sexta-feira, 23 de novembro de 2007

arestas

os dias recentes eram ventureiros: um sorvete rápido no almoço, metade de uma noite mal dormida juntos, algumas horas barulhentas entre os sócios, um telefonema mal acabado, um jantar de primeiro tempo indigesto, um recado não respondido, uma palavra atravessada.
é certo e verdadeiro e natural que num ou noutro canto, mesmo no meio do mundo que parecia anti-horário, reencontravam aquela mesma formosura pertinaz que os sustentará por todos os séculos e séculos amém, mas nos dias recentes ela entristecida e arenosa repetia no coração a pergunta impronunciável e ele trazia nas narinas e nos duros olhos agora acinzentados o desconforto teimoso, soprados pelo passado exator no viés do vento frio do entardecer estranho de uma primavera sem estação.

segunda-feira, 19 de novembro de 2007

flores de papel

pois que essa vida é mesmo circular: minhas dobraduras adolescentes (aprendidas com carinho no livro presenteado pelo primeiro namorado) nas doze mãos contemporâneas e dadivosas vão espocar num jardim azul de risco no meio da rua mais capital da capital...
que de minhas mãos pequenas nasçam sempre lírios brancos, bênção dos descaminhos tortos da minha ancestralidade oriental, longínqua mas ainda presente nos fios finos dos meus cabelos e na ponta dos dedos que sabem, dramáticos, dobrar flores.
quiçá seja esse o sinal esperado para que assim os dias sem cor voltem a ensolarar.

terça-feira, 13 de novembro de 2007

carta férrea

Precisaria, meu senhor meu, de uma bigorna amarrada aos meus pés pequenos pra que fiquem no chão, mas a memória é tão mais concreta e meu corpo fácil sobrevoa as mesas feias e os papéis acumulados, o tempo escoa entre os dedos finos, prejudico o erário em favor da nossa coleção agora compilada. Passo as horas ao largo, em outro sítio, a todo instante sofro o assalto da tua presença que me leva a firmeza dos joelhos, tu que como nenhum sabes derrubar-me dos saltos. Tua dor diante das minhas mãos não desgruda do dentro dos meus olhos, arrefece o meio do umbigo, suspendo, e lá estou eu de volta ao nosso calendário lunar, às noites imensas e horizontais e sem sono nenhum. Visito, como gostas, várias vezes meu próprio corpo na tentativa transversa de que vás embora daqui, mas no reverso e inverso estás em mim ainda mais definitivo, cadeado que perdeu a chave, âncora de profundezas profundas, navio atracado sem possibilidade de partir.

quarta-feira, 7 de novembro de 2007

ano um

olha de perto, espia só:
nosso rosal formoso contumaz florido, desde aquela primeira que esqueceu de morrer.
pois que vamos juntos, de mãos dadas, na saúde e na doença, na alegria e na tristeza, no meio da rua, no umbigo do mundo, no olho dos redemoinhos todos e das tempestades, correntezas e ensolaradas, por todos e cada um dos dias de nossas vidas.
sim, nós sabemos dançar.

terça-feira, 6 de novembro de 2007

repastagem

Deus pai, São Jorge, Santa Teresinha das minhas rosas:
olhem por mim, lupanares sagrados de aleluias, no sombrio da noitinha de vento temeroso, na simesmice das escolhas sempre solitárias, no caminho enevoado que não mostra o passo depois do passo dado.
Guimarães de rosas e de passarada: esteja sempre aqui comigo pra dar a mão de palavras que desconheço, pra reinventar aquelas que amorosam meu dizer e meu desdizer em belezuras e desdiversos, pra sorrir e chorar com estas que são o meu eumesmim, pra desenhar nosso devir em mãos-patas-dadas, barcais tatuado na carne e na delicadeza, dor e alegria, todos infinitos tudos.
Frutos meus, olhos de imensidão de floresta e ensolarada dos dias: saibam de todos os jeitos de que fomos feitos por sentir, e mesmo daqueles que ainda aprenderemos, que minha vida, meus olhos, meu cantar, minhas mãos, meu sonhar e meu desfazer são seus, desde sempre e para o sempre, pois que o amor não tem fim nem começo.
E a mim mesma, em nome de todos os anteriores e posteriores: rogo estar inteira e forte misturada confundida no meu próprio sangue que de muitos é formado formoso, que preciso de mim, e que estes outros precisam ser inteiros para desprecisarem-me.
Amém.

segunda-feira, 5 de novembro de 2007

caverna

o oco do mundo está posto no meio do peito:
bolha de ar cuspida de baixo pra cima no ausente de ti e no presente em mim, contornos desenhados de vergonha triste e jorrados em pranto de desvio lamacento e sujo, barranco das encarnações, ar de fel, veneno e umidade.
escuridão.
silêncio.
mas no depois tem a pedra que vira fumaça que vira fogo, alumeia inconteste.
mas no antes tem o náutilo das funduras infinitas em ausência de qualquerzinha luz.
nos abismos abissais, não to esqueças, o amor resiste.
eu sei, o dia não amanheceu.

quarta-feira, 31 de outubro de 2007

diário da ausência, segundo dia

ontem tive vergonha de mim.
estavas lá, na praça, na cidade das cavernas, com as crianças correndo ao redor do coreto - o tempo dos viajantes é outro, bem sabes - e eu aqui, no meio da minha pequenez e do meu excesso, atrapalhando a tua noite de estrelas.
desliguei o telefone com vergonha da minha saudade, a inconveniência estalada no meio do peito, e fui dormir muito e adolescente, sem vontade de acordar.
perdoa-me, meu senhor meu, minha desmesura.

segunda-feira, 29 de outubro de 2007

diário da ausência, primeiro dia

meu senhor meu,
tenho muita saudade.
o dia foi de tumulto.
a noite foi de solidão.
tua ausência pesa-me dolorida.
te espero como nunca.
te espero como sempre.

terça-feira, 23 de outubro de 2007

auguração

o ano será de sorte, costumávamos sussurrar sob a lua na janela; e nos já foi generoso, pois que ensolaramos infinitudes, pois que o disco saiu com minhas pétalas, minha tristeza e teus colchetes, pois que do encontro nasceu o risco.
o ano deveria ser de sorte, e acreditamos tanto no vôo dos pássaros, nas sincronicidades amontoadas, nas delicadezas; e tem sido verdadeiro, porque vamos juntos e sorridentes, apesar do escuro desconhecido, dos imponderáveis sucessivos, da velocidade intransigente.
são 70 dias ainda, e seguimos assim, as mãos dadas, agarradas às mãos, os joelhos empenhados em não despencar, os olhos encharcados e corajosos, muito e cada vez mais misturados, repetindo um para o outro mesmo às vezes sem certeza que tudo vai dar certo, esse é nosso ano de sorte, os números não haveriam de mentir, e o futuro logo ali pertinho nos reserva o lugar que merecemos, pois desejamos tão pouco, meu deus, só almoços de tumulto e noites de profundezas, aquele direito ao mais formoso dos desígnios e que nos prometeram inalienável: nosso rosal amoroso, teu norte no meu, o labirinto, e além.

quarta-feira, 10 de outubro de 2007

funcional 3

quero sumir, desaparecer.
não quero as capas de plástico, os telefonemas de bibliotecárias estúpidas, não quero a prestação de contas as notas fiscais os recibos de empenho as ordens de execução de serviço as locações de natureza artística os decretos de fixação de preços públicos as cessões por preço mínimo ou cinco por cento da bilheteria o que for de maior valor os aditamentos contratuais as dispensas de licitação a lei 8666 o despacho administrativo a reunião do conselho administrativo o grupo de obras os projetos especiais a rádio peão o alto clero, não quero mais.
minha contribuição não é frutífera, não tenho competência para bom serviço à municipalidade, minhas palavras enfeitadas e meus diminutivos não são adequados às averiguações disciplinares nem aos esclarecimentos de dolo culpa ou prejuízo ao erário.
não quero.
mereço, como disse hoje anita, um lugar mais parecido com meus sonhos:
as manhãs em casa com minhas rosas, a mesa posta, meus amores amanhecendo em tumulto ensolarado
as tardes com flores de plástico nos oratórios do meu pai
as noites tão somente de belezas.
no risco. na travessia.

segunda-feira, 8 de outubro de 2007

carta noturna

Quisera fossem, senhor meu, apenas noite nossos dias.
Debaixo do sol, senhor meu, as dobras no meu rosto aparecem e mostram a dor, o passar dos anos e as coisas que insistem em não passar; minhas mãos tremem diante do insucesso que não cansa de me derrubar em profundo desespero, este que me faz cantar chorando baixinho pra que Deus não me abandone, por favor, fica comigo; minhas pernas fraquejam, meu ar desnorteia, não como, não resulto, não consigo. Sob o dia, tudo aparece, ensurdecedor, e eu realizo que não vou aguentar. Minha derrrota, hoje sei, é diurna, inexorável e solar, zomba de mim com seus dentes claros e seus números perfeitos.
Mas escondidos do sol todos nossos anseios sobrevivem, vivem intensos em floradas escuras sucessivas e sorridentes, e minha certeza me reencontra entre teus braços macios, em tuas mãos pesadas. Nosso protetor aparece pra nos guardar, cavalgadura lunar. Nossa rosa ganha brilho e define sua luz escura, brilhante e inútil. Nossa alegria conquista toda a pele, sem limite, sem tempo, sem fim.
À noite sou feliz porque sou tua mulher, tua prostituta vadia, tua outra, tuas muitas e quaisquer. Assim, sou eu mesma.

terça-feira, 2 de outubro de 2007

( )

(prossigo no silêncio que sucede os grande encontros, com uma felicidade miúda, sorrizim...)

quarta-feira, 26 de setembro de 2007

sextante

eu vou cantar pra são jorge
eu vou cantar pro meu joão
eu vou cantar pra minha luiza
eu vou cantar pro meu minotauro
eu vou cantar pros meus amores, os presentes e os ausentes.

eu vou cantar em oração e a serviço
eu vou cantar em gratidão e oferecimento
eu vou cantar em tristeza e alegria
eu vou cantar em devoção
que é só como sei ser: amor generoso e intransitivo.

quinta-feira, 6 de setembro de 2007

mudança










amanhã vamos nos mudar.
amanhã começa uma outra história, feita de delicadezas, de memórias, e sobretudo de amor (aquele maior que mora na felicidade do encontro e nas pequenas alegrias, pois que nos descobrimos amigos de infância).
amanhã faremos um brinde ao devir.
e ao risco.

