meu peito arde desencontrado.
a certeza de ter um espetáculo e um movimento, a angústia de não vê-lo ainda inteiro e plástico.
a felicidade encarnada dos encontros verdadeiros de gentileza e gratidão, a tristeza oca e silenciosa de rever ou não ver as pessoas que se tornam doloridamente distantes.
dos presentes recebidos, de alegria irretribuível, tem a luiza com seus olhos imensos dizendo-me você estava linda como uma princesa, tem o sorriso orgulhoso e sem palavra do joão, tem o regalo do meu amor cada vez mais meu amor mais meu mais - essas preciosidades fazem de mim a mulher mais feliz do balcão e do mundo, pois que posso dizer que minha condenação de amar muito transmuta-se no diário amar-melhor, enreda o fio úmido do meu destino em formoso tecido roseado que não rompe nem desfaz, enche a casa de flores, e prepara minha velhice dada às mãos que escolhi e que me escolheram.
agradeço, meu deus, humílima, nem sei se mereço, e recebo tuas bênçãos acarinhada.
e peço, se sou digna de pedir, que isso traga sustento, pois que somos feitos de pão e beleza.
(Todas as palavras esdrúxulas, Como os sentimentos esdrúxulos, São naturalmente Ridículas.)
domingo, 17 de fevereiro de 2008
sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008
ridiculinha, 30
evoé de avesso:
ei, escuta, meu amor, o silêncio
um desfile de ventania no meio do peito...
ei, escuta, meu amor, o silêncio
um desfile de ventania no meio do peito...
sábado, 12 de janeiro de 2008
suspensão
as cartas vão silenciar por tempo indeterminado.
quando não se tem nada a dizer e os olhos só querem chorar, melhor repousar a palavra e a cabeça no dorso das mãos pra sentir o ar do tempo, como disse o pastor de cabras.
é que tem hora que a poesia também cala, e então só resta o perdão e a espera, em dor e solidão.
a memória não tem contorno certo e vaga por caminhos incompreensíveis, por vezes tão feios, e invariável obedece a outras velocidades.
queria ser melhor.
o amor segue infinito e intransitivo, flor de formosura, beleza violenta, rosa tatuada, grandeza, redemoinho.
na travessia.
(mãe, não se assuste, está tudo bem)
quando não se tem nada a dizer e os olhos só querem chorar, melhor repousar a palavra e a cabeça no dorso das mãos pra sentir o ar do tempo, como disse o pastor de cabras.
é que tem hora que a poesia também cala, e então só resta o perdão e a espera, em dor e solidão.
a memória não tem contorno certo e vaga por caminhos incompreensíveis, por vezes tão feios, e invariável obedece a outras velocidades.
queria ser melhor.
o amor segue infinito e intransitivo, flor de formosura, beleza violenta, rosa tatuada, grandeza, redemoinho.
na travessia.
(mãe, não se assuste, está tudo bem)
terça-feira, 8 de janeiro de 2008
reviverso
Começo 2008 miúda mas em gratidão: o caminhãozinho preto, o ano novo familiar e quente, a piscina do bb, os filmes no sofá, o projeto da casa, os espetáculos por vir, enfim, um ano que já começou começando, e isso só pode ser um bom prenúncio.
Assim espero. Assim seja.
Pois meu peito está pequeno, minh'alma apertada, os olhos opacos, vejo que minhas alvíssaras no ano passado tinham mais tristeza, mas também mais poesia, e hoje não tenho nem uma coisa nem outra, olho os papéis espalhados pelo chão mas minhas mãos desnorteadas esqueceram o caminho das gavetas, procuro, rezo, choro porque preciso urgentemente de uma boa notícia numeral pra que meu desespero não escureça o ensolarado do dia.
Assim espero. Assim seja.
Pois meu peito está pequeno, minh'alma apertada, os olhos opacos, vejo que minhas alvíssaras no ano passado tinham mais tristeza, mas também mais poesia, e hoje não tenho nem uma coisa nem outra, olho os papéis espalhados pelo chão mas minhas mãos desnorteadas esqueceram o caminho das gavetas, procuro, rezo, choro porque preciso urgentemente de uma boa notícia numeral pra que meu desespero não escureça o ensolarado do dia.
quinta-feira, 27 de dezembro de 2007
retroverso
Termino 2007 como quem come depressa demais: tudo foi tanto e tão rápido que não estou capaz de entender cada parte, de repartir a misturada em pequenas e coloridas moléculas, diferentes e minúsculas, cada uma alimento específico de um lugarzinho do meu corpo.
