Meu corpo está a deriva, e desenha riscos disformes.
Rígido e frouxo, ele dói.
Constato, perturbada, que não sei onde está o centro, meu umbigo perdido pesa duas toneladas. Meus olhos, junto com ele, querem afundar definitivo no assoalho da sala ensolarada e quente, cheia de gente tão perto e tão longe. Ninguém me reconhece. Eu não me conheço.
Mas levanto o rosto, em resignação religiosa.
Não sinto prazer, nem alegria. Ainda. O que sinto é da ordem das certezas.
Tudo ao redor parece um grande, sorridente e ainda distante devir.
Meu corpo tem pressa e vergonha. Meu corpo dói.
Há uma beleza sofrida em abandonar-se ao ridículo.
(Todas as palavras esdrúxulas, Como os sentimentos esdrúxulos, São naturalmente Ridículas.)
domingo, 28 de abril de 2019
cartografia ou um corpo que res/existe - abertura
Exu acertou o pássaro ontem com a pedra que lançou hoje
e acertará, com a pedra que lançou ontem,
o pássaro que ainda não voou
e acertará, com a pedra que lançou ontem,
o pássaro que ainda não voou
Começo aqui um registro cartográfico do meu corpo.
Viagem anunciada: desconforto, desformatura, deslocamento.
Dançar nunca foi uma opção.
Dançar nem sequer foi um desejo.
Dançar sempre foi a saudade do que eu jamais fui.
Mas à semelhança dos meus partos - filhos, discos, espetáculos - meu corpo conhece a inércia e a iminência, e entre uma e outra, o vazio silencioso que antecede as importâncias. Feito de água, vento e palavra, a um só tempo continente e cachoeira.
Dançar é agora urgência. Ato político. Gravidez da voz que sempre tive e da que ainda terei. Procedimento e polinização.
Risco aqui a cartografia do meu corpo. Um corpo cruzado, atravessado e na travessia. Corpo-percurso, subversivo, resiliente, e que envelhece. Um corpo em busca do que já foi, e que quer lembrar o que será.
Risco aqui a cartografia do meu corpo. Um corpo cruzado, atravessado e na travessia. Corpo-percurso, subversivo, resiliente, e que envelhece. Um corpo em busca do que já foi, e que quer lembrar o que será.
cartografia ou um corpo que res/existe - prelúdio
"... o projeto de normatização deste Brasil de horrores, para que seja bem sucedido, precisou de estratégias de desencantamento do mundo e aprofundamento da colonização dos corpos. É o corpo, afinal, que sempre ameaçou, mais do que as palavras, de forma mais contundente o projeto colonizador fundamentado na catequese, no trabalho forçado, na submissão ostensiva da mulher e na preparação dos homens para a virilidade expressa na cultura da curra: o corpo convertido, o corpo escravizado, o corpo feito objeto e o corpo como arma letal. Este Brasil é um país de corpos doentes, condicionados e educados para o horror como empreendimento.
(...)
É neste sentido que não acho que o Brasil deu errado. (...) O Brasil foi projetado pelos homens do poder para ser isso aí: excludente, racista, machista, homofóbico, concentrador de renda, inimigo da educação, violento, assassino de sua gente, intolerante, boçal, misógino, castrador, faminto e grosseiro. Somos isso tudo, não? Nosso problema não é ter dado errado. O Brasil como projeto, até agora, deu certo.
Eu não desisto. O trabalho é miúdo, constante, longo, de enfrentamento e aprendizado. A ideia de resistir não é mais suficiente. O papo é reexistir mesmo, com a paciência da mulher rendeira, a ginga do capoeira e a destreza de Ogunhê na forja das ferramentas: arado, lança, pilão e cimitarra.
(...)
A nossa chance é começar a dar errado, como indivíduos e coletividade, com a maior urgência. Essa é a tarefa/jangada do Dragão no mar de Aracati para os próximos dias, meses e anos. Embarquemos nela desde já, desafiando os ventos da tempestade."
Luiz Antonio Simas, 26 de outubro 2018
sábado, 27 de janeiro de 2018
carta para meus filhos
Há algum tempo, vocês sabem, não comemoro datas tradicionais, aniversários, dia das mães, natal. Acho mais bonita a celebração dos pequenos milagres cotidianos, o cheiro do café coado de manhã cedo, a comida fresca na mesa, um vinho ocasional, a alegria incomparável das pequenas e profundas conquistas. Talvez porque saiba, definitivamente, que minha sina (dor e prazer) é cuidar de gente, com minha voz e com minhas mãos, e isso não é coisa que valha algum dinheiro nesse mundo todo torto, e no final das contas, nem me importa mais, a gente vai equilibrando os pratinhos. Talvez também porque envelheça rápido e entenda, cada vez mais profundamente, aquilo que aprendi nas aulas de filosofia, e que está no evangelho de São João: os atos de amor são a única coisa que realmente fica - e entendo por ato de amor as diversas e imprescindíveis formas de gentileza, compaixão, justiça, alimento e beleza, e ainda todas as maneiras com que duas ou mais pessoas resolvam se relacionar verdadeiramente com seus corpos e seus espíritos.
Enfim, tudo isso pra dizer que não escrevi pra vocês no ano novo ou aniversário, mas agora, numa tarde quente de janeiro, em que percebo que temos coisas a comemorar, miúda e emocionadamente, pois que nas últimas semanas vivemos pequenos milagres e singelas conquistas, resultados de nossa valentia, teimosia, inteligência, da generosidade dos que nos cercam, e de uma pequena dose de sorte (que tantas vezes nos falta).
Pois vejam.
O Uruguay é um imenso azul celeste de horizonte infinito e além, com um vento incessante, e a gente se sente grande e pequeno ao mesmo tempo. Quando vocês vierem (e tenho certeza que virão), vão ver uma gente comprometida, sabida, que usa suas coisas à exaustão (me lembrei a todo tempo de um dos meus poemas preferidos do Brecht, "De todas as obras", e a sublime beleza das coisas que foram tocadas por muitas mãos...), que ri largo, que já sofreu muito, não tem quase nada, e se orgulha do lugar que está construindo; que te beija as bochechas e aperta a mão de verdade; que põe plantinhas pra crescer em todos os cantos; que tem muitos livros, muitos!; que fica na rua até tarde aproveitando o pôr do sol. Enfim, uma gente e um lugar pra viver.
E aqui, miúda, quente e cheia de ventos, eu lembrei de uma coisa esquecida.
Estar num lugar em que ninguém te conhece é das sensações mais magníficas que existem, a inebriante iminência de se ser tudo o que você queria ser sem medo. Conhecer gente muito diferente da gente, no variado comezinho, e ainda assim, reconhecer-se semelhante e partícipe, é sublime. Uma combinação linda de solidão, alegria, surpresa e completude. Incerteza e poesia.
