sexta-feira, 23 de novembro de 2012

revolver

de volta:
vontade de chorar
não sei como acabar o ano
mais um não
um deserto de talvezes
tanto desejo
tenho sonhado muito
esqueci meus adjetivos em algum lugar
sinto cansaço, preguiça, calor
o trabalho rasteja, o tempo desembesta
esqueci os livros em algum lugar
saudade
envelheço
estou bonita (achei um)
perdi a música que cobria este silêncio
o desejo permanece sentado
não li o tao, não faço ioga
meu amor sobeja.

o dicionário e minha professora de latim sempre sabem de mim.

esperar (verbo)

1 ter esperança (em), contar com, confiar em
2 não agir, não tomar decisões, não desistir de algo, não ir embora etc., até a efetuação de um evento que se tem por certo, ou muito provável, ou muito desejável
3 estar ou ficar à espera (de); aguardar
4 contar com a realização de algo; desejar, torcer para
5 estar reservado ou destinado a
6 considerar (algo) como provável, com base em indícios; supor, presumir, conjecturar, imaginar

sábado, 6 de outubro de 2012

carta do encontro #3

sete.
ela, mais sorridente que nunca, iluminava o decote descuidado, generosa de seus amores.
ele tem a voz mais baixa que imaginei, remexia na cadeira desafeita ao joelho, e me abraçou inteiro.
ela, dupla, miúda, olhos molhados imensos, cantarolou em silêncio a canção de ninar que dediquei.
ele é tão alto, de sorriso surpreendentemente imenso, fechava os olhos pequenos, devagarinho-vagarim.
ele ao meu lado, meu, as patas doloridas nos meus ombros e nas minhas coxas, minha rosa em tuas mãos, nós navegantes da certeza, pois que bordei com a linha celeste dos teus olhos as iniciais nas sete camisas de dormir, e sucumbo inconteste à tua fome de tantos nomes, continente da tua ordem, vassala, prostituta, mulherzinha, tua.
eu derramada e úmida, sangrei a calcinha de renda pérola e cor de rosa.
sete.
ela não dorme e faz girar o mundo.
ele a sustenta com seus olhos de tantas encarnações.
ela tem acento infantil, litorânea.
ele me perscrutava franca e docemente.
ele me chama vagabunda, e eu gosto, mais.
eu os admiro.
porque sou devota dos encontros verdadeiros.
porque apesar de toda dor, não endureci e trago sorriso sanguíneo, choro solto e quadris fáceis.
e porque fui forjada no afeto e sinto amor desmedido, cuido, de longe, que estejam protegidos: que a malvadeza desse mundo é grande em extensão, e muita vez tem ar de anjo e garras de dragão.

sexta-feira, 25 de maio de 2012

carta do encontro, #2

e se eu te trazia pra nossa casa, e te mostrava nosso horizonte dos dois lados, os ex-votos, as minhas rosas?
e se eu te oferecia minhas mãos dedicadas, as barbas fartas e macias dele, e todo o resto?
e se eu não te abandonava pra reencontrar aquela barulheira desatenta e desinteressada?

e se não tivesse metido os pés pelas mãos? e se tivesse havido aquele novembro de revelação, abençoado pela brisa marítima e pelas janelas do bairro da tua infância?

tenho tanta raiva da minha histeria, da minha desmesura. e um ódio profundo daquele caipira saltitante. ódio feminino, monolítico, que eu destilo em totalidade absoluta, uma vez que o destino teve a delicadeza de me poupar o desgosto de saber-lhe as feições e as fuças.

esse gosto amargo e conhecido do arrependimento e da saudade do que não vivi.

olhos pequenos, lábios finos, sorriso inteiro.
queria ter te perguntado de quantos sabores é feito nosso paladar.
abraço.
cheiro.

meus olhos úmidos.

silêncio.

sábado, 25 de fevereiro de 2012

carta do encontro, #1

o silêncio que sucede os grandes encontros, aquele, que vem depois da canção preferida.


queria ter ouvido mais, falado menos. 
e mais tempo, um tempo sem véspera.
que tivesses conhecido o horizonte da nossa casa, do poente ao nascente; entre eles, vinho, confissões, segredos, promessas.
e que na despedida, ali mesmo dentro do taxi, ele beijasse tua boca, demoradamente e sem escândalo, pousando as patas pesadas na tua nuca, até te afrouxar os joelhos e ofegar teu discurso.