Termino o ano com a dor da ferida aberta e latejante, avesso repugnante purulento exposto que precisa renascer pra quem sabe cicatrizar de dentro pra fora, e que volta de novo pra me cuspir na cara aquela única certeza de que não posso perder a vigilância, nunca, não há descanso, sei disso, sei disso, e embora saber não seja suficiente, eu sei e isso precisa ser um começo.
Termino o ano repleta e transbordada de amor verdadeiro: uns frescos, desses de alegria suspensa no ar; uns renovados pela beleza do encontro; alguns em tristeza de plataforma, natureza do caminho que nem sempre é o mais fácil; amores-pra-sempre de infinitude e formosura, reinventados e sempre os mesmos; amores de gentileza; amores de solidão.
Mas termino inteira, com minha alegria simples, meus olhos imensos abertos e molhados, as mãos dedicadas, um pouco de cansaço, algum desencanto talvez, o medo sempre aqui e ali em meu desespero cotidiano.
Termino 2007 de mãos dadas a outras mãos, que é pra não esquecer e pra poder seguir adiante.
Que venha 2008, estamos prontos.
Alvíssaras.
Termino o ano com a dor da ferida aberta e latejante, avesso repugnante purulento exposto que precisa renascer pra quem sabe cicatrizar de dentro pra fora, e que volta de novo pra me cuspir na cara aquela única certeza de que não posso perder a vigilância, nunca, não há descanso, sei disso, sei disso, e embora saber não seja suficiente, eu sei e isso precisa ser um começo.
Termino o ano repleta e transbordada de amor verdadeiro: uns frescos, desses de alegria suspensa no ar; uns renovados pela beleza do encontro; alguns em tristeza de plataforma, natureza do caminho que nem sempre é o mais fácil; amores-pra-sempre de infinitude e formosura, reinventados e sempre os mesmos; amores de gentileza; amores de solidão.
Mas termino inteira, com minha alegria simples, meus olhos imensos abertos e molhados, as mãos dedicadas, um pouco de cansaço, algum desencanto talvez, o medo sempre aqui e ali em meu desespero cotidiano.
Termino 2007 de mãos dadas a outras mãos, que é pra não esquecer e pra poder seguir adiante.
Que venha 2008, estamos prontos.
Alvíssaras.
segunda-feira, 17 de dezembro de 2007
carta leal
Quando estiveres com outra mulher, meu senhor meu, peço:
que guardes na memória a angulação das ancas, a curva dos quadris, o ponto exato onde terminam as nádegas e iniciam as coxas, o recorte anterior dos joelhos, a profundidade dos tornozelos, a concha da planta e do peito dos pés, a distribuição dos dedos;
que desenhes com as mãos o ventre e o umbigo, a lateral das costelas, a junção delas com o colo e com a espinha, o caminho dos ossos que sustentam os ombros e o pescoço e os vãos preenchidos de pele e suspiro;
que descubras o comprimento dos braços, a fundura das axilas, o ranger silencioso dos cotovelos, as dobras da chegada ao punho, a maciez das mãos, as linhas da palma, a parábola entre os dedos, os nós, o nascimento das unhas e sua forma e cor, o relevo das veias sob a tez fina;
que acompanhes atenciosamente o movimento dos lábios e da língua, das pálpebras, dos cílios, das narinas em inspiração, das maçãs do rosto, do queixo, das orelhas, dos fios de cabelo em torno da testa e diante das têmporas;
que meças a densidade dos seios, o raio de cada auréola, a geografia dos mamilos, a velocidade da contração quando morderes cada um deles com carinho, a redondeza das glândulas e gosto presumível do seu leite;
que determines com precisão a dimensão de cada parte do seu sexo, especialmente do vale entre os pequenos e grandes lábios, do clitóris em todos os seus possíveis estados e do espaço entre a entrada da vagina e as pregas do ânus;
que afiras a extensão e o volume dos pelos e a trama do seu rendado, e ainda as variações de temperatura e umidade da pele e das mucosas de cada vão, de cada membro, de cada buraco.