E olha que coisa: vocês estão, por outras circunstâncias, diante dessas mesmas possibilidades, e eu me emociono (e é exatamente isso que queria lhes dizer) com a importância desse momento: você, João, e você, Luiza, e a imensa potência do que estão construindo em e para suas vidas, sozinhos, mas de mãos dadas a uma grande força amorosa erguida desde muito tempo por aqueles que estão juntos de vocês e sempre estiveram. Neste ponto do caminho, de incerteza e poesia, vocês podem se inventar e se reinventar. Vocês podem ser o que quiserem ser, não ser nada e ser tudo. Vocês podem conhecer gente diferente e igual. Mesmo que a realidade feia e imperativa mostre suas unhas e seus limites, mesmo que estejamos condenados a uma engrenagem perversa e injusta (e mudar isso nos custe talvez a vida), vocês podem ser, onde for, do jeito que for, com quem for; com frio na barriga e tremor nas mãos, vocês podem, intransitivamente - a tal combinação linda de solidão, alegria, surpresa e completude.
Isso fez um tcharam aqui, e preenche agora meu peito vermelho de um sentimento único e indizível. Choro. Porque eu sei (ao tempo que também não sei) o tamanho das suas asas, a profundidade dos seus olhos, da água e do sangue que corre na carne de que são feitos. E dou graças.
A isso, a esse horizonte igualmente celeste e infinito, cheio de vento, sol e sorrisos largos, à solidão e à alegria, eu ergo meu copo, e brindo a vocês dois, João dos olhos de floresta, Luiza ensolarada dos dias, meus amores de ouro, e agradeço a sorte, honra e grandeza que é ser sua mãe.
Enfim, tudo isso pra dizer que não escrevi pra vocês no ano novo ou aniversário, mas agora, numa tarde quente de janeiro, em que percebo que temos coisas a comemorar, miúda e emocionadamente, pois que nas últimas semanas vivemos pequenos milagres e singelas conquistas, resultados de nossa valentia, teimosia, inteligência, da generosidade dos que nos cercam, e de uma pequena dose de sorte (que tantas vezes nos falta).
Pois vejam.
O Uruguay é um imenso azul celeste de horizonte infinito e além, com um vento incessante, e a gente se sente grande e pequeno ao mesmo tempo. Quando vocês vierem (e tenho certeza que virão), vão ver uma gente comprometida, sabida, que usa suas coisas à exaustão (me lembrei a todo tempo de um dos meus poemas preferidos do Brecht, "De todas as obras", e a sublime beleza das coisas que foram tocadas por muitas mãos...), que ri largo, que já sofreu muito, não tem quase nada, e se orgulha do lugar que está construindo; que te beija as bochechas e aperta a mão de verdade; que põe plantinhas pra crescer em todos os cantos; que tem muitos livros, muitos!; que fica na rua até tarde aproveitando o pôr do sol. Enfim, uma gente e um lugar pra viver.
E aqui, miúda, quente e cheia de ventos, eu lembrei de uma coisa esquecida.
Estar num lugar em que ninguém te conhece é das sensações mais magníficas que existem, a inebriante iminência de se ser tudo o que você queria ser sem medo. Conhecer gente muito diferente da gente, no variado comezinho, e ainda assim, reconhecer-se semelhante e partícipe, é sublime. Uma combinação linda de solidão, alegria, surpresa e completude. Incerteza e poesia.
E olha que coisa: vocês estão, por outras circunstâncias, diante dessas mesmas possibilidades, e eu me emociono (e é exatamente isso que queria lhes dizer) com a importância desse momento: você, João, e você, Luiza, e a imensa potência do que estão construindo em e para suas vidas, sozinhos, mas de mãos dadas a uma grande força amorosa erguida desde muito tempo por aqueles que estão juntos de vocês e sempre estiveram. Neste ponto do caminho, de incerteza e poesia, vocês podem se inventar e se reinventar. Vocês podem ser o que quiserem ser, não ser nada e ser tudo. Vocês podem conhecer gente diferente e igual. Mesmo que a realidade feia e imperativa mostre suas unhas e seus limites, mesmo que estejamos condenados a uma engrenagem perversa e injusta (e mudar isso nos custe talvez a vida), vocês podem ser, onde for, do jeito que for, com quem for; com frio na barriga e tremor nas mãos, vocês podem, intransitivamente - a tal combinação linda de solidão, alegria, surpresa e completude.
Isso fez um tcharam aqui, e preenche agora meu peito vermelho de um sentimento único e indizível. Choro. Porque eu sei (ao tempo que também não sei) o tamanho das suas asas, a profundidade dos seus olhos, da água e do sangue que corre na carne de que são feitos. E dou graças.
A isso, a esse horizonte igualmente celeste e infinito, cheio de vento, sol e sorrisos largos, à solidão e à alegria, eu ergo meu copo, e brindo a vocês dois, João dos olhos de floresta, Luiza ensolarada dos dias, meus amores de ouro, e agradeço a sorte, honra e grandeza que é ser sua mãe.
Montevidéu, 17 de janeiro de 2018.
sexta-feira, 9 de junho de 2017
carta para lívia
Sabe, eu demoro muito pra ouvir os discos que ganho. Porque eu preciso ouvir sentada, só ouvir e mais nada, não sei fazer outra coisa quando estou ouvindo música, acaba que vira um tormento, as pilhas que vão se acumulando na estante, e eu olhando pra elas morrendo de culpa de não saber o que tem dentro das infinitas caixinhas e portanto correndo o risco de não ser acometida por um encontro verdadeiro, um susto inesperado de beleza, que está ali, escondido, bem na minha frente, enfim.
Mas hoje eu parei, sentei e escutei.
E que assombro que foi.
De partida, eu já ia gostar do disco porque vocês gravaram a música mais linda que há (Clube da esquina, a mesma que me fez chorar ridícula no Tupi). Depois, sua afinação é tão linda, tão linda, que dá um gosto – todas as notas, e tantas notas, e cada uma delas em seu mais perfeito lugar –, um sopro fresco e claro de alívio, vou dizer.
Mas o disco é mais que a primeira canção e é mais que sua voz impressionante (im-pres-si-o-nan-te). Ele vai abrindo nosso peito pras canções que já conhecemos, e isso é tão bonito (que eu acho um saco essa obrigação modernosa do "tem que ser só música inédita, tem que ser compositora também", como se o difícil e imenso ofício da intérprete fosse menor, e como se não houvesse tanta canção absolutamente imprescindível de se cantar e cantar e cantar de novo e de novo).
E tem esse seu moço bonito que é tão elegante e que vai junto de mãos dadas ao lado seu, que é outra coisa linda de se ver e ouvir. De novo, cada nota em seu lugar, sem mesquinharia e sem desperdício.
A música que vocês fazem (juntando aqui o disco e o show) é uma surpresa, é generosa e é livre. E se tem uma coisa que a gente precisa não perder (inda mais nesse mundo tão esquisito) é a capacidade de surpreender e ser surpreendido, e de ser veículo da música, estar na prontidão e a serviço, e deixar ela fazer o que ela quiser da gente.
Eu ouço às vezes um quase-infantil (não sei como dizer doutro modo...) no seu jeito de dizer algumas palavras, como se não desse conta do tamanho delas, como se houvesse uma distância entre a boca e a carne... será? Aparece às vezes numa nota longa, às vezes num grave, ou numa vontade de mais volume, num gesto, nos olhos fechados ou lá-longe. Eu poderia falar ainda (já pedindo desculpas pelo falatório) que eu queria ouvir no disco as guitarras mais adiante na mix, mas abraçadas à sua voz, mais perto.
