Meu corpo é um continente. Nele cabe tudo e tudo nele transborda. Sangue, choro, gozo, palavra, música, gesto, silêncio, uísque, ausência, a culpa de todas as encarnações, a alegria dos encontros verdadeiros, saudade, derrota. Cabem nele aquilo que não lhe dou, o que eu não consigo e o que eu queria lhe dar. Meu canto pra quem não foi, minha voz pras cadeiras vazias do teatro, todas as cadeiras de todos os teatros com ou sem pessoas sobre elas, e ainda meu desejo e minha dúvida. Meu corpo é continente de tudo quanto eu sinto e vejo e eu sofro mais um pouco a cada dia porque não sei o que fazer com tanta dor que nele cabe e daí não cabe mais então vaza. Meu corpo vazante de contradições, meu corpo gostoso, esta bunda grande, estes peitos caídos, estes pelos que me dão preguiça de tirar mas que acho feios, meu cheiro de mulher agarrado nos pelos, e as duas minhas mãos que entendem tudo sempre, orientais, meu corpo que oferece e arrepia e tranca e grita. Meu corpo contém emocionado qualquer espécie de mínima felicidade e esperança: novos velhos amigos, irmãos, procissões, canções, pilhas de livros, ruas de pedra, varal de lâmpadas, talco, olhos vendados, abraços demorados, taturanas, crianças, café. Meu corpo dá rodopios, crispa, abre as asas e levanta os olhos, mas é terra contígua acorrentada de desesperos feminis-civis-infantis-quadris porque é continente forjado em estupros sucessivos históricos ancestrais. Meus quadris cresceram depois de dois partos, como crescem os continentes depois de maremotos, estios e abalos císmicos. Minhas articulações e músculos envelhecem como envelhecem as montanhas e o fundo do mar formando camadas sobrepostas e estratos que se friccionam, aquecem, esfriam e conformam óleos fedorentos e minerais coloridos translúcidos. Uma avalanche continental salpicada de diamantes e carne podre é o que cabe neste meu corpo pangeia, meu corpo américa, meu corpo um.
Estamos diante da iminência da morte.
Os continentes sobreviverão como sempre sobreviveram os continentes aos cataclismas, meteoros e eras glaciais. Haverá o grande silêncio e então outros diamantes e outras gorduras apodrecidas, elementos e moléculas de milhares de séculos infinitos preguiçosos a experimentar sua nova dança de espirais geométricas.
Antes, muito antes, nós morreremos de fome, tiro, injustiça e falta de poesia.
Isto eu não sei onde enfiar.
(Todas as palavras esdrúxulas, Como os sentimentos esdrúxulos, São naturalmente Ridículas.)
sábado, 20 de julho de 2019
segunda-feira, 1 de julho de 2019
cartografia 12
Escreve. Apaga. Escreve. Apaga.
Às vezes o esforço de juntar tudo, de ser coerente, ter unidade, fazer poesia, é impossivelmente difícil. Às vezes fica tudo quebrado mesmo, e o peito ardendo sem entender, sem gostar, sem aguentar. Às vezes não vale o trabalho.
Eu tenho sentido muito medo.
Apaga, escreve, apaga, escreve.
Tenho saudade de escrever à mão e ver meus riscos, rasuras, substituições, as palavras que vão se empilhando, as frases sujas, períodos confusos trocando de lugar com setas, parêntesis, uma reescritura exausta, sobreposta, caótica. Na escrita higiênica de computador as dúvidas, tropeços e erros simplesmente desaparecem como se nunca, como se só as certezas, isso é um horror. Diz que tem um aplicativo que tenta imitar isso aí, patético. Não sei mais como é a minha letra escrita, ela está ficando ilegível.
Escreve, apaga, escreve, escreve, apaga, apaga.
Uma vez minha analista me disse que sou uma mulher cindida. Outra vez ela me disse que preguiça é a palavra mais odiosa que existe, porque desrespeita o tempo que as coisas precisam pra existir crescer amadurecer morrer dentro da gente, e que não fazer nada não quer dizer que nada esteja acontecendo. Ela disse isso? Eu lembro disso?
Escreve, apaga, apaga, apaga. Escreve.
Eu não quero ser invisível.
Eu quero que este medo vá embora.
Meu corpo está maior e menor, em pedaços.
Eu preciso cantar pra não morrer.
Às vezes o esforço de juntar tudo, de ser coerente, ter unidade, fazer poesia, é impossivelmente difícil. Às vezes fica tudo quebrado mesmo, e o peito ardendo sem entender, sem gostar, sem aguentar. Às vezes não vale o trabalho.
Eu tenho sentido muito medo.
Apaga, escreve, apaga, escreve.
Tenho saudade de escrever à mão e ver meus riscos, rasuras, substituições, as palavras que vão se empilhando, as frases sujas, períodos confusos trocando de lugar com setas, parêntesis, uma reescritura exausta, sobreposta, caótica. Na escrita higiênica de computador as dúvidas, tropeços e erros simplesmente desaparecem como se nunca, como se só as certezas, isso é um horror. Diz que tem um aplicativo que tenta imitar isso aí, patético. Não sei mais como é a minha letra escrita, ela está ficando ilegível.
Escreve, apaga, escreve, escreve, apaga, apaga.
Uma vez minha analista me disse que sou uma mulher cindida. Outra vez ela me disse que preguiça é a palavra mais odiosa que existe, porque desrespeita o tempo que as coisas precisam pra existir crescer amadurecer morrer dentro da gente, e que não fazer nada não quer dizer que nada esteja acontecendo. Ela disse isso? Eu lembro disso?
Escreve, apaga, apaga, apaga. Escreve.
Eu não quero ser invisível.
Eu quero que este medo vá embora.
Meu corpo está maior e menor, em pedaços.
Eu preciso cantar pra não morrer.
domingo, 23 de junho de 2019
cartografia 11
Em alguma camada subterrânea da pele vive o mapa dos trajetos que se perdem, das travessias interrompidas, da vida que resta derramada desde os desencontros. Linhas molhadas e carmim riscam arcos invisíveis que mantém conectadas as veias pulsantes dos amantes apartados, para além da dor e do amor.
Isso eu sei porque meu corpo não esquece.
A voz que eu não lembrava preencheu 8 anos de distância e em 2 segundos era tudo de novo igual do lugar onde paramos. O cheiro. O encaixe perfeito do abraço – minhas mãos dando a volta toda na sua cintura fina e a lateral do seu peito perfeito roçando o lado de dentro do meu braço. O ciúme violento, o diálogo ligeiro, caótico. A mão na barba dele e no meu pescoço. O coração descompassado, a calcinha úmida. Ele, longe de mim e igualmente desesperado, controlando o passo pra não voltar ali no meio de toda a gente e roubar-lhe o beijo na boca demorado de que temos tanta saudade. Meu corpo afastou-se desorientado e foi automático chorando pro ponto de ônibus, e dalí seguiu pulsando pra sala de dança pra viver outro alumbramento.
Um corpo africano e deslumbrante que ensina este meu corpo brasileiro cheio de inevitáveis e horrorosos privilégios a dançar. Generoso, simples, leve. Na travessia, no tambor. Eu não tenho palavra pra descrever, e isso me preenche de certezas.
O corpo pressente, predestina.
Em alguma camada subaquática do meu corpo reside um mapa que registra os percursos dos meus amores, dores e alegrias, desenhando rios convulsos que correm pra minha boca, meus olhos, minhas mãos, se espraiam sob minha pele fina, conformam meu gesto, me são.
Meu corpo é feito de água.
Isso eu sei porque meu corpo não esquece.