Peço, meu senhor meu, que saibas de cor tudo o que haverá para saber e até mais, sobretudo a composição dos seus odores e a música escondida no arrepiar dos poros e no encontro do corpo com o ar. Decores e, depois, ainda quente, descreva-me pormenorizadamente: assim poderei sê-la para continuar a ser tua.
que guardes na memória a angulação das ancas, a curva dos quadris, o ponto exato onde terminam as nádegas e iniciam as coxas, o recorte anterior dos joelhos, a profundidade dos tornozelos, a concha da planta e do peito dos pés, a distribuição dos dedos;
que desenhes com as mãos o ventre e o umbigo, a lateral das costelas, a junção delas com o colo e com a espinha, o caminho dos ossos que sustentam os ombros e o pescoço e os vãos preenchidos de pele e suspiro;
que descubras o comprimento dos braços, a fundura das axilas, o ranger silencioso dos cotovelos, as dobras da chegada ao punho, a maciez das mãos, as linhas da palma, a parábola entre os dedos, os nós, o nascimento das unhas e sua forma e cor, o relevo das veias sob a tez fina;
que acompanhes atenciosamente o movimento dos lábios e da língua, das pálpebras, dos cílios, das narinas em inspiração, das maçãs do rosto, do queixo, das orelhas, dos fios de cabelo em torno da testa e diante das têmporas;
que meças a densidade dos seios, o raio de cada auréola, a geografia dos mamilos, a velocidade da contração quando morderes cada um deles com carinho, a redondeza das glândulas e gosto presumível do seu leite;
que determines com precisão a dimensão de cada parte do seu sexo, especialmente do vale entre os pequenos e grandes lábios, do clitóris em todos os seus possíveis estados e do espaço entre a entrada da vagina e as pregas do ânus;
que afiras a extensão e o volume dos pelos e a trama do seu rendado, e ainda as variações de temperatura e umidade da pele e das mucosas de cada vão, de cada membro, de cada buraco.
Peço, meu senhor meu, que saibas de cor tudo o que haverá para saber e até mais, sobretudo a composição dos seus odores e a música escondida no arrepiar dos poros e no encontro do corpo com o ar. Decores e, depois, ainda quente, descreva-me pormenorizadamente: assim poderei sê-la para continuar a ser tua.
segunda-feira, 10 de dezembro de 2007
ridiculinha, 29
férias:
arrumar a casa, tirar os monstros de dentro do armário.
nenhum alívio, só o cansaço pesado e triste de todas as encarnações.
e aquela vontade, de novo, infantil, de fechar os olhos.
arrumar a casa, tirar os monstros de dentro do armário.
nenhum alívio, só o cansaço pesado e triste de todas as encarnações.
e aquela vontade, de novo, infantil, de fechar os olhos.
quarta-feira, 5 de dezembro de 2007
idílio
Ele chega assim desavisado ao telefone, e fala comigo como se no programa de entrevistas na televisão, mas diante dos meus olhos vejo as imagens infantis do bruxo da novela, como sou ridícula, e a conversa se distende na contra-mão do costume da repartição, o assunto que começou na morte repentina da secretária e na inaptidão por procedimentos vai viajar para outras paragens, paris, samuel e bertolt, romance do novaiorquino, museu alemão das separações, tudo assim de correnteza, finalizada na promessa de um idílio internético e contemporâneo, como são as relações sem abraço.
Eu envio um link, ele deseja passear em Istambul, eu devolvo um parágrafo, ele retorna com uns versos decorados na infância, eu ofereço meia dúzia de idéias aborrecidas na minha tristeza precoce de quem envelheceu cedo, ele me presenteia com sua alegria ligeira de quem não perdeu o tempo da história e viveu como tinha de ser, eu cumpro a promessa com gentileza, ele me faz as perguntas certas e sempre as mesmas, eu desenterro a memória da menina cheia de vontade e certeza que um dia eu fui, ele me predestina feroz dizendo que sou de aço e que tenho muitos corações.
Ele assina desespoir, e mal sabe ele que esse é, no avesso, meu nome.
Eu envio um link, ele deseja passear em Istambul, eu devolvo um parágrafo, ele retorna com uns versos decorados na infância, eu ofereço meia dúzia de idéias aborrecidas na minha tristeza precoce de quem envelheceu cedo, ele me presenteia com sua alegria ligeira de quem não perdeu o tempo da história e viveu como tinha de ser, eu cumpro a promessa com gentileza, ele me faz as perguntas certas e sempre as mesmas, eu desenterro a memória da menina cheia de vontade e certeza que um dia eu fui, ele me predestina feroz dizendo que sou de aço e que tenho muitos corações.
