devastado, meu senhor meu, isso a ti te oferto. Que prontos e generosos estão e estarão sempre os meus aléns, meu senhor meu, isso te faço saber.
As surpresas que minhas mãos e meus diminutivos sempre tecerão, meu senhor meu, isso a ti te dedico.
Pois que o que me define são teus olhos pousados nos meus. Pois que o que me nomeia são tuas palavras desordenando as minhas. Pois que em ti meus descaminhos ganham norte e história. Pois que minha alegria mora na tua contenteza.
Hoje, ontem, amanhã, desde sempre e para sempre.
segunda-feira, 2 de julho de 2007
sexta-feira, 29 de junho de 2007
ridiculinha s/n
o silêncio.
mais triste e mais escuro do que toda a palavra bruta.
como uma carta vazia.
mais triste e mais escuro do que toda a palavra bruta.
como uma carta vazia.
carta sem cor
Esse gosto na boca, este ardume no meio do peito, esse frio no meio do umbigo. As mãos pequenas que tremem e teimam em não ficar limpas, envergonhadas. Os olhos que crescem, imensam, e não secam - não secam.
Esse medo insuportável de ter arranhado a jóia preciosa.
Essa dor impredicável.
Senhor meu, o discurso enfeia, mas antes de calar, digo desancada: também meu amor é, e pra sempre será, igual intransitivo, diamante puro, raro, único, que não risca, não quebra, não fenece, nunca jamais, mas eu sei, a memória do corpo é às vezes mais forte e precisa de tempo pra ressignificar, e tento aliviar lembrando que a beleza não carece de perdão, só a fraqueza, a pequenez, o desvio, e por isso em desespero feminil imploro, não vamos nos perder.
Esse medo insuportável de ter arranhado a jóia preciosa.
Essa dor impredicável.
Senhor meu, o discurso enfeia, mas antes de calar, digo desancada: também meu amor é, e pra sempre será, igual intransitivo, diamante puro, raro, único, que não risca, não quebra, não fenece, nunca jamais, mas eu sei, a memória do corpo é às vezes mais forte e precisa de tempo pra ressignificar, e tento aliviar lembrando que a beleza não carece de perdão, só a fraqueza, a pequenez, o desvio, e por isso em desespero feminil imploro, não vamos nos perder.
terça-feira, 26 de junho de 2007
ridiculinha, 26
susto, assombro, medo:
enxergar aquilo que resisti tanto em ver
tão nítido como a verdade que insisti em inventar.
enxergar aquilo que resisti tanto em ver
tão nítido como a verdade que insisti em inventar.
quinta-feira, 21 de junho de 2007
garimpo
O certo é viver de belezas.
Das que estão nas latas de biscoitos, rosas em relevo, forminhas de papel vegetal.
Das que aparecem de repente e amansam os olhos, caixa de vidro, banco de madeira, flor de lata, copo colorido, oratório velho, pedra, cartão postal.
Das que surgem bailarinas e sorridentes, prateleiras arrumadas, gavetas refeitas, interruptor, chave de fenda, rodinhas, pijama de listras, manhãs amanhecidas com beijo na bochecha.
Das que nascem na simplicidade, na alegria e na desimportância de uma idéia boba, transmutada em coisa de cor, volume e peso.
Das que moram suaves no calor da pele que encontra a outra pele, que se podem ver, que não se podem ver.
Das que encontram um lugar, uma destinação, um prelúdio, um vir a ser.
Das que vão sendo tecidas em variada velocidade e delicadeza com muitas mãos - as minhas, fazedoras, vão assim querendo reencontrar o tempo, reinventar o rumo, costurar o corpo, cerzir.
Certo, certão, certame, certeza, cerzidura, urdume, varal, poesia: vivemos e viveremos assim, enredados em belezas.
Das que estão nas latas de biscoitos, rosas em relevo, forminhas de papel vegetal.
Das que aparecem de repente e amansam os olhos, caixa de vidro, banco de madeira, flor de lata, copo colorido, oratório velho, pedra, cartão postal.
Das que surgem bailarinas e sorridentes, prateleiras arrumadas, gavetas refeitas, interruptor, chave de fenda, rodinhas, pijama de listras, manhãs amanhecidas com beijo na bochecha.
Das que nascem na simplicidade, na alegria e na desimportância de uma idéia boba, transmutada em coisa de cor, volume e peso.