A voz que eu não lembrava preencheu 8 anos de distância e em 2 segundos era tudo de novo igual do lugar onde paramos. O cheiro. O encaixe perfeito do abraço – minhas mãos dando a volta toda na sua cintura fina e a lateral do seu peito perfeito roçando o lado de dentro do meu braço. O ciúme violento, o diálogo ligeiro, caótico. A mão na barba dele e no meu pescoço. O coração descompassado, a calcinha úmida. Ele, longe de mim e igualmente desesperado, controlando o passo pra não voltar ali no meio de toda a gente e roubar-lhe o beijo na boca demorado de que temos tanta saudade. Meu corpo afastou-se desorientado e foi automático chorando pro ponto de ônibus, e dalí seguiu pulsando pra sala de dança pra viver outro alumbramento.
Um corpo africano e deslumbrante que ensina este meu corpo brasileiro cheio de inevitáveis e horrorosos privilégios a dançar. Generoso, simples, leve. Na travessia, no tambor. Eu não tenho palavra pra descrever, e isso me preenche de certezas.
O corpo pressente, predestina.
Em alguma camada subaquática do meu corpo reside um mapa que registra os percursos dos meus amores, dores e alegrias, desenhando rios convulsos que correm pra minha boca, meus olhos, minhas mãos, se espraiam sob minha pele fina, conformam meu gesto, me são.
Meu corpo é feito de água.
quarta-feira, 19 de junho de 2019
cartografia 10 e 1/2
e se você andasse pela rua
e se você temesse não
e se você corresse pela casa
e se você chorasse não
quando você sonhava com o dia
quando você dormia não
porque você morria todo dia
porque você vivia não
e se você morresse pela rua
quando você andasse em vão
e se você temesse pela casa
e se você vivesse em vão
quando você corria com o dia
quando você sofria não
porque você sonhava com a rua
porque você dormia não
mas se você amasse pela rua
e se você morresse não
mas se você amasse todo dia
só que você
podia não
pode não
sempre o não
dia
mais um dia
outro dia
e esse não
sangue
seu sangue
muito sangue
e esse não
meu corpo morre nesse chão
segunda-feira, 17 de junho de 2019
cartografia 10
Eu trabalho 24 horas por dia. Eu trabalho quando acordo, quando vou dormir, se cozinho, lavo louça, enquanto costuro um vestido azul, ao escrever um textinho desses aqui, ridículo. No coletivo enquanto olho e escuto a cidade. No domingo, jogo de futebol e sofá. Quando desenho pra mim e pros outros, e quando a folha ainda está em branco. Quando não leio aquele livro dormindo na cabeceira. Quando sonho. Quando canto, se silencio e sempre que choro. Quando não danço, se eu fujo e quando sofro (sempre sofro). Quando firmo a cabeça, canto o ponto, acendo a vela, rezo. Eu trabalho.
E isso é parte de uma constatação simples: eu escolhi. Não reclamo, não me vanglorio, não descanso, não desisto. Neste momento, enquanto escrevo e espero a água ferver pra cozinhar mandioca, eu choro e sei, inteiriço, que assim que é, simples e bruto como uma pedra. Eu coloquei meu corpo a serviço da poesia, e isso tomou conta dos meus ossos, do meu sangue, da água que corre no meu corpo, do ar que entra e sai dos meus buracos. Meu corpo trabalha e isso é indomável.
A arte, eu aprendi, é a manifestação da alegria no trabalho. Eu trabalho.
Trabalho é verbo, portanto movimento – rodopio, salto, mergulho, profundeza, superfície, altitudes, gravidade. No atravessado e na travessia. Durante, enquanto, no infinito percurso entre dois instantes, dois músculos, duas notas, duas sílabas. Trabalho não é substantivo, e não tem pronome possessivo que o enfrente.
E isso é parte de uma constatação simples: eu escolhi. Não reclamo, não me vanglorio, não descanso, não desisto. Neste momento, enquanto escrevo e espero a água ferver pra cozinhar mandioca, eu choro e sei, inteiriço, que assim que é, simples e bruto como uma pedra. Eu coloquei meu corpo a serviço da poesia, e isso tomou conta dos meus ossos, do meu sangue, da água que corre no meu corpo, do ar que entra e sai dos meus buracos. Meu corpo trabalha e isso é indomável.
A arte, eu aprendi, é a manifestação da alegria no trabalho. Eu trabalho.
Trabalho é verbo, portanto movimento – rodopio, salto, mergulho, profundeza, superfície, altitudes, gravidade. No atravessado e na travessia. Durante, enquanto, no infinito percurso entre dois instantes, dois músculos, duas notas, duas sílabas. Trabalho não é substantivo, e não tem pronome possessivo que o enfrente.
sábado, 8 de junho de 2019
cartografia 9
Sou filha de uma geração de mulheres infelizes. Que não puderam escolher. Que quando trabalharam, sentiram a culpa de duas mil encarnações por abandonar seus filhos. Que quando não trabalharam, ficaram frustradas. Que não souberam o que ser depois que não eram mais mães indispensáveis de seus filhos. Que não souberam o que fazer com aquele homem estranho que estava dentro de casa quando os filhos partiram, maridos que, por sua vez, não esperavam quase nada delas, ou somente que cuidassem dos filhos, da casa e deles mesmos, quando envelhecessem satisfeitos depois de 35 anos de trabalho. Mulheres que não prepararam sua solidão, sua individuação. Que pararam de transar na menopausa, que nunca se masturbaram, que não beijaram na boca, e que não tiveram outro homem, outra mulher. Que viveram, e sobretudo envelheceram sem direito ao desejo. E que se tentaram se reinventar, causaram uma hecatombe interna e externa. Que não tiveram a condição psíquica de entender a grandeza de suas ações, pois que, apesar de tudo, suas filhas são mulheres outras, diferentes, até invejáveis. Essas mulheres agora, velhas, não conseguem desfrutar a alegria de terem sido o que era possível ser diante de um mundo em destruição. Perdidas entre o que deveriam ter sido, o que gostariam de ter vivido, e a vergonha do que realmente são.
Meu corpo responde a este legado.
Há duas semanas eu estou inerte, letárgica. Mergulhei numa apatia estranha, estou lenta, pesada, endurecida. É claro que tem os cadáveres dos leões cotidianos acumulados na sala, no quarto, na cozinha. Tem os tantos pratinhos espatifados no chão. E tem a derrota civil, esse país que não cansa de nos foder. Mas tem essa herança genética, esse lastro que mostra seus contornos e sombras, todos os dias.
Hoje é o meu corpo que envelhece. Eu não sou a mesma mulher que a minha mãe - graças a ela, inclusive. Mas eu também sou aquela mulher, porque sou uma mulher brasileira, meu corpo foi domesticado, há 519 anos, pra ser subalterno, frustrado e infeliz.
É por isso que não posso sucumbir.
Meu corpo responde a este legado.
Há duas semanas eu estou inerte, letárgica. Mergulhei numa apatia estranha, estou lenta, pesada, endurecida. É claro que tem os cadáveres dos leões cotidianos acumulados na sala, no quarto, na cozinha. Tem os tantos pratinhos espatifados no chão. E tem a derrota civil, esse país que não cansa de nos foder. Mas tem essa herança genética, esse lastro que mostra seus contornos e sombras, todos os dias.
Hoje é o meu corpo que envelhece. Eu não sou a mesma mulher que a minha mãe - graças a ela, inclusive. Mas eu também sou aquela mulher, porque sou uma mulher brasileira, meu corpo foi domesticado, há 519 anos, pra ser subalterno, frustrado e infeliz.