(dia 21 é a inauguração... http://www.risco6.com.br/)

sexta-feira, 31 de agosto de 2007

déjà vu

não há tempo pra escrever não há tempo pra dormir não dá tempo de maternar não tem tempo de pensar não tem tempo de fazer direito não tem tempo pra organizar o tempo e a falta de tempo não dá tempo de ligar pros amigos pra casa pro vidraceiro não deu tempo de pagar a conta não há tempo de terminar o que já está começado nem o que já foi mal começado não tem tempo de esvaziar a mesa não dá tempo de ver que o tempo passa rápido e daqui a pouco não vai dar mais tempo mesmo e tudo então vai ficar
desesperadamente
amaldiçoadamente
como sempre foi
atrasado atropelado aflito tenso ruim.
um cansaço de todas as encarnações pesa sobre meus ombros.
ele está impaciente, e tem razão, minhas mãos estão andando pelos pés.
pois que vejo o fantasma daquela inércia passar por perto, do outro lado da rua, ali olhando pra mim, acenando suas mãos feias e gordas, fagocitantes.
rezo, choro, chego a prometer, juro mesmo que dessa vez ele vai dobrar a esquina pra lá e encostar noutra mulherzinha desavisada.

sexta-feira, 24 de agosto de 2007

boda espiritual

Tu não estas comigo em momentos escassos:
No pensamento meu, amor, tu vives nua
- Toda nua, pudica e bela, nos meus braços.

O teu ombro no meu, ávido, se insinua.
Pende a tua cabeça. Eu amacio-a... Afago-a...
Ah, como a minha mão treme... Como ela é tua...

Põe no teu rosto o gozo uma expressão de mágoa.
O teu corpo crispado alucina. De escorço
O vejo estremecer como uma sombra n'água.

Gemes quase a chorar. Suplicas com esforço.
E para amortecer teu ardente desejo
Estendo longamente a mão pelo teu dorso...

Tua boca sem voz implora em um arquejo.
Eu te estreito cada vez mais, e espio absorto
A maravilha astral dessa nudez sem pejo...

E te amo como se ama um passarinho morto.

(manuel bandeira, in a cinza das horas, 1917)

carta da ausência

Voltou para casa rápido, mal despediu-se, no fundo achava que talvez ele a estivesse esperando. Abriu a porta ansiosa, atravessou o corredor, e encontrou a cama feita, como deveria ser, o quarto vazio. O frio quarto vazio. Fosse de outro jeito, teria despido-se em silêncio felino, banhado o corpo cansado para tirar o odor do bar, e então perfumada de rosas deitaria nua ao seu lado, escorregando as mãos sob o cobertor azul para sentir o calor da pele, e ao encontrá-lo já pronto, ainda adormecido, invadiria seus sonhos, desfrutaria dele como se de um estranho, diria barbaridades, prostituiria. Mas ele não estava lá. Sua inaptidão para dormir desacompanhada a fez insone, e por imediata conseqüência, rodopiou o pensamento naquilo que ainda carece de ordem, o conforto que não é possível dar aos filhos e a si mesma, a conta do telefone, a construção das novas condições demora um tempo que desconhece e desentende. Chorou miúdo de garganta ardida, teve de novo a vontade infantil, vou fechar os olhos e quando abrir tudo estará resolvido. Tentou diversas vezes, mas o quarto continuava vazio, tudo no mesmo lugar, sobretudo as coisas que insitem em trazer de volta um outro tempo, cujas felicidades viram lembrança e as tristezas horror. Mas ele não estava lá. Tentou um prazer imediato e mediano, enfiou os dedos entre as coxas, mas estava seca, ressecada, sem efeito, ele não estava lá. Teve medo. Chorou de medo. Lembrou-se de um verso preferido: te amo como se ama um passarinho morto. Dormiu vestida de olhos borrados, e no limite do seu desespero encontrou alguma beleza, aquela que reside no gesto delicado e generoso da equilibrista do circo vagabundo.

segunda-feira, 20 de agosto de 2007

labirinto

Ansiosos, trabalharam até a madrugada na costura das flores, no adorno das molduras, na composição das luzes, no combinado das cores, ele com suas patas de minotauro, ela com seus olhos de infinitudes, os dois no silêncio dos fundos da casa. Decidiram o nome, a seqüência dos dias e as imagens que estarão no fundo das lentes miúdas, corpos conhecidos, corpos anônimos, e os seus. Na confusão bonita da mesa velha, teceram o futuro, e os frutos do futuro; no rosal da etiqueta, o caminho e a saída, o risco.

terça-feira, 14 de agosto de 2007

salmo 27

1 O Senhor é a minha luz e a minha salvação; a quem temerei? O Senhor é a força da minha vida; de quem me recearei?
2 Quando os malvados investiram contra mim, para comerem as minhas carnes, eles, meus adversários e meus inimigos, tropeçaram e caíram.
3 Ainda que um exército se acampe contra mim, o meu coração não temerá; ainda que a guerra se levante contra mim, conservarei a minha confiança.
4 Uma coisa pedi ao Senhor, e a buscarei: que possa morar na casa do Senhor todos os dias da minha vida, para contemplar a formosura do Senhor, e inquirir no seu templo.
5 Pois no dia da adversidade me esconderá no seu pavilhão; no recôndito do seu tabernáculo me esconderá; sobre uma rocha me elevará.
6 E agora será exaltada a minha cabeça acima dos meus inimigos que estão ao redor de mim; e no seu tabernáculo oferecerei sacrifícios de júbilo; cantarei, sim, cantarei louvores ao Senhor.
7 Ouve, ó Senhor, a minha voz quando clamo; compadece-te de mim e responde-me.
8 Quando disseste: Buscai o meu rosto; o meu coração te disse a ti: O teu rosto, Senhor, buscarei.
9 Não escondas de mim o teu rosto, não rejeites com ira o teu servo, tu que tens sido a minha ajuda. Não me enjeites nem me desampares, ó Deus da minha salvação.
10 Se meu pai e minha mãe me abandonarem, então o Senhor me acolherá.
11 Ensina-me, ó Senhor, o teu caminho, e guia-me por uma vereda plana, por causa dos que me espreitam.
12 Não me entregues à vontade dos meus adversários; pois contra mim se levantaram falsas testemunhas e os que respiram violência.
13 Creio que hei de ver a bondade do Senhor na terra dos viventes.
14 Espera tu pelo Senhor; anima-te, e fortalece o teu coração; espera, pois, pelo Senhor.

domingo, 12 de agosto de 2007

retroz adonis

Veio envolto em rosas, com suas cinco gavetas divididas em quinze compartimentos cada uma, de madeira encerada pelo tempo e gasta pelo uso de mãos que desconheço mas que faço minhas. Nos números precisos, escolhidos, as surpresas que, uma a uma, devolveram ao meu rosto o sorriso conhecido, aquele que tinha nas festas de quando criança: as três plaquinhas de ferro esmaltado, as nove rosas aveludadas, o anel de prata com o santo guerreiro, o cartãozinho florido, os sapatos de princesa, a outra rosa no vidro, os dois pássaros iluminados, uns versos pornográficos, as outras rosas de plástico, o papel de seda. Nas horas que abrem o novo ano, tudo volta a ter a certeza que eu tinha no sorriso que se me escapava orvalhado nas festas de quando criança. Visto o amuleto no anelar da mão esquerda, calço os sapatos, beijo tua boca como fosse a primeira e a última vez, sirvo-te com a calma e a urgência que são nossas e pra sempre serão, pronuncio as palavras sagradas enredada nos teus braços, adormeço protegida pelo teu calor como dormiria uma menina, sem medo do escuro, do silêncio ou da solidão. O dia amanhece perigoso como todos os outros, mas então me lembro quase e ainda assustada que tenho já uma nova memória e meu corpo conhece outro movimento, e este é o maior dos presentes.

A nossa flor segue com viço, perfume e cor: a rosa nas patas do minotauro, no labirinto, no meio do dia, no meio do mundo, no risco e na metrópole, na travessia.

quinta-feira, 9 de agosto de 2007

vésperas

Às vésperas de um novo ano sempre é assim, e eu que já devia me acostumar, ainda sofro sempre, insone: a filha fica doente, e estamos já no terceiro dia de hospital, a conta bancária de cabeça pra baixo, o trabalho sem nem mais ter os pés, tudo, tudo numa confusão tão desparatada, um vaudeville sem graça nenhuma.