Mas esqueça isso, que não tem qualquer importância.
O que fica e interessa é a formosura docês, no disco e no show. Uma coisa importantemente bonita.
Muito obrigada pelo assombro e pelo encontro. Por encharcarem meus olhos no meio da tarde. Uma sorte límpida. Que a gente não se perca mais.
Mas hoje eu parei, sentei e escutei.
E que assombro que foi.
De partida, eu já ia gostar do disco porque vocês gravaram a música mais linda que há (Clube da esquina, a mesma que me fez chorar ridícula no Tupi). Depois, sua afinação é tão linda, tão linda, que dá um gosto – todas as notas, e tantas notas, e cada uma delas em seu mais perfeito lugar –, um sopro fresco e claro de alívio, vou dizer.
Mas o disco é mais que a primeira canção e é mais que sua voz impressionante (im-pres-si-o-nan-te). Ele vai abrindo nosso peito pras canções que já conhecemos, e isso é tão bonito (que eu acho um saco essa obrigação modernosa do "tem que ser só música inédita, tem que ser compositora também", como se o difícil e imenso ofício da intérprete fosse menor, e como se não houvesse tanta canção absolutamente imprescindível de se cantar e cantar e cantar de novo e de novo).
E tem esse seu moço bonito que é tão elegante e que vai junto de mãos dadas ao lado seu, que é outra coisa linda de se ver e ouvir. De novo, cada nota em seu lugar, sem mesquinharia e sem desperdício.
A música que vocês fazem (juntando aqui o disco e o show) é uma surpresa, é generosa e é livre. E se tem uma coisa que a gente precisa não perder (inda mais nesse mundo tão esquisito) é a capacidade de surpreender e ser surpreendido, e de ser veículo da música, estar na prontidão e a serviço, e deixar ela fazer o que ela quiser da gente.
Eu ouço às vezes um quase-infantil (não sei como dizer doutro modo...) no seu jeito de dizer algumas palavras, como se não desse conta do tamanho delas, como se houvesse uma distância entre a boca e a carne... será? Aparece às vezes numa nota longa, às vezes num grave, ou numa vontade de mais volume, num gesto, nos olhos fechados ou lá-longe. Eu poderia falar ainda (já pedindo desculpas pelo falatório) que eu queria ouvir no disco as guitarras mais adiante na mix, mas abraçadas à sua voz, mais perto.
Mas esqueça isso, que não tem qualquer importância.
O que fica e interessa é a formosura docês, no disco e no show. Uma coisa importantemente bonita.
Muito obrigada pelo assombro e pelo encontro. Por encharcarem meus olhos no meio da tarde. Uma sorte límpida. Que a gente não se perca mais.
terça-feira, 21 de março de 2017
cartografia 1
O colo exibe pequenas marcas verticais, inveja talvez a tez de um róseo crepe de seda pura.
Os seios melancolizam as formas de outras encarnações - pequenos, túrgidos, lactantes. Agora maiores, assimétricos, vão cansados de um outro orgulho e aos poucos perdem a batalha.
As espaldas seguem rígidas e carregadas. Aguentam. Suportam. Mentem.
A dobra das axilas, ou mais precisamente o encontro do torso com a cavidade por baixo da articulação do ombro, forma desde sempre uma prega levemente curva, reconhecível. Ali restam escondidos os desejos, dos quais a menor lembrança viça os mamilos, estes ainda espertos e responsivos. Dois olhos da alma.
A distância entre o esterno e as cristas aparece preenchida de acúmulos, ondas, maciezas. Sucedem-se em teimosia. Alteram, vagarosa e subitamente, números e molde. Autoconfiantes, ficam. Desconformam, desconfortam, ainda que a cintura insista em desenhar sua linha umectante, sinuosa e potente.
Pelos nascem e povoam rápido a partir da cicatriz.
***
Eu não tenho medo da morte. Eu acho digno envelhecer.
Quando fecho os olhos, no entanto, a memória da minha carne agarrada nos meus ossos, coberta por minha pele, manipulada por meus tendões e nervos, encharcada do meu sangue fino e vermelho, tem outra formatura. A imagem da mulher que eu fui parece tão distante desta que eu sou. Como se de tão leve os pés daquela mulher não tocassem o chão. Como se pertencesse a um filme italiano. Como se eu algum dia soubesse dançar.
Eu sinto saudade. Minha alma está deslocada, inquilina. Preciso reabitar o meu corpo.
Os seios melancolizam as formas de outras encarnações - pequenos, túrgidos, lactantes. Agora maiores, assimétricos, vão cansados de um outro orgulho e aos poucos perdem a batalha.
As espaldas seguem rígidas e carregadas. Aguentam. Suportam. Mentem.
A dobra das axilas, ou mais precisamente o encontro do torso com a cavidade por baixo da articulação do ombro, forma desde sempre uma prega levemente curva, reconhecível. Ali restam escondidos os desejos, dos quais a menor lembrança viça os mamilos, estes ainda espertos e responsivos. Dois olhos da alma.
A distância entre o esterno e as cristas aparece preenchida de acúmulos, ondas, maciezas. Sucedem-se em teimosia. Alteram, vagarosa e subitamente, números e molde. Autoconfiantes, ficam. Desconformam, desconfortam, ainda que a cintura insista em desenhar sua linha umectante, sinuosa e potente.
Pelos nascem e povoam rápido a partir da cicatriz.
***
Eu não tenho medo da morte. Eu acho digno envelhecer.
Quando fecho os olhos, no entanto, a memória da minha carne agarrada nos meus ossos, coberta por minha pele, manipulada por meus tendões e nervos, encharcada do meu sangue fino e vermelho, tem outra formatura. A imagem da mulher que eu fui parece tão distante desta que eu sou. Como se de tão leve os pés daquela mulher não tocassem o chão. Como se pertencesse a um filme italiano. Como se eu algum dia soubesse dançar.
Eu sinto saudade. Minha alma está deslocada, inquilina. Preciso reabitar o meu corpo.
quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017
carta acorde
minha única resolução no novo ano foi deixar meus cabelos crescerem.
a coragem das células que obedecem seu desígneo.
a teimosia das células que insistem na multiplicação.
o afeto das células que entrelaçam sua dança em espiral.
meus cabelos crescem em silêncio.
vagarosamente.
a coragem das células que obedecem seu desígneo.
a teimosia das células que insistem na multiplicação.
o afeto das células que entrelaçam sua dança em espiral.
meus cabelos crescem em silêncio.
vagarosamente.
quinta-feira, 11 de agosto de 2016
carta avoenga
Quando eu nasci, minha mãe queria me dar o nome de Júlia, em homenagem à minha avó paterna. Minha vó não deixou: achava seu nome triste. Então minha mãe, espertinha, alegrou o nome e a avó, virei Juliana.
Minha vó Júlia era de fé. Noviça tirada do convento pra casar contra sua vontade, teve 14 filhos em silêncio, entre eles um padre, duas freiras missionárias, outras duas freiras de clausura carmelitas descalças. Carregava o mundo todo em suas orações e tinha um candeeiro na igreja de Itajubá cujo óleo ela renovava semanalmente, pra que nunca apagasse a fé da sua família. Em louvor a Nossa Senhora, crochetou com linha fina toalhas de banquete para as mulheres suas filhas e noras, milhares e milhares de pontos, infinitos, e a cada um, uma Ave Maria. Quando morreu, minha vó Júlia foi enterrada vestida como religiosa, após permissão enviada diretamente pelo Papa.