É por isso que não posso sucumbir.
domingo, 2 de junho de 2019
cartografia 8
"Transtorno Dismórfico Corporal (TDC): doença mental que envolve um foco obsessivo em um defeito que a pessoa considera ter na própria aparência. É comum, mais de 150 mil casos por ano no Brasil. O tratamento pode ajudar, mas essa doença não tem cura. Crônico: pode durar anos ou a vida inteira. O defeito pode ser pequeno ou imaginado. Mas a pessoa pode passar horas por dia tentando corrigi-lo. A pessoa pode experimentar muitos procedimentos estéticos ou se exercitar em excesso. Indivíduos com esse transtorno costumam examinar sua aparência no espelho com frequência, compará-la constantemente com a dos outros e evitar situações sociais ou fotos. O tratamento pode incluir terapia e medicação antidepressiva."
Meu TDC é ao contrário: eu me imagino menor, mais delgada, mais leve, mais ágil, mais organizada do que realmente sou. Eu sou uma galinha que se acha um cisne. Auto-estima? Não, auto-sabotagem mesmo. Eu acho que poderia dançar, e então vejo o filme e me frustro, eu sou muito atrapalhada. Eu tiro autorretratos e acho bonito, depois acho feito, sinto vergonha mas me exponho, anseio comentários e quero apagar tudo, quem se interessa? Eu me interesso, isso é importante, caralho. Importante, oi? Eu publico um diário desnudo e difícil esperando que isso faça minha rotina imaginada de 3 vezes de ginástica por semana funcionar. Não vou na aula, não vou na academia, digo baixinho pra mim mesma que trabalho muito, estou cansada, então tudo bem. Tudo bem nada, estou com preguiça e eu detesto ter preguiça, acho feio, acho burro. Mas não vou. Mas segunda feira é amanhã, e dessa vez vou conseguir. Hoje é domingo, o dia está lindamente feio, e eu estou com vontade de chorar.
Eu sou um poço sem fundo de contradição e indisciplina.
Meu TDC é ao contrário: eu me imagino menor, mais delgada, mais leve, mais ágil, mais organizada do que realmente sou. Eu sou uma galinha que se acha um cisne. Auto-estima? Não, auto-sabotagem mesmo. Eu acho que poderia dançar, e então vejo o filme e me frustro, eu sou muito atrapalhada. Eu tiro autorretratos e acho bonito, depois acho feito, sinto vergonha mas me exponho, anseio comentários e quero apagar tudo, quem se interessa? Eu me interesso, isso é importante, caralho. Importante, oi? Eu publico um diário desnudo e difícil esperando que isso faça minha rotina imaginada de 3 vezes de ginástica por semana funcionar. Não vou na aula, não vou na academia, digo baixinho pra mim mesma que trabalho muito, estou cansada, então tudo bem. Tudo bem nada, estou com preguiça e eu detesto ter preguiça, acho feio, acho burro. Mas não vou. Mas segunda feira é amanhã, e dessa vez vou conseguir. Hoje é domingo, o dia está lindamente feio, e eu estou com vontade de chorar.
Eu sou um poço sem fundo de contradição e indisciplina.
terça-feira, 28 de maio de 2019
cartografia 7
Eu não sei jogar xadrez, e isso diz muito sobre mim. Invejo planejamentos, a tática de movimentos sobrepostos, o vislumbre das probabilidades resultantes de variáveis possíveis, o depois do depois enxergado no antes do antes.
Minha vida sempre foi de roldão: ofícios, filhos, amores, dinheiros, desamores. Sou feita de sustos, imperativos e intuições, movimentos reflexos. A malabarista dos pratinhos que giram desordenados sobre as varetas finas que às vezes vão despencando, um a um, traidores e ardilosos, e apesar do cataclisma iminente, a moça mantém o riso no rosto, mesmo com as dores nos ossos, o peito moído, os olhos transbordados, e num tcharam desajeitado põe tudo pra rodar de novo.
45 anos mais ou menos desse jeito, teimosa e valente, sem desistir.
Maio de 2019, Corpo em Risco: 35 pessoas-formosura de tudo quanto é jeito, 6 encontros, 30 horas pra construir coletivamente um espetáculo de 30 minutos, acompanhado de música ao vivo, e eu, além de dançar, responsável por compor a trilha cantando ao lado de 3 músicos imensos. Tudo conduzido por um homem incrível (sim, há homens incríveis), que tem me ensinado, talvez sem ele mesmo saber, o contorno que meu corpo pode ter, pra minha alma res/existir do tamanho que ela tem.
Ói a Juliana no olho do furacão, de novo: quem disse que eu sei improvisar? e se eu não tiver nenhuma ideia no meio do tudo ao mesmo tempo agora, e se me vier um silêncio de encarnações? e se-se-se? Eu ali, toda apertada em leggins e tops de ginástica que eu detesto, desconfortável, com medo, exposta, pelada, encolhida. Eita.
Pois que as varetas permaneceram girando no ar... eu malabarista vermelha. Fizemos, bem juntos, um troço muito, muito lindo. Foi um dia-mante, e eu não vou ter nunca como agradecer.
Fiquei envergonhada de dançar - atrapalhada, pesada, dura... Mas ao mesmo tempo senti a plenitude da certeza de saber que a música mora dentro de mim, inteiriça – meu corpo a serviço, como tem de ser. Pois que eu vivo pelos encontros verdadeiros, que me mostram, com sua gentileza, que generosidade, entrega e alegria são a cola mais potente pra juntar, como ouro, os nossos pedaços.
Minha vida sempre foi de roldão: ofícios, filhos, amores, dinheiros, desamores. Sou feita de sustos, imperativos e intuições, movimentos reflexos. A malabarista dos pratinhos que giram desordenados sobre as varetas finas que às vezes vão despencando, um a um, traidores e ardilosos, e apesar do cataclisma iminente, a moça mantém o riso no rosto, mesmo com as dores nos ossos, o peito moído, os olhos transbordados, e num tcharam desajeitado põe tudo pra rodar de novo.
45 anos mais ou menos desse jeito, teimosa e valente, sem desistir.
Maio de 2019, Corpo em Risco: 35 pessoas-formosura de tudo quanto é jeito, 6 encontros, 30 horas pra construir coletivamente um espetáculo de 30 minutos, acompanhado de música ao vivo, e eu, além de dançar, responsável por compor a trilha cantando ao lado de 3 músicos imensos. Tudo conduzido por um homem incrível (sim, há homens incríveis), que tem me ensinado, talvez sem ele mesmo saber, o contorno que meu corpo pode ter, pra minha alma res/existir do tamanho que ela tem.
Ói a Juliana no olho do furacão, de novo: quem disse que eu sei improvisar? e se eu não tiver nenhuma ideia no meio do tudo ao mesmo tempo agora, e se me vier um silêncio de encarnações? e se-se-se? Eu ali, toda apertada em leggins e tops de ginástica que eu detesto, desconfortável, com medo, exposta, pelada, encolhida. Eita.
Pois que as varetas permaneceram girando no ar... eu malabarista vermelha. Fizemos, bem juntos, um troço muito, muito lindo. Foi um dia-mante, e eu não vou ter nunca como agradecer.