a surpresa do drink fora de moda. inflexão confirmada. olhos íntimos. palavras e mãos perscrutadoras. algum descompasso. abraço de calor imenso. e uma doce certeza.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

carta da espera

estranho.
bem nesse dia, em que parece haver uma nuvem escura sobre a minha casa, anual, desde a primeira vez. e mesmo que eu cante a mais bela canção, ele permanecerá estranho, porque ele não me pertence.
e no meio disso, fico pensando se deveria procurar entre os transeuntes um rosto que eu mal conheço. ou se aquele texto foi pra mim. ou se não foi. e se, em um ou outro caso, deveria ficar lisonjeada, envergonhada, chateada, triste.
o dia está estranho.
estou estranha, e eu tenho medo.

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

2012

Meio do mato.
Na cambalhota do ano, desde muito é assim, cuido de agradecer:
à felicidade do encontro - nossa doce princesa, a cozinheira das palavras, os sócios cada vez mais irmãos, meu cúmplice palhaço, meus comparsas de mínimo: "Amigo, para mim, é só isto: é a pessoa com quem a gente gosta de conversar, do igual o igual, desarmado. O de que um tira prazer de estar próximo. Só isto, quase; e os todos sacrifícios.";
à alegria dos presságios: o disco extra-super e o livro de retratos, som e silêncio, construídos com carinho e em boa companhia, mãos em mãos, que transbordarão, reluzentes, em tons de cru, ouro, magenta, preto e ferrugem, como as placas de lata fora de registro e os tapetes impressos garimpados da sucata da cidade, luxo no avesso espelhado, brasis;
ao amor infinito e profundo: pai, mãe, irmãs e irmão, e os seus; meus dois filhos; meu homem - eu não canso de me surpreender por ser tão assombrosamente afortunada, a mulher mais feliz da cidade.
O ano começa ensolarado e quieto.
Releio a terceira margem do rio pra não esquecer de angariar coragem e vigilância. Releio as cidades invisíveis pra guardar na memória a travessia e todos os confins. Leio a arte cavalheiresca do arqueiro zen pra aprender a leveza e o vazio.
Meu coração e meu corpo sabem do cuidado que cada flor requer: devir.

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

desejo

Datação
sXIII cf. IVPM

Acepções
■ substantivo masculino
ato ou efeito de desejar; aspiração humana diante de algo que corresponda ao esperado
1 aspiração humana de preencher um sentimento de falta ou incompletude; querer, vontade
1.1 Rubrica: psicanálise.
segundo Sigmund Freud, moção psíquica que procura restabelecer a situação da primeira satisfação
2 expectativa consciente ou inconsciente de possuir (um objeto) ou alcançar (determinada situação que supra uma aspiração do corpo ou do espírito); ambição, exigência
2.1 ambição incontrolada ou excessiva; cobiça, sede
3 instinto físico que impulsiona o ser humano ao prazer sexual; atração física; lubricidade, excitação
4 Uso: informal.
ânsia de satisfazer certos apetites durante a gravidez; apetência
5 Regionalismo: Portugal.
pesar devido à ausência de (alguém ou algo); saudade
6 alvo, objeto do desejo; anelo, pretensão, propósito

Etimologia
lat. *desèdium, prov. der. do lat.cl. desidìa,ae 'estar sentado' (< lat. desidére 'permanecer sentado'), mas com evolução semântica para 'ócio', donde desidìa com acp. de 'inércia, indolência, repouso, prazer', o que teria mantido nessa pal. o signf. de desiderìum,ìi 'desejo', que não teria passado para todas as línguas românicas; ver desej-; f.hist. sXIII desejo, sXIII desege, sXIV desego, sXIV dessego, sXV deseijo, sXV dezejo

Sinônimos
ver sinonímia de capricho, impulso, lubricidade, talante e tentação e antonímia de desprendimento


O Houaiss sabe de mim. Os lusitanos também. 

Minha inesquecível professora de latim, Dona Maria da Graça, não entrava em greve por vergonha de discutir seu salário. Era nascida na cidade do Porto e ainda criança veio escondida num navio pro Rio de Janeiro, onde cresceu e formou-se, e saberá Deus porque infortúnio celeste acabou lecionando Latim I e II na USP. Era vaidosa, muito velha, cheirava a água de rosas, e falava um português lindíssimo. Aplicava provas orais numa classe de 200 alunos. Dona Maria da Graça sabia explicar de onde vinham todos meus sentimentos.

sábado, 26 de novembro de 2011

sincronicidade

abro as cidades invisíveis, no ponto em que deixei na cabeceira, antes de dormir.

