segunda-feira, 28 de dezembro de 2020

cartografia 40

Exu acertou o pássaro ontem com a pedra que lançou hoje
e acertará, com a pedra que lançou ontem,
o pássaro que ainda não voou

Há 610 dias, em 28 de abril de 2019, eu invoquei Exu pra começar as cartografias. 

Nessa segunda feira 28 de dezembro do ano impredicável, chamo meu sentinela, novamente, pra, talvez, terminar.

Laroiê, meu pai.

Lá na primeira, eu escrevi:

Risco aqui a cartografia do meu corpo. Um corpo cruzado, atravessado e na travessia. Corpo-percurso, subversivo, resiliente, e que envelhece. Um corpo em busca do que já foi, e que quer lembrar o que será.

Não, eu não reabitei minhas carnes. Eu não dancei. Não estou muito contente com o que descobri. As marcas do meu corpo em sucessiva progressão não fazem de mim mais sabida e reconhecê-las não me deixa mais satisfeita. Não encontrei quase nada do que eu fui e me lembro bem pouco do que serei.

Estou mais velha, e só. 
Envelhecer é ajustar expectativas. 

Eu ia me despedir das cartografias, mas não consigo.

quinta-feira, 12 de novembro de 2020

cartografia 39

Do chão não passa.

Tem a terra debaixo do pé. A canoa mole sobre o rio duro tem casco e paineiro, pra firmar. No mar pode não parecer, mas depois de toda água, sal e escuridão, tem o rés da areia ao fim do pouso lento. Até o poço mais sem fundo tem – um – fundo.

A dança imantada entre a gravidade e o umbigo encontra na superfície espelho, contorno e porto. Pássaros, aviões e foguetes têm na certeza do fim o impulso pro começo. As células que nascem siamesas permanecem irmãs mesmo depois de se repartirem milhares e milhares de vezes.

Pois que o chão do meu corpo está frouxo. 

Não tenho o onde cair. E não há de onde levantar voo. Todos os pesadelos irrompem como se a tampa dos meus infernos tivesse sido arrombada. Um corpo distensionado sem voz espatifado no ar. Entre-ser esgarçado de memória, genética e pavor. Areia movediça. Os destroços espalhados por aí.

Sem chão não passa.

domingo, 25 de outubro de 2020

cartografia 38

Há 3 semanas sem tomar pílula, meu corpo mudou. Ganhei 7 mil toneladas a menos. Sinto um incômodo ininterrupto na altura do corte da cesárea, e a depender do movimento, percebo aquele cisto que cresce no meu ovário direito. Hipersensíveis peles, mamilos, carnes e ouvidos. Meus peitos vão explodir, dóem as pequenas glândulas que moram dentro das axilas. Eu sei, são os hormônios e sua dança desnorteada depois de tantos anos de anestesia. Estou viva, vigilante e preocupada.

Descubro, assombrada – eu ainda ovulo. 
Chove pesado no domingo cinza e eu prefiro assim.

Lembro.
De uns versos bonitos e tristes tatuados neste repositório de amor ridículo. 
Que aprendi a andar no escuro e gosto do medo e de sentir o frio úmido na sola dos pés. 
Que choro muito, pra dentro e pra fora. 
Que meu corpo é bonito e macio, morada de tantas alegrias. 
Que tenho saudade da minha voz.

Meu coração é bruto, cavalo sem domar, e dou graças.


quarta-feira, 23 de setembro de 2020

cartografia 37

Os projetos que desenho ficam tatuados na fina película que envolve minha medula espinhal do cóccix até onde a primeira cervical quase roça o osso occipital. É este mesmo tecido invisível que conforma os desejos, que têm por modo de operação subversiva o ardil da liquefação, dissolvendo-se dissimulados na corrente sanguínea para alcançar, quando menos se espera, os pequenos lábios, as pálpebras e seus líquidos umectantes, os tendões dos joelhos, até infiltrarem-se nas pontas dos meus dedos, que desenham. 

Projetos são garrafas ao mar. Muitas restam emudecidas nas areias profundas dos oceanos escuros. Tantas se estilhaçam chegando à praia e suas palavras escritas em papel fino afogam-se indecifráveis. Poucas completam a travessia, presente que deixa pegadas na areia. Desejos são pegadas de flores escondidas entre as páginas do livro preferido; teimosas, insistem o perfume, sobrevivem às intempéries, agarram-se na carne da memória, voltam sempre. Entre as garrafas e os olores obstinados mora o desígnio insondável que-o-gado-vai-ao-poço.