Fiquei envergonhada de dançar - atrapalhada, pesada, dura... Mas ao mesmo tempo senti a plenitude da certeza de saber que a música mora dentro de mim, inteiriça – meu corpo a serviço, como tem de ser. Pois que eu vivo pelos encontros verdadeiros, que me mostram, com sua gentileza, que generosidade, entrega e alegria são a cola mais potente pra juntar, como ouro, os nossos pedaços.
quinta-feira, 23 de maio de 2019
cartografia 6
A verdade é que nós estamos fodidos para caralho. Ontem peguei um táxi e o rádio estava na Jovem Pan; fiquei ouvindo, entre o pavor e a curiosidade mórbida, por uns 30 minutos, um programa de humor e política. E a única certeza que eu tenho é esta: nós estamos muito fodidos. Na merda mesmo, chafurdando, afogados, cocô em todos os buracos e teimando em acreditar, alucinados, que ainda tem alguma saída, mágica ou lógica. Mas depois dessa meia hora... não, não tem. Nós estamos fingindo que não, mas estamos fodidos. Deprimidos. Exaustos. Desesperados. Com medo de não ter dinheiro, trabalho, palco, fôlego, voz, corpo, espírito, velhice, espaço, tempo, filhos, emprego, comida, cachaça, café, cafuné, abraço, cigarro, escola, universidade, bolsa, aluno, instrumento, lugar. Uma falta de mil palavras. Não tem mais lugar pra gente. Gente que nem eu, corpo, alma, espírito, gesto, afeto, alegria, amor e poesia. Saí do táxi como quem sai do liquidificador.
Cheguei no terreiro. Bati cabeça, cantei, dancei, entreguei o corpo, dei passagem, recebi, ofereci. Imediato, a mensagem: isso tudo é verdade, e ainda assim, não é motivo pra des-viver. Te vira, Juliana. Você não é fogo, não é água? Respira, faz a curva e vai achar a leveza.
Minhas articulações não dóem, o que já é alguma saúde. Mas todos os meus músculos gritam, reclamam sua existência. Menstruei hoje e vou ter enxaqueca, certeza. O dia é cheio e vai longe, eu de novo na travessia.
Mas nada disso tem importância.
Pára tudo e vai ouvir o disco do Douglas Germano. É sério: Escumalha. Flecha de caboclo, pedrada de Exu. Canção que atravessa e ilumina o escuro da morte, pra nos salvar do desencantamento.
Cheguei no terreiro. Bati cabeça, cantei, dancei, entreguei o corpo, dei passagem, recebi, ofereci. Imediato, a mensagem: isso tudo é verdade, e ainda assim, não é motivo pra des-viver. Te vira, Juliana. Você não é fogo, não é água? Respira, faz a curva e vai achar a leveza.
Minhas articulações não dóem, o que já é alguma saúde. Mas todos os meus músculos gritam, reclamam sua existência. Menstruei hoje e vou ter enxaqueca, certeza. O dia é cheio e vai longe, eu de novo na travessia.
Mas nada disso tem importância.
Pára tudo e vai ouvir o disco do Douglas Germano. É sério: Escumalha. Flecha de caboclo, pedrada de Exu. Canção que atravessa e ilumina o escuro da morte, pra nos salvar do desencantamento.
sábado, 18 de maio de 2019
cartografia 5
Ao final do quarto dia dançando, pela primeira vez eu sinto prazer. E um silêncio toma conta da minha alma.
Pausa.
Há 15 meses fui pra uma gira de passe e consulta num terreiro de umbanda, e como em outras vezes em outros lugares, fui tomada - admiração, surpresa, reconhecimento, compaixão, generosidade. Como das outras vezes, algum tremelique no corpo, a vontade solta de chorar, um descabimento e certa ansiedade. Mas naquela noite de fevereiro eu fui invadida subitamente por um amor de uma qualidade inédita pra mim, e, diferentemente das outras vezes, eu abri a guarda. Meu joelho soltou. Minha cabeça sumiu. Meu corpo cedeu. Eu virei. Não foi exatamente bom, não foi como eu imaginava. Foi absoluto. Um espanto, uma honra, uma verdade. Naquela última sexta-feira calorenta de um fevereiro quente, pelas mãos da Pombogira Maria Padilha da mãe Trícia, eu encontrei meu ilê e meu congá.
De lá pra cá eu significo e ressignifico, diariamente, as palavras entrega, confiança, amor, justiça e verdade. Devagarinho, com devoção e humildade, entrego meu corpo à passagem mais formosa, que vem de muito antes e vai pra muito além. Sou parte. Sinto a sombra e a luz, seus contornos difusos ou precisos, misturo, digiro e ofereço, elevo e assento, firmo e assopro, macumbo, trabalho. Eu trabalho. Trabalho muito pra entender, com todas as fibras de que sou feita, que tamanho é o tamanho da alma.
Volta.
Ao final do quarto dia eu reencontro o prazer silencioso de constatar que tudo é a mesma coisa. Sou e estou para a poesia. Meu corpo real é pesado e é passarinho, feito de água, vento e música, e está a serviço.
Pausa.
Há 15 meses fui pra uma gira de passe e consulta num terreiro de umbanda, e como em outras vezes em outros lugares, fui tomada - admiração, surpresa, reconhecimento, compaixão, generosidade. Como das outras vezes, algum tremelique no corpo, a vontade solta de chorar, um descabimento e certa ansiedade. Mas naquela noite de fevereiro eu fui invadida subitamente por um amor de uma qualidade inédita pra mim, e, diferentemente das outras vezes, eu abri a guarda. Meu joelho soltou. Minha cabeça sumiu. Meu corpo cedeu. Eu virei. Não foi exatamente bom, não foi como eu imaginava. Foi absoluto. Um espanto, uma honra, uma verdade. Naquela última sexta-feira calorenta de um fevereiro quente, pelas mãos da Pombogira Maria Padilha da mãe Trícia, eu encontrei meu ilê e meu congá.
De lá pra cá eu significo e ressignifico, diariamente, as palavras entrega, confiança, amor, justiça e verdade. Devagarinho, com devoção e humildade, entrego meu corpo à passagem mais formosa, que vem de muito antes e vai pra muito além. Sou parte. Sinto a sombra e a luz, seus contornos difusos ou precisos, misturo, digiro e ofereço, elevo e assento, firmo e assopro, macumbo, trabalho. Eu trabalho. Trabalho muito pra entender, com todas as fibras de que sou feita, que tamanho é o tamanho da alma.
Volta.
Ao final do quarto dia eu reencontro o prazer silencioso de constatar que tudo é a mesma coisa. Sou e estou para a poesia. Meu corpo real é pesado e é passarinho, feito de água, vento e música, e está a serviço.
sexta-feira, 17 de maio de 2019
cartografia 4
Mapas servem ao movimento; em estado de inércia ou paralisia, não há necessidade de rosa dos ventos, estrelas, bússola. Desenhar um mapa é revelar o desejo do percurso. É sem volta e é infinito.
* * *
Assumir-se na travessia no meio da noite escura do pior pesadelo, e aceitar serenamente o que é estranho, difícil, dolorido, feio, e também o que é flor florida, rosal formoso, presente com laço de fita, amor inconteste. Meu corpo-relevo se desenha em relação, junto, com. Minha cartografia solitária só existe em estado de alteridade.
* * *
Hoje percebo que este mapa-movimento do meu corpo é na verdade uma carta de marear, pois que vivemos num naufrágio continuado: desespero, horror, pesadelo cotidianos sucessivos a invadir os buracos do meu corpo pessoal e do nosso corpo coletivo, infectados de lama tóxica, injustiça e deficiência cognitiva. Estar em movimento é condição de sobrevivência; um corpo inerte, parado, inexoravelmente afunda.
* * *
Assumir-se na travessia no meio da noite escura do pior pesadelo, e aceitar serenamente o que é estranho, difícil, dolorido, feio, e também o que é flor florida, rosal formoso, presente com laço de fita, amor inconteste. Meu corpo-relevo se desenha em relação, junto, com. Minha cartografia solitária só existe em estado de alteridade.
