segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

ridiculinha, 29

férias:
arrumar a casa, tirar os monstros de dentro do armário.
nenhum alívio, só o cansaço pesado e triste de todas as encarnações.
e aquela vontade, de novo, infantil, de fechar os olhos.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

idílio

Ele chega assim desavisado ao telefone, e fala comigo como se no programa de entrevistas na televisão, mas diante dos meus olhos vejo as imagens infantis do bruxo da novela, como sou ridícula, e a conversa se distende na contra-mão do costume da repartição, o assunto que começou na morte repentina da secretária e na inaptidão por procedimentos vai viajar para outras paragens, paris, samuel e bertolt, romance do novaiorquino, museu alemão das separações, tudo assim de correnteza, finalizada na promessa de um idílio internético e contemporâneo, como são as relações sem abraço.
Eu envio um link, ele deseja passear em Istambul, eu devolvo um parágrafo, ele retorna com uns versos decorados na infância, eu ofereço meia dúzia de idéias aborrecidas na minha tristeza precoce de quem envelheceu cedo, ele me presenteia com sua alegria ligeira de quem não perdeu o tempo da história e viveu como tinha de ser, eu cumpro a promessa com gentileza, ele me faz as perguntas certas e sempre as mesmas, eu desenterro a memória da menina cheia de vontade e certeza que um dia eu fui, ele me predestina feroz dizendo que sou de aço e que tenho muitos corações.
Ele assina desespoir, e mal sabe ele que esse é, no avesso, meu nome.

quinta-feira, 29 de novembro de 2007

cartesiana

são duas casas, a do centro e a do bairro.
são duas noites, as solitárias e as infinitamente.
são duas manhãs, as cinzentas e as macias.
são duas mulheres, a contigo e a tristonha.
são dois filhos, um floresta e uma ensolarada.
são duas escolhas, viver ou não.
na misturada do mundo, no nó da tempestade, na espera dolorida, no diminutivo do peito, na limpeza da pele, no augúrio reservado, aprendo em velocidade variada a ser sempre a mesma por ser muitas.

sexta-feira, 23 de novembro de 2007

arestas

os dias recentes eram ventureiros: um sorvete rápido no almoço, metade de uma noite mal dormida juntos, algumas horas barulhentas entre os sócios, um telefonema mal acabado, um jantar de primeiro tempo indigesto, um recado não respondido, uma palavra atravessada.
é certo e verdadeiro e natural que num ou noutro canto, mesmo no meio do mundo que parecia anti-horário, reencontravam aquela mesma formosura pertinaz que os sustentará por todos os séculos e séculos amém, mas nos dias recentes ela entristecida e arenosa repetia no coração a pergunta impronunciável e ele trazia nas narinas e nos duros olhos agora acinzentados o desconforto teimoso, soprados pelo passado exator no viés do vento frio do entardecer estranho de uma primavera sem estação.

segunda-feira, 19 de novembro de 2007

flores de papel

pois que essa vida é mesmo circular: minhas dobraduras adolescentes (aprendidas com carinho no livro presenteado pelo primeiro namorado) nas doze mãos contemporâneas e dadivosas vão espocar num jardim azul de risco no meio da rua mais capital da capital...
que de minhas mãos pequenas nasçam sempre lírios brancos, bênção dos descaminhos tortos da minha ancestralidade oriental, longínqua mas ainda presente nos fios finos dos meus cabelos e na ponta dos dedos que sabem, dramáticos, dobrar flores.
quiçá seja esse o sinal esperado para que assim os dias sem cor voltem a ensolarar.

terça-feira, 13 de novembro de 2007

carta férrea

Precisaria, meu senhor meu, de uma bigorna amarrada aos meus pés pequenos pra que fiquem no chão, mas a memória é tão mais concreta e meu corpo fácil sobrevoa as mesas feias e os papéis acumulados, o tempo escoa entre os dedos finos, prejudico o erário em favor da nossa coleção agora compilada. Passo as horas ao largo, em outro sítio, a todo instante sofro o assalto da tua presença que me leva a firmeza dos joelhos, tu que como nenhum sabes derrubar-me dos saltos. Tua dor diante das minhas mãos não desgruda do dentro dos meus olhos, arrefece o meio do umbigo, suspendo, e lá estou eu de volta ao nosso calendário lunar, às noites imensas e horizontais e sem sono nenhum. Visito, como gostas, várias vezes meu próprio corpo na tentativa transversa de que vás embora daqui, mas no reverso e inverso estás em mim ainda mais definitivo, cadeado que perdeu a chave, âncora de profundezas profundas, navio atracado sem possibilidade de partir.