Na posta restante do meu coração dançam juntas, aos rodopios, três palavras mágicas - ora amantes, ora impossíveis:

Desenho: arte, plano, representação. Do latim "designo,as,āvi,ātum,āre": marcar, traçar, notar, desenhar, indicar, designar, dispor, ordenar; e derivado do latim "signum,i": sinal, marca.

Projeto: plano, esperança, arremedo, predeterminação, intenção, trabalho. Do latim "projectus,us": ação de lançar para a frente, de se estender, extensão.

Desejo: impureza, capricho, prazer, vontade, intenção, necessidade, pedido, esperança. Palavra de origem obscura, provavelmente do latim "desidĭa,ae": estar/permanecer sentado; mas com evolução semântica para o ócio, donde as acepções: inércia, indolência, repouso, prazer.




quinta-feira, 10 de setembro de 2020

cartografia 36

Súbito, meu corpo reclama meus partos.

João veio antes da hora pra me mostrar que não dava tempo de não entender. Aos 21 anos, enjoada durante os 6 meses em que me soube grávida, mais magra do que devia, com o enxoval mal começado, ele chegou urgente e sem pulmões, agarrou sua vida como fazem os teimosos e valentes: força descomunal, dedos longos e olhos imensos. Eu não vi o João nascer, estava atordoada e em desespero, sem entender por que meu corpo mandava embora aquele menino tão pequeno. Cheio de tubos, fios e esparadrapos, a gestação terminou do lado de fora, em 35 dias infinitos de uti, bomba de leite, corte cesariano infeccionado, derrame, alimentação parenteral, isolete. A minha voz cantou pro João incansavelmente, desde o caminho pro hospital até o depois do sempre. João veio na hora certa pra me fazer mãe.

Luiza veio antes da hora pra me mostrar que o tempo é o senhor mais bonito. Aos 30 anos, um casamento despedaçado, mais magra do que devia, metade da casa encaixotada de uma mudança que não vingou, sem enxoval nenhum, ela me amarrou no pé da vida e agarrou-se no meu útero ruim como fazem as valentes e teimosas: dança incansável, mãos fortes e olhos imensos. Depois de 2 meses em repouso caseiro e mais 4 semanas hospitalares horizontais, eu, taquicárdica de tanto remédio, tive coragem pra parir tão naturalmente quanto possível numa cadeira obstétrica fria sem poesia nenhuma. A memória mais linda dessa noite é o João pendurado na janelinha mágica, sorrindo ao ver a irmã ser limpa n'água, entre os panos azuis, sangue e placenta. A minha voz cantou pra Luiza incansavelmente naqueles 28 dias infinitos de hospital até o depois do sempre. Luiza veio na hora certa pra me fazer mulher.

Um filho e uma filha. Duas estreias. Dois ritos de passagem. Tudo aqui inscrito ecoando dentro de mim.

Sinto um pouco de raiva deste corpo que não foi e ainda não é muito amistoso comigo mesma, por vezes desobediente, inerte, irreconhecível. Mas agradeço, envaidecida, por sua generosidade e sua maciez (dentro e fora), casa que tece memória, voz, alimento e poesia. E, embora cansada, me orgulho da luta cotidiana que é ser quem eu sou.

sábado, 5 de setembro de 2020

cartografia 35

esta não é uma carta de marear
não é uma bússola, um compasso
nem verso ou confissão
não serve nem pra uma linha fina no ar do tempo

antes

é a constatação ridícula de que é preciso escolher a luta possível e, portanto, acolher-me em todas as outras derrotas: a poeira nos cantos da casa, nos olhos, nas mucosas; a gravidade; a minha incapacidade de tolerar a negação, o desamor e a injustiça.

minha luta possível agora é conseguir dar três voltas no quarteirão trinta minutos de caminhada todos os dias eu não penso nem ponho vírgulas para vencer a vergonha de escrever que este é meu desafio que bosta são três voltas juliana a senhorinha na cobertura cor-de-rosa do prédio vizinho faz uma ginástica muito energética todas as manhãs hoje ela até estava de top shorts e viseira e tenho certeza de que ela tem mais energia do que eu envelheci duzentos e noventa e oito anos nos últimos meses não tenho coragem de colocar um top nem shorts mas vamos lá três voltas trinta minutos eu consigo.

lanço meus desígnios para o próximo ano
verter cartografias em canção investigação improvisacional
desenho um filme bonito com sobreposições
preto e branco
meu corpo enlutado que luta
minha voz exausta desse mote-contínuo a que estamos condenados

predestino em desejo e desespero

quinta-feira, 13 de agosto de 2020

cartografia 34

É como a membrana que separa a gema da clara, aquela pele transparente que deixa gosto. A gente não vê, mas sabe que está lá. Pra tirar precisa beliscar o fugidio macio do núcleo da célula – percebe, nunca é de primeira – insistir com delicada violência no invisível, e misteriosamente depois de algumas tentativas, a gema, antes perfeita porque contida, apartável e protegida, se esvai descontrolada e se mistura à clara e ao ar do tempo, e a vida prometida no ovo definitivamente se liberta em não vida, em matéria fundida que não é nada e é tudo e além.