* * *
Hoje percebo que este mapa-movimento do meu corpo é na verdade uma carta de marear, pois que vivemos num naufrágio continuado: desespero, horror, pesadelo cotidianos sucessivos a invadir os buracos do meu corpo pessoal e do nosso corpo coletivo, infectados de lama tóxica, injustiça e deficiência cognitiva. Estar em movimento é condição de sobrevivência; um corpo inerte, parado, inexoravelmente afunda.
sexta-feira, 10 de maio de 2019
cartografia 3
Eu fiz 12 anos de análise. Os 10 primeiros foram só resistência.
Eu não queria estar ali. Chegava atrasada, não ia, não pagava, não queria deitar no divã, discutia detalhes semânticos estúpidos, duvidei da competência da minha analista porque ela tinha joanetes e um nome estranho. Chorei muito, falei demais e disse muito pouco. Adoeci, machuquei um tanto de gente, inclusive a mim mesma, fui pro hospital, quase morri, tive que tomar remédio pra não enlouquecer. Era peixe no samburá, debatendo desesperada como fosse asfixiar. Eu não queria ser, mas sim parecer com aquilo que eu achava que todo mundo ia achar bonito que eu tivesse sendo. E aquele processo violento me colocava diante da escolha única possível: ou a gente morre, ou a gente vive. E é tão mais fácil morrer.
Mas nos dois últimos anos de análise experimentei a sensação única e maravilhosa de entrega, perdão, amor e profundidade. E ouvi então o silêncio escuro transparente do oceano mais limpo e mais bonito que habita o centro do meu coração e da minha inteligência. Eu gostei molhado do que encontrei. Mudei a vida, ensolarei, no pra-sempre-bom das alegrias desimportantes e na beleza do dia-a-dia predestinado de poesia.
Escolho viver. Meu coração cavalo sem domar. Minha voz vento e água, condão e condenação, a serviço. Olhos molhados. Não ando só. E dou graças.
Hoje, é meu corpo envelhecendo que resiste, volta a ser lambari no samburá. Tem sono, dor, perde o tempo, debate, machuca, desencontra, arfa, desmaia. O movimento que nasce nos meus olhos e no meu peito lhe é estranho, alheio, como se os contornos e os preenchimentos não me pertencessem. Eu não sei onde estão minhas costas, minha espinha é esfarelada, meus pés fazem bolhas internas sanguíneas sucessivas, como se não pudessem tocar o chão, ao tempo que meus quadris, que sempre julguei fáceis, são um peso rígido mal esculpido em pedra seca, áspera e sem formosura.
No meu corpo ainda não acho a música, tampouco o silêncio, menos ainda a leveza. Ainda quero parecer. Mas a escolha permanece a mesma. E a minha resposta também.
Eu não queria estar ali. Chegava atrasada, não ia, não pagava, não queria deitar no divã, discutia detalhes semânticos estúpidos, duvidei da competência da minha analista porque ela tinha joanetes e um nome estranho. Chorei muito, falei demais e disse muito pouco. Adoeci, machuquei um tanto de gente, inclusive a mim mesma, fui pro hospital, quase morri, tive que tomar remédio pra não enlouquecer. Era peixe no samburá, debatendo desesperada como fosse asfixiar. Eu não queria ser, mas sim parecer com aquilo que eu achava que todo mundo ia achar bonito que eu tivesse sendo. E aquele processo violento me colocava diante da escolha única possível: ou a gente morre, ou a gente vive. E é tão mais fácil morrer.
Mas nos dois últimos anos de análise experimentei a sensação única e maravilhosa de entrega, perdão, amor e profundidade. E ouvi então o silêncio escuro transparente do oceano mais limpo e mais bonito que habita o centro do meu coração e da minha inteligência. Eu gostei molhado do que encontrei. Mudei a vida, ensolarei, no pra-sempre-bom das alegrias desimportantes e na beleza do dia-a-dia predestinado de poesia.
Escolho viver. Meu coração cavalo sem domar. Minha voz vento e água, condão e condenação, a serviço. Olhos molhados. Não ando só. E dou graças.
Hoje, é meu corpo envelhecendo que resiste, volta a ser lambari no samburá. Tem sono, dor, perde o tempo, debate, machuca, desencontra, arfa, desmaia. O movimento que nasce nos meus olhos e no meu peito lhe é estranho, alheio, como se os contornos e os preenchimentos não me pertencessem. Eu não sei onde estão minhas costas, minha espinha é esfarelada, meus pés fazem bolhas internas sanguíneas sucessivas, como se não pudessem tocar o chão, ao tempo que meus quadris, que sempre julguei fáceis, são um peso rígido mal esculpido em pedra seca, áspera e sem formosura.
No meu corpo ainda não acho a música, tampouco o silêncio, menos ainda a leveza. Ainda quero parecer. Mas a escolha permanece a mesma. E a minha resposta também.
domingo, 28 de abril de 2019
cartografia 2
Meu corpo está a deriva, e desenha riscos disformes.
Rígido e frouxo, ele dói.
Constato, perturbada, que não sei onde está o centro, meu umbigo perdido pesa duas toneladas. Meus olhos, junto com ele, querem afundar definitivo no assoalho da sala ensolarada e quente, cheia de gente tão perto e tão longe. Ninguém me reconhece. Eu não me conheço.
Mas levanto o rosto, em resignação religiosa.
Não sinto prazer, nem alegria. Ainda. O que sinto é da ordem das certezas.
Tudo ao redor parece um grande, sorridente e ainda distante devir.
Meu corpo tem pressa e vergonha. Meu corpo dói.
Há uma beleza sofrida em abandonar-se ao ridículo.
Rígido e frouxo, ele dói.
Constato, perturbada, que não sei onde está o centro, meu umbigo perdido pesa duas toneladas. Meus olhos, junto com ele, querem afundar definitivo no assoalho da sala ensolarada e quente, cheia de gente tão perto e tão longe. Ninguém me reconhece. Eu não me conheço.
Mas levanto o rosto, em resignação religiosa.
Não sinto prazer, nem alegria. Ainda. O que sinto é da ordem das certezas.
Tudo ao redor parece um grande, sorridente e ainda distante devir.
Meu corpo tem pressa e vergonha. Meu corpo dói.
Há uma beleza sofrida em abandonar-se ao ridículo.
cartografia ou um corpo que res/existe - abertura
Exu acertou o pássaro ontem com a pedra que lançou hoje
e acertará, com a pedra que lançou ontem,
o pássaro que ainda não voou
e acertará, com a pedra que lançou ontem,
o pássaro que ainda não voou
Começo aqui um registro cartográfico do meu corpo.
Viagem anunciada: desconforto, desformatura, deslocamento.
Dançar nunca foi uma opção.
Dançar nem sequer foi um desejo.
Dançar sempre foi a saudade do que eu jamais fui.
Mas à semelhança dos meus partos - filhos, discos, espetáculos - meu corpo conhece a inércia e a iminência, e entre uma e outra, o vazio silencioso que antecede as importâncias. Feito de água, vento e palavra, a um só tempo continente e cachoeira.
Dançar é agora urgência. Ato político. Gravidez da voz que sempre tive e da que ainda terei. Procedimento e polinização.
Risco aqui a cartografia do meu corpo. Um corpo cruzado, atravessado e na travessia. Corpo-percurso, subversivo, resiliente, e que envelhece. Um corpo em busca do que já foi, e que quer lembrar o que será.
Risco aqui a cartografia do meu corpo. Um corpo cruzado, atravessado e na travessia. Corpo-percurso, subversivo, resiliente, e que envelhece. Um corpo em busca do que já foi, e que quer lembrar o que será.
cartografia ou um corpo que res/existe - prelúdio
"... o projeto de normatização deste Brasil de horrores, para que seja bem sucedido, precisou de estratégias de desencantamento do mundo e aprofundamento da colonização dos corpos. É o corpo, afinal, que sempre ameaçou, mais do que as palavras, de forma mais contundente o projeto colonizador fundamentado na catequese, no trabalho forçado, na submissão ostensiva da mulher e na preparação dos homens para a virilidade expressa na cultura da curra: o corpo convertido, o corpo escravizado, o corpo feito objeto e o corpo como arma letal. Este Brasil é um país de corpos doentes, condicionados e educados para o horror como empreendimento.