quarta-feira, 7 de novembro de 2007

ano um

olha de perto, espia só:
nosso rosal formoso contumaz florido, desde aquela primeira que esqueceu de morrer.
pois que vamos juntos, de mãos dadas, na saúde e na doença, na alegria e na tristeza, no meio da rua, no umbigo do mundo, no olho dos redemoinhos todos e das tempestades, correntezas e ensolaradas, por todos e cada um dos dias de nossas vidas.
sim, nós sabemos dançar.

terça-feira, 6 de novembro de 2007

repastagem

Deus pai, São Jorge, Santa Teresinha das minhas rosas:
olhem por mim, lupanares sagrados de aleluias, no sombrio da noitinha de vento temeroso, na simesmice das escolhas sempre solitárias, no caminho enevoado que não mostra o passo depois do passo dado.
Guimarães de rosas e de passarada: esteja sempre aqui comigo pra dar a mão de palavras que desconheço, pra reinventar aquelas que amorosam meu dizer e meu desdizer em belezuras e desdiversos, pra sorrir e chorar com estas que são o meu eumesmim, pra desenhar nosso devir em mãos-patas-dadas, barcais tatuado na carne e na delicadeza, dor e alegria, todos infinitos tudos.
Frutos meus, olhos de imensidão de floresta e ensolarada dos dias: saibam de todos os jeitos de que fomos feitos por sentir, e mesmo daqueles que ainda aprenderemos, que minha vida, meus olhos, meu cantar, minhas mãos, meu sonhar e meu desfazer são seus, desde sempre e para o sempre, pois que o amor não tem fim nem começo.
E a mim mesma, em nome de todos os anteriores e posteriores: rogo estar inteira e forte misturada confundida no meu próprio sangue que de muitos é formado formoso, que preciso de mim, e que estes outros precisam ser inteiros para desprecisarem-me.
Amém.

segunda-feira, 5 de novembro de 2007

caverna

o oco do mundo está posto no meio do peito:
bolha de ar cuspida de baixo pra cima no ausente de ti e no presente em mim, contornos desenhados de vergonha triste e jorrados em pranto de desvio lamacento e sujo, barranco das encarnações, ar de fel, veneno e umidade.
escuridão.
silêncio.
mas no depois tem a pedra que vira fumaça que vira fogo, alumeia inconteste.
mas no antes tem o náutilo das funduras infinitas em ausência de qualquerzinha luz.
nos abismos abissais, não to esqueças, o amor resiste.
eu sei, o dia não amanheceu.

quarta-feira, 31 de outubro de 2007

diário da ausência, segundo dia

ontem tive vergonha de mim.
estavas lá, na praça, na cidade das cavernas, com as crianças correndo ao redor do coreto - o tempo dos viajantes é outro, bem sabes - e eu aqui, no meio da minha pequenez e do meu excesso, atrapalhando a tua noite de estrelas.
desliguei o telefone com vergonha da minha saudade, a inconveniência estalada no meio do peito, e fui dormir muito e adolescente, sem vontade de acordar.
perdoa-me, meu senhor meu, minha desmesura.

segunda-feira, 29 de outubro de 2007

diário da ausência, primeiro dia

meu senhor meu,
tenho muita saudade.
o dia foi de tumulto.
a noite foi de solidão.
tua ausência pesa-me dolorida.
te espero como nunca.
te espero como sempre.