Nos dias de enxaqueca que antecedem a menstruação eu imagino essa prática culinária ancestral enquanto solto as mandíbulas e derrubo a língua do palato, o que tem um duplo efeito: relaxa o assoalho pélvico e a vagina (posso às vezes ouvir o barulho dos pequenos lábios se afastando, arejados) ao tempo que abre caminhos pra que dor que pressiona as têmporas e testa – sempre de um lado mais que do outro – possa escorrer desimpedida pelos espaços escuros do meu crânio, face, maxilares, nuca, cervical, ombros até as escápulas. 

Leio que uma âncora não é um balão, exige planejamento porque é peso preenchido de passado, e que, portanto, não se faz uma âncora eficiente de improviso. Leio também que os astros dizem de mim que tendo a ser agarrada ao meu redemoinho emocional e infantil, e que preciso de trabalho duro e perseverante pra entender a passagem do tempo e então alcançar no mundo, fora do meu conforto, a maturidade liberta e plena da minha existência.

Duas mulheres que amo me ensinam sobre mim.
Todas as mulheres que beliscaram gemas de ovos me ensinam sobre mim.
Minha menstruação cansada e sua enxaqueca me ensinam sobre mim. 

Que eu sou âncora que se sonha balão. Gema de ovo aninhada desejando o além. Enxaqueca em cega travessia.

segunda-feira, 13 de julho de 2020

cartografia 33

Eu não tenho nada bonito pra dizer.
Meu corpo está exausto, as vísceras empedradas, tudo nele dói e eu deságuo ao menor sinal de movimento.
Vasculho este álbum de retratos cheio de sorrisos, canções, encontros virtuais há dias e me pergunto como conseguem. Invejo talvez a capacidade de adaptar-se às telas e fones de ouvido minúsculos e som precário, e de seguir encontrando jeitos de seguir existindo animadamente nesse outro lugar (isso é um lugar? um tempo? um mundo?).
Minha inveja é sincera, juro.
Porque eu não consigo. São 120 dias de clausura hoje, e a constatação aterradora é a de que eu não me acostumo.
Com meninas que se suicidam. Com encontros sem abraço, música sem corpo, a voz que não encontra minha pele, um palco sem cadeiras e pessoas sobre elas. Com um coturno de um homem sobre o pescoço de uma mulher preta. Com as mais de mil mortes todos os dias, há muitos infinitos dias. Com a fome e subnutrição a que está condenada boa parte da população mundial. E todo o desperdício de vida, sorrisos e canções que isso significa.
Eu não me acostumo. E nem quero.
Talvez eu não tenha tanta fé. Talvez não vá me reinventar. Repito que não acho que nada de bom vá brotar deste buraco escuro, frio e úmido em que nos enfiamos.
Hoje nenhum mapa ou carta ou camada subterrânea me salva do naufrágio.
Eu estou exausta e não tenho nada bonito pra dizer.

sexta-feira, 3 de julho de 2020

cartografia 32

Tem uma pilha de louça pra lavar. Uma pilha de emails para responder. Uma pilha de boletos, mensagens, dias indistintos, pessoas a morrer. Eu, uma pilha de nervos. Meu corpo uma pilha de ossos, músculos e vísceras mal encaixados e doloridos. Espalhadas pela casa, pilhas de roupa suja, cadernos, bugigangas, palavras, poeira e silêncios.

Na segunda-feira de Exu e dia de São Pedro fizemos um poema-ritual. Meu corpo cartográfico de olhos imensos cantou para minha filha, meu amor e uma pequena tela – essa coisa de cristal e luz que leva para e traz do mundo (qual mundo?) cartas de marear, notícias e sons muito imperfeitos.

Tela: retícula, encruzamento, entrelaçamento, urdidura, entralhação, enredo, contexto, tessitura, interseção, corte; rede, plexo, teia, tecido, tralha, meada, filigrana, renda, lavor, trança, madeixa, tresmalho, cipoal, labirinto, cruz, entrepernas, cadeia, emaranhamento (desordem), encruzilhada, ambívio; escaques, quincunce. Meu oráculo me entende.