Das que moram suaves no calor da pele que encontra a outra pele, que se podem ver, que não se podem ver.
Das que encontram um lugar, uma destinação, um prelúdio, um vir a ser.
Das que vão sendo tecidas em variada velocidade e delicadeza com muitas mãos - as minhas, fazedoras, vão assim querendo reencontrar o tempo, reinventar o rumo, costurar o corpo, cerzir.
Certo, certão, certame, certeza, cerzidura, urdume, varal, poesia: vivemos e viveremos assim, enredados em belezas.
sexta-feira, 15 de junho de 2007
carta púrpura
Depois de dias de silêncio tormentoso, meu Senhor, volto aqui rapidamente, um bilhete em desmesura: vestirei os saltos altos e as roupas desclassificadas; caminharei entre tuas mãos com desejos explícitos e devoção ignorante; servirei-te como servem as mais baixas criaturas aos seus senhores; elevarei as mãos aos céus agradecendo teu desprezo e tua fome; sentirei desconexa o desacerto das palavras e a rispidez do gesto; calarei sorrindo quando, depois do tapa, acarinhares saborosamente meu corpo marcado.
Pois que meu amor por ti é tão santo quanto pornográfico: nada me custa oferecer-te a outra face.
Pois que meu amor por ti é tão santo quanto pornográfico: nada me custa oferecer-te a outra face.
segunda-feira, 11 de junho de 2007
datas comemorativas
Vou em busca de uma notícia alvissareira. Acabo num sítio de datas comemorativas, alento absolutamente ridículo (condizente com meu prenome) para dias de angústia extrema, como hoje. Hoje, descubro lá, é dia da marinha brasileira, e imediatamente navegam em meus olhos marejados palavras marítimas como cais, porto, imensidão, tempestade, maresia, travessia: que bom, aqui estás, meu barco de ir para o além, graças aos céus, isso há de ser uma boa-venturança. Mas além disso, descubro lá que hoje é dia do educador sanitarista e então um silêncio continental em espiral de tornado toma de assalto meus discurso epifânico, faço esforços anagramáticos e nada, ensaio digressões, mesmo as mais indignas, e nada, associações livres não me ajudam, nada me ilumina, minha fortuna por um fio, putaqueopariu, de nenhuma maneira consigo partir do educador sanitarista e chegar a ti pra ter enfim a certeza de que meus presságios estão equivocados e que, é claro, tudo vai dar certo.
Mas eis que um furacão branco em forma de números me socorre: sanitarista tem 11 letras, hoje é dia 11, e na soma, 22; o dia e o mês somados dão 17. Olho no relógio, 7:27 pm; o memorando em minha mesa data do dia 17/2/2007, e amanhã é dia 12. Pronto. Aí estão, nossos algarismos da certeza. Sossego, já posso voltar pra casa.
Mas eis que um furacão branco em forma de números me socorre: sanitarista tem 11 letras, hoje é dia 11, e na soma, 22; o dia e o mês somados dão 17. Olho no relógio, 7:27 pm; o memorando em minha mesa data do dia 17/2/2007, e amanhã é dia 12. Pronto. Aí estão, nossos algarismos da certeza. Sossego, já posso voltar pra casa.
ela, 3
Ela me coloca medo. Tão bonita ela, cheia dos pequenos defeitos de que gostas. Ela me faz triste por dentro do meu vestido preto, escurece meus os olhos grandes, me faz estranha como a tarde de hoje, um dia todo estranho, muito estranho. Ela me deixa feia, apesar dos sapatinhos lindos que ostento nos pés pequenos, elogiados por todos na festa de aniversário ainda mais estranha que a trouxe ao andar, visitante. Então ela me visita e bota um tremor na ponta dos meus dedos um pouco descuidados, bagunça meu discurso nesse dia que não parece mesmo um bom dia, derruba meu sorriso e me faz literal-ridícula, faz ameaça com sua tez branca e sua juventude inteira. Daí eis que retorce no meio do meu peito aquele nó apertado que faz tempo não aparecia por aqui. Literal e ridícula eu, eu sei. Eu sei, uma tolice, tão real quanto despropositada.
segunda-feira, 4 de junho de 2007
silêncio
(tem vezes que um vazio enorme pendura no bico da pena, e sai nada pra dizer; não é mau-humor, é só um ponto-final grande, maior que o começo da frase, sem poesia qualquer: O medo O, maiusculão. Ô meu deus, não me abandona, por favor...)
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