(Todas as palavras esdrúxulas, Como os sentimentos esdrúxulos, São naturalmente Ridículas.)
quinta-feira, 17 de julho de 2008
carta feia
Pois que desgosto, meu senhor meu, das noites em que não estás aqui, elas que dessarte não ganham seu contorno melhor. Então, à guisa de sonífero, aproximo-te na pena do meu abraço para ver se durmo bonita, como ordenas: se estavas aqui via que o forno de ferrugem partiu-se definitivo e que precisarei de um fogão novo, o que já não era sem tempo já que este deve ter mais de três encarnações e das quatro bocas funcionavam uma e meia e o forno, embora o tampo de ágata seja do meu gosto como sabes, e não exitem mais tampos de ágata como estes, mas enfim, era velho e até que durou muito, mas não mais serve e então precisarei de um fogão novo; soletrava os nomes todos na sopa colorida com cenouras e ervilhas e letrinhas que preparei maternal para a princesa macaca e depois carregava para o dossel a bela adormecida em seu sono absoluto de justeza; respondia às perguntas desimportantemente ansiosas do meu olhos-de-floresta sobre a cidade de ar bom para onde viaja amanhã pela manhã, e por isso não consegue dormir, seus olhos imensos vão engolir o mundo um dia; e sobretudo sabia curioso da calcinha nova em mim vestida a esperar tuas patas impredicáveis. Tuas patas não estão aqui, meu senhor meu, e isso faz de mim uma mulher mais triste nesse falatório desencontrado todo. Pois perdôa-me meu senhor meu que desgosto mesmo é desse teu silêncio cinzento do mesmo modo que desgosto dessas minhas palavras aqui, feiúras que não funcionam. Esqueci como é escrever.
segunda-feira, 7 de julho de 2008
depois
depois de quase três meses, acho que vou voltar.
pois que preparo aqui dentro do peito e ali pertinho na ponta da pena a edição manuscrita das cartas ridículas.
vou assim devagarinho, passarinha, reaprendendo o passo, já que do tropeço aprendi todos os movimentos.
respira, respiro: lembro com aquela conhecida felicidade que gosto das palavras como das pessoas. e amo muito, graças a deus.
pois que preparo aqui dentro do peito e ali pertinho na ponta da pena a edição manuscrita das cartas ridículas.
vou assim devagarinho, passarinha, reaprendendo o passo, já que do tropeço aprendi todos os movimentos.
respira, respiro: lembro com aquela conhecida felicidade que gosto das palavras como das pessoas. e amo muito, graças a deus.
terça-feira, 15 de abril de 2008
estado
está tudo errado.
o certo é que tudo é muito pouco, e o pouco não é suficiente.
errado o tempo, errado o verso, errado o vão entre o certo e o outro.
uma vida de verdade não pode ter mais ou menos, viver requer coragem.
ridícula, imbecil, covarde, será possível que o repetir desse verso nunca te fará ação?
e aquele filho da puta quer mais de mim quando o que lhe dou me tira a valia mais preciosa, e que faz a falta no reverso, naquilo que deveras deveria ser o devir desejado.
havia de haver uma formosura qualquer, mas me salta dos olhos meu cansaço de encarnações
e o vento escapando entre os dedos, pára, por favor não vai revirando assim as poeirinhas que já estavam ali de longe, na distância real do que não precisa mais de ser, não é mais meu, não preciso mais, já foi e pronto, sai de mim, sai que não mais te pertence o que é meu por merecimento, eu assim, mininteira, como sei de ser, minha fôrma, minha forja, meu afeto.
está tudo errado, mas minha sombra, aprendo, é aquilo que é meu sem a minha carne mas com o meu contorno: não há que reclamar, está tudo iluminado.
viver, isso sim, é muito perigoso.
não vou chorar.
vou dar um salto mortal.
por que, meu deus, por que não me fizeste bailarina?
o certo é que tudo é muito pouco, e o pouco não é suficiente.
errado o tempo, errado o verso, errado o vão entre o certo e o outro.
uma vida de verdade não pode ter mais ou menos, viver requer coragem.
ridícula, imbecil, covarde, será possível que o repetir desse verso nunca te fará ação?
e aquele filho da puta quer mais de mim quando o que lhe dou me tira a valia mais preciosa, e que faz a falta no reverso, naquilo que deveras deveria ser o devir desejado.
havia de haver uma formosura qualquer, mas me salta dos olhos meu cansaço de encarnações
e o vento escapando entre os dedos, pára, por favor não vai revirando assim as poeirinhas que já estavam ali de longe, na distância real do que não precisa mais de ser, não é mais meu, não preciso mais, já foi e pronto, sai de mim, sai que não mais te pertence o que é meu por merecimento, eu assim, mininteira, como sei de ser, minha fôrma, minha forja, meu afeto.
está tudo errado, mas minha sombra, aprendo, é aquilo que é meu sem a minha carne mas com o meu contorno: não há que reclamar, está tudo iluminado.
viver, isso sim, é muito perigoso.
não vou chorar.
vou dar um salto mortal.
por que, meu deus, por que não me fizeste bailarina?
quinta-feira, 27 de março de 2008
27,1
eu hoje me caso contigo, senhor meu, virgem de todos os buracos.
continente
eu hoje te me ofereço completa tua, prostituta ordinária, como se a primeira e a última vez.
imensidade
é no nosso desconhecido certo de cada um desses diazinhos, rendados vividos um a um, que cultivamos aquele rosal, particular impublicável, beirada invisível, meio do mundo.
labirinto
pois que te amo passarinha, passarada.
devir
continente
eu hoje te me ofereço completa tua, prostituta ordinária, como se a primeira e a última vez.
imensidade
é no nosso desconhecido certo de cada um desses diazinhos, rendados vividos um a um, que cultivamos aquele rosal, particular impublicável, beirada invisível, meio do mundo.
labirinto
pois que te amo passarinha, passarada.
devir
segunda-feira, 17 de março de 2008
tudo ao mesmo tempo
tem o samba mínimo nas terças até o fim de abril, blim blim de orvalhada esquisitinho;
tem o juliana samba, que quase se acerta mas ainda não está lá, e que ainda não tem quando de novo, mas vai ter;
tem o rubens nogueira e suas canções perfeitinhas, amanhã, terça, no teatro do santa cruz (depois de tantos anos vou voltar pra escola...);
tem o ó, que é o ó, mas é o ó;
tem o risco (e no risco tem todos nós querendo muito que possamos ser do risco no mais do nosso tempo) que agora vai passear junto com a base móvel riscando de amarelo o chão no centro cultural são paulo em abril;
tem minha vontade de casar, de mudar de casa, e de ver meus filhos na hora do almoço, isso vai ser assim tão insuportavelmente bom;
mas tem o vermelho por todos os lados todos. e essa segunda feira com cara de fim de mundo.
tem o juliana samba, que quase se acerta mas ainda não está lá, e que ainda não tem quando de novo, mas vai ter;
tem o rubens nogueira e suas canções perfeitinhas, amanhã, terça, no teatro do santa cruz (depois de tantos anos vou voltar pra escola...);
tem o ó, que é o ó, mas é o ó;
tem o risco (e no risco tem todos nós querendo muito que possamos ser do risco no mais do nosso tempo) que agora vai passear junto com a base móvel riscando de amarelo o chão no centro cultural são paulo em abril;
tem minha vontade de casar, de mudar de casa, e de ver meus filhos na hora do almoço, isso vai ser assim tão insuportavelmente bom;
mas tem o vermelho por todos os lados todos. e essa segunda feira com cara de fim de mundo.
terça-feira, 4 de março de 2008
samba mínimo
domingo, 17 de fevereiro de 2008
meu peito arde desencontrado.
a certeza de ter um espetáculo e um movimento, a angústia de não vê-lo ainda inteiro e plástico.
a felicidade encarnada dos encontros verdadeiros de gentileza e gratidão, a tristeza oca e silenciosa de rever ou não ver as pessoas que se tornam doloridamente distantes.
dos presentes recebidos, de alegria irretribuível, tem a luiza com seus olhos imensos dizendo-me você estava linda como uma princesa, tem o sorriso orgulhoso e sem palavra do joão, tem o regalo do meu amor cada vez mais meu amor mais meu mais - essas preciosidades fazem de mim a mulher mais feliz do balcão e do mundo, pois que posso dizer que minha condenação de amar muito transmuta-se no diário amar-melhor, enreda o fio úmido do meu destino em formoso tecido roseado que não rompe nem desfaz, enche a casa de flores, e prepara minha velhice dada às mãos que escolhi e que me escolheram.
agradeço, meu deus, humílima, nem sei se mereço, e recebo tuas bênçãos acarinhada.
e peço, se sou digna de pedir, que isso traga sustento, pois que somos feitos de pão e beleza.
a certeza de ter um espetáculo e um movimento, a angústia de não vê-lo ainda inteiro e plástico.
a felicidade encarnada dos encontros verdadeiros de gentileza e gratidão, a tristeza oca e silenciosa de rever ou não ver as pessoas que se tornam doloridamente distantes.
dos presentes recebidos, de alegria irretribuível, tem a luiza com seus olhos imensos dizendo-me você estava linda como uma princesa, tem o sorriso orgulhoso e sem palavra do joão, tem o regalo do meu amor cada vez mais meu amor mais meu mais - essas preciosidades fazem de mim a mulher mais feliz do balcão e do mundo, pois que posso dizer que minha condenação de amar muito transmuta-se no diário amar-melhor, enreda o fio úmido do meu destino em formoso tecido roseado que não rompe nem desfaz, enche a casa de flores, e prepara minha velhice dada às mãos que escolhi e que me escolheram.
agradeço, meu deus, humílima, nem sei se mereço, e recebo tuas bênçãos acarinhada.
e peço, se sou digna de pedir, que isso traga sustento, pois que somos feitos de pão e beleza.
sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008
ridiculinha, 30
evoé de avesso:
ei, escuta, meu amor, o silêncio
um desfile de ventania no meio do peito...
ei, escuta, meu amor, o silêncio
um desfile de ventania no meio do peito...
sábado, 12 de janeiro de 2008
suspensão
as cartas vão silenciar por tempo indeterminado.
quando não se tem nada a dizer e os olhos só querem chorar, melhor repousar a palavra e a cabeça no dorso das mãos pra sentir o ar do tempo, como disse o pastor de cabras.
é que tem hora que a poesia também cala, e então só resta o perdão e a espera, em dor e solidão.
a memória não tem contorno certo e vaga por caminhos incompreensíveis, por vezes tão feios, e invariável obedece a outras velocidades.
queria ser melhor.
o amor segue infinito e intransitivo, flor de formosura, beleza violenta, rosa tatuada, grandeza, redemoinho.
na travessia.
(mãe, não se assuste, está tudo bem)
quando não se tem nada a dizer e os olhos só querem chorar, melhor repousar a palavra e a cabeça no dorso das mãos pra sentir o ar do tempo, como disse o pastor de cabras.
é que tem hora que a poesia também cala, e então só resta o perdão e a espera, em dor e solidão.
a memória não tem contorno certo e vaga por caminhos incompreensíveis, por vezes tão feios, e invariável obedece a outras velocidades.
queria ser melhor.
o amor segue infinito e intransitivo, flor de formosura, beleza violenta, rosa tatuada, grandeza, redemoinho.
na travessia.
(mãe, não se assuste, está tudo bem)
terça-feira, 8 de janeiro de 2008
reviverso
Começo 2008 miúda mas em gratidão: o caminhãozinho preto, o ano novo familiar e quente, a piscina do bb, os filmes no sofá, o projeto da casa, os espetáculos por vir, enfim, um ano que já começou começando, e isso só pode ser um bom prenúncio.
Assim espero. Assim seja.
Pois meu peito está pequeno, minh'alma apertada, os olhos opacos, vejo que minhas alvíssaras no ano passado tinham mais tristeza, mas também mais poesia, e hoje não tenho nem uma coisa nem outra, olho os papéis espalhados pelo chão mas minhas mãos desnorteadas esqueceram o caminho das gavetas, procuro, rezo, choro porque preciso urgentemente de uma boa notícia numeral pra que meu desespero não escureça o ensolarado do dia.
Assim espero. Assim seja.
Pois meu peito está pequeno, minh'alma apertada, os olhos opacos, vejo que minhas alvíssaras no ano passado tinham mais tristeza, mas também mais poesia, e hoje não tenho nem uma coisa nem outra, olho os papéis espalhados pelo chão mas minhas mãos desnorteadas esqueceram o caminho das gavetas, procuro, rezo, choro porque preciso urgentemente de uma boa notícia numeral pra que meu desespero não escureça o ensolarado do dia.
quinta-feira, 27 de dezembro de 2007
retroverso
Termino 2007 como quem come depressa demais: tudo foi tanto e tão rápido que não estou capaz de entender cada parte, de repartir a misturada em pequenas e coloridas moléculas, diferentes e minúsculas, cada uma alimento específico de um lugarzinho do meu corpo.
Termino o ano com a dor da ferida aberta e latejante, avesso repugnante purulento exposto que precisa renascer pra quem sabe cicatrizar de dentro pra fora, e que volta de novo pra me cuspir na cara aquela única certeza de que não posso perder a vigilância, nunca, não há descanso, sei disso, sei disso, e embora saber não seja suficiente, eu sei e isso precisa ser um começo.
Termino o ano repleta e transbordada de amor verdadeiro: uns frescos, desses de alegria suspensa no ar; uns renovados pela beleza do encontro; alguns em tristeza de plataforma, natureza do caminho que nem sempre é o mais fácil; amores-pra-sempre de infinitude e formosura, reinventados e sempre os mesmos; amores de gentileza; amores de solidão.
Mas termino inteira, com minha alegria simples, meus olhos imensos abertos e molhados, as mãos dedicadas, um pouco de cansaço, algum desencanto talvez, o medo sempre aqui e ali em meu desespero cotidiano.
Termino 2007 de mãos dadas a outras mãos, que é pra não esquecer e pra poder seguir adiante.
Que venha 2008, estamos prontos.
Alvíssaras.
Termino o ano com a dor da ferida aberta e latejante, avesso repugnante purulento exposto que precisa renascer pra quem sabe cicatrizar de dentro pra fora, e que volta de novo pra me cuspir na cara aquela única certeza de que não posso perder a vigilância, nunca, não há descanso, sei disso, sei disso, e embora saber não seja suficiente, eu sei e isso precisa ser um começo.
Termino o ano repleta e transbordada de amor verdadeiro: uns frescos, desses de alegria suspensa no ar; uns renovados pela beleza do encontro; alguns em tristeza de plataforma, natureza do caminho que nem sempre é o mais fácil; amores-pra-sempre de infinitude e formosura, reinventados e sempre os mesmos; amores de gentileza; amores de solidão.
Mas termino inteira, com minha alegria simples, meus olhos imensos abertos e molhados, as mãos dedicadas, um pouco de cansaço, algum desencanto talvez, o medo sempre aqui e ali em meu desespero cotidiano.
Termino 2007 de mãos dadas a outras mãos, que é pra não esquecer e pra poder seguir adiante.
Que venha 2008, estamos prontos.
Alvíssaras.
segunda-feira, 17 de dezembro de 2007
carta leal
Quando estiveres com outra mulher, meu senhor meu, peço:
que guardes na memória a angulação das ancas, a curva dos quadris, o ponto exato onde terminam as nádegas e iniciam as coxas, o recorte anterior dos joelhos, a profundidade dos tornozelos, a concha da planta e do peito dos pés, a distribuição dos dedos;
que desenhes com as mãos o ventre e o umbigo, a lateral das costelas, a junção delas com o colo e com a espinha, o caminho dos ossos que sustentam os ombros e o pescoço e os vãos preenchidos de pele e suspiro;
que descubras o comprimento dos braços, a fundura das axilas, o ranger silencioso dos cotovelos, as dobras da chegada ao punho, a maciez das mãos, as linhas da palma, a parábola entre os dedos, os nós, o nascimento das unhas e sua forma e cor, o relevo das veias sob a tez fina;
que acompanhes atenciosamente o movimento dos lábios e da língua, das pálpebras, dos cílios, das narinas em inspiração, das maçãs do rosto, do queixo, das orelhas, dos fios de cabelo em torno da testa e diante das têmporas;
que meças a densidade dos seios, o raio de cada auréola, a geografia dos mamilos, a velocidade da contração quando morderes cada um deles com carinho, a redondeza das glândulas e gosto presumível do seu leite;
que determines com precisão a dimensão de cada parte do seu sexo, especialmente do vale entre os pequenos e grandes lábios, do clitóris em todos os seus possíveis estados e do espaço entre a entrada da vagina e as pregas do ânus;
que afiras a extensão e o volume dos pelos e a trama do seu rendado, e ainda as variações de temperatura e umidade da pele e das mucosas de cada vão, de cada membro, de cada buraco.
Peço, meu senhor meu, que saibas de cor tudo o que haverá para saber e até mais, sobretudo a composição dos seus odores e a música escondida no arrepiar dos poros e no encontro do corpo com o ar. Decores e, depois, ainda quente, descreva-me pormenorizadamente: assim poderei sê-la para continuar a ser tua.
que guardes na memória a angulação das ancas, a curva dos quadris, o ponto exato onde terminam as nádegas e iniciam as coxas, o recorte anterior dos joelhos, a profundidade dos tornozelos, a concha da planta e do peito dos pés, a distribuição dos dedos;
que desenhes com as mãos o ventre e o umbigo, a lateral das costelas, a junção delas com o colo e com a espinha, o caminho dos ossos que sustentam os ombros e o pescoço e os vãos preenchidos de pele e suspiro;
que descubras o comprimento dos braços, a fundura das axilas, o ranger silencioso dos cotovelos, as dobras da chegada ao punho, a maciez das mãos, as linhas da palma, a parábola entre os dedos, os nós, o nascimento das unhas e sua forma e cor, o relevo das veias sob a tez fina;
que acompanhes atenciosamente o movimento dos lábios e da língua, das pálpebras, dos cílios, das narinas em inspiração, das maçãs do rosto, do queixo, das orelhas, dos fios de cabelo em torno da testa e diante das têmporas;
que meças a densidade dos seios, o raio de cada auréola, a geografia dos mamilos, a velocidade da contração quando morderes cada um deles com carinho, a redondeza das glândulas e gosto presumível do seu leite;
que determines com precisão a dimensão de cada parte do seu sexo, especialmente do vale entre os pequenos e grandes lábios, do clitóris em todos os seus possíveis estados e do espaço entre a entrada da vagina e as pregas do ânus;
que afiras a extensão e o volume dos pelos e a trama do seu rendado, e ainda as variações de temperatura e umidade da pele e das mucosas de cada vão, de cada membro, de cada buraco.
Peço, meu senhor meu, que saibas de cor tudo o que haverá para saber e até mais, sobretudo a composição dos seus odores e a música escondida no arrepiar dos poros e no encontro do corpo com o ar. Decores e, depois, ainda quente, descreva-me pormenorizadamente: assim poderei sê-la para continuar a ser tua.
segunda-feira, 10 de dezembro de 2007
ridiculinha, 29
férias:
arrumar a casa, tirar os monstros de dentro do armário.
nenhum alívio, só o cansaço pesado e triste de todas as encarnações.
e aquela vontade, de novo, infantil, de fechar os olhos.
arrumar a casa, tirar os monstros de dentro do armário.
nenhum alívio, só o cansaço pesado e triste de todas as encarnações.
e aquela vontade, de novo, infantil, de fechar os olhos.
quarta-feira, 5 de dezembro de 2007
idílio
Ele chega assim desavisado ao telefone, e fala comigo como se no programa de entrevistas na televisão, mas diante dos meus olhos vejo as imagens infantis do bruxo da novela, como sou ridícula, e a conversa se distende na contra-mão do costume da repartição, o assunto que começou na morte repentina da secretária e na inaptidão por procedimentos vai viajar para outras paragens, paris, samuel e bertolt, romance do novaiorquino, museu alemão das separações, tudo assim de correnteza, finalizada na promessa de um idílio internético e contemporâneo, como são as relações sem abraço.
Eu envio um link, ele deseja passear em Istambul, eu devolvo um parágrafo, ele retorna com uns versos decorados na infância, eu ofereço meia dúzia de idéias aborrecidas na minha tristeza precoce de quem envelheceu cedo, ele me presenteia com sua alegria ligeira de quem não perdeu o tempo da história e viveu como tinha de ser, eu cumpro a promessa com gentileza, ele me faz as perguntas certas e sempre as mesmas, eu desenterro a memória da menina cheia de vontade e certeza que um dia eu fui, ele me predestina feroz dizendo que sou de aço e que tenho muitos corações.
Ele assina desespoir, e mal sabe ele que esse é, no avesso, meu nome.
Eu envio um link, ele deseja passear em Istambul, eu devolvo um parágrafo, ele retorna com uns versos decorados na infância, eu ofereço meia dúzia de idéias aborrecidas na minha tristeza precoce de quem envelheceu cedo, ele me presenteia com sua alegria ligeira de quem não perdeu o tempo da história e viveu como tinha de ser, eu cumpro a promessa com gentileza, ele me faz as perguntas certas e sempre as mesmas, eu desenterro a memória da menina cheia de vontade e certeza que um dia eu fui, ele me predestina feroz dizendo que sou de aço e que tenho muitos corações.
Ele assina desespoir, e mal sabe ele que esse é, no avesso, meu nome.
quinta-feira, 29 de novembro de 2007
cartesiana
são duas casas, a do centro e a do bairro.
são duas noites, as solitárias e as infinitamente.
são duas manhãs, as cinzentas e as macias.
são duas mulheres, a contigo e a tristonha.
são dois filhos, um floresta e uma ensolarada.
são duas escolhas, viver ou não.
na misturada do mundo, no nó da tempestade, na espera dolorida, no diminutivo do peito, na limpeza da pele, no augúrio reservado, aprendo em velocidade variada a ser sempre a mesma por ser muitas.
são duas noites, as solitárias e as infinitamente.
são duas manhãs, as cinzentas e as macias.
são duas mulheres, a contigo e a tristonha.
são dois filhos, um floresta e uma ensolarada.
são duas escolhas, viver ou não.
na misturada do mundo, no nó da tempestade, na espera dolorida, no diminutivo do peito, na limpeza da pele, no augúrio reservado, aprendo em velocidade variada a ser sempre a mesma por ser muitas.
sexta-feira, 23 de novembro de 2007
arestas
os dias recentes eram ventureiros: um sorvete rápido no almoço, metade de uma noite mal dormida juntos, algumas horas barulhentas entre os sócios, um telefonema mal acabado, um jantar de primeiro tempo indigesto, um recado não respondido, uma palavra atravessada.
é certo e verdadeiro e natural que num ou noutro canto, mesmo no meio do mundo que parecia anti-horário, reencontravam aquela mesma formosura pertinaz que os sustentará por todos os séculos e séculos amém, mas nos dias recentes ela entristecida e arenosa repetia no coração a pergunta impronunciável e ele trazia nas narinas e nos duros olhos agora acinzentados o desconforto teimoso, soprados pelo passado exator no viés do vento frio do entardecer estranho de uma primavera sem estação.
é certo e verdadeiro e natural que num ou noutro canto, mesmo no meio do mundo que parecia anti-horário, reencontravam aquela mesma formosura pertinaz que os sustentará por todos os séculos e séculos amém, mas nos dias recentes ela entristecida e arenosa repetia no coração a pergunta impronunciável e ele trazia nas narinas e nos duros olhos agora acinzentados o desconforto teimoso, soprados pelo passado exator no viés do vento frio do entardecer estranho de uma primavera sem estação.
quinta-feira, 22 de novembro de 2007
sofro calado pra não lhe dizer a cada segundo o que é um segundo sem você
sem tempo, sem pouso: dragão.
segunda-feira, 19 de novembro de 2007
flores de papel
pois que essa vida é mesmo circular: minhas dobraduras adolescentes (aprendidas com carinho no livro presenteado pelo primeiro namorado) nas doze mãos contemporâneas e dadivosas vão espocar num jardim azul de risco no meio da rua mais capital da capital...
que de minhas mãos pequenas nasçam sempre lírios brancos, bênção dos descaminhos tortos da minha ancestralidade oriental, longínqua mas ainda presente nos fios finos dos meus cabelos e na ponta dos dedos que sabem, dramáticos, dobrar flores.
quiçá seja esse o sinal esperado para que assim os dias sem cor voltem a ensolarar.
que de minhas mãos pequenas nasçam sempre lírios brancos, bênção dos descaminhos tortos da minha ancestralidade oriental, longínqua mas ainda presente nos fios finos dos meus cabelos e na ponta dos dedos que sabem, dramáticos, dobrar flores.
quiçá seja esse o sinal esperado para que assim os dias sem cor voltem a ensolarar.
terça-feira, 13 de novembro de 2007
carta férrea
Precisaria, meu senhor meu, de uma bigorna amarrada aos meus pés pequenos pra que fiquem no chão, mas a memória é tão mais concreta e meu corpo fácil sobrevoa as mesas feias e os papéis acumulados, o tempo escoa entre os dedos finos, prejudico o erário em favor da nossa coleção agora compilada. Passo as horas ao largo, em outro sítio, a todo instante sofro o assalto da tua presença que me leva a firmeza dos joelhos, tu que como nenhum sabes derrubar-me dos saltos. Tua dor diante das minhas mãos não desgruda do dentro dos meus olhos, arrefece o meio do umbigo, suspendo, e lá estou eu de volta ao nosso calendário lunar, às noites imensas e horizontais e sem sono nenhum. Visito, como gostas, várias vezes meu próprio corpo na tentativa transversa de que vás embora daqui, mas no reverso e inverso estás em mim ainda mais definitivo, cadeado que perdeu a chave, âncora de profundezas profundas, navio atracado sem possibilidade de partir.
segunda-feira, 12 de novembro de 2007
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