Às vésperas sofro muito e choro à toa, sinto-me assim, miudinha.

Ridícula, eu sei, e pra acalmar vejo meu rosal ensolarado, os filhos lindos, meu amor todo meu que cuida de mim (infinitudes que desconhecia, benção por mim sonhada, amém), o risco que fica pronto e anuncia o seu, o nosso, devir.

É o medo, eu sei, superlativo, o tempo que passa depressa. E esse nó na garganta, um terror de não dar certo.

Calma, Juliana, respira: é só um dia depois do outro.

sexta-feira, 3 de agosto de 2007

do real real

quinze anos. duas da madrugada, quase arrancou-lhe a cabeça. quarenta pontos. sem poder lavar-se até o exame de corpo-delito, só às dezoito horas. paciência, minha senhora. coquetel de remédios. a mãe de 43 anos já é avó e está grávida do terceiro. uma carona com o conhecido do conhecido. tão bonita, alta, magra, negra, eu a conheci na repartição. linda. que mundo é esse, meu deus, e essa sensação de estar tão perto, e tão sem ter o que fazer.

quarta-feira, 1 de agosto de 2007

o risco é...

... não ter mais tempo pra escrever;
... estar na repartição e simplesmente não conseguir;
... tomar vinho no copo de plástico no meio dos escombros, 12 mãos sorridentes;
... acordar às 5h da madrugada com dor de estômago;
... sonhar com flores de plástico, luminárias e rosas;
... construir, urgentemente, um outro tempo, um outro lugar.
em breve, na metrópole.

quarta-feira, 25 de julho de 2007

carta predestinada

que as noites sejam sempre fartas e límpidas, de enxergar o horizonte e a cidade, e sem fim.

que o amor bem feito e o amanhecer bem perto sejam, ainda que poucos, sempre doces, vadios e urgentes, reinventados e sempre os mesmos - como se a primeira e a última vez.

que meu coração, às vezes leviano, às vezes tímido, mas nunca miúdo, possa estar sempre perto do teu.

meu corpo gosta do teu.

minha alma também.

(senhor meu: reescrevo a carta impúblicavel a ti enviada quando eram outros os tempos, para não esquecer nosso desígnio, o mais formoso, o de amar; para não perder o norte, ou o sul, agora que assumimos o risco; e para dizer, carinho no teu rosto, tudo vai dar certo, porque assim merecemos, maiusculamente)

segunda-feira, 23 de julho de 2007

do real

... e eu, que fui forjada no afeto, não sei lidar com as coisas corriqueiras da vida, por isso as admiro tanto e as quero tanto, e reinvento a cada instante a sua beleza banal; eu, que fui forjada na beleza do afeto, não sei olhar para a feiúra do dia que não amanhece, não sei encontrar a saída para o problema diário, não sei lidar com o rasteiro que recheia as horas; eu, que fui forjada no agudo do afeto, sofro muito, muito mais do que devia, porque a disforia é a mãe do mesmo afeto, e da adversidade, e da dúvida, e de todas as coisas que não são a certeza, talvez também da covardia; eu, que fui forjada na dor do afeto, quero tudo assim, rápido e agora, geração desgraçada a minha que não sabe do sacrifício inerente; eu, que fui forjada na facilidade do afeto, tenho no íntimo que tudo vai findar feliz como uma brincadeira de criança, como um truque mágico, como um conto de fadas; eu, que fui forjada na falácia do afeto, acredito que sou digna de sorte, minto olhando no espelho, fujo pra dentro dele pra parecer que a mereço; eu, que fui forjada na mentira do afeto, teço palavras para enredar o tapete dos meus sonhos de felicidade que se desfaz frouxo e roto ao raiar da aurora dos dias de verdade, esses que não têm afeto nenhum, não têm beleza qualquer: nos dias de verdade, a régua tem números positivos e negativos, enfileirados, inexoráveis, sem perdão.
Eu, que fui forjada no afeto, não fui preparada para a verdade real: meu coração bruto, meu corpo gentil, minha voz triste, meus olhos imensos talvez de nada sirvam.

quinta-feira, 19 de julho de 2007

parido

E então, sozinha na sala, rompo o lacre de plástico e o toco pela primeira vez.
Rosa desabrochada em minhas mãos.
Fresco e antigo.
Mínimo gentil.
Claro.
O gesto um pouco impreciso, o sorriso florescido amoroso, o ardido na garganta consecutivo, os olhos completam e deságuam: ficou tão bonito, ô meu deus.
Agora é nascido; e como todos os meus, gestação e parto sofridos.
Agora é o risco.
Que venha.

quarta-feira, 18 de julho de 2007

pe.risco.pio

(houaiss e seu auxílio luxuoso)

periscópio:

substantivo masculino

equipamento óptico, empregado especialmente em submarinos, que permite observar um objeto ou conjunto de objetos por cima de obstáculos que impedem sua visão direta.

t.risco

trisco:
Acepções
verbo intransitivo e transitivo direto, 1ª pessoa do singular do presente do indicativo
1. meter-se em briga ou discussão, desordem
2. produzir (fogo) com a pederneira
3. provocar leve ruído
4. mover-se ligeiramente
5. roçar de leve, ligeiramente

p.risco

prisco:
Acepções 1
adjetivo
que pertence a tempos idos; antigo, velho, prístino
Acepções 2
substantivo masculino
1. salto para o lado ou para a frente que o cavalo dá quando quer livrar-se do cavaleiro
2. cavalo que costuma dar priscos
Acepções 3
verbo intransitivo, 1ª pessoa do singular do presente do indicativo
1. dar priscos; pular para os lados
2. fugir, priscando
3. afastar-se de algum lugar; retirar-se

quinta-feira, 12 de julho de 2007

concepção

No dia 12 do 7 de 2007 é gerado o risco: parede de vidro, giramundos voadores, flores de plástico, rosas tatuadas, anitas fatoriais, carimbos desautorizados, cavalos investidos, livretos fotocopiados, oratórios pagãos, inutilidades diversas, versos empoleirados, coletivo de idéias, balaio de vontades, garimpo da delicadeza, traço do devir, miolo da cidade, meio da travessia.

Benvindo seja. Afortunado seja. Abençoado seja.

Traz em si, além do nome dimensional, as insígnias alvissareiras dos números e o carinho laborioso das 12 mãos fazedoras.

quarta-feira, 11 de julho de 2007

a volta

Na volta dos dias de azul quase fictício esperam-me as feiúras de sempre: os papéis anotados sobre a mesa, a letargia do administrador, a pobreza do técnico, a conta no banco, o concreto pintado, a doutora impeditiva, as mensagens irritantes, a persiana empoeirada. Espera-me sobretudo essa vontade cristina: nossa casa de cortinas brancas, os filhos no sol, flores frescas, árvores cortando o céu, estrelas de que quase me esqueci, amanheceres de amor bem cedo... e meus impossíveis vão crescendo enormes e desesperados. Ontem chorei de novo sob seus braços, hoje meus olhos seguem turvados: saudade imensa dos meus, do que ainda não vivemos.

O outro lado do meu peito sorri no entanto e em outra velocidade:

camiseta branca tatuada

pano de prato e poeira no pára-brisa
fogão cosmopolita a cinquenta e cinco

fogo crispado na lareira
segredo gravado na mala de couro

Choro doído porque quero usufruir do direito inalienável de construir nossa felicidade.

sexta-feira, 6 de julho de 2007

quarta-feira, 4 de julho de 2007

a escolha do nome e suas transmutações pertinentes

apropriação do houaiss, que ensina a não ser literal [

Risco

Etimologia: do lat. medv. risicum/riscum, não raro associado a fortuna; a acp. de 2risco 'traço' poderia derivar dos traços escritos nos eventuais contratos.

Acepções 1
substantivo masculino
2. Derivação: por extensão de sentido. Probabilidade de insucesso, de malogro de determinada coisa, em função de acontecimento eventual, incerto, cuja ocorrência não depende exclusivamente da vontade dos interessados

Acepções 2
substantivo masculino
1. traço colorido e/ou pouco acentuado sobre uma superfície, feito com um instrumento próprio (lápis, caneta etc.) ou um artefato pontiagudo; risca
1.1. (1720) traçado, esboço, debuxo de um bordado, de um quadro, de uma construção etc.
1.1.1. Rubrica: artes plásticas. Esboço de uma obra pictórica, feito com perfis, linhas etc. e desprovido de cores ou sombras
1.1.2. Rubrica: arquitetura, desenho, engenharia. Desenho esboçado ou definitivo de uma construção ainda por fazer ou já realizada, ger. com certos cálculos como a delimitação de área, a metragem etc.; traçado, projeto, planta
2. corte superficial; talho, vergão
3. Uso: informal. Golpe com arma cortante; navalhada, facada
4. Regionalismo: Bahia. linha do horizonte visual

Riscado

Acepções
adjetivo
2. marcado com riscos, para fins de realce ou de exclusão
4. Regionalismo: Brasil. Uso: informal. Dispensado do trabalho; demitido, cortado
5. Regionalismo: Nordeste do Brasil. Uso: informal. Um pouco embriagado; tocado
substantivo masculino
Locuções

entender (d)o riscado.