terça-feira, 23 de outubro de 2007

auguração

o ano será de sorte, costumávamos sussurrar sob a lua na janela; e nos já foi generoso, pois que ensolaramos infinitudes, pois que o disco saiu com minhas pétalas, minha tristeza e teus colchetes, pois que do encontro nasceu o risco.
o ano deveria ser de sorte, e acreditamos tanto no vôo dos pássaros, nas sincronicidades amontoadas, nas delicadezas; e tem sido verdadeiro, porque vamos juntos e sorridentes, apesar do escuro desconhecido, dos imponderáveis sucessivos, da velocidade intransigente.
são 70 dias ainda, e seguimos assim, as mãos dadas, agarradas às mãos, os joelhos empenhados em não despencar, os olhos encharcados e corajosos, muito e cada vez mais misturados, repetindo um para o outro mesmo às vezes sem certeza que tudo vai dar certo, esse é nosso ano de sorte, os números não haveriam de mentir, e o futuro logo ali pertinho nos reserva o lugar que merecemos, pois desejamos tão pouco, meu deus, só almoços de tumulto e noites de profundezas, aquele direito ao mais formoso dos desígnios e que nos prometeram inalienável: nosso rosal amoroso, teu norte no meu, o labirinto, e além.

quarta-feira, 10 de outubro de 2007

funcional 3

quero sumir, desaparecer.
não quero as capas de plástico, os telefonemas de bibliotecárias estúpidas, não quero a prestação de contas as notas fiscais os recibos de empenho as ordens de execução de serviço as locações de natureza artística os decretos de fixação de preços públicos as cessões por preço mínimo ou cinco por cento da bilheteria o que for de maior valor os aditamentos contratuais as dispensas de licitação a lei 8666 o despacho administrativo a reunião do conselho administrativo o grupo de obras os projetos especiais a rádio peão o alto clero, não quero mais.
minha contribuição não é frutífera, não tenho competência para bom serviço à municipalidade, minhas palavras enfeitadas e meus diminutivos não são adequados às averiguações disciplinares nem aos esclarecimentos de dolo culpa ou prejuízo ao erário.
não quero.
mereço, como disse hoje anita, um lugar mais parecido com meus sonhos:
as manhãs em casa com minhas rosas, a mesa posta, meus amores amanhecendo em tumulto ensolarado
as tardes com flores de plástico nos oratórios do meu pai
as noites tão somente de belezas.
no risco. na travessia.

segunda-feira, 8 de outubro de 2007

carta noturna

Quisera fossem, senhor meu, apenas noite nossos dias.
Debaixo do sol, senhor meu, as dobras no meu rosto aparecem e mostram a dor, o passar dos anos e as coisas que insistem em não passar; minhas mãos tremem diante do insucesso que não cansa de me derrubar em profundo desespero, este que me faz cantar chorando baixinho pra que Deus não me abandone, por favor, fica comigo; minhas pernas fraquejam, meu ar desnorteia, não como, não resulto, não consigo. Sob o dia, tudo aparece, ensurdecedor, e eu realizo que não vou aguentar. Minha derrrota, hoje sei, é diurna, inexorável e solar, zomba de mim com seus dentes claros e seus números perfeitos.
Mas escondidos do sol todos nossos anseios sobrevivem, vivem intensos em floradas escuras sucessivas e sorridentes, e minha certeza me reencontra entre teus braços macios, em tuas mãos pesadas. Nosso protetor aparece pra nos guardar, cavalgadura lunar. Nossa rosa ganha brilho e define sua luz escura, brilhante e inútil. Nossa alegria conquista toda a pele, sem limite, sem tempo, sem fim.
À noite sou feliz porque sou tua mulher, tua prostituta vadia, tua outra, tuas muitas e quaisquer. Assim, sou eu mesma.

terça-feira, 2 de outubro de 2007

( )

(prossigo no silêncio que sucede os grande encontros, com uma felicidade miúda, sorrizim...)

quarta-feira, 26 de setembro de 2007

sextante

eu vou cantar pra são jorge
eu vou cantar pro meu joão
eu vou cantar pra minha luiza
eu vou cantar pro meu minotauro
eu vou cantar pros meus amores, os presentes e os ausentes.

eu vou cantar em oração e a serviço
eu vou cantar em gratidão e oferecimento
eu vou cantar em tristeza e alegria
eu vou cantar em devoção
que é só como sei ser: amor generoso e intransitivo.

quinta-feira, 6 de setembro de 2007

mudança










amanhã vamos nos mudar.
amanhã começa uma outra história, feita de delicadezas, de memórias, e sobretudo de amor (aquele maior que mora na felicidade do encontro e nas pequenas alegrias, pois que nos descobrimos amigos de infância).
amanhã faremos um brinde ao devir.
e ao risco.

(dia 21 é a inauguração... http://www.risco6.com.br/)