As cidades ocultas
2

A vida em Raíssa não é feliz. Pelas ruas, as pessoas caminham retorcendo as mãos, imprecam às crianças que choram, encostam-se nos parapeitos do rio com a cabeça apoiada nas mãos, acordam de manhã com um pesadelo e logo começa outro. Nas mesas em que todos os momentos alguém esmaga os dedos com o martelo ou fura-se com a agulha, ou nas colunas de números negativos dos registros dos comerciantes ou dos banqueiros, ou diante da fila de copos vazios sobre o balcão dos botequins, ainda bem que as cabeças abaixadas poupam olhares tortos. Dentro das casas é pior, e não é necessário entrar para sabê-lo: no verão, as janelas ribombam de brigas e pratos quebrados.

Todavia, em Raíssa, sempre há uma criança que da janela sorri para um cão que pulou num alpendre para comer um pedaço de polenta que caiu das mãos de um pedreiro que do alto do andaime exclamou: "Minha jóia, tem um pouco para mim?" para uma jovem hospedeira que ergue um prato de sopa sob a pérgula, contente de servi-lo ao vendedor de guarda-chuvas que comemora um bom negócio, uma sombrinha de renda branca comprada por uma grande dama para pavonear-se durante as corridas, apaixonada por um oficial que lhe sorriu ao saltar o último obstáculo que estava feliz mas mais feliz ainda estava o seu cavalo, que voava sobre os obstáculos vendo voar nos céus uma perdiz, pássaro feliz liberado da gaiola por um pintor feliz de tê-lo pintado pena por pena, salpicado de vermelho e amarelo na miniatura daquela página de livro em que o filósofo diz: "Em Raíssa, cidade triste, também corre um fio invisível que, por um instante, liga um ser vivo ao outro e se desfaz, depois volta a se estender entre pontos em movimento, desenhando rapidamente novas figuras de modo que a cada segundo a cidade infeliz contém uma cidade feliz que nem mesmo sabe que existe".

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

exílio

Datação
sXIII cf. FichIVPM

Acepções
substantivo masculino
ato ou efeito de exilar
1    expatriação forçada ou por livre escolha; degredo
2    Derivação: por metonímia.
     lugar em que vive o exilado
3    Derivação: sentido figurado.
     lugar longínquo, afastado, remoto
4    Derivação: sentido figurado.
     isolamento do convívio social; solidão


quando tudo parecia fácil, como o abrir das minhas pernas.
e agora essas seis ou sete letras batendo na minha cabeça, o gosto salgado, desalinho de planetas no meio do meu peito.
sorteio palavras no dicionário, como cartas de tarô:
carpir
escapulário
escarificar
procatalético
subáptero
vacuidade
...
não encontro. não sei. 
e esse quarto feio, essa luz fria, esse dia desnecessariamente quente.
não há resquício de poesia no reencontro com velhos fantasmas.

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

carta em carinho

o que quero lhe dizer, meu benzinho, é que o amor pode travestir-se de tantas coisas, de intensidades e cores diferentes, mas ele, o amor, no fundo, é despido, desprovido de razão, de moral, de explicação. os atos de amor (me disseram um dia e eu sigo assim desde então) são a única coisa que vale à pena, que perpetua; e a escolha é sempre a mesma, viver ou não, e estamos aqui, preferindo viver.
o que quero lhe dizer, meu benzinho, é que escolhemos viver isso com você.
se houvesse como, roubávamos você. levávamos pra longe, pra construir nossas próprias memórias, reinventar o tempo, e aos poucos substituir cada desnecessário instante de violência e rudeza por segundos infinitos de delicadeza e generosidade.
porque ninguém nesse mundo mais do que você merece toda a doçura, toda a beleza.
o que quero lhe dizer, em derramada desmesura, é que seu cheiro e seu gosto não saem daqui, não passam, e esperamos você, esperaremos o quanto for preciso, porque nossos corpos gostam do seu, e nossa alma também, e não há encontro mais verdadeiro e sublime do que de corpos e almas que se desejam.
o que quero lhe dizer, amor, é que dedicaremos a você, tranquila e ardentemente, tudo o que sabemos, e saberemos com você o que houver para descobrir, com o mesmo espanto e silêncio que invadiu nossos olhos quando pousaram pela primeira vez em sua indefectível formosura.