Meu avô materno era Luiz, e deu seu nome pra minha irmã e minha filha. Meu vô fazia bolo enfeitado pros filhos quando caíam-lhe os dentes de leite e construía com madeira e lata os brinquedos de presente para o Natal. Quando criança, sua mãe queria dissuadi-lo de jogar futebol, e só deixava o garoto sair pra rua depois de passar algumas horas bordando, coisa de menina. Meu vô aprendeu a fazer barrado de pano de prato, monograma e caminho de mesa, e toda tarde estava na rua jogando bola com os pretos. Dele não herdei os olhos azuis, mas o nome que me define.
Essa madrugada, eu não consegui dormir. Olhei mais uma vez pro presente que ganhei do meu Guimarães, o anel de prata com a libélula das águas doces enfeitada de madre-pérolas do mar profundo e que bate asas! A vida é sopro. Lembrei no meu nome e da minha vó que não conheci e do meu vô que pouco conheci. Acendi uma vela, lavei nossa quartinha d'Oxum, enchi o copo do nosso São Jorge, cantei em silêncio a oração mais linda que meu pai me ensinou.
Minha vó e suas mãos estão em mim.
Meu vô e suas mãos estão em mim.
E eu sou essa bagunça, nós e pontos infinitos bordados de fé, água, tristeza, sopro, paciência e teimosia. Amar está no meu nome. Teço com dor e alegria o pano limpo do meu destino e tenho orgulho dos meus avessos. E canto pra não morrer.
Minha vó Júlia era de fé. Noviça tirada do convento pra casar contra sua vontade, teve 14 filhos em silêncio, entre eles um padre, duas freiras missionárias, outras duas freiras de clausura carmelitas descalças. Carregava o mundo todo em suas orações e tinha um candeeiro na igreja de Itajubá cujo óleo ela renovava semanalmente, pra que nunca apagasse a fé da sua família. Em louvor a Nossa Senhora, crochetou com linha fina toalhas de banquete para as mulheres suas filhas e noras, milhares e milhares de pontos, infinitos, e a cada um, uma Ave Maria. Quando morreu, minha vó Júlia foi enterrada vestida como religiosa, após permissão enviada diretamente pelo Papa.
Meu avô materno era Luiz, e deu seu nome pra minha irmã e minha filha. Meu vô fazia bolo enfeitado pros filhos quando caíam-lhe os dentes de leite e construía com madeira e lata os brinquedos de presente para o Natal. Quando criança, sua mãe queria dissuadi-lo de jogar futebol, e só deixava o garoto sair pra rua depois de passar algumas horas bordando, coisa de menina. Meu vô aprendeu a fazer barrado de pano de prato, monograma e caminho de mesa, e toda tarde estava na rua jogando bola com os pretos. Dele não herdei os olhos azuis, mas o nome que me define.
Essa madrugada, eu não consegui dormir. Olhei mais uma vez pro presente que ganhei do meu Guimarães, o anel de prata com a libélula das águas doces enfeitada de madre-pérolas do mar profundo e que bate asas! A vida é sopro. Lembrei no meu nome e da minha vó que não conheci e do meu vô que pouco conheci. Acendi uma vela, lavei nossa quartinha d'Oxum, enchi o copo do nosso São Jorge, cantei em silêncio a oração mais linda que meu pai me ensinou.
Minha vó e suas mãos estão em mim.
Meu vô e suas mãos estão em mim.
E eu sou essa bagunça, nós e pontos infinitos bordados de fé, água, tristeza, sopro, paciência e teimosia. Amar está no meu nome. Teço com dor e alegria o pano limpo do meu destino e tenho orgulho dos meus avessos. E canto pra não morrer.
terça-feira, 17 de maio de 2016
carta poente
quando o sol se põe diante do meu horizonte o mundo pára de girar por um instante.
tanto a dizer nesses dias cheios de presságios lindos e apocalípticos - o disco alimentado de afeto, a catástrofe de um país despedaçado, o disco parido em dor e beleza, a violência institucionalizada, o espetáculo do disco que se predestina formoso, o país e todas as suas pessoas vivas e mortas sendo afogados na merda e na barbárie.
tanto a pensar, tanto.
não sei onde arrumaremos as forças.
tanto a fazer, meu deus, tanto.
mas nessa hora em que o céu laranja invade as paredes da minha casa e o sol se põe deslumbrante diante dos meus olhos imensos e ofuscados, eu não sou nada além da versão cega, aguada, doente, fácil, egoísta, medrosa, baixa, vagabunda e triste de mim mesma, e tudo dentro do meu corpo se transforma nesta saudade colossal.
tanto a dizer nesses dias cheios de presságios lindos e apocalípticos - o disco alimentado de afeto, a catástrofe de um país despedaçado, o disco parido em dor e beleza, a violência institucionalizada, o espetáculo do disco que se predestina formoso, o país e todas as suas pessoas vivas e mortas sendo afogados na merda e na barbárie.
tanto a pensar, tanto.
não sei onde arrumaremos as forças.
tanto a fazer, meu deus, tanto.
mas nessa hora em que o céu laranja invade as paredes da minha casa e o sol se põe deslumbrante diante dos meus olhos imensos e ofuscados, eu não sou nada além da versão cega, aguada, doente, fácil, egoísta, medrosa, baixa, vagabunda e triste de mim mesma, e tudo dentro do meu corpo se transforma nesta saudade colossal.
terça-feira, 1 de setembro de 2015
as pedras no caminho [ou amor mineral
lapidar - adjetivo de dois gêneros (1727)
1 relativo a lápides ou pedras
2 gravado em pedra (diz-se de inscrição)
3 (fig) que é conciso como as inscrições gravadas na pedra (falando-se de declaração, forma, fórmula, frase, estilo, verso etc.); nítido, claro, preciso
4 (fig) de qualidade superior; primoroso, perfeito
5 (gráf) diz-se de variedade de caracteres tipográficos que se distinguem pelas hastes quase uniformes, sem cerifas, e se inspiram no talho disciplinado de inscrições feitas a cinzel no mármore ou em outras pedras
lapidar - verbo (1789)
1 (t.d.) atacar ou matar com pedras; infligir o suplício da lapidação a; apedrejar
2 (t.d.) fig. submeter ao processo de lapidação (uma pedra preciosa bruta)
3 (t.d.) fig. tornar apresentável (o que é tosco e grosseiro); aperfeiçoar, aprimorar, burilar; educar
1 relativo a lápides ou pedras
2 gravado em pedra (diz-se de inscrição)
3 (fig) que é conciso como as inscrições gravadas na pedra (falando-se de declaração, forma, fórmula, frase, estilo, verso etc.); nítido, claro, preciso
4 (fig) de qualidade superior; primoroso, perfeito
5 (gráf) diz-se de variedade de caracteres tipográficos que se distinguem pelas hastes quase uniformes, sem cerifas, e se inspiram no talho disciplinado de inscrições feitas a cinzel no mármore ou em outras pedras
lapidar - verbo (1789)
1 (t.d.) atacar ou matar com pedras; infligir o suplício da lapidação a; apedrejar
2 (t.d.) fig. submeter ao processo de lapidação (uma pedra preciosa bruta)
3 (t.d.) fig. tornar apresentável (o que é tosco e grosseiro); aperfeiçoar, aprimorar, burilar; educar
[meus olhos cheios de areia, minha garganta de rubis magmáticos, minhas mãos esmeraldinas, nosso amor diamante, e o futuro cristalino ao teu lado.