Regionalismo: Brasil. Uso: informal. Conhecer bem um assunto, ser competente em determinada coisa

Riscar

Acepções
verbo transitivo direto
1. fazer riscas ou traços em
1.1. Rubrica: artes gráficas. Passar, com utensílio próprio, um traço sobre; tachar
2. fazer um esboço, um desenho de; desenhar, debuxar, esboçar, bosquejar
2.1. Rubrica: arquitetura, desenho, engenharia. Fazer um projeto, uma planta ('desenho'); projetar, planejar
3. marcar, assinalar
4. acender friccionando
Ex.: riscar um fósforo
verbo transitivo direto e intransitivo
7. fazer parar subitamente (a cavalgadura)
Ex.: <o cavaleiro sentiu necessidade de riscar>
verbo intransitivo
8. brigar, lutar; provocar
10. Regionalismo: Amazonas. Começar a descer ou a vazar (a maré, as águas de um rio), deixando vestígios na vegetação das margens
11. Regionalismo: Nordeste do Brasil. Aparecer ou chegar inesperadamente
Ex.: nunca avisa quando vem, tem o hábito de riscar
verbo pronominal
12. esvanecer-se, apagar-se, desaparecer
Ex.: é sadio riscar-se da mente as grandes decepções
13. demitir-se
Ex.: insatisfeito no trabalho, riscou-se

risca-de-união

Acepções
substantivo feminino
Rubrica: artes gráficas. Mesmo que hífen ]

terça-feira, 3 de julho de 2007

carta encarnada

Na matemática dos nossos dias, meu senhor meu, sob nossa ordem os números conspiram, de modo que minha inteligência cheia de fé ganha a certeza dos vôos dos pássaros, e então os bons presságios preenchem de rosas vermelhas nossa casa, que já tem e terá as janelas mais ensolaradas, as coisas em seu melhor lugar, os horizontes de ambos os lados, a beleza em cada um dos cantos. E assim, em contagem regressiva e em doce convivência, vamos subtraindo as dores e as lembranças feias, somando as fortunas colecionadas, fracionando o labor, multiplicando as delicadezas, de modo que quando chegar o dia exponencial será como se sempre assim fosse, macio e simples, como um brinquedo antigo que funciona, como uma palavra mágica, um presente, um carinho.

Que sempre haverá noites de amor proibido, meu senhor meu, isso te prometo. Que com olhos cerrados e pensamentos alhures será sempre obediente o meu fazer, quando assim o quiseres, meu senhor meu, isso te juro. Que embrulhado em laços de fita e rendas púberes será sempre o meu segredo para ser devastado, meu senhor meu, isso a ti te oferto. Que prontos e generosos estão e estarão sempre os meus aléns, meu senhor meu, isso te faço saber.

As surpresas que minhas mãos e meus diminutivos sempre tecerão, meu senhor meu, isso a ti te dedico.

Pois que o que me define são teus olhos pousados nos meus. Pois que o que me nomeia são tuas palavras desordenando as minhas. Pois que em ti meus descaminhos ganham norte e história. Pois que minha alegria mora na tua contenteza.

Hoje, ontem, amanhã, desde sempre e para sempre.

segunda-feira, 2 de julho de 2007

sexta-feira, 29 de junho de 2007

ridiculinha s/n

o silêncio.
mais triste e mais escuro do que toda a palavra bruta.
como uma carta vazia.

carta sem cor

Esse gosto na boca, este ardume no meio do peito, esse frio no meio do umbigo. As mãos pequenas que tremem e teimam em não ficar limpas, envergonhadas. Os olhos que crescem, imensam, e não secam - não secam.

Esse medo insuportável de ter arranhado a jóia preciosa.

Essa dor impredicável.

Senhor meu, o discurso enfeia, mas antes de calar, digo desancada: também meu amor é, e pra sempre será, igual intransitivo, diamante puro, raro, único, que não risca, não quebra, não fenece, nunca jamais, mas eu sei, a memória do corpo é às vezes mais forte e precisa de tempo pra ressignificar, e tento aliviar lembrando que a beleza não carece de perdão, só a fraqueza, a pequenez, o desvio, e por isso em desespero feminil imploro, não vamos nos perder.

terça-feira, 26 de junho de 2007

ridiculinha, 26

susto, assombro, medo:
enxergar aquilo que resisti tanto em ver
tão nítido como a verdade que insisti em inventar.

quinta-feira, 21 de junho de 2007

garimpo

O certo é viver de belezas.
Das que estão nas latas de biscoitos, rosas em relevo, forminhas de papel vegetal.
Das que aparecem de repente e amansam os olhos, caixa de vidro, banco de madeira, flor de lata, copo colorido, oratório velho, pedra, cartão postal.
Das que surgem bailarinas e sorridentes, prateleiras arrumadas, gavetas refeitas, interruptor, chave de fenda, rodinhas, pijama de listras, manhãs amanhecidas com beijo na bochecha.
Das que nascem na simplicidade, na alegria e na desimportância de uma idéia boba, transmutada em coisa de cor, volume e peso.
Das que moram suaves no calor da pele que encontra a outra pele, que se podem ver, que não se podem ver.
Das que encontram um lugar, uma destinação, um prelúdio, um vir a ser.
Das que vão sendo tecidas em variada velocidade e delicadeza com muitas mãos - as minhas, fazedoras, vão assim querendo reencontrar o tempo, reinventar o rumo, costurar o corpo, cerzir.
Certo, certão, certame, certeza, cerzidura, urdume, varal, poesia: vivemos e viveremos assim, enredados em belezas.

sexta-feira, 15 de junho de 2007

carta púrpura

Depois de dias de silêncio tormentoso, meu Senhor, volto aqui rapidamente, um bilhete em desmesura: vestirei os saltos altos e as roupas desclassificadas; caminharei entre tuas mãos com desejos explícitos e devoção ignorante; servirei-te como servem as mais baixas criaturas aos seus senhores; elevarei as mãos aos céus agradecendo teu desprezo e tua fome; sentirei desconexa o desacerto das palavras e a rispidez do gesto; calarei sorrindo quando, depois do tapa, acarinhares saborosamente meu corpo marcado.

Pois que meu amor por ti é tão santo quanto pornográfico: nada me custa oferecer-te a outra face.

segunda-feira, 11 de junho de 2007

datas comemorativas

Vou em busca de uma notícia alvissareira. Acabo num sítio de datas comemorativas, alento absolutamente ridículo (condizente com meu prenome) para dias de angústia extrema, como hoje. Hoje, descubro lá, é dia da marinha brasileira, e imediatamente navegam em meus olhos marejados palavras marítimas como cais, porto, imensidão, tempestade, maresia, travessia: que bom, aqui estás, meu barco de ir para o além, graças aos céus, isso há de ser uma boa-venturança. Mas além disso, descubro lá que hoje é dia do educador sanitarista e então um silêncio continental em espiral de tornado toma de assalto meus discurso epifânico, faço esforços anagramáticos e nada, ensaio digressões, mesmo as mais indignas, e nada, associações livres não me ajudam, nada me ilumina, minha fortuna por um fio, putaqueopariu, de nenhuma maneira consigo partir do educador sanitarista e chegar a ti pra ter enfim a certeza de que meus presságios estão equivocados e que, é claro, tudo vai dar certo.

Mas eis que um furacão branco em forma de números me socorre: sanitarista tem 11 letras, hoje é dia 11, e na soma, 22; o dia e o mês somados dão 17. Olho no relógio, 7:27 pm; o memorando em minha mesa data do dia 17/2/2007, e amanhã é dia 12. Pronto. Aí estão, nossos algarismos da certeza. Sossego, já posso voltar pra casa.

ela, 3

Ela me coloca medo. Tão bonita ela, cheia dos pequenos defeitos de que gostas. Ela me faz triste por dentro do meu vestido preto, escurece meus os olhos grandes, me faz estranha como a tarde de hoje, um dia todo estranho, muito estranho. Ela me deixa feia, apesar dos sapatinhos lindos que ostento nos pés pequenos, elogiados por todos na festa de aniversário ainda mais estranha que a trouxe ao andar, visitante. Então ela me visita e bota um tremor na ponta dos meus dedos um pouco descuidados, bagunça meu discurso nesse dia que não parece mesmo um bom dia, derruba meu sorriso e me faz literal-ridícula, faz ameaça com sua tez branca e sua juventude inteira. Daí eis que retorce no meio do meu peito aquele nó apertado que faz tempo não aparecia por aqui. Literal e ridícula eu, eu sei. Eu sei, uma tolice, tão real quanto despropositada.

segunda-feira, 4 de junho de 2007

silêncio

(tem vezes que um vazio enorme pendura no bico da pena, e sai nada pra dizer; não é mau-humor, é só um ponto-final grande, maior que o começo da frase, sem poesia qualquer: O medo O, maiusculão. Ô meu deus, não me abandona, por favor...)

terça-feira, 29 de maio de 2007

despedida

O que eu queria agora é que ela passasse por aqui pra ler aquilo em que me tornei no discurso ordenado que crio, também por causa dela. Que ela soubesse daquilo que não pude dizer nesses doze anos de vontade e resistência, mas sobretudo de afeto - um estranho diverso, como outro não vivi nem vou viver. Doze anos: nasceram os filhos, passaram homens, fantasmas, monstros, memórias, alegrias e versos de toda natureza, ela ali sentada, eu ali náufraga e nua em desmesura, desespero, descoberta, desvio, amor, e ela ali sentada, presente.