Quem me viu possivelmente não saiba de todos oceanos, ventos turbulentos e minúsculos cacos de vidro que operaram sua dança suicida dentro de mim pra que eu estivesse ali, despida de todas as minhas certezas. Não pressinta, talvez, os milhares de grãos de areia encadeados que compõem a delicadeza dos espelhos, lembranças, raios de sol e lâminas coloridas. E não escuta, certamente, os espinhos desesperados que brotam do lado de dentro deste meu corpo que está profundamente triste.

sexta-feira, 29 de maio de 2020

cartografia 31

Ritos de passagem são túneis que servem à luz que os encerra. O corredor polonês tem versões diferentes entre iroquois, prussianos, romanos, franceses e praticantes de jiu-jitsu, mas em todas elas existe o desejo de redenção para aquele que for forte o bastante, aguentar a dor da passagem e chegar vivo do outro lado. Entre os Sateré-Mawé, o Waumat – o rito do veneno de tocandira – se baseia na certeza de que o menino suportará a dor de 200 picadas de formigas carnívoras por 10 minutos em suas mãos infantis. O batizado não foi feito para afogar o pagão. A circuncisão não quer matar o bebê de hemorragia.

Mas no Brasil dos últimos tempos (dias? semanas? meses? anos?) não vivemos uma travessia que pressupõe a esperança do futuro prodigioso. Não tem o "depois", um "mundo melhor" nascido da "experiência transformadora" do confinamento. Como na mutilação do clitóris – que arranca pra sempre o futuro prazer sexual da menina que menstrua – esse país promove rituais de morte. Nosso corredor é um túnel escuro e interminável coberto de veneno e paulada, água e sangue subindo pelas paredes que se estreitam e pedaços do corpo arrancados antes mesmo de serem usados. Não se vislumbra o fim e não tem hora pra acabar.

Acho que não vamos sair nunca desse pesadelo porque estamos encarcerados há 520 anos, sendo sistemática e institucionalmente fodidos. Tem aqueles que são sempre alvo e morrem às baciadas: pretos, índios, pobres, mulheres, bichas, crianças. Tem alguns, transitórios e iludidos, que de vez em quando sentem um ventinho na cara e acham que vai passar, seguem pelas beiradas comendo farelos. E tem os mesmos-muito-poucos, enfileirados desde sempre com armas na mão babando de prazer ao chegar a hora de descer o cacete.

Só vai acontecer alguma coisa quando o morro descer e não for carnaval. Quando o fogo da justiça cobrir tudo. Quando terras, fábricas e cidades forem redistribuídas, bancos saqueados, as ruas então serão tomadas pela alegria.

Meu corpo está duro, a voz empedrada, o peito estilhaçado. Enquanto rezo, construo uma lanterna de papel pra alumiar e reconhecer meus amores durante a noite escura e infinita.

quinta-feira, 30 de abril de 2020

cartografia 30 (ou um ano)

As cartografias fazem aniversário.

Um ano de desnudamento poético encarnado: meu corpo, entranhas, reminiscências, vergonhas, projetos e medos devassados deliberadamente. Trinta autorretratos nua, imperfeita e sem pejo. Trinta tentativas de explicar e entender o que eu não sei. Trinta derivas. Trinta naufrágios. Trinta absolvições. Uma só travessia.

Em um ano:

eu não sei mais a diferença entre meu dentro e meu fora. Isso rege tudo o que vem adiante;

eu sinto muito mais: vísceras, articulações, pensamentos, espaços, camadas subterrâneas das peles, mucosas, músculos, mínimos movimentos, líquidos, luzes, ventos, lembranças, estruturas, raciocínios, vibrações, números e silêncios povoam meu corpo-mulher que cresceu exponencialmente;

uma nova palavra preferida: gesto;

a consciência é um caminho sem volta. Não é possível des-sentir, des-saber, des-memorar;

minha relação com o outro e com o mundo é essencialmente erótica: música, palavra, palco, plateia, desenho, poesia, amizade, amor, sexo, inteligência, discurso, comida, sono, ensino, aprendizagem, tudo em mim é desejo em sua plurissignificância magnífica: esperança, impureza, prazer, vontade, intenção, necessidade, requisição;

não há ação no mundo que não seja política. Uma vez que decido publicar, por consequência, tudo que é meu íntimo é também meu político (como lindamente me escreveu meu amor bárbaro). Afirmo, mais uma vez então, à guisa de estatuto: eu canto contra a morte;

não estamos mais diante da iminência da morte: estamos dentro dela. Leio de um amor distante que não podemos esquecer quem somos - brasileiros filhos da dor, fazedores da alegria, gente teimosa de afeto e reinvenção. Sim, sou, somos, e eu choro muito agora porque eu só sei viver e ser no fio infinito e generoso da beleza. Mas não acredito mais numa saída que não seja revolucionária, e portanto, violenta.