Ele assina desespoir, e mal sabe ele que esse é, no avesso, meu nome.
quinta-feira, 29 de novembro de 2007
cartesiana
são duas casas, a do centro e a do bairro.
são duas noites, as solitárias e as infinitamente.
são duas manhãs, as cinzentas e as macias.
são duas mulheres, a contigo e a tristonha.
são dois filhos, um floresta e uma ensolarada.
são duas escolhas, viver ou não.
na misturada do mundo, no nó da tempestade, na espera dolorida, no diminutivo do peito, na limpeza da pele, no augúrio reservado, aprendo em velocidade variada a ser sempre a mesma por ser muitas.
são duas noites, as solitárias e as infinitamente.
são duas manhãs, as cinzentas e as macias.
são duas mulheres, a contigo e a tristonha.
são dois filhos, um floresta e uma ensolarada.
são duas escolhas, viver ou não.
na misturada do mundo, no nó da tempestade, na espera dolorida, no diminutivo do peito, na limpeza da pele, no augúrio reservado, aprendo em velocidade variada a ser sempre a mesma por ser muitas.
sexta-feira, 23 de novembro de 2007
arestas
os dias recentes eram ventureiros: um sorvete rápido no almoço, metade de uma noite mal dormida juntos, algumas horas barulhentas entre os sócios, um telefonema mal acabado, um jantar de primeiro tempo indigesto, um recado não respondido, uma palavra atravessada.
é certo e verdadeiro e natural que num ou noutro canto, mesmo no meio do mundo que parecia anti-horário, reencontravam aquela mesma formosura pertinaz que os sustentará por todos os séculos e séculos amém, mas nos dias recentes ela entristecida e arenosa repetia no coração a pergunta impronunciável e ele trazia nas narinas e nos duros olhos agora acinzentados o desconforto teimoso, soprados pelo passado exator no viés do vento frio do entardecer estranho de uma primavera sem estação.
é certo e verdadeiro e natural que num ou noutro canto, mesmo no meio do mundo que parecia anti-horário, reencontravam aquela mesma formosura pertinaz que os sustentará por todos os séculos e séculos amém, mas nos dias recentes ela entristecida e arenosa repetia no coração a pergunta impronunciável e ele trazia nas narinas e nos duros olhos agora acinzentados o desconforto teimoso, soprados pelo passado exator no viés do vento frio do entardecer estranho de uma primavera sem estação.
quinta-feira, 22 de novembro de 2007
sofro calado pra não lhe dizer a cada segundo o que é um segundo sem você
sem tempo, sem pouso: dragão.
segunda-feira, 19 de novembro de 2007
flores de papel
pois que essa vida é mesmo circular: minhas dobraduras adolescentes (aprendidas com carinho no livro presenteado pelo primeiro namorado) nas doze mãos contemporâneas e dadivosas vão espocar num jardim azul de risco no meio da rua mais capital da capital...
que de minhas mãos pequenas nasçam sempre lírios brancos, bênção dos descaminhos tortos da minha ancestralidade oriental, longínqua mas ainda presente nos fios finos dos meus cabelos e na ponta dos dedos que sabem, dramáticos, dobrar flores.
quiçá seja esse o sinal esperado para que assim os dias sem cor voltem a ensolarar.
que de minhas mãos pequenas nasçam sempre lírios brancos, bênção dos descaminhos tortos da minha ancestralidade oriental, longínqua mas ainda presente nos fios finos dos meus cabelos e na ponta dos dedos que sabem, dramáticos, dobrar flores.
quiçá seja esse o sinal esperado para que assim os dias sem cor voltem a ensolarar.
terça-feira, 13 de novembro de 2007
carta férrea
Precisaria, meu senhor meu, de uma bigorna amarrada aos meus pés pequenos pra que fiquem no chão, mas a memória é tão mais concreta e meu corpo fácil sobrevoa as mesas feias e os papéis acumulados, o tempo escoa entre os dedos finos, prejudico o erário em favor da nossa coleção agora compilada. Passo as horas ao largo, em outro sítio, a todo instante sofro o assalto da tua presença que me leva a firmeza dos joelhos, tu que como nenhum sabes derrubar-me dos saltos. Tua dor diante das minhas mãos não desgruda do dentro dos meus olhos, arrefece o meio do umbigo, suspendo, e lá estou eu de volta ao nosso calendário lunar, às noites imensas e horizontais e sem sono nenhum. Visito, como gostas, várias vezes meu próprio corpo na tentativa transversa de que vás embora daqui, mas no reverso e inverso estás em mim ainda mais definitivo, cadeado que perdeu a chave, âncora de profundezas profundas, navio atracado sem possibilidade de partir.