ao teu lado, os números que são os nossos: 1, 2 e 7.
ao teu lado, que são dois: dentro e fora.
teus olhos turmalina em todos os tons de azul do mar que está em teu nome.
o amar do meu é todo teu, monolito, esférico, inteiriço, infinito e além.
sexta-feira, 28 de agosto de 2015
do destempo
minha saudade é futuro do pretérito
futuro imperfeito
esperava tua figura na platéia
procurava até o último acorde
meu coração amarrado nos saltos vermelhos da trapezista
estaríamos na tua audiência
encharcaríamos tuas notas uma a uma
preencheríamos o horizonte de belezas
predestinaríamos
constituiríamos, enfim, em doce escândalo
a nova ordem das coisas
casa, mar de todos os santos
ouro mato vento
santíssima trindade
– teu nome dentro do meu
mar e amar dentro dos nossos
cond(enaç)ão –
a ausência do que viveríamos é mais presente que tua memória
que ainda exala
teimosa
seus odores
todos os dias
futuro imperfeito
esperava tua figura na platéia
procurava até o último acorde
meu coração amarrado nos saltos vermelhos da trapezista
estaríamos na tua audiência
encharcaríamos tuas notas uma a uma
preencheríamos o horizonte de belezas
predestinaríamos
constituiríamos, enfim, em doce escândalo
a nova ordem das coisas
casa, mar de todos os santos
ouro mato vento
santíssima trindade
– teu nome dentro do meu
mar e amar dentro dos nossos
cond(enaç)ão –
a ausência do que viveríamos é mais presente que tua memória
que ainda exala
teimosa
seus odores
todos os dias
terça-feira, 25 de agosto de 2015
carta turva
os dias, inexoravelmente, passam.
desnorteados.
chega de repente uma lembrança, um vento bom. vai embora. não sei nem da saudade.
vez por outra a macaca pergunta rápido e meu coração dói doído; mas ela, como sempre, sabe de tudo. ela também está em silêncio.
não sei onde enfiar a poesia, os desejos partilhados, a risada solta, o calor do corpo.
meus olhos cansados teimam em não dormir direito atrapalhados pelos sonhos confusos que desde então me visitam toda noite - sonho muito e nada se aproveita. nosso dia seguinte nunca esteve tão incerto, o presente de oito anos acumulando faturas, os cadáveres de leões moribundos pela sala, os seus olhos de azul profundo miúdos se acinzentando, os corações mudos procurando remontar-se dos caquinhos, a cicatriz que ainda não fecha.
as contas, todas elas, não fecham.
é que não basta a saudade. não bastou o amor desigual. não bastou o esforço díspar. nosso futuro era maior e mais bonito que isso, e eu não me perdôo por não ter entendido a tempo de suspender o tempo e não deixar o sofrimento entrar na minha casa e na minha cama. minha cama que ainda padece.
envelheço rápido. estou tão triste. meu corpo está cansado, murcho, adoeço.
ainda vou esquecer as palavras que não queria ter lido e ficar só com a memória, ainda que pouca, do que foi bom.
por enquanto, só arde.
mas os dias, inexoravelmente, os dias passam.
desnorteados.
chega de repente uma lembrança, um vento bom. vai embora. não sei nem da saudade.
vez por outra a macaca pergunta rápido e meu coração dói doído; mas ela, como sempre, sabe de tudo. ela também está em silêncio.
não sei onde enfiar a poesia, os desejos partilhados, a risada solta, o calor do corpo.
meus olhos cansados teimam em não dormir direito atrapalhados pelos sonhos confusos que desde então me visitam toda noite - sonho muito e nada se aproveita. nosso dia seguinte nunca esteve tão incerto, o presente de oito anos acumulando faturas, os cadáveres de leões moribundos pela sala, os seus olhos de azul profundo miúdos se acinzentando, os corações mudos procurando remontar-se dos caquinhos, a cicatriz que ainda não fecha.
as contas, todas elas, não fecham.
é que não basta a saudade. não bastou o amor desigual. não bastou o esforço díspar. nosso futuro era maior e mais bonito que isso, e eu não me perdôo por não ter entendido a tempo de suspender o tempo e não deixar o sofrimento entrar na minha casa e na minha cama. minha cama que ainda padece.
envelheço rápido. estou tão triste. meu corpo está cansado, murcho, adoeço.
ainda vou esquecer as palavras que não queria ter lido e ficar só com a memória, ainda que pouca, do que foi bom.
por enquanto, só arde.
mas os dias, inexoravelmente, os dias passam.
domingo, 23 de agosto de 2015
carta diáfana
No dia 13 de dezembro de 2006 eu fui internada com uma infecção renal que evoluiu para uma septicemia. Eu tinha 33 anos, e além dos meus dois filhos lindos, minha vida valia uma separação e meio casamento em andamento, um disco inacabado, 50 e poucos quilos, um emprego de merda na repartição, cigarros, insônia, um gato maltratado. Minhas tardes de amor acabavam de virar brevidade, meus domingos eram tão tristes. Mamãe veio cuidar de mim. Papai telefonou pra tia Lucy, que enviou consecutivo um envelope anunciando em caligrafia antiga "Valdo e Hebe Pétalas Bentas de Santa Terezinha para Juliana". Dentro dele, duas dúzias de pétalas róseas de rosas secas, ainda perfumadas, fazedoras de milagres.
Tia Lucy era freira carmelita descalça, viveu sessenta e cinco anos em clausura, cada um e todos eles dedicados a rezar. Ainda menina fui visitá-la com meu pai e seus olhos eram maiores que os meus, do azul mais claro e mais transparente que jamais vi ou verei. Sessenta e cinco anos de joelhos e mãos entrelaçadas, carregando os pecados do mundo nas suas costas.
Depois de dez dias dormindo com o envelope sob o travesseiro, eu saí viva do hospital. Era antevéspera de Natal, fazia tanto calor, não comprei presentes pros meus filhos, não telefonei pra Tia Lucy. As pétalas de rosa foram parar na capa do disco, que a ela dediquei. O meio-casamento acabou. O emprego também, e a insônia, os cigarros, o gato. Meus domingos não são mais tristes e as tardes de brevidade se converteram em horizonte, casa e barco, rosal formoso, e além.
Pétalas de Santa Terezinha fazedoras de milagres.
Minha tia Lucy morreu esta manhã. Eu sinto tristeza e desamparo. Minha tia Lucy morreu neste domingo de sol e eu sinto algum desespero, apesar de saber que ela vai seguir olhando por mim, por meus filhos que ela não conheceu, por meus olhos grandes como os seus, por nossa casa e barco, nosso rosal formoso, e além.