Hoje vou embora como a criança que larga devagarim a mão do pai e anda adiante no equilíbrio precário e desde então o mesmo que vai manter o umbigo longe do chão, dizendo com olhões brilhantes e frio na barriga: ó, eu posso ir sozinha.

Quero dizer-lhe que sou, embora ainda não saiba direito o que isso quer dizer. Quero que saiba que tenho quem por mim, e isso é a melhor das felicidades, bênção que mereço, flor à qual me dedico, casa e devir que construo.

Quero sobretudo que ela saiba que foi ela quem me mostrou os lápis de cor, muitos mais que os poucos que eu tinha, para que eu possa então desenhar e colorir com medo, carinho e solidão os caminhos, os redemoinhos todos.

quarta-feira, 23 de maio de 2007

caixa de música

Hoje te entardeço chorosa das tristezas e receios que assombrarão sempre.

Hoje te anoiteço febril com surpresas bordadas na pele anunciando o quando encontrarmos juntos o mar pela primeira vez (e será a alegria das geraes descortinando o horizonte litoral).

Hoje te adormeço louco e doente entregando mais uma vez a flor vulcânica de todos os dias com a calma doce de todos os dias e com o desespero oceânico de todos os dias.

Hoje te amanheço convalescente pequeno, bonito enrolado nos panos vermelhos, beijo teus olhos celestes e sinto já a saudade ao virar da chave.

Hoje te reconheço nas rosas de vidro sobre a mesa e no basculante da janela em frente, e até mesmo naquela pra quem te devolvia quando era brevidade, e colo assustada o papelzinho amarelo com teu nome e teu número, simpatia.

Hoje estremeço de medo, e te compro dois presentes.

Não deu tempo de comer. Mas escuto já os almoços que finalmente serão familiares e tumultuados para que os nossos tenham na memória a mesma música da nossa infância.

terça-feira, 22 de maio de 2007

ridiculinha, 23

há de vir:
Nosso amanhã, passarado meu, caminha em nossa direção com passos largos, corre ao nosso encontro como criança debaixo do sol. Bonito, o devir, já está por aqui.
E os redemoinhos todos todos...

segunda-feira, 21 de maio de 2007

oração

Deus pai, São Jorge, Santa Teresinha das minhas rosas:

olhem por mim, lupanares sagrados de aleluias, no sombrio da noitinha de vento temeroso, na simesmice das escolhas sempre solitárias, no caminho enevoado que não mostra o passo depois do passo dado.

Guimarães de rosas e de passarada:

esteja sempre aqui comigo pra dar a mão de palavras que desconheço, pra reinventar aquelas que amorosam meu dizer e meu desdizer em belezuras e desdiversos, pra sorrir e chorar com estas que são o meu eumesmim, pra desenhar nosso devir em mãos-patas-dadas, barcais tatuado na carne e na delicadeza, dor e alegria, todos infinitos tudos.

Frutos meus, olhos de imensidão de floresta e ensolarada dos dias:

saibam de todos os jeitos de que fomos feitos por sentir, e mesmo daqueles que ainda aprenderemos, que minha vida, meus olhos, meu cantar, minhas mãos, meu sonhar e meu desfazer são seus, desde sempre e para o sempre, pois que o amor não tem fim nem começo.

E a mim mesma, em nome de todos os anteriores e posteriores:

rogo estar inteira e forte misturada confundida no meu próprio sangue que de muitos é formado formoso, que preciso de mim, e que estes outros precisam ser inteiros para desprecisarem-me.

Amém.

sexta-feira, 18 de maio de 2007

bipolar

Tracei nosso futuro próximo com o filho, fiz jantar, carinhei a doce princesa macaca, arrumei a agenda, acertei o traçado, vesti-me de vermelho, lembrei-me do que havia esquecido, redescobri o norte da garganta e das peles, encontrei meus tão queridos, conheci mariazinha, e sobretudo, cantei cada palavra como fosse o parto de espantar os tormentos, sabendo dos ouvidos, mãos e olhos teus atentos, presentes, incontestes, predestinados meus. Assim, tudo de novo parece assentar.

Sim, pois que não me esqueço do dragão.

Valei-me.

quinta-feira, 17 de maio de 2007

bagunça

ouvi de jesus menino
que folia era de Reis
São Jorge desceu Quintino
e pediu a sua vez
quando a vida se acomoda
eu me lembro do dragão...

(moacyr luz, sereno, que batuque é esse?)

terça-feira, 15 de maio de 2007

na travessia

juntos, e os mesmos olhos de menino encantado que descobriram um dia sua ancestralidade nos pára-choques de todos caminhões, ganharam nova claridade ali no tormento da casa velha, no beijo ainda aflito de uma mãe, no sorriso sabedor da outra, na paciência sagrada e ausente do pai, no corpanzil vazio e pesado do caçula, na escolha-caramujo da irmã sorridente e ainda bonita. As mãos que desenham meu futuro encontram seu maior viço nos papéis mimeografados tirados do pó do maleiro: retroversos. E a palavra sempre reta percebe outra inflexão, ali, acocorado no quintal, ali, nas ruas de pedras escuras, ali, na quermesse estrelada, ali, nos beirais bonitos e esquecidos, revividos em cada um dos seus dias seculares por aqueles olhos da cor do céu do domingo continental. Ainda menino, olhos de imensidão, não cansa de procurar a cifra secreta nas placas, nas rachaduras, nos silêncios. Ainda menino, emociona e desanda, desentende de onde vem o medo, freme, resiste em adolescer. Ainda menino, quer meu corpo por perto por não se e me perder. Ainda menino, sabe, e por isso não envelhece, da beleza sem precedente e sem explicação que reside na delicadeza das alegrias miúdas e sem importância nenhuma, e também da

quinta-feira, 10 de maio de 2007

ridiculinha, 272

Minhas mãos pornográficas contornam palavras de amor:
da mulher a obediência, do homem a gentileza.
Pois que pronunciamos cada conta nosso rosário impublicável.
Diariamente.

quarta-feira, 9 de maio de 2007

do estado esdrúxulo

Que coisa linda de se ver, andamos assim, o mundo caindo sob nossos pés e afundando as contas bancárias, sem dormir e sem almoçar, mas o tempo folga fácil quando é pra fazer o tempo parar.
Andamos assim, muito, mas muito ridículos.
Mariazinha e Prefeito, benvindos.

segunda-feira, 7 de maio de 2007

na curva, 2

Eu rio, errante.
Tu acertas, imensidade.
Escrito e predestinado dentro das pálpebras, o pano de vidro que nos espera.
Seja num, seja noutro, estaremos juntos, ali dentro dos umbrais de construir a felicidade e das paredes de relembrar, quando em vez, o sofrimento.

quinta-feira, 3 de maio de 2007

quentura

Sou forjada na dúvida.
Mas sou de barro de origens geraes, e nos dias de agora, o chão tem de estar por debaixo, horizontes bons, finitos.
Às vezes, até as mínimas possibilidades de certeza ficam tão longe das minhas mãos que chego a desacreditar da minha viabilidade, perco quaisquer óculos de enxergar o algum amanhã.
No calor dos teus braços, ali dentro deles, tudo parece confortar.
Não preciso de ti: a solidão é minha conhecida, meu rosto de resina já caiu, e eu sei ser o quanto for.
Mas te quero aqui, feminil mulherzinha pequena flor vermelha, porque é da natureza do rosal desejar o sempre colorido, o orvalho amanhecido-solar, e brisinhas, seja no inverno das gentes, no estio das misérias, na asfixia das necessidades, nas agonias desenluadas.
É o tempo, sabes... deste ainda preciso aprender o mistério.

quarta-feira, 25 de abril de 2007

ridiculinha, 22

oráculo:
10 + 12 = 22
08 + 12 = 20
também nas diagonais.
sempre 222...

na curva

Hoje conheci a minha casa: janelas enormes de ver a cidade em noites de lua e dias de chuva; o chão ainda vermelho que mostrará o mosaico simples; as cores das paredes que serão brancas e limpas; o vazio que acolherá generoso a mesa velha, os livros e o tumulto; o vento que assistirá contemporâneo a cada um dos nossos atos de amor.

Ali envelheceremos suaves e bonitos como as curvas do arquiteto, desenhando com ensolarado e sombra a tristeza e a felicidade.

O número sobre o batente é alvissareiro.