segunda-feira, 12 de novembro de 2007
quarta-feira, 7 de novembro de 2007
ano um
olha de perto, espia só:
nosso rosal formoso contumaz florido, desde aquela primeira que esqueceu de morrer.
pois que vamos juntos, de mãos dadas, na saúde e na doença, na alegria e na tristeza, no meio da rua, no umbigo do mundo, no olho dos redemoinhos todos e das tempestades, correntezas e ensolaradas, por todos e cada um dos dias de nossas vidas.
sim, nós sabemos dançar.
nosso rosal formoso contumaz florido, desde aquela primeira que esqueceu de morrer.
pois que vamos juntos, de mãos dadas, na saúde e na doença, na alegria e na tristeza, no meio da rua, no umbigo do mundo, no olho dos redemoinhos todos e das tempestades, correntezas e ensolaradas, por todos e cada um dos dias de nossas vidas.
sim, nós sabemos dançar.
terça-feira, 6 de novembro de 2007
repastagem
Deus pai, São Jorge, Santa Teresinha das minhas rosas:
olhem por mim, lupanares sagrados de aleluias, no sombrio da noitinha de vento temeroso, na simesmice das escolhas sempre solitárias, no caminho enevoado que não mostra o passo depois do passo dado.
Guimarães de rosas e de passarada: esteja sempre aqui comigo pra dar a mão de palavras que desconheço, pra reinventar aquelas que amorosam meu dizer e meu desdizer em belezuras e desdiversos, pra sorrir e chorar com estas que são o meu eumesmim, pra desenhar nosso devir em mãos-patas-dadas, barcais tatuado na carne e na delicadeza, dor e alegria, todos infinitos tudos.
Frutos meus, olhos de imensidão de floresta e ensolarada dos dias: saibam de todos os jeitos de que fomos feitos por sentir, e mesmo daqueles que ainda aprenderemos, que minha vida, meus olhos, meu cantar, minhas mãos, meu sonhar e meu desfazer são seus, desde sempre e para o sempre, pois que o amor não tem fim nem começo.
E a mim mesma, em nome de todos os anteriores e posteriores: rogo estar inteira e forte misturada confundida no meu próprio sangue que de muitos é formado formoso, que preciso de mim, e que estes outros precisam ser inteiros para desprecisarem-me.
Amém.
olhem por mim, lupanares sagrados de aleluias, no sombrio da noitinha de vento temeroso, na simesmice das escolhas sempre solitárias, no caminho enevoado que não mostra o passo depois do passo dado.
Guimarães de rosas e de passarada: esteja sempre aqui comigo pra dar a mão de palavras que desconheço, pra reinventar aquelas que amorosam meu dizer e meu desdizer em belezuras e desdiversos, pra sorrir e chorar com estas que são o meu eumesmim, pra desenhar nosso devir em mãos-patas-dadas, barcais tatuado na carne e na delicadeza, dor e alegria, todos infinitos tudos.
Frutos meus, olhos de imensidão de floresta e ensolarada dos dias: saibam de todos os jeitos de que fomos feitos por sentir, e mesmo daqueles que ainda aprenderemos, que minha vida, meus olhos, meu cantar, minhas mãos, meu sonhar e meu desfazer são seus, desde sempre e para o sempre, pois que o amor não tem fim nem começo.
E a mim mesma, em nome de todos os anteriores e posteriores: rogo estar inteira e forte misturada confundida no meu próprio sangue que de muitos é formado formoso, que preciso de mim, e que estes outros precisam ser inteiros para desprecisarem-me.