Meu pai disse que hoje tem festa no céu porque a tia Lucy chegou lá. Eu, aqui, miúda, encolhida, vou dormir com o envelope sob o travesseiro.
Tia Lucy era freira carmelita descalça, viveu sessenta e cinco anos em clausura, cada um e todos eles dedicados a rezar. Ainda menina fui visitá-la com meu pai e seus olhos eram maiores que os meus, do azul mais claro e mais transparente que jamais vi ou verei. Sessenta e cinco anos de joelhos e mãos entrelaçadas, carregando os pecados do mundo nas suas costas.
Depois de dez dias dormindo com o envelope sob o travesseiro, eu saí viva do hospital. Era antevéspera de Natal, fazia tanto calor, não comprei presentes pros meus filhos, não telefonei pra Tia Lucy. As pétalas de rosa foram parar na capa do disco, que a ela dediquei. O meio-casamento acabou. O emprego também, e a insônia, os cigarros, o gato. Meus domingos não são mais tristes e as tardes de brevidade se converteram em horizonte, casa e barco, rosal formoso, e além.
Pétalas de Santa Terezinha fazedoras de milagres.
Minha tia Lucy morreu esta manhã. Eu sinto tristeza e desamparo. Minha tia Lucy morreu neste domingo de sol e eu sinto algum desespero, apesar de saber que ela vai seguir olhando por mim, por meus filhos que ela não conheceu, por meus olhos grandes como os seus, por nossa casa e barco, nosso rosal formoso, e além.
Meu pai disse que hoje tem festa no céu porque a tia Lucy chegou lá. Eu, aqui, miúda, encolhida, vou dormir com o envelope sob o travesseiro.
quinta-feira, 12 de março de 2015
carta para Douglas
Então na tarde da quinta-feira, a chuva fria, o coletivo, avenida parada, internet ruim, vou tentado pescar a notícia e a história antes de ouvir a canção. Entendo, e o ar encurta. Na consolação, enquanto troco de ônibus e vejo os muitos carros descendo aguados, ouço o violão-anúncio desdobrado, o samba, a frase no grave consecutiva: pressinto; predestino. Que daí vem facada, certeza.
Choro na cidade. A cidade me transpassa.
Se a franqueza rude não está em meu repertório (e antes assim fosse...), saiba que a dor está, monolítica, vulcânica, abissal. E é disso que se alimenta o canto que, daqui a pouco, vou vomitar violenta e docemente no bar dessa contenda tão horrorosa em que estamos metidos.
Que tempos os nossos. Que tempos.
O que alivia (alivia?), é que, apesar das minhas tantas covardias, desesperos e inércias, ainda não endureci o coração nem sequei os olhos, e tenho quem ao meu lado na mesma condição. Valei-me, que isso há de ser alguma valentia. E dou graças.
Vamos juntos, Douglas, de mãos dadas. Obrigada por mais esse presente, que, de novo em igual medida, não vou ter como agradecer.
terça-feira, 13 de janeiro de 2015
quinta-feira, 8 de janeiro de 2015
na travessia, dia 10
mantena, mg - são paulo, sp
1034 quilômetros, 17 horas de viagem.
depois de passar por belo horizonte, entardece. viagem de ventania, nem lembra se olhou pra trás ao primeiro passo aço aço. meus olhos enchem, escorrem, explico pra luiza que esta é minha música preferida, e que este disco me acompanhou nos 27 dias de hospital que antecederam seu nascimento. também se chamavam sonhos e sonhos não envelhecem. meu coração transborda, as montanhas de minas gerais ao meu lado. em meio a tantos gases lacrimogênios ficam calmos calmos. olho nos seus olhos tão azuis, cada coisa no seu lugar. e lá se vai mais um dia. quero cegar as retinas no sol desta tarde e afogar meus ouvidos nesta voz. de tudo se faz canção e o coração na curva de um rio rio rio. respiramos juntos, gostamos o mesmo gosto, nossa memória compartilhada, nosso amor muito e no real diverso, que aprendi o presente que ganhei: tamanho é o tamanho da alma. esquina mais de um milhão, quero ver então a gente gente gente.
e lá se vai mais um dia.
1034 quilômetros, 17 horas de viagem.
depois de passar por belo horizonte, entardece. viagem de ventania, nem lembra se olhou pra trás ao primeiro passo aço aço. meus olhos enchem, escorrem, explico pra luiza que esta é minha música preferida, e que este disco me acompanhou nos 27 dias de hospital que antecederam seu nascimento. também se chamavam sonhos e sonhos não envelhecem. meu coração transborda, as montanhas de minas gerais ao meu lado. em meio a tantos gases lacrimogênios ficam calmos calmos. olho nos seus olhos tão azuis, cada coisa no seu lugar. e lá se vai mais um dia. quero cegar as retinas no sol desta tarde e afogar meus ouvidos nesta voz. de tudo se faz canção e o coração na curva de um rio rio rio. respiramos juntos, gostamos o mesmo gosto, nossa memória compartilhada, nosso amor muito e no real diverso, que aprendi o presente que ganhei: tamanho é o tamanho da alma. esquina mais de um milhão, quero ver então a gente gente gente.
e lá se vai mais um dia.
"E me cerro, aqui, mire e veja. Isto não é o de um relatar passagens de sua vida, em toda admiração. Conto o que fui e vi, no levantar do dia. Auroras. Cerro. O senhor vê. Contei tudo. Agora estou aqui, quase barranqueiro. Para a velhice vou, com ordem e trabalho. Sei de mim? Cumpro. O Rio de São Francisco – que de tão grande se comparece – parece é um pau grosso, em pé, enorme... Amável o senhor me ouviu, minha idéia confirmou: que o Diabo não existe. Pois não? O senhor é um homem soberano, circunspecto. Amigos somos. Nonada. O diabo não há! É o que eu digo, se for... Existe é homem humano. Travessia."
quarta-feira, 7 de janeiro de 2015
na travessia, dia 9
voltamos à loja de tecidos pra comprar o chapéu que tínhamos visto no primeiro dia, ramenzoni xxx pele de coelho cor pino e fita de gorgurão marrom, a caixa com diversas anotações de preços, rabiscos e códigos feitos com as letras trêmulas do seu archimedes que nos recebeu com delicadeza e camisa de linho, dessa vez azulzinha. escolho um corte de algodão com rosas vermelhas e amarelas sobre o fundo branco, antigo. seu archimedes conversou mais um tiquinho conosco, a mesma voz rouca e dicção cuidadosa, perguntou se estávamos de partida, a viagem é longa, eu sei, já fiz muito, mas agora compro tudo em santa catarina, vou de avião, bem melhor, e abençoou minha casa e minha família, deu dois beijos secos nos meus rosto quente e nas bochechas da minha menina linda, abraçou-nos com doçura, meus olhos encheram súbito descontrolado, os teus também, a camisa azul de seu archimedes refletindo nos olhinhos molhados sob a sombra do novo chapéu. primeira despedida.
