quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

ridículas revisited

quando estás assim, longe, sinto vontade de voltar, escrevo e apago repetidas vezes um texto estranho e manco que não serve. ainda sinto, acho, o impacto de ter revisitado as cartas daqui, remexido em feridas antigas, reencontrado tempos de palavras bonitas urdidas em muita água e muita dor. estou atrapalhada. vejo o vídeo do menino que dança a morte do cisne. choro muito. sinto saudade daquilo que não serei mais.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

sorte

então ela, minha ensolarada dos dias que sempre sabe de tudo, traz a notícia alvissareira, em seu primeiro registro, números dobrados, todos os nossos: 55 22 77 55-1.
na tarde de chuva caminho pelas ruas sujas da cidade abraçadíssima com ela, pensando que queria ser matemática pra poder calcular a probabilidade de tamanha fortuna, e reencontro a certeza de que sou uma mulher feliz.

sete

será que eu te faço feliz?

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

aritmética, 2011

verbos, em ar:
amar, trepar, cantar, andar, cozinhar, trabalhar, engendrar, lavrar, ordenar, encerrar, bordar (nos panos e sonhos, rosas e ensolaradas)

a mancheias, nomes:
alegria, beleza, vinho, encontro, dinheiro, saúde, delicadeza

com cautela, advérbios:
mais, bem, sempre, tanto

coisinhas numeráveis:
4 bicicletas, -1 carro, 4 vasos de ervas, 6 vidros de mantimentos, uns quadros e 2 colméias nas paredes, 1 máquina de fazer de pão, +1 disco, 271 espetáculos.

= 72 palavras.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

diário de BsAs, 1

madrugada de aeroporto, embarque às 5h15, chegada às 3h30, olhos de areia e uma felicidade transitiva, um gosto, uma vontade. na mala, as cidades invisíveis, livro repetido de viagens, como o grande sertão é sempre o de cabeceira, e sempre será. no peito um desejo do silêncio dos viajantes solitários, aqueles que vivem mais. quererei uma xícara de café, um caderno em branco, uma caneta nova, quiçá um vestido ou um xale fora de moda, e reconhecerei idéias de predestinação, na cidade que, tenho certeza, reencontrarei com a saudade das coisas desconhecidas.

quarta-feira, 3 de março de 2010

da memória, número três, final

de tanto andar no escuro, desenvolvia olhos de gato, gestos silenciosos em movimentos delinquentes.
de tanto chorar dissimulada, trazia bolsas transparentes líquidas e invisíveis sob os olhos.
de tanto desejar alegrias intangíveis, transfigurava o rosto em sorriso permanente fácil.
de tanto silenciar palavras ásperas, talhava espinhos na garganta de gritos surdos de pesadelo, voz salobra e marítima.
de tantos impossivelmentes, predestinava passarinhada:
o filho de olhos imensos em verde floresta, herança de tristeza e esperança, sonha tanto.
a filha ensolarada de risada farta, herança de tristeza e esperança, sabe sempre de tudo.
nada mais para lembrar.
o amor sempre aqui fica aqui.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

da memória, número dois

no jantar veio a proposta, e tomada de uma alegria súbita, sem pensar muito pra ver se espantava a hora da abóbora, discutimos os quandos e os comos. liguei pra amiga. contei pro garçom. avisei a mãe e a irmã.
inventei que podia ser feliz.
visitamos uns apartamentos, em desajeito.
não tinha poesia.
não tinha beleza.
apenas a vontade incontrolável de poder ter uma ou outra certeza apesar de todos os apesares que fingi não terem muita importância, aqueles que prometi de joelhos na solidão do último cigarro que não estariam ali se chegasse o tempo de algum conforto.
o filho teve olhos imensos, e sonhou. a filha, como sempre, sabia de tudo.
a meia noite chegou dois meses depois, era meu aniversário, e fazia um calor despropositado pra uma tarde de agosto.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

da memória, número um

visitamos meia dúzia de casas que eu sempre quis uma casa, e havia aquela com portões de chapa metálica pintada de amarelo, um sobradinho, no térreo a primeira porta que dava pra cozinha ensolarada acompanhada de um terreiro de cimento, e preocuparam-me os azulejos todos esburacados por armários que lá estiveram, eu bem quereria as