sábado, 25 de abril de 2020

cartografia 29

Há alguns dias observo um novo fenômeno: a hipersensorialidade das minhas mãos. Não é uma sensação incorpórea, ainda que extremamente energética; tão pouco é uma ampliação dos meus membros, como se se tornassem tentáculos maiores. Ou aquela vermelhidão-grito das minhas peles finas.

Antes, é uma acuidade cujo vetor radial aponta pra dentro, como se milagrosamente se multiplicassem os invisíveis receptores neuronais que se conectam a cada célula e se acomplam uns aos outros, e o conjunto deles aos feixes de transmissores mais robustos que, de mãos dadas, chegam à parte do meu cérebro que registra áspero, quente, macio, úmido. Sobretudo a percepção dos mínimos relevos, o encontro dos primeiros fios de cabelo à nuca, a linha da borda onde acaba o lábio inferior e começa o queixo, o buraquinho que adorna meu lóbulo pela frente e por trás, o desenho preciso e tridimensional da cicatriz da cesárea, a cordilheira das aréolas, as costura das peles de dentro com as de fora e sua cosmogonia.

De modo que as coisas mais ordinárias se tornaram vagarosas, como alisar a colcha sobre o sofá ou digitar as teclas do computador: me pego escorregando os dedos vagarosamente entre as teclas ou os bordados pra medir a exata distância do vão que os separa e me deixar invadir pelas cócegas que o salto provoca.

A lascívia superlativa de tocar seu corpo.

cartografia 28

Há poucos anos eu desenvolvi uma hipersensibilidade na pele, de modo que ao menor atrito ela se irrita, faz um vermelhão proeminente de mini bolinhas – às vezes juntas formando riscos, às vezes nuvens avulsas de constelação – que coçam por alguns minutos, esquentam e depois desaparecem devagarinho. Basta carregar a sacola de supermercado no antebraço; roçar a lombar na costura da calça ou na etiqueta mal cortada; ou mesmo apoiar a barriga na beirada da mesa áspera: a pele logo grita, reclama e configura suas ilustrações rubras e perecíveis.

No início, assustei-me e pensei em procurar um médico, um remédio. Com o tempo e a teimosia da reação, comecei a achar graça, colecionar desenhos, adivinhar as conjunções astronômicas de acordo com o peso do pacote ou a largura da alça.

Mas o que eu gosto mesmo é quando você acomoda a barba entre as minhas coxas que respondem, imediatamente, com milhões de estrelas sanguíneas.

Minha pele passou a denunciar em cores as minhas tangências.

quinta-feira, 16 de abril de 2020

cartografia 27

Quando eu era jovem, bem jovem, eu ia ser atriz.
Cabelos longos, pernas, bunda e peitos duros, mãos as mesmas, olhos grandes. Um corpo à disposição e uma vida inteira pela frente.
Meu primeiro amor veio do colegial e eu o abandonei no dia dos namorados de um inverno ansiado de tardes de sexo fácil e incansável porque achei que estava predestinada ao meu professor de música que na verdade era a paixão da minha irmã. O professor tinha (ainda tem, porque está vivo) um nome de dois gêneros, como Leonor, e numa tarde sem mais nem menos declarou seu amor por mim. Eu aceitei. Em seis meses, trepamos uma vez e meia, e não por falta de oportunidade – ele pau duro, eu exuberância oferecida dos meus 18 anos. Mas não dava certo. Muitas madrugadas em silêncio e em vão, eu à serviço, ele sem o jeito, e não.
A culpa, claro, era minha. Que esse negócio de ser atriz é mais ou menos isso, a gente finge tanto ser o que não é que acaba nunca sendo o que é de verdade, ou coisa nenhuma qualquerzinha que seja. Então quem era eu se ele não conseguia ver quem eu era de verdade? Como ele haveria de amar essa obscura farsante impostora ardilosa falsa tratante que era eu, já que essa aqui, a exuberância oferecida dos meus 18 anos, não era eu de verdade?
Um dia ele foi assistir uma performance minha. Uma torre em espiral construída em tubo rohr na bienal de arte de 1991, infinitos varais que se cruzavam e panos imensos pendurados no vão central, três atrizes lavadeiras nas escadas, eu cantei com a bacia de alumínio entre as pernas molhadas que escapavam da saia imensa, eu chorei um filho morto. Não sei se aquilo era bonito ou bom, a gente era tão jovem, mas eu tava lá, valente, a exuberância oferecida dos meus 18 anos à disposição. Ele me disse que o tom da música caiu e que minha vida era igual àqueles varais, um emaranhado confuso sem fim.
O namoro acabou nas vésperas de Natal, sem despedida, sem discussão, morreu. Eu achei que ia morrer, mas não, eu não morri.