o caminho de volta foi dar no cemitério da cidade, no alto. todo torto e amontoado, não tem corredores definidos e árvores de sombra, parece que os mortos vão estar todos reunidos de mãos dadas debaixo da terra tamanha a confusão de lápides, tijolos, flores de plástico, cruzes, retratos descoloridos, datas nomes cimento. lá no canto de cima, a chuva do ano passado levou um tanto do terreno barranco abaixo, imagina o susto, e alguns homens refazem o arrimo. nenhum funcionário pra nos dizer onde estaria a lápide da vó e do vô, então fomos tropeçando tentando achar algum sinal. datas nomes cimento. calor. o corpo desistente procura desesperado por um alento. segunda despedida.
asa de ouro foi enterrada depois do almoço, no pé da árvore que fica junto à cerca lateral, folhas de mangueira trançadas por baixo, uns raminhos de carambola por cima, e junto do corpinho um pedaço da pedra preciosa que quebrou dias atrás, a outra parte quero fazer um pingente, cê me ajuda, mãe? depois terra por cima alisada com carinho, uma cruz de gravetinhos e florzinhas apanhadas por ali. lulu me abraça e chora doído, escreveu um poema na primeira página do caderninho da coleção de minerais, o maior que eu já fiz, mãe. lembro o verso decorado do bandeira, olho teus olhos, respiramos juntos. terceira despedida.
o sol se pôs na cachoeira dos padres, uma parede de pedra rasgando a mata. um pouco de medo nos pés. lembro a canção inteira dessa vez, canto alto, peço licença, agradeço. vou ter saudade dessa água. quarta despedida.
hoje teria sido aniversário de 20 anos do meu primeiro casamento, e eu não sinto nada. quinta despedida.
no começo da noite de lua cheia, os cães todos latem muito, uivam forte, uma barulheira. o céu é inteiro. venta na varanda. a vizinha traz mandioca que acabou de tirar do quintal. calango fala, tia jovina do sertão fala, nós rimos. sexta despedida.
fechamos as malas, amanhã partimos cedo. sétima despedida.
recebo teu carinho nos meus cabelos curtos. ama-me? mais. promete? juro. sempre? pra sempre. teamante. teamantena.
o caminho de volta foi dar no cemitério da cidade, no alto. todo torto e amontoado, não tem corredores definidos e árvores de sombra, parece que os mortos vão estar todos reunidos de mãos dadas debaixo da terra tamanha a confusão de lápides, tijolos, flores de plástico, cruzes, retratos descoloridos, datas nomes cimento. lá no canto de cima, a chuva do ano passado levou um tanto do terreno barranco abaixo, imagina o susto, e alguns homens refazem o arrimo. nenhum funcionário pra nos dizer onde estaria a lápide da vó e do vô, então fomos tropeçando tentando achar algum sinal. datas nomes cimento. calor. o corpo desistente procura desesperado por um alento. segunda despedida.
asa de ouro foi enterrada depois do almoço, no pé da árvore que fica junto à cerca lateral, folhas de mangueira trançadas por baixo, uns raminhos de carambola por cima, e junto do corpinho um pedaço da pedra preciosa que quebrou dias atrás, a outra parte quero fazer um pingente, cê me ajuda, mãe? depois terra por cima alisada com carinho, uma cruz de gravetinhos e florzinhas apanhadas por ali. lulu me abraça e chora doído, escreveu um poema na primeira página do caderninho da coleção de minerais, o maior que eu já fiz, mãe. lembro o verso decorado do bandeira, olho teus olhos, respiramos juntos. terceira despedida.
o sol se pôs na cachoeira dos padres, uma parede de pedra rasgando a mata. um pouco de medo nos pés. lembro a canção inteira dessa vez, canto alto, peço licença, agradeço. vou ter saudade dessa água. quarta despedida.
hoje teria sido aniversário de 20 anos do meu primeiro casamento, e eu não sinto nada. quinta despedida.
no começo da noite de lua cheia, os cães todos latem muito, uivam forte, uma barulheira. o céu é inteiro. venta na varanda. a vizinha traz mandioca que acabou de tirar do quintal. calango fala, tia jovina do sertão fala, nós rimos. sexta despedida.
fechamos as malas, amanhã partimos cedo. sétima despedida.
recebo teu carinho nos meus cabelos curtos. ama-me? mais. promete? juro. sempre? pra sempre. teamante. teamantena.
"– “... Mas, porém, quando isto tudo findar, Diá, Di, então, quando eu casar, tu deve de vir viver em companhia com a gente, numa fazenda, em boa beira do Urucuia... O Urucuia, perto da barra, também tem belas troas de areia, e ilhas que forma, com verdes árvores debruçadas. E a lá se dão os pássaros: de todos os mesmos prazentes pássaros do Rio das Velhas, da saudade – jaburu e galinhol e garça-branca, a garçarosada que repassa em extensos no ar, feito vestido de mulher... E o manuelzinho-da-troa, que pisa e se desempenha tão catita – o manuelzinho não é mesmo de todos o passarinho lindo de mais amor?...”
Podia ser? Impossivelmente.
Eu não tinha sido capaz de perguntar aqueles ensalmos a Diadorim, de fato só em coisa à-toa se conversou, trivial a respeito de munição e meus armamentos, e avio de guerra. Véspera. As horas é que formam o longe."
terça-feira, 6 de janeiro de 2015
na travessia, dia 8
o dia amanheceu ao meu olhar igual aos demais, azul inteiro vastidão calor monolito, mas calango anunciou, hoje chove. transcorreu o dia quase parado, eu querendo murchar, luiza indisposta, e quando foi o fim da tarde, ventou diferente, as nuvens escureceram rápido e choveu, amém.
a vida muda inteira com a chuva.
nesses dias crus do sertão, o tempo é mais lento e farto, minha pele vigora ao sol e água limpa, ao tempo que envelheço. envelhecemos, e eu acho isso tão bonito. meus olhos imensos querem guardar o cheiro abençoado da terra molhada e todo o mundo de delicadezas e misérias que vasculho em cada buraco desse lugar. teus olhos azuis estão diamantinos. nosso amor cresce e predestina, rosal formoso.
a vida muda inteira a toda hora, aqui e onde quer que eu esteja, a despeito do meu coração riobaldiano que quer o feio apartado do bonito e todos os pastos demarcados. eita. mas aprendo, envelheço e aprendo, miúda, devota e teimosa.
a vida muda inteira com a chuva.
nesses dias crus do sertão, o tempo é mais lento e farto, minha pele vigora ao sol e água limpa, ao tempo que envelheço. envelhecemos, e eu acho isso tão bonito. meus olhos imensos querem guardar o cheiro abençoado da terra molhada e todo o mundo de delicadezas e misérias que vasculho em cada buraco desse lugar. teus olhos azuis estão diamantinos. nosso amor cresce e predestina, rosal formoso.
a vida muda inteira a toda hora, aqui e onde quer que eu esteja, a despeito do meu coração riobaldiano que quer o feio apartado do bonito e todos os pastos demarcados. eita. mas aprendo, envelheço e aprendo, miúda, devota e teimosa.