(...)
É neste sentido que não acho que o Brasil deu errado. (...) O Brasil foi projetado pelos homens do poder para ser isso aí: excludente, racista, machista, homofóbico, concentrador de renda, inimigo da educação, violento, assassino de sua gente, intolerante, boçal, misógino, castrador, faminto e grosseiro. Somos isso tudo, não? Nosso problema não é ter dado errado. O Brasil como projeto, até agora, deu certo.
Eu não desisto. O trabalho é miúdo, constante, longo, de enfrentamento e aprendizado. A ideia de resistir não é mais suficiente. O papo é reexistir mesmo, com a paciência da mulher rendeira, a ginga do capoeira e a destreza de Ogunhê na forja das ferramentas: arado, lança, pilão e cimitarra.
(...)
A nossa chance é começar a dar errado, como indivíduos e coletividade, com a maior urgência. Essa é a tarefa/jangada do Dragão no mar de Aracati para os próximos dias, meses e anos. Embarquemos nela desde já, desafiando os ventos da tempestade."
Luiz Antonio Simas, 26 de outubro 2018
sábado, 27 de janeiro de 2018
carta para meus filhos
Há algum tempo, vocês sabem, não comemoro datas tradicionais, aniversários, dia das mães, natal. Acho mais bonita a celebração dos pequenos milagres cotidianos, o cheiro do café coado de manhã cedo, a comida fresca na mesa, um vinho ocasional, a alegria incomparável das pequenas e profundas conquistas. Talvez porque saiba, definitivamente, que minha sina (dor e prazer) é cuidar de gente, com minha voz e com minhas mãos, e isso não é coisa que valha algum dinheiro nesse mundo todo torto, e no final das contas, nem me importa mais, a gente vai equilibrando os pratinhos. Talvez também porque envelheça rápido e entenda, cada vez mais profundamente, aquilo que aprendi nas aulas de filosofia, e que está no evangelho de São João: os atos de amor são a única coisa que realmente fica - e entendo por ato de amor as diversas e imprescindíveis formas de gentileza, compaixão, justiça, alimento e beleza, e ainda todas as maneiras com que duas ou mais pessoas resolvam se relacionar verdadeiramente com seus corpos e seus espíritos.
Enfim, tudo isso pra dizer que não escrevi pra vocês no ano novo ou aniversário, mas agora, numa tarde quente de janeiro, em que percebo que temos coisas a comemorar, miúda e emocionadamente, pois que nas últimas semanas vivemos pequenos milagres e singelas conquistas, resultados de nossa valentia, teimosia, inteligência, da generosidade dos que nos cercam, e de uma pequena dose de sorte (que tantas vezes nos falta).
Pois vejam.
O Uruguay é um imenso azul celeste de horizonte infinito e além, com um vento incessante, e a gente se sente grande e pequeno ao mesmo tempo. Quando vocês vierem (e tenho certeza que virão), vão ver uma gente comprometida, sabida, que usa suas coisas à exaustão (me lembrei a todo tempo de um dos meus poemas preferidos do Brecht, "De todas as obras", e a sublime beleza das coisas que foram tocadas por muitas mãos...), que ri largo, que já sofreu muito, não tem quase nada, e se orgulha do lugar que está construindo; que te beija as bochechas e aperta a mão de verdade; que põe plantinhas pra crescer em todos os cantos; que tem muitos livros, muitos!; que fica na rua até tarde aproveitando o pôr do sol. Enfim, uma gente e um lugar pra viver.
E aqui, miúda, quente e cheia de ventos, eu lembrei de uma coisa esquecida.
Estar num lugar em que ninguém te conhece é das sensações mais magníficas que existem, a inebriante iminência de se ser tudo o que você queria ser sem medo. Conhecer gente muito diferente da gente, no variado comezinho, e ainda assim, reconhecer-se semelhante e partícipe, é sublime. Uma combinação linda de solidão, alegria, surpresa e completude. Incerteza e poesia.
E olha que coisa: vocês estão, por outras circunstâncias, diante dessas mesmas possibilidades, e eu me emociono (e é exatamente isso que queria lhes dizer) com a importância desse momento: você, João, e você, Luiza, e a imensa potência do que estão construindo em e para suas vidas, sozinhos, mas de mãos dadas a uma grande força amorosa erguida desde muito tempo por aqueles que estão juntos de vocês e sempre estiveram. Neste ponto do caminho, de incerteza e poesia, vocês podem se inventar e se reinventar. Vocês podem ser o que quiserem ser, não ser nada e ser tudo. Vocês podem conhecer gente diferente e igual. Mesmo que a realidade feia e imperativa mostre suas unhas e seus limites, mesmo que estejamos condenados a uma engrenagem perversa e injusta (e mudar isso nos custe talvez a vida), vocês podem ser, onde for, do jeito que for, com quem for; com frio na barriga e tremor nas mãos, vocês podem, intransitivamente - a tal combinação linda de solidão, alegria, surpresa e completude.
Isso fez um tcharam aqui, e preenche agora meu peito vermelho de um sentimento único e indizível. Choro. Porque eu sei (ao tempo que também não sei) o tamanho das suas asas, a profundidade dos seus olhos, da água e do sangue que corre na carne de que são feitos. E dou graças.
A isso, a esse horizonte igualmente celeste e infinito, cheio de vento, sol e sorrisos largos, à solidão e à alegria, eu ergo meu copo, e brindo a vocês dois, João dos olhos de floresta, Luiza ensolarada dos dias, meus amores de ouro, e agradeço a sorte, honra e grandeza que é ser sua mãe.
Enfim, tudo isso pra dizer que não escrevi pra vocês no ano novo ou aniversário, mas agora, numa tarde quente de janeiro, em que percebo que temos coisas a comemorar, miúda e emocionadamente, pois que nas últimas semanas vivemos pequenos milagres e singelas conquistas, resultados de nossa valentia, teimosia, inteligência, da generosidade dos que nos cercam, e de uma pequena dose de sorte (que tantas vezes nos falta).
Pois vejam.
O Uruguay é um imenso azul celeste de horizonte infinito e além, com um vento incessante, e a gente se sente grande e pequeno ao mesmo tempo. Quando vocês vierem (e tenho certeza que virão), vão ver uma gente comprometida, sabida, que usa suas coisas à exaustão (me lembrei a todo tempo de um dos meus poemas preferidos do Brecht, "De todas as obras", e a sublime beleza das coisas que foram tocadas por muitas mãos...), que ri largo, que já sofreu muito, não tem quase nada, e se orgulha do lugar que está construindo; que te beija as bochechas e aperta a mão de verdade; que põe plantinhas pra crescer em todos os cantos; que tem muitos livros, muitos!; que fica na rua até tarde aproveitando o pôr do sol. Enfim, uma gente e um lugar pra viver.
E aqui, miúda, quente e cheia de ventos, eu lembrei de uma coisa esquecida.
Estar num lugar em que ninguém te conhece é das sensações mais magníficas que existem, a inebriante iminência de se ser tudo o que você queria ser sem medo. Conhecer gente muito diferente da gente, no variado comezinho, e ainda assim, reconhecer-se semelhante e partícipe, é sublime. Uma combinação linda de solidão, alegria, surpresa e completude. Incerteza e poesia.
E olha que coisa: vocês estão, por outras circunstâncias, diante dessas mesmas possibilidades, e eu me emociono (e é exatamente isso que queria lhes dizer) com a importância desse momento: você, João, e você, Luiza, e a imensa potência do que estão construindo em e para suas vidas, sozinhos, mas de mãos dadas a uma grande força amorosa erguida desde muito tempo por aqueles que estão juntos de vocês e sempre estiveram. Neste ponto do caminho, de incerteza e poesia, vocês podem se inventar e se reinventar. Vocês podem ser o que quiserem ser, não ser nada e ser tudo. Vocês podem conhecer gente diferente e igual. Mesmo que a realidade feia e imperativa mostre suas unhas e seus limites, mesmo que estejamos condenados a uma engrenagem perversa e injusta (e mudar isso nos custe talvez a vida), vocês podem ser, onde for, do jeito que for, com quem for; com frio na barriga e tremor nas mãos, vocês podem, intransitivamente - a tal combinação linda de solidão, alegria, surpresa e completude.
Isso fez um tcharam aqui, e preenche agora meu peito vermelho de um sentimento único e indizível. Choro. Porque eu sei (ao tempo que também não sei) o tamanho das suas asas, a profundidade dos seus olhos, da água e do sangue que corre na carne de que são feitos. E dou graças.
A isso, a esse horizonte igualmente celeste e infinito, cheio de vento, sol e sorrisos largos, à solidão e à alegria, eu ergo meu copo, e brindo a vocês dois, João dos olhos de floresta, Luiza ensolarada dos dias, meus amores de ouro, e agradeço a sorte, honra e grandeza que é ser sua mãe.
Montevidéu, 17 de janeiro de 2018.
sexta-feira, 9 de junho de 2017
carta para lívia
Sabe, eu demoro muito pra ouvir os discos que ganho. Porque eu preciso ouvir sentada, só ouvir e mais nada, não sei fazer outra coisa quando estou ouvindo música, acaba que vira um tormento, as pilhas que vão se acumulando na estante, e eu olhando pra elas morrendo de culpa de não saber o que tem dentro das infinitas caixinhas e portanto correndo o risco de não ser acometida por um encontro verdadeiro, um susto inesperado de beleza, que está ali, escondido, bem na minha frente, enfim.
Mas hoje eu parei, sentei e escutei.
E que assombro que foi.
De partida, eu já ia gostar do disco porque vocês gravaram a música mais linda que há (Clube da esquina, a mesma que me fez chorar ridícula no Tupi). Depois, sua afinação é tão linda, tão linda, que dá um gosto – todas as notas, e tantas notas, e cada uma delas em seu mais perfeito lugar –, um sopro fresco e claro de alívio, vou dizer.
Mas o disco é mais que a primeira canção e é mais que sua voz impressionante (im-pres-si-o-nan-te). Ele vai abrindo nosso peito pras canções que já conhecemos, e isso é tão bonito (que eu acho um saco essa obrigação modernosa do "tem que ser só música inédita, tem que ser compositora também", como se o difícil e imenso ofício da intérprete fosse menor, e como se não houvesse tanta canção absolutamente imprescindível de se cantar e cantar e cantar de novo e de novo).
E tem esse seu moço bonito que é tão elegante e que vai junto de mãos dadas ao lado seu, que é outra coisa linda de se ver e ouvir. De novo, cada nota em seu lugar, sem mesquinharia e sem desperdício.
A música que vocês fazem (juntando aqui o disco e o show) é uma surpresa, é generosa e é livre. E se tem uma coisa que a gente precisa não perder (inda mais nesse mundo tão esquisito) é a capacidade de surpreender e ser surpreendido, e de ser veículo da música, estar na prontidão e a serviço, e deixar ela fazer o que ela quiser da gente.
Eu ouço às vezes um quase-infantil (não sei como dizer doutro modo...) no seu jeito de dizer algumas palavras, como se não desse conta do tamanho delas, como se houvesse uma distância entre a boca e a carne... será? Aparece às vezes numa nota longa, às vezes num grave, ou numa vontade de mais volume, num gesto, nos olhos fechados ou lá-longe. Eu poderia falar ainda (já pedindo desculpas pelo falatório) que eu queria ouvir no disco as guitarras mais adiante na mix, mas abraçadas à sua voz, mais perto.
Mas esqueça isso, que não tem qualquer importância.
O que fica e interessa é a formosura docês, no disco e no show. Uma coisa importantemente bonita.
Muito obrigada pelo assombro e pelo encontro. Por encharcarem meus olhos no meio da tarde. Uma sorte límpida. Que a gente não se perca mais.
Mas hoje eu parei, sentei e escutei.
E que assombro que foi.
De partida, eu já ia gostar do disco porque vocês gravaram a música mais linda que há (Clube da esquina, a mesma que me fez chorar ridícula no Tupi). Depois, sua afinação é tão linda, tão linda, que dá um gosto – todas as notas, e tantas notas, e cada uma delas em seu mais perfeito lugar –, um sopro fresco e claro de alívio, vou dizer.
Mas o disco é mais que a primeira canção e é mais que sua voz impressionante (im-pres-si-o-nan-te). Ele vai abrindo nosso peito pras canções que já conhecemos, e isso é tão bonito (que eu acho um saco essa obrigação modernosa do "tem que ser só música inédita, tem que ser compositora também", como se o difícil e imenso ofício da intérprete fosse menor, e como se não houvesse tanta canção absolutamente imprescindível de se cantar e cantar e cantar de novo e de novo).
E tem esse seu moço bonito que é tão elegante e que vai junto de mãos dadas ao lado seu, que é outra coisa linda de se ver e ouvir. De novo, cada nota em seu lugar, sem mesquinharia e sem desperdício.
A música que vocês fazem (juntando aqui o disco e o show) é uma surpresa, é generosa e é livre. E se tem uma coisa que a gente precisa não perder (inda mais nesse mundo tão esquisito) é a capacidade de surpreender e ser surpreendido, e de ser veículo da música, estar na prontidão e a serviço, e deixar ela fazer o que ela quiser da gente.
Eu ouço às vezes um quase-infantil (não sei como dizer doutro modo...) no seu jeito de dizer algumas palavras, como se não desse conta do tamanho delas, como se houvesse uma distância entre a boca e a carne... será? Aparece às vezes numa nota longa, às vezes num grave, ou numa vontade de mais volume, num gesto, nos olhos fechados ou lá-longe. Eu poderia falar ainda (já pedindo desculpas pelo falatório) que eu queria ouvir no disco as guitarras mais adiante na mix, mas abraçadas à sua voz, mais perto.
Mas esqueça isso, que não tem qualquer importância.
O que fica e interessa é a formosura docês, no disco e no show. Uma coisa importantemente bonita.
Muito obrigada pelo assombro e pelo encontro. Por encharcarem meus olhos no meio da tarde. Uma sorte límpida. Que a gente não se perca mais.
terça-feira, 21 de março de 2017
cartografia 1
O colo exibe pequenas marcas verticais, inveja talvez a tez de um róseo crepe de seda pura.
Os seios melancolizam as formas de outras encarnações - pequenos, túrgidos, lactantes. Agora maiores, assimétricos, vão cansados de um outro orgulho e aos poucos perdem a batalha.
As espaldas seguem rígidas e carregadas. Aguentam. Suportam. Mentem.
A dobra das axilas, ou mais precisamente o encontro do torso com a cavidade por baixo da articulação do ombro, forma desde sempre uma prega levemente curva, reconhecível. Ali restam escondidos os desejos, dos quais a menor lembrança viça os mamilos, estes ainda espertos e responsivos. Dois olhos da alma.
A distância entre o esterno e as cristas aparece preenchida de acúmulos, ondas, maciezas. Sucedem-se em teimosia. Alteram, vagarosa e subitamente, números e molde. Autoconfiantes, ficam. Desconformam, desconfortam, ainda que a cintura insista em desenhar sua linha umectante, sinuosa e potente.
Pelos nascem e povoam rápido a partir da cicatriz.
***
Eu não tenho medo da morte. Eu acho digno envelhecer.
Quando fecho os olhos, no entanto, a memória da minha carne agarrada nos meus ossos, coberta por minha pele, manipulada por meus tendões e nervos, encharcada do meu sangue fino e vermelho, tem outra formatura. A imagem da mulher que eu fui parece tão distante desta que eu sou. Como se de tão leve os pés daquela mulher não tocassem o chão. Como se pertencesse a um filme italiano. Como se eu algum dia soubesse dançar.
Eu sinto saudade. Minha alma está deslocada, inquilina. Preciso reabitar o meu corpo.
Os seios melancolizam as formas de outras encarnações - pequenos, túrgidos, lactantes. Agora maiores, assimétricos, vão cansados de um outro orgulho e aos poucos perdem a batalha.
As espaldas seguem rígidas e carregadas. Aguentam. Suportam. Mentem.
A dobra das axilas, ou mais precisamente o encontro do torso com a cavidade por baixo da articulação do ombro, forma desde sempre uma prega levemente curva, reconhecível. Ali restam escondidos os desejos, dos quais a menor lembrança viça os mamilos, estes ainda espertos e responsivos. Dois olhos da alma.
A distância entre o esterno e as cristas aparece preenchida de acúmulos, ondas, maciezas. Sucedem-se em teimosia. Alteram, vagarosa e subitamente, números e molde. Autoconfiantes, ficam. Desconformam, desconfortam, ainda que a cintura insista em desenhar sua linha umectante, sinuosa e potente.
Pelos nascem e povoam rápido a partir da cicatriz.
***
Eu não tenho medo da morte. Eu acho digno envelhecer.
Quando fecho os olhos, no entanto, a memória da minha carne agarrada nos meus ossos, coberta por minha pele, manipulada por meus tendões e nervos, encharcada do meu sangue fino e vermelho, tem outra formatura. A imagem da mulher que eu fui parece tão distante desta que eu sou. Como se de tão leve os pés daquela mulher não tocassem o chão. Como se pertencesse a um filme italiano. Como se eu algum dia soubesse dançar.
Eu sinto saudade. Minha alma está deslocada, inquilina. Preciso reabitar o meu corpo.
quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017
carta acorde
minha única resolução no novo ano foi deixar meus cabelos crescerem.
a coragem das células que obedecem seu desígneo.
a teimosia das células que insistem na multiplicação.
o afeto das células que entrelaçam sua dança em espiral.
meus cabelos crescem em silêncio.
vagarosamente.
a coragem das células que obedecem seu desígneo.
a teimosia das células que insistem na multiplicação.
o afeto das células que entrelaçam sua dança em espiral.
meus cabelos crescem em silêncio.
vagarosamente.
quinta-feira, 11 de agosto de 2016
carta avoenga
Quando eu nasci, minha mãe queria me dar o nome de Júlia, em homenagem à minha avó paterna. Minha vó não deixou: achava seu nome triste. Então minha mãe, espertinha, alegrou o nome e a avó, virei Juliana.
Minha vó Júlia era de fé. Noviça tirada do convento pra casar contra sua vontade, teve 14 filhos em silêncio, entre eles um padre, duas freiras missionárias, outras duas freiras de clausura carmelitas descalças. Carregava o mundo todo em suas orações e tinha um candeeiro na igreja de Itajubá cujo óleo ela renovava semanalmente, pra que nunca apagasse a fé da sua família. Em louvor a Nossa Senhora, crochetou com linha fina toalhas de banquete para as mulheres suas filhas e noras, milhares e milhares de pontos, infinitos, e a cada um, uma Ave Maria. Quando morreu, minha vó Júlia foi enterrada vestida como religiosa, após permissão enviada diretamente pelo Papa.
Meu avô materno era Luiz, e deu seu nome pra minha irmã e minha filha. Meu vô fazia bolo enfeitado pros filhos quando caíam-lhe os dentes de leite e construía com madeira e lata os brinquedos de presente para o Natal. Quando criança, sua mãe queria dissuadi-lo de jogar futebol, e só deixava o garoto sair pra rua depois de passar algumas horas bordando, coisa de menina. Meu vô aprendeu a fazer barrado de pano de prato, monograma e caminho de mesa, e toda tarde estava na rua jogando bola com os pretos. Dele não herdei os olhos azuis, mas o nome que me define.
Essa madrugada, eu não consegui dormir. Olhei mais uma vez pro presente que ganhei do meu Guimarães, o anel de prata com a libélula das águas doces enfeitada de madre-pérolas do mar profundo e que bate asas! A vida é sopro. Lembrei no meu nome e da minha vó que não conheci e do meu vô que pouco conheci. Acendi uma vela, lavei nossa quartinha d'Oxum, enchi o copo do nosso São Jorge, cantei em silêncio a oração mais linda que meu pai me ensinou.
Minha vó e suas mãos estão em mim.
Meu vô e suas mãos estão em mim.
E eu sou essa bagunça, nós e pontos infinitos bordados de fé, água, tristeza, sopro, paciência e teimosia. Amar está no meu nome. Teço com dor e alegria o pano limpo do meu destino e tenho orgulho dos meus avessos. E canto pra não morrer.
Minha vó Júlia era de fé. Noviça tirada do convento pra casar contra sua vontade, teve 14 filhos em silêncio, entre eles um padre, duas freiras missionárias, outras duas freiras de clausura carmelitas descalças. Carregava o mundo todo em suas orações e tinha um candeeiro na igreja de Itajubá cujo óleo ela renovava semanalmente, pra que nunca apagasse a fé da sua família. Em louvor a Nossa Senhora, crochetou com linha fina toalhas de banquete para as mulheres suas filhas e noras, milhares e milhares de pontos, infinitos, e a cada um, uma Ave Maria. Quando morreu, minha vó Júlia foi enterrada vestida como religiosa, após permissão enviada diretamente pelo Papa.
Meu avô materno era Luiz, e deu seu nome pra minha irmã e minha filha. Meu vô fazia bolo enfeitado pros filhos quando caíam-lhe os dentes de leite e construía com madeira e lata os brinquedos de presente para o Natal. Quando criança, sua mãe queria dissuadi-lo de jogar futebol, e só deixava o garoto sair pra rua depois de passar algumas horas bordando, coisa de menina. Meu vô aprendeu a fazer barrado de pano de prato, monograma e caminho de mesa, e toda tarde estava na rua jogando bola com os pretos. Dele não herdei os olhos azuis, mas o nome que me define.
Essa madrugada, eu não consegui dormir. Olhei mais uma vez pro presente que ganhei do meu Guimarães, o anel de prata com a libélula das águas doces enfeitada de madre-pérolas do mar profundo e que bate asas! A vida é sopro. Lembrei no meu nome e da minha vó que não conheci e do meu vô que pouco conheci. Acendi uma vela, lavei nossa quartinha d'Oxum, enchi o copo do nosso São Jorge, cantei em silêncio a oração mais linda que meu pai me ensinou.
Minha vó e suas mãos estão em mim.
Meu vô e suas mãos estão em mim.
E eu sou essa bagunça, nós e pontos infinitos bordados de fé, água, tristeza, sopro, paciência e teimosia. Amar está no meu nome. Teço com dor e alegria o pano limpo do meu destino e tenho orgulho dos meus avessos. E canto pra não morrer.
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