Hoje, 28 anos depois, meu corpo reclamou essa cicatriz. A sensação de pequenez e insuficiência. Uma desapropriação nas carnes. Os fios todos embaralhados, panos caídos no fosso. A água fria escorrendo entre as pernas firmes e a voz que perdeu o tom na exuberância oferecida dos meus 18 anos. O de verdade atormentando os ouvidos. A atriz que eu não fui.

Choro descontroladamente. A vida toma, imperativa, seus caminhos. As violências permanecem inscritas.

quarta-feira, 8 de abril de 2020

cartografia 26

Tenho dormido mal - sonho em vigília por quase toda a noite e acordo ao meu menor movimento. Sinto calor e frio, não assenta o corpo que faz muitos barulhos e gestos involuntários. Acordo cansada quase sempre no mesmo horário, abro a janela, arrumo a cama, me visto. Quase nunca uso sutiã, bem como sapatos - alegrias. Tomamos café demoradamente juntos na mesa velha no quintal do apartamento e planejamos o dia, só de teimosia. O dia não rende, nem mesmo com muito menos trabalho do que antes do isolamento. Parece que as coisas aleatoriamente demandam um novo vagar e uma nova perspectiva: lavar a louça, ajeitar as almofadas no sofá, encher o filtro, descongelar a carne, picar as cebolas, ler as notícias, saber dos amigos, abrir as cortinas, sentir o vento frio no entardecer alaranjado de Iansã que vem rápido pra comover os olhos.

Arrebol, barras, crepúsculo, entardecer, escurão, lusco-fusco, noitinha, ocaso, poente, pôr, pôr do sol, ruiva, sobretarde, sol das almas, sol-pôr, sol-posto, sonoite - palavras pra colecionar.

É nessa hora que faço o ritual novo nascido na angústia do confinamento: no meu quarto, sozinha, espreguiço, alongo e mexo meu corpo como posso. Enraizo os pés no chão, serpenteio a espinha do cóccix até o pescoço com carinho, massageio a cabeça e os olhos na ponta da cervical, sinto o calor chegar, suspiro. Aqueço a pélvis, abro a base, faço 3 minutos de escalas espirais vibrando e inflando as bochechas, e então começo a cantar. Tem dia que é só um vagar perdido por lugares diferentes, tem dia que é organizado, intenso e claro, às vezes lembro uma canção velha num tom absurdo, outras me faço chorar muito escurecida... Eu digo há tempos que a consciência é um caminho sem volta, mas nunca, em 46 anos, 27 deles cantando, tinha tido essa sensação tão nítida no meu corpo: eu percebo movimentos, ventos e espaços nos escuros dentros de mim. Tem uma coisa muito importante e definitiva acontecendo aqui, ouro sobre azul.

Meu horizonte está maior e menor, os olhos enxergam mal de perto e cada vez pior de longe. O tempo tem outras leis que desconheço mas pressinto. A libido está fora de lugar.

Nada será como antes, amanhã.

Muitos planos à deriva: não consigo ler nem ser otimista; não tenho vontade de compor nem de escutar música; não elaborei projetos; não emagreci. Muitas dúvidas em curso: como vai ser cantar no depois? vou ter força pra me reinventar de novo? vou aprender a fazer pão direito? o que vai sobrar de nós? quantos vão morrer?

Três sensações impregnadas e imperativas: a espera (ou o desespero) da chegada do tsunami; a impotência diante da catástrofe; a raiva dos governos de morte que nos condenam à barbárie.

terça-feira, 24 de março de 2020

cartografia 25

Resta ainda uma camada no meu mapa, abaixo de todas as outras – derme, epiderme, subterrâneo, líquido, inferior, inferior de dentro, depois, escuro e rés do sangue – em que meu corpo finalmente dança intransitivo pois que é desejo em sua pulsão original, densa, desprovida de pejo e suja.

Possivelmente esta é a camada mais próxima da morte.
Possivelmente esta é a camada mais próxima de Deus.