"Que fosse como sendo o trivial do viver feito uma água, dentro dela se esteja, e que tudo ajunta e amortece – só rara vez se consegue subir com a cabeça fora dela, feito um milagre: peixinho pediu. Por quê? Diz-que-direi ao senhor o que nem tanto é sabido: sempre que se começa a ter amor a alguém, no ramerrão, o amor pega e cresce é porque, de certo jeito, a gente quer que isso seja, e vai, na idéia, querendo e ajudando; mas, quando é destino dado, maior que o miúdo, a gente ama inteiriço fatal, carecendo de querer, e é um só facear com as surpresas. Amor desse, cresce primeiro; brota é depois."
segunda-feira, 5 de janeiro de 2015
na travessia, dia 7
no sétimo dia, começo a sentir saudade.
saudade do meu filho de olhos de floresta. da minha casa, meu chuveiro, meu quintal e a mesa de madeira imensa, meu armário de louças. saudade de dormir e trepar na minha cama. memória dos seus olhos, da sua risada solta, dos cabelos enroscados nos meus dedos. saudade do meu horizonte de dois lados e do café, todos eles. saudade de cantar, dos meus amigos, do risco, trabalho em alegria. saudade sobretudo do algum silêncio.
dias atrás, no almoço, um anu branco bicou um filhote de rolinha já emplumado que caiu do ninho ao pé da caramboleira. minha macaca e o calango acudiram o passarinho, a asa muito machucada, limparam a ferida e colocaram protegida numa gaiola, com água e quirera, até se recuperar. luiza deu nome: asa de ouro. hoje soltaram no terreiro que é pro bichinho não acostumar na gaiola e pra ver se já consegue bater a asinha. asa de ouro andou, ciscou, comeu, até deu uns pulinhos, mas no entanto ainda não voltou a voar.
saudade do meu filho de olhos de floresta. da minha casa, meu chuveiro, meu quintal e a mesa de madeira imensa, meu armário de louças. saudade de dormir e trepar na minha cama. memória dos seus olhos, da sua risada solta, dos cabelos enroscados nos meus dedos. saudade do meu horizonte de dois lados e do café, todos eles. saudade de cantar, dos meus amigos, do risco, trabalho em alegria. saudade sobretudo do algum silêncio.
dias atrás, no almoço, um anu branco bicou um filhote de rolinha já emplumado que caiu do ninho ao pé da caramboleira. minha macaca e o calango acudiram o passarinho, a asa muito machucada, limparam a ferida e colocaram protegida numa gaiola, com água e quirera, até se recuperar. luiza deu nome: asa de ouro. hoje soltaram no terreiro que é pro bichinho não acostumar na gaiola e pra ver se já consegue bater a asinha. asa de ouro andou, ciscou, comeu, até deu uns pulinhos, mas no entanto ainda não voltou a voar.
"Reinaldo, Diadorim, me dizendo que este era real o nome dele – foi como dissesse notícia do que em terras longes se passava. Era um nome, ver o quê. Que é que é um nome? Nome não dá: nome recebe. Da razão desse encoberto, nem resumi curiosidades. Caso de algum crime arrependido, fosse, fuga de alguma outra parte; ou devoção a um santo-forte. Mas havendo o ele querer que só eu soubesse, e que só eu esse nome verdadeiro pronunciasse. Entendi aquele valor. Amizade nossa ele não queria acontecida simples, no comum, sem encalço. A amizade dele, ele me dava. E amizade dada é amor. Eu vinha pensando, feito toda alegria em brados pede: pensando por prolongar. Como toda alegria, no mesmo do momento, abre saudade. Até aquela-alegria sem licença, nascida esbarrada. Passarinho cai de voar, mas bate suas asinhas no chão."
domingo, 4 de janeiro de 2015
na travessia, dia 6
assembléia de deus ministério de madureira, igreja batista do campo novo, igreja evangélica assembléia de deus pentecostal da promessa de jesus cristo, comunidade evangélica plenitude de deus, congregação batista igreja batista memorial, igreja cristã evangélica casa de oração, primeira igreja batista de mantena, seja bem vindo comunidade nossa senhora do amparo, igreja pentecostal raio de luz, igreja cristã apostólica moriá, igreja assembléia de deus, ceb centro educacional batista mantena, loja maçônica luz e caridade, católica nicoline, igreja metodista wesleyana santidade como estilo de vida, templo pentecostal, igreja presbiteriana de mantena congregação bairro bela vista, igreja assembléia de deus reviver, igreja cristã maranata, igreja presbiteriana filadelfia, igreja presbiteriana de mantena, igreja adventista do sétimo dia, liga católica jesus maria josé, matriz de santo antônio, cemitério santa luzia, jesus cristo é o senhor, igreja evangélica assembléia de deus, lar santo antônio, igreja pentecostal deus é amor, igreja batista getsêmani, igreja metodista missionária de mantena, comunidade são pedro, ipb igreja presbiteriana de vila nova, missão evangélica resgate, paróquia nossa senhora das graças, assembléia de deus ministério de madureira, assembléia de deus ministério belém vitória do espírito santo, igreja o brasil para cristo em avivamento espiritual, assembléia de deus fogo no altar uma igreja viva servindo ao deus vivo!, comunidade nossa senhora aparecida, igreja pentecostal tanque de betesda, assembléia de deus ministério morada do altíssimo.
pela manhã, visitamos a casa do filho da solange, amiga de infância das tias, vizinha da casa da vó elza. solange com 18 anos já tinha dois filhos, depois morou nos quatro cantos do mundo, casou com um americano, e agora com mais de 50 voltou a mantena; passa o dia cuidando da mãe com alzheimer e construindo sua vida no second life. seu filho geraldo, o gezinho, é colecionador e comerciante de minerais, e fomos à sua casa pra conhecer seu tesouro. estantes de fórmica de madeira expõem com cuidado mais de 3 mil minerais e fósseis, incríveis, que o gezinho vai dedicadamente apresentando, nome científico, origem, grau de dureza, preciosidade, valor, tipo de minério e outras curiosidades. ao saber do gosto da minha luiza pelo assunto, abre as gavetas e presenteia a macaca, topázio, dioptásio, cianita, muscovita, rubi, esmeralda, aghata, granada, fóssil de escargot que veio da frança, labradorita de madagascar, e então configura-se o início da coleção de minerais da luiza, com 20 pedras e 2 fósseis, e ela, siderada, começa a registrar em seu caderninho o nome e o desenho de cada pedra, pra não esquecer. gezinho é muito tranquilo, sorridente, tímido, mineiro. depois leva pra conhecer a casa, quartos, banheiros, cozinha, quintal e a escada já pronta pra construção do escritório sobre a laje que vai ter vista pra monumental pedra do emiliano. na garagem, mostra um tronco de árvore fossilizado, e perguntamos, quanto tempo demora pra ficar assim? bom, eu sou criacionista, mas se eu fosse evolucionista, diria que demora uns 300 milhões de anos pra fossilizar.
domingo é o dia do senhor.
"Baixei, mas fui ponteando opostos. Que isso foi o que sempre me invocou, o senhor sabe: eu careço de que o bom seja bom e o rúim ruim, que dum lado esteja o preto e do outro o branco, que o feio fique bem apartado do bonito e a alegria longe da tristeza! Quero os todos pastos demarcados... Como é que posso com este mundo? A vida é ingrata no macio de si; mas transtraz a esperança mesmo do meio do fel do desespero. Ao que, este mundo é muito misturado..."
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