Meus sonhos já estão fazendo a mudança.

terça-feira, 24 de abril de 2007

carta escarlate

Então tu me tomarias nas mãos masculinas e me devorarias bruto e sem qualquer poesia como se diante de uma prostitutazinha inominada. Em nossa cama quererias outras mulheres e outros homens de rostos púberes para assistirem ao espetáculo. Meu corpo humilhado, meu sangue caindo entre as pernas quase bonitas, meu grito surdo, minhas mãos suplicantes, teus olhos autistas e teu prazer de estivador. Dormirias consecutivo o sono dos justos enquanto eu, continente emproada, recolheria os cacos cheirosos da minha menarca desfiados no chão de madeira velha.

segunda-feira, 23 de abril de 2007

padroeiro

Agora posso olhar em volta: meu entorno, bagunçado ainda, faz de novo sentido, e meu horizonte, que antes tinha o tamanho dos meus pés, hoje se abre na doçura das possibilidades.
Mas é preciso arrumar as contas, fazer mercado, pagar dívidas, comprar flores. Não posso perder a vigilância - eu que sou feita só de amor careço dos algorítimos para não deixar o mundo real me engolir, e de coragem pra não perder o brilho dos olhos.
Por isso, São Jorge, peço humílima, fica comigo, não me abandones, empresta-me a tua bravura, dá-me a bênção da tua proteção:
"Deus me perdôe essa intimidade
Jorge me guarde no coração
Que a malvadeza desse mundo é grande em extensão
E muita vez tem ar de anjo e garras de dragão".
(moacyr luz, aldir blanc; medalha de são jorge)

sexta-feira, 20 de abril de 2007

ridiculinha, 17

na travessia também é o verbo:
tempo: futuro do presente
modo: imperativo
complemento: trans-transitivo
significado: o mesmo, o outro.

quarta-feira, 18 de abril de 2007

ridiculinha, 16

o verbo:
se Deus escreve, há de ser em português;
certamente Ele consulta o Houaiss.

rosa-louca

Acepções
■ substantivo feminino
Rubrica: angiospermas.
arbusto (Hibiscus mutabilis) da fam. das malváceas, nativo da Ásia tropical, de folhas ásperas e flores brancas pela manhã, vermelhas ao meio-dia e róseas à tarde
Sinônimos
amor-dos-homens, aurora, mimo-de-vênus, papoula, papoula-de-duas-cores, rosa-branca, rosa-de-são-francisco, rosa-paulista.

(fonte: dicionário houaiss da língua portuguesa)

terça-feira, 17 de abril de 2007

rosas na rua

o canteirinho mais bonito da avenida que leva às bordas da cidade (que agora vai ficando pelada e cheia de vergonha...) é um rosal: miniaturas de beijos, branquinhas, vermelhinhas, rosinhas, espalhadas, gentis e nada tímidas sob o sol da manhã ordinária. Ninguém presta atenção nelas, os carros e as pessoas passam rápidos e se esquecem de espiar a vida. Ainda bem que meus olhos estiveram lá para vê-las e inventar-lhes o perfume, fazendo crescer no meio do peito a certeza de que tudo então vai dar certo.

ridiculinha, 117

ar-revoada:
tecer a vida com orvalhada e aleluia
encarnada no dia, lumeeira na escuridão
não haverá mais solidão.

das origens da rosa

Datação
sXIII cf. FichIVPM
Acepções
■
substantivo feminino
1 a flor da roseira
2 Rubrica: angiospermas.
design. comum aos arbustos do gên. Rosa, da fam. das rosáceas, que reúne cerca de 150 spp., por vezes escandentes, ger. com espinhos e flores solitárias ou em panículas, e aquênios em receptáculos carnosos [Nativas de regiões temperadas do hemisfério norte e de áreas tropicais montanhosas, são mundialmente cultivadas, com milhares de híbridos e variedades, como ornamentais e para o comércio de flores, para extração de óleos essenciais us. em perfumes, por propriedades medicinais etc.]
3 Rubrica: angiospermas.
m.q. roseira
4 m.q. 1rosácea ('estrutura como a da rosa desabrochada', geom, mús)
5 (sXIII)
mancha circular e rosada em cada uma das faces
6 Derivação: por extensão de sentido.
mancha rosada no corpo, ger. provocada por picada de inseto
7 Rubrica: encadernação.
peça de latão, ornada de lavores, que serve para dourar os livros
8 Rubrica: heráldica.
representação da rosa dos jardins, com pé e folhas
9 Rubrica: música.
abertura circular no tampo dos instrumentos de cordas dedilháveis; rosácea, roseta
10 Derivação: sentido figurado.
mulher bela, formosa
11 Regionalismo: Minas Gerais. Uso: tabuísmo.
o ânus
■ substantivo masculino
12 cor vermelho-esmaecida, à semelhança da flor de algumas roseiras; cor-de-rosa
Ex.: o verde e o r. simbolizam a escola de samba Mangueira
■ substantivo feminino plural
13 estado de satisfação do corpo e/ou do espírito; acontecimentos felizes; bem-aventurança, dita, ventura
Ex.: nem tudo são r.
■ adjetivo de dois gêneros e dois números
14 que tem essa cor; cor-de-rosa
Ex.: sapatos rosa
15 diz-se dessa cor
Ex.: a cor r. da aurora espraiava ternura pelo ambiente

Locuções
r. de ouro
Rubrica: religião.
objeto de ouro e com formato da flor da roseira, benzido pelo papa e presenteado a uma princesa católica a quem se deseja honrar
de r.
diz-se de tempo, céu, mar tranqüilo, sereno, sem nuvens ou vento (tb. us. no pl.)

Etimologia
lat. r
òsa,ae 'rosa'; acp. angios, pelo lat.cien. gên. Rosa (1735); ver ros(i)-; f.hist. sXIII rosa, sXIV rrosa, sXV rossa, sXV roza 'flor', sXIII rosa, sXIV rrosa 'cor'

(fonte: dicionário houaiss da língua portuguesa)

segunda-feira, 16 de abril de 2007

pacto

Na troca de alianças, tuas patas tomam minhas mãos pequenas.
Juramos então em todos os verbos, infinitivos e transitivados-justos e juntos para nosso amor:
amar-te, respeitar-te, olhar-te, reinventar-te, reconstruir-te, comer-te, espiar-te, despir-te, proteger-te, guardar-te, ensolarar-te, anoitecer-te, presentear-te, perder-te, descobrir-te, envaidecer-te, salvar-te, ouvir-te, escrever-te, tatuar-te, apanhar-te, colecionar-te, afagar-te, acolher-te, revelar-te, eternizar-te.
Rosa e Jorge já esperam, ali ó, na estrela mais próxima do dia.
Pois que o pra-sempre já começou, depois do início e antes do fim.

terça-feira, 10 de abril de 2007

das origens do ridículo

predomínio do sentido interior
"Era eu um poeta estimulado pela filosofia e não um filósofo com faculdades poéticas. Gostava de admirar a beleza das coisas, descobrir no imperceptível, através do diminuto, a alma poética do universo.

"A poesia da terra nunca morre. Podemos dizer que as eras passadas foram mais poéticas, mas não podemos dizer (...)
"A poesia encontra-se em todas as coisas - na terra e no mar, no lago e na margem do rio. Encontra-se também na cidade - não o neguemos - é evidente para mim, aqui, enquanto estou sentado, há poesia nesta mesa, neste papel, neste tinteiro; há poesia no barulho dos carros nas ruas, em cada movimento diminuto, comum, ridículo, de um operário, que do outro lado da rua está pintando a tabuleta de um açougue.
"Meu senso íntimo predomina de tal maneira sobre meus cinco sentidos que vejo coisas nesta vida - acredito-o - de modo diferente de outros homens. Há para mim - havia - um tesouro de significado numa coisa tão ridícula como uma chave, um prego na parede, os bigodes de um gato. Há para mim uma plenitude de sugestão espiritual em uma galinha com seus pintinhos, atravessando a rua, com ar pomposo. Há para mim um significado mais profundo do que as lágrimas humanas no aroma do sândalo, nas velhas latas num monturo, numa caixa de fósforos caída na sarjeta, em dois papéis sujos que, num dia de ventania, rolarão e se perseguirão rua abaixo. É que a poesia é espanto, admiração, como de um ser tombado dos céus, a tomar plena consciência de sua queda, atônito diante das coisas. Como de alguém que conhecesse a alma das coisas, e lutasse para recordar esse conhecimento, lembrando-se de que não era assim que as conhecia, não sob aquelas formas e aquelas condições, mas de nada mais se recordando."
(Fernando Pessoa, 1910)

segunda-feira, 9 de abril de 2007

vãos

Se eu perdesse a pena, assim como que por desgraça repentina, o certo é que nada me faltaria. Mesmo se eu perdesse o discurso todo e as palavras que me confortam e que me constituem, nada não me faria falta. Fossem embora de mim as preposições e as subordinadas, até mesmo os imperativos que a mim me servem nos cantos do desespero, talvez eu nem percebesse. E se passassem por entre meus dedos a sintaxe, os acentos, os apostos e os gramemas, nem sequer haveria despedida.
Hoje sou corpo feito de carne e afeto, carinho e violência.
Aquilo com o que fui forjada exala pelos poros e buracos, soa em meus dentes que esquecem as consoantes, pronuncia nos lábios vogais plenas, vibra nos ossos dos meus ouvidos, acende as cores dos meus olhos, ocupa a sala das minhas narinas, escorre quente por entre as minhas pernas e fecunda o chão dos meus novos dias.
Um tempo de beleza, amor acima de tudo, apesar da contra-mão do mundo.

quinta-feira, 5 de abril de 2007

amuleta

Quando finalmente arrisquei caminhar com meus próprios pés, a memória do corpo assustado com a boa-nova passou-me a perna: precisei de outros, postiços, e de paciência, tudo em câmera-lenta e esforço taquicárdico.
E quase virgens no passo sozinho, meus pés pequenos então reaprendem o andar; necessito do umbigo erguido no tempo, e descubro o real do meu peso, da minha inércia, da minha altura e da minha espessura, os limites do meu contorno agora multidirecional que corta o ar que me abraça e arrepia a pele.
Fui engendrada no amor e conheço os andaimes da dor.
O que me sustenta dentro do escuro e do medo é esse novo gosto, desconhecido e confortável, orvalhado ardido-fresco dentro da minha boca: quando não é preciso mais ser em segredo, posso sair ao sol com meu sorriso sanguíneo e meus olhos imensos em riste, o ex-voto de pétalas de rosa pendurado no pescoço e avançado no decote, desvelando meu coração vermelho.