Amém.
segunda-feira, 5 de novembro de 2007
caverna
o oco do mundo está posto no meio do peito:
bolha de ar cuspida de baixo pra cima no ausente de ti e no presente em mim, contornos desenhados de vergonha triste e jorrados em pranto de desvio lamacento e sujo, barranco das encarnações, ar de fel, veneno e umidade.
escuridão.
silêncio.
mas no depois tem a pedra que vira fumaça que vira fogo, alumeia inconteste.
mas no antes tem o náutilo das funduras infinitas em ausência de qualquerzinha luz.
nos abismos abissais, não to esqueças, o amor resiste.
eu sei, o dia não amanheceu.
bolha de ar cuspida de baixo pra cima no ausente de ti e no presente em mim, contornos desenhados de vergonha triste e jorrados em pranto de desvio lamacento e sujo, barranco das encarnações, ar de fel, veneno e umidade.
escuridão.
silêncio.
mas no depois tem a pedra que vira fumaça que vira fogo, alumeia inconteste.
mas no antes tem o náutilo das funduras infinitas em ausência de qualquerzinha luz.
nos abismos abissais, não to esqueças, o amor resiste.
eu sei, o dia não amanheceu.
quarta-feira, 31 de outubro de 2007
diário da ausência, segundo dia
ontem tive vergonha de mim.
estavas lá, na praça, na cidade das cavernas, com as crianças correndo ao redor do coreto - o tempo dos viajantes é outro, bem sabes - e eu aqui, no meio da minha pequenez e do meu excesso, atrapalhando a tua noite de estrelas.
desliguei o telefone com vergonha da minha saudade, a inconveniência estalada no meio do peito, e fui dormir muito e adolescente, sem vontade de acordar.
perdoa-me, meu senhor meu, minha desmesura.
estavas lá, na praça, na cidade das cavernas, com as crianças correndo ao redor do coreto - o tempo dos viajantes é outro, bem sabes - e eu aqui, no meio da minha pequenez e do meu excesso, atrapalhando a tua noite de estrelas.
desliguei o telefone com vergonha da minha saudade, a inconveniência estalada no meio do peito, e fui dormir muito e adolescente, sem vontade de acordar.
perdoa-me, meu senhor meu, minha desmesura.
segunda-feira, 29 de outubro de 2007
diário da ausência, primeiro dia
meu senhor meu,
tenho muita saudade.
o dia foi de tumulto.
a noite foi de solidão.
tua ausência pesa-me dolorida.
te espero como nunca.
te espero como sempre.
tenho muita saudade.
o dia foi de tumulto.
a noite foi de solidão.
tua ausência pesa-me dolorida.
te espero como nunca.
te espero como sempre.
terça-feira, 23 de outubro de 2007
auguração
o ano será de sorte, costumávamos sussurrar sob a lua na janela; e nos já foi generoso, pois que ensolaramos infinitudes, pois que o disco saiu com minhas pétalas, minha tristeza e teus colchetes, pois que do encontro nasceu o risco.
o ano deveria ser de sorte, e acreditamos tanto no vôo dos pássaros, nas sincronicidades amontoadas, nas delicadezas; e tem sido verdadeiro, porque vamos juntos e sorridentes, apesar do escuro desconhecido, dos imponderáveis sucessivos, da velocidade intransigente.
são 70 dias ainda, e seguimos assim, as mãos dadas, agarradas às mãos, os joelhos empenhados em não despencar, os olhos encharcados e corajosos, muito e cada vez mais misturados, repetindo um para o outro mesmo às vezes sem certeza que tudo vai dar certo, esse é nosso ano de sorte, os números não haveriam de mentir, e o futuro logo ali pertinho nos reserva o lugar que merecemos, pois desejamos tão pouco, meu deus, só almoços de tumulto e noites de profundezas, aquele direito ao mais formoso dos desígnios e que nos prometeram inalienável: nosso rosal amoroso, teu norte no meu, o labirinto, e além.
o ano deveria ser de sorte, e acreditamos tanto no vôo dos pássaros, nas sincronicidades amontoadas, nas delicadezas; e tem sido verdadeiro, porque vamos juntos e sorridentes, apesar do escuro desconhecido, dos imponderáveis sucessivos, da velocidade intransigente.
são 70 dias ainda, e seguimos assim, as mãos dadas, agarradas às mãos, os joelhos empenhados em não despencar, os olhos encharcados e corajosos, muito e cada vez mais misturados, repetindo um para o outro mesmo às vezes sem certeza que tudo vai dar certo, esse é nosso ano de sorte, os números não haveriam de mentir, e o futuro logo ali pertinho nos reserva o lugar que merecemos, pois desejamos tão pouco, meu deus, só almoços de tumulto e noites de profundezas, aquele direito ao mais formoso dos desígnios e que nos prometeram inalienável: nosso rosal amoroso, teu norte no meu, o labirinto, e além.
Assinar:
Postagens (Atom)