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

transitivos

cometemos a imprudência de publicar, em papel bonito e desenhado, uma lindeza.
felicidade sem tamanho nem medida.
festa no meio do peito.

sexta-feira, 29 de abril de 2011

carta celular

e entre as posturas mais urgentes, o coração aos poucos reencontra o lugar no corpo, que é mais meu desde que tuas patas pousam na minha cintura.
e entre as mesmas posturas, os sonhos têm vindo ao meu auxílio. pois aprendi com você a tê-los de cor, a decorá-los como canção.
sonhos de dor e revelação.
assim, alumbrada, limpa e clara, ainda que lentamente, posso voltar a olhar teus azuis sem pejo.
porque te amo, sempre amei e sempre amarei passarinha, passarada, e me encaixo, justa e confortável, nas tuas mãos.

segunda-feira, 28 de março de 2011

quatro

comemorados com bandeirinhas de seda, paredes encantadas, vinho, alegria, desejo, cansaço e formosura, embalados caixas viajantes, com bênçãos de velhos fazedores de beleza.
4 mãos.
4 patas.
de 4.
que venham os próximos 400.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

ridículas revisited

quando estás assim, longe, sinto vontade de voltar, escrevo e apago repetidas vezes um texto estranho e manco que não serve. ainda sinto, acho, o impacto de ter revisitado as cartas daqui, remexido em feridas antigas, reencontrado tempos de palavras bonitas urdidas em muita água e muita dor. estou atrapalhada. vejo o vídeo do menino que dança a morte do cisne. choro muito. sinto saudade daquilo que não serei mais.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

sorte

então ela, minha ensolarada dos dias que sempre sabe de tudo, traz a notícia alvissareira, em seu primeiro registro, números dobrados, todos os nossos: 55 22 77 55-1.
na tarde de chuva caminho pelas ruas sujas da cidade abraçadíssima com ela, pensando que queria ser matemática pra poder calcular a probabilidade de tamanha fortuna, e reencontro a certeza de que sou uma mulher feliz.

sete

será que eu te faço feliz?

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

aritmética, 2011

verbos, em ar:
amar, trepar, cantar, andar, cozinhar, trabalhar, engendrar, lavrar, ordenar, encerrar, bordar (nos panos e sonhos, rosas e ensolaradas)

a mancheias, nomes:
alegria, beleza, vinho, encontro, dinheiro, saúde, delicadeza

com cautela, advérbios:
mais, bem, sempre, tanto

coisinhas numeráveis:
4 bicicletas, -1 carro, 4 vasos de ervas, 6 vidros de mantimentos, uns quadros e 2 colméias nas paredes, 1 máquina de fazer de pão, +1 disco, 271 espetáculos.

= 72 palavras.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

diário de BsAs, 1

madrugada de aeroporto, embarque às 5h15, chegada às 3h30, olhos de areia e uma felicidade transitiva, um gosto, uma vontade. na mala, as cidades invisíveis, livro repetido de viagens, como o grande sertão é sempre o de cabeceira, e sempre será. no peito um desejo do silêncio dos viajantes solitários, aqueles que vivem mais. quererei uma xícara de café, um caderno em branco, uma caneta nova, quiçá um vestido ou um xale fora de moda, e reconhecerei idéias de predestinação, na cidade que, tenho certeza, reencontrarei com a saudade das coisas desconhecidas.

quarta-feira, 3 de março de 2010

da memória, número três, final

de tanto andar no escuro, desenvolvia olhos de gato, gestos silenciosos em movimentos delinquentes.
de tanto chorar dissimulada, trazia bolsas transparentes líquidas e invisíveis sob os olhos.
de tanto desejar alegrias intangíveis, transfigurava o rosto em sorriso permanente fácil.
de tanto silenciar palavras ásperas, talhava espinhos na garganta de gritos surdos de pesadelo, voz salobra e marítima.
de tantos impossivelmentes, predestinava passarinhada:
o filho de olhos imensos em verde floresta, herança de tristeza e esperança, sonha tanto.
a filha ensolarada de risada farta, herança de tristeza e esperança, sabe sempre de tudo.
nada mais para lembrar.
o amor sempre aqui fica aqui.