quarta-feira, 4 de abril de 2007

coxa

Nos dias claudicantes aproveito pra maternar: luiza nas manhãs de sol com biscoito, cosquinha, rá-tim-bum e risada, joão nas tardes calorentas de tempo solto e palavras no vento, as noites de ternura e vinho e unhas vermelhas. Meu corpo sabe a hora do descanso preciso, então finge quebrar-se. A perna esquenta dentro do gesso, o resto fica de fora para o afago molhado, e a alma refresca no meio do mundo, e cada instante compartilhado vai construindo o bonito devir.
Hoje não preciso mais servir às gavetas: elas é que serão moldadas (como as pernas postiças e as cadeiras de madeira do casal de arquitetos pra-sempre sorridentes), uma a uma, pra cada um dos meus - dos nossos - sonhos.

segunda-feira, 2 de abril de 2007

condomínio

"Prezados Condôminos:
"Chegou ao conhecimento da administração do nosso Condomínio, através de reclamação feita por morador, que pessoas(s) inescrupulosa(s) e desprovida(s) de qualquer senso de convivência em comunidade, respeito ao próximo e civilidade, estaria(m) jogando pela janela do edifício PRESERVATIVOS USADOS, vindo estes a caírem na cobertura da área de serviço do apartamento 03, na copa da árvore e calçada em frente à entrada de número 976 do condomínio.
"Por tratar-se de atitude deplorável e repugnante, que não se coaduna com a conduta exigida para a convivência em condomínio, solicitamos ao(s) autor(es) de infeliz proeza, que abstenha(m)-se de jogar pela janela de sua unidade os preservativos de que fizer(em) uso, dando destinação apropriada ao referido apetrecho, pois estaremos redobrando nossa vigilância com o propósito de descobrir e punir na forma estabelecida no Regulamento Interno do Condomínio o autor(es) de inominada ação.
"Atenciosamente, Síndica"
(São Paulo, 20 de março de 2007)

sábado, 31 de março de 2007

torre-abaixo

Na manhã em que reconhecerás a prole, a espera ansiosa e sorridente, junto com a lembrança tua, despencam-me dos saltos: tombo ridículo, luxação no peito (do pé!), gesso por 6 dias. Agora ando de muletas com a elegância de uma gaivota manca. Mas o coração vai altivo, com um alegrinho-de-menina: cuidas de mim como de uma princesa desencastelada.

quinta-feira, 29 de março de 2007

carta rosa

Rosa. Formosa. Vaidosa. Amorosa.
Em tuas mãos transformo-me em mim mesma.
Reinvento meu nome como fosse desde sempre este, cresço em meus olhos grandes e me torno a mulher que sempre fui, subo em meus quadris e ergo o peito para desfilar ao teu lado como um reencontro com o caminho certo, dedico os meus dias e meus versos para ser por ti cuidada com esmero, a flor que te entreguei no primeiro dia.
Quero perder-me em teu labirinto. Quero fazer-te belezas. Quero povoar nossas manhãs. Quero desenhar nossos contornos e nossas paredes. Quero minhas mãos envelhecidas dadas às tuas. Quero o teu-meu devir. A mesa posta, a cama pronta, as janelas abertas, um dia depois do outro e a imensidão, cada coisa em seu bonito lugar.
Como foi predestinado no dia em que meu olhar pousou no teu e o teu desandou meu discurso, no meio da confusão da cidade, e o tempo se esqueceu por um átimo de existir.
És meu barco e meu porto: de onde parto, chão em que me movimento, lugar pra onde deverei sempre voltar.

terça-feira, 27 de março de 2007

ridiculinha, 14

amanhecer:
saber que o amor estará sempre aqui devia ser suficiente, mas eu sei que não é.
não esqueça: a tua grandeza ensinou-me a esperar o caminhar do tempo.

ridiculinha, 13

noite:
a pior de todas as dores é a dor do outro.
ninguém deveria ter de causar a tristeza.

segunda-feira, 26 de março de 2007

pra ensolarar

(...)"Muito é quando os dedos da mão não são suficientes.
Desespero são dez milhões de fogareiros acesos dentro da sua cabeça.
Angústia é um nó muito apertado bem no meio do seu sossego.
Preocupação é uma cola que não deixa o que não aconteceu ainda sair do seu pensamento.
Ainda é quando a vontade está no meio do caminho.
Vontade é um desejo que cisma que você é a casa dele.
Cismar é quando o desejo quer aquilo apesar de tudo.
Apesar é uma dificuldade que não é grande o suficiente.
Dificuldade é a parte que vem antes do sucesso.
Sucesso é quando você faz o que sabe fazer só que todo mundo percebe.
Antes é uma lagarta que ainda não virou borboleta.
Indecisão é quando você sabe muito bem o que quer, mas acha que devia querer outra coisa.
Certeza é quando a idéia cansa de procurar e pára.
(...)
Alegria é um bloco de carnaval que não liga se não é fevereiro.
Felicidade é um agora que não tem pressa nenhuma.
Amizade é quando você não faz questão de você mesmo e se empresta para os outros.
(...)
Culpa é quando você cisma que podia ter feito diferente, mas geralmente não podia.
Perdão é quando o natal acontece em maio, por exemplo.
Exemplo é quando a explicação não vai direto ao assunto.
Desculpa é uma frase que pretende ser um beijo.
Beijo é um carinho que serve pra mostrar que a gente gosta daquilo.
Gostar é quando acontece uma festa de aniversário em seu peito.
Amor é um gostar que não diminui de um aniversário para o outro.
Não. Amor é um exagero... Também não. É um desadoro...
Uma batelada?
Um enxame, um dilúvio, um mundaréu, uma insanidade, um destempero, um despropósito, um descontrole, uma necessidade, um desapego?
Talvez porque não tivesse sentido, talvez porque não houvesse explicação, esse negócio de amor ela não sabia explicar, a menina..."
(parte do "mania de explicação", de adriana falcão; pra dizer exato aquilo que não saberia escrever de outro jeito.)

sábado, 24 de março de 2007

ruminessência colaborativa, 2

da série poesia na rua, ou aforismos, ou cardápio...
A determinação deve basear-se numa união da força com a amabilidade.
(bilhete de sorte no biscoito chinês)

sexta-feira, 23 de março de 2007

carta vermelha

Senhor meu,

espiar pelas frestas, escorregar pelos cantos, abusar do direito inalienável do desvio são com certeza coisas que desejo com ardor. E neste sentido, o discurso clandestino deixa na minha boca um gosto de puteiro da década de vinte, me sinto com os lábios rubros e úmidos das cortesãs, com seus decotes fundos e seios fartos, as rendas nas calcinhas proibidas, as coxas de encher as mãos curiosas e perspicazes, e sobretudo a inteligência daquelas que sabem ser a cada dia uma outra mulher. Por isso, prezado Senhor, escute nas minhas palavras oblíquas o sussurro proibido de uma meretriz, tão carmesim quanto as luzes da casa e tão infernal quanto a minha presença na tua vida.

Exalando a alfazema dos banhos matinais das mulheres de vida fácil, misturado com o cheiro fresco dos lençóis limpos e roseados que esperam o corpo do próximo homem, despeço-me agora e espero-te em breve.

quinta-feira, 22 de março de 2007

carta ao prefeito, 3

Nossa excelência,
Viva o encontro (taí a minha postagem anterior - como diz nosso ruminante, na sincronicidade), que certamente é das coisas mais lindas que podem acontecer, porque ter gente boa por perto faz da gente gente melhor. E nesse mundo tão disparatado, desencontrado, só podemos erguer o copo e saudar essa felicidade.
Sim, é muito bom tê-lo aqui. E melhor ainda que seja assim, emocionado e atrapalhado - na disforia nasce muita vez a beleza... Sim, esse troço converge a nossa vida e a nossa casa, fazendo, ainda que estranhamente, que estejamos muito próximos, graças a Deus.
Sim, faremos muitos filhos, casas, asas, cidades, anitas, pastos e rosais, reais e virtuais, ridículos por natureza, formosos por necessidade, doloridos por condenação, pois que escolhemos e merecemos viver.
Estamos juntos, e vamos de mãos dadas.

encontro

E pensar que passei mais de ano sem conversar.
Mas a felicidade dos amores verdadeiros é saber que a qualquer momento tudo estará ali, fresco, como se não houvesse distância ou tempo. O café com leite quente, o abraço conhecido, o sorriso desavisado, o peito aberto, a palavra sem medo, o conforto. Tudo ali, preservado precioso, como a manhã da nossa infância cheia de alegria e tristeza. A partilha dos olhos. A beleza da confissão. A imensidão da confiança. A flor que também é cicatriz.
Porque é minha irmã de sangue e sobretudo de alma, afeto construído no diverso, no transverso e no reverso, aquela a quem confio os meus filhos e minhas mãos, amor andante, pra-sempre e inconteste.

quarta-feira, 21 de março de 2007

ela, 2

ela chora sob teu corpo: uma mulher com mãos e sonhos de menina.
ela grita dentro dos teus braços: uma menina com desejos e ancas de mulher.
ela renasce diante da tua boca: uma virgem com pernas de prostituta.
ela desaparece em tuas palavras: uma vadia com passos encantados.
ela aceita o teu desígnio: olhos de sentinela, ouvidos de sereia, tempo reinventado, verdade e beleza, coração encarnado que encontra, finalmente, seu lugar.

terça-feira, 20 de março de 2007

ridiculinha, 27

roseana:
minhas mãos ainda sabem costurar pétalas
tez tecido ponto trama véu casa fresta urdidura filigrana delicadeza
na travessia.

segunda-feira, 19 de março de 2007

sexta-feira, 16 de março de 2007

ridiculinha, 11 (para anita)

caleidoscópio:
no fim do túnel olhos de gato dançam num rosal sem fim
trá-lá-lá colorido ordenado, fundo branco de gentileza inesperada;
dizem que é mentira-ilusão, mas eu sei, tu sabes, é tudo verdade.

quinta-feira, 15 de março de 2007

algorítimo

confiança responsabilidade escolha carência tempo correspondência presença sabotagem espera atitude sacrifício inércia certeza falta desejo verdade asserção direito submissão demanda luxo abandono dúvida discurso mentira perda amor
(27 palavras = 12 pares + 2 transitivas + 1 plena)
para os seres em zigue-zague, o ideal é comprar uma máquina de costura.

quarta-feira, 14 de março de 2007

ridiculinha, 10

labirintite:
cuidado ao entrar em casa
cadeiras, mesas, pessoas e gato de pernas pro ar.

terça-feira, 13 de março de 2007

carta azul

A saudade é minha amiga, meu senhor, ou mais propriamente talvez, minha senhora. Sinto muita saudade, das coisas que não vi, daquelas que não vivi, das outras que perdi. E a saudade pode alimentar o espírito, nos fazendo tristes o suficiente pra querer a felicidade, descontentes o suficiente pra querer a inteireza, insatisfeitos o suficiente pra querer sempre um pouco mais de vida. Mas ela pode, cruel, tornar-se nosso algoz, o guardião da cela, aprisionando nosso coração num tempo e num espaço que não voltam, invariavelmente não voltam mais. E aí, ela corrói devagar como cupins no concreto: quando nos damos conta, a casa ruiu.

Por isso, senhor, não deixemos secar a vindima: na distância, peço que imagines.

Um quarto, a luz entra pelas janelas de folhas abertas ofuscando os olhos de quem entra pela porta. Cobrindo-as, cortinas quase inexistentes, leves como a brisa que as atravessa, num tremidinho de moça virgem. Sobre a cama de madeira, a colcha ainda branca, o barrado solto que acaricia o chão de tábuas largas e escuras que conhecem tantos passos. Sobre a colcha, o mesmo vestido da mulher feminil que ainda sem a roupa que a espera seca com o pano áspero e branco os cabelos, os seios e as ancas que se preparam, e, lentamente, acarinha seu próprio corpo como se fosse o de outra, e antecipa o não-gesto do homem qualquer que daqui a pouco entrará intempestivo pela porta e levará dela toda sua gentileza. Os joelhos e as coxas soltas oscilam e devagar escancaram-se para receber os braços agora caídos que caminham para entre as pernas úmidas e pesam tontos, e as mãos frouxas roçam a pele querendo não encostar, e os olhos se fecham no vento da tarde que entra assim de repente, bagunça os cabelos e as cortinas, inunda o mundo inteiro com seu cheiro misturado de flor e sexo.

É assim que te espero hoje nos meus sonhos, senhor meu, sem aquele vermelho, mas com esta claridade, doce e frágil, uma mulher que espera. Mas o corpo é ainda fácil, ainda despido, ainda teu.

segunda-feira, 12 de março de 2007

carta ridícula XI

Minha insônia tem teu nome.
Pois que acordo pela manhã, olho os cantos da casa que anda tão largada e procuro teu rosto. Abro o armário e escolho a calcinha que irás despir, os saltos de que irás me derrubar, as saias que te deixarão entrar. Banho-me para ter cheirosos os cabelos nas tuas mãos e macias as carnes que estarão dentro delas. Caminho pelas ruas da cidade e desejo que me encontres surpreso, e me olhes descaradamente com os olhos que desejam uma prostituta. Quero servir-te indefectível como serve uma vadia. Quero que me ames clandestino como se ama uma vagabunda. Quero importunar teus sonhos de amor até que percas a bússola. Minhas mãos agora tremem como se estivesses aqui, dentro de mim, sem nome, sem palavra, sem pejo: dize-me o que queres que te darei inconteste.

sábado, 10 de março de 2007

cacos

Vasculho as fotos da minha infância querendo encontrar a chave. No meio do sábado de maternagem - cinema, cabelo, gibis, sorvete, televisão, presilha - olho nos olhos dos meus filhos querendo um espelho que me mostre o atrás do vão do meu peito. Encontro outros olhos, os meus, desesperadores, e outro espelho, o meu, a menina que quer ser o que acha que querem que ela seja a despeito do que ela é que ela nem saber não sabe, e daí que perdeu-se num sumidouro: o rosto nos reflexos, outro labirinto, e a ausência.
Eu pergunto: como é que faz então?
Ela me pergunta: o que és?
Mulher. Mãe do João e da Luiza. Dona da minha casa e do meu corpo. Amo muito. Canto por necessidade de dizer. Gosto das palavras como das pessoas, preciso delas aqui. Como beleza com olhos e mãos. Temo o abandono. Escolho viver.
Por isso tropeço nas mesmas pedras, sofro superlativo, envergonho sempre, desconfio da certeza, fujo do cuidado, finjo ignorância, erro mais, carrego pedra, prefiro a linha curva, troco de caminho pra não me confortar, conheço o diverso, desperdiço o tempo, quero muito mas quero pouco, desavergonho meus quadris, adoro surpresinha, facilito a carne, sorrio quando choro, falo falatório, presenteio meu coração embrulhado com laço de fita, conservo felicidade infantil, penso derramado desmedido, acredito na alegria do encontro, sinto saudade contemporânea, coleciono cicatrizes, reivento o afeto, tenho fé bruta, encarnada e intransitiva.
Durmo com as janelas abertas pra sonhar com São Jorge e esperar o ensolarado do dia.

sexta-feira, 9 de março de 2007

stela

olha quantos estão comigo
estão sozinhos
estão fingindo que estão sozinhos
pra poder ficar comigo

stela do patrocínio: palavra em estado bruto, a carne do discurso.
stela foi interna psiquiátrica da colônia juliano moreira, rio, por mais de trinta anos. sua fala foi gravada, virou livro de poemas ("reino dos bichos e dos animais é o meu nome", esgotado), depois canções nas mãos de lincoln antonio, e por fim uma ópera mínima, com georgette fadel, lincoln e eu.
entrevista com stela do patrocínio (temporada de lançamento do cd)
de 17 de março a 8 de abril - sábados 21h; domingos 20h
galpão do folias - ana cintra 213, santa cecília, 3361.2223

quarta-feira, 7 de março de 2007

peixe-pescador

O bastante para te pendurar nas minhas beiras, circular meu coração no teu, fundir a carne e a pele. Viver é muito perigoso - requer coragem; amar também.

terça-feira, 6 de março de 2007

escuta

"O ouvido, este órgão do medo, só alcançou tanta grandeza na noite e na penumbra de cavernas obscuras e florestas, bem de acordo com o modo de viver da era do receio... Na claridade do dia o ouvido é menos necessário. Foi assim que a música adquiriu o caráter de arte da noite e da penumbra" (Nietzsche)

ridiculinha, 9

presente:
flores de mão em mão
rosas na pele dos sonhos.

domingo, 4 de março de 2007

vaticínio

Queria um presságio, sorteado de realejo ou sussurrado em quiromancia barata, que me dissesse com certeza: no teu futuro haverá uma casa sólida e grandes janelas; haverá teus filhos na mesa grande, ensolarados; haverá o amor, encarnado como o pôr-do-sol, fresco como a noite, contemporâneo como a cidade, alimentado todos os dias como rosas no jardim.

sexta-feira, 2 de março de 2007

cantos comunicantes

Na cidade o prefeito mínimo-complexo manda habitar o labirinto com o indefectível minotauro que espia certeiro a ridícula prolixa que procura desesperada pelo fio saído das mãos de asas coloridas da ariadne que em anita metamorfosear-se-á logo em breve.

(em homenagem à semana que finda, por ter sido dedicada quase exclusivamente aos pastos, cidades e sonhos vizinhos)

ridiculinha, 8

prefixo:
amar está no meu nome.

sub-texto

E penso depois, adiante, nas modalidades do tempo que não cansa de passar-me a perna: o silêncio que é pausa, a ausência que é silêncio, a espera que nasce no espaço deixado pela ausência, o desespero de quem não sabe o que fazer na espera, tudo isso em mim: Sheherazade ao avesso, ridícula perdida no labirinto. Mas dentro do abraço, um buraco imenso e calado grita aquilo que não carece ser pronunciado.

quinta-feira, 1 de março de 2007

lexapro - oxalato de escitalopram

"Mania
Os ISRSs (Inibidores Seletivos da Recaptação de Serotonina) devem ser utilizados com cautela em pacientes com um histórico de mania/ hipomania. Os ISRSs devem ser descontinuados em qualquer paciente que entre na fase maníaca.
Suicídio
As experiências clínicas gerais com os ISRSs indicam que o risco de suicídio pode ser intensificado durante as primeiras semanas de terapia. É importante o estreito monitoramento do paciente durante esse período."
Estão todos convocados.