Todos os seus dedos dentro da minha boceta e a pressão única que isso provoca no céu da minha boca. Todos os seus dedos e quase o punho dentro da boceta dela e o estralar dos planetas dentro das minhas retinas. Meus peitos enormes de saudade lactante nas minhas mãos e na sua boca e na boca dela. Os peitos perfeitos delas nas nossas mãos. Minhas mãos milagreiras. Seu pau inteiro dentro da minha boca engasgada e minhas dobras subitamente encharcadas, escorrendo nas minhas coxas. Meu cheiro, seu cheiro, minha pele macia. Minha barriga fria e meus joelhos soltos, e a parte anterior dos seus joelhos, lisa. Seu pau lento na boceta dela e minha língua nele e nela e ela encravando as unhas na minha bunda até sangrar. Minha boceta que não é bonita mas que é flor aberta e cicatriz pulsando, rosa e úmida quando se esfrega na sua cara até tirar o ar até arrancar o chão até afrouxar o sentido até roubar o norte até afogar de gozo até morrer de amor. Seu pau dentro de mim e eu desfalecida. Meu grito. Meu orgasmo na minha mão, egoísta e eficiente, sem você, sem ela. Minha boca na sua boca. Minha palavra silenciada na sua língua.

Vivemos uma tragédia. O presidente do Brasil é um genocida. Meu coração está dilacerado, sinto medo, saudade e tristeza. Taquicárdica, vasculho o fundo do mar em busca de fôlego. E o que encontro é minha carta pornográfica. Dou graças. Eles nunca entenderão.

sexta-feira, 13 de março de 2020

cartografia 24

Minha cartografia conheceu uma nova pena: a linha revel.

A sensação mais próxima à que senti hoje foi aquela das vésperas dos meus dois partos prematuros, quando escutava, em feminil desespero, meu corpo tomar decisões próprias. Meus filhos, tão pequenos, por que queriam sair de mim? Por que meu útero queria tirá-los de dentro de si antes da hora? Como imobilizar aqueles movimentos involuntários, as contrações ritmadas, a taquicardia? Durante o parto você se dá conta de modo absoluto e imperativo que o corpo é quem está no comando – pélvis, dilatação, espasmo, rugido, trovoada, movimento de placas tectônicas, big bang. Eles nascem, crescem, você se torna dispensável, a vida segue.

É muito difícil controlar minhas mãos, eu observo seus movimentos involuntários com espanto e algum fascínio. Eu sei o caminho, meus pés seguem o percurso nas calçadas do centro da cidade sob o sol bonito da tarde, e vão desviando ligeiros de um mar de pessoas que não controlam suas mãos, salivas e suores, e é justamente ali, no meio da multidão que freme caótica, como quem assiste a um filme distópico, que eu percebo que há um lugar na minha medula em que reina a desobediência, em todas as medulas da cidade há desgoverno e pulsão, o corpo que escolhe seu próprio movimento, e a dificuldade imensa de controlar as próprias mãos.

A vida segue. A pandemia está nos jornais e nos celulares mas não no corpo da moça do caixa da 25 de março que usa luvas, coça os olhos dentro dos óculos com a mesma luva que alisou o tecido, digitou na máquina registradora vinte e sete reais e oitenta centavos e me deu o troco pra nota de cinquenta verificada em sua autenticidade com a luva encardida de um dia inteiro alisando tecidos e notas, e entre mim e ela um balcão de sessenta centímetros.

E tem a rua. E as milhares de pessoas que moram e ou vivem nelas, pra quem não haverá álcool gel, luvas, máscaras ou a distância segura de um metro, mas tão somente o desgoverno medular e as bactérias e vírus saltitantes de nosso falatório.

Volto pra casa sentindo nas minhas falanges seu risco insurgente enquanto me desespero em olhar praqueles que vão morrer nesse pandemônio coroado.

sábado, 7 de março de 2020

cartografia 23

O Brasil atravessa um período de trevas, e o potencial destruidor de sua política de estado baseada no horror e na violência ameaça, entre outras urgências, o capital simbólico que nos identifica – e portanto a existência de qualquer poesia. Neste momento, minha pesquisa artística tenta criar estratégias para subverter a lógica colonial sistêmica que está impregnada em meu discurso, pensamento e prática artística.

Cito Luiz Antonio Simas para dizer que o ponto de partida dessa nova investigação é o corpo: "... o projeto de normatização deste Brasil de horrores, para que seja bem sucedido, precisou de estratégias de desencantamento do mundo e aprofundamento da colonização dos corpos. É o corpo, afinal, que sempre ameaçou, mais do que as palavras, de forma mais contundente o projeto colonizador fundamentado na catequese, no trabalho forçado, na submissão ostensiva da mulher e na preparação dos homens para a virilidade expressa na cultura da curra: o corpo convertido, o corpo escravizado, o corpo feito objeto e o corpo como arma letal.”

Minha primeira atitude é reconhecer meu corpo político: sou mulher, branca, 46 anos, mãe de 2 filhos, casada, bissexual, brasileira, artista independente. Vivo na maior cidade da América do Sul. Sou social e economicamente privilegiada. Pude e posso escolher. Minha ferramenta de trabalho é a minha voz que é meu corpo que é único que muda se transforma e se movimenta. Meu material de trabalho é a palavra que é música que é gesto que é cena – a canção.

As perguntas são: como compreender o corpo como protagonista do pensamento e da atuação política e artística (e não o contrário)? Como construir uma vocalidade que seja viva, gesto e movimento, que liberte e não aprisione, investigativa e não manipuladora? Como lidar com o tempo impresso no meu corpo? Como reabitá-lo e redimensionar suas formas e possibilidades para que não enrijeça? Como horizontalizar minhas relações com plateias, alunxs, artistas, trabalhadorxs em busca de um intercâmbio real e amplo, sem sucumbir à lógica colonial e do capital? Como cantar a canção num momento em que a perda da mediação da palavra ameaça o pacto civilizatório?

(exercício de organização do coração
de reconhecimento, de não saber
tateio o escuro das minhas dores
bato o joelho na quina da parede
sangro
sigo)

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020

cartografia 22

Meu canto mora na beira do precipício.

Ali, na linha tênue que separa meu corpo do ar, meus pés do desfiladeiro, meu umbigo da morte, eu quero a minha voz.

No risco.
No assombro.
No alívio.

Eu habito entre margens: a memória do que eu fui, a saudade do que eu não fiz, meu coração-cavalo-sem-domar, minha pele fina e fácil, dia-mantes, tristeza e as tantas linhas bifurcadas impercorridas que vão se desmanchando em varizes, hematomas, estrias, enxaquecas.

Meu corpo está apavorado e paciente. Aprendi recentemente a caminhar nos seus escuros invisíveis de um jeito tão novo e generoso que ainda me assusto quando chego perto de escutar o que eu ainda não vivi.

Sim. Do fundo da noite partiu minha voz: e é deste escuro que quero ver brotar a palavra.

sábado, 25 de janeiro de 2020

cartografia 21

Certamente há um lugar neste corpo onde repousam as palavras soterradas pelas violências que nos recusamos a nomear ou sequer sentir. Palavras abortadas antes de nascer. Palavras desditas. Palavras desimaginadas.

Mas a barbárie se encarrega de exumá-las de dentro dos nossos infernos. Porque o medo como forma de governo tem como artifícios ressuscitar nossas desgraças particulares ao despejar sobre nós a potência paralisante da perversidade institucionalizada, e ao mesmo tempo desviar e esvaziar a nossa libido, que tá ocupada com outra coisa. De modo que vão surgindo pequenas erupções vulcânicas – espinhas, vômitos, diarreias – trazendo o pus de nossas memórias de volta pra superfície enquanto os paus vão amolecendo e as bucetas ressecando. Um a um, e todos juntos, um exército de celibatários psicopatas semi-vivos de olhos vidrados e pele purulenta.

O ano se desabrocha como uma possibilidade suficiente, os encontros viçam, o rosal desejando uma formosura delicada e merecida, e isso enche o meu coração vermelho de alegria, mas eu não sei não ser esta artista que sou, uma mulher política, de modo que o horror cinza e anacrônico daquele vídeo desaba sobre meus olhos como uma tempestade de fumaça podre e eu sou somente a repulsa e o desespero de palavras que sangram como fetos roxos ao primeiro não-arfar. Sonho em vigília com discussões que nunca consegui ter enquanto ando sobre cadáveres na abertura de um espetáculo que não existiu, num mundo que não mais existirá. Acordo sem ter dormido com hematomas, dores musculares e um cansaço de quatrocentas e sessenta e seis encarnações.

Não que eu não soubesse que seria assim. Mas a constatação diária de que é pior, será ainda pior, e pode piorar mais, é que fode o peito.

(só hoje consegui escrever sobre aquele vídeo. Só hoje, dia em que a linda cidade feia aniversaria. Eu sou dela como tantxs outrxs que como eu fizeram do não pertencimento sua maior identidade: sou daqui, sou de ninguém, sou de qualquer lugar. Puta, nômade, atriz. São Paulo não é isso e é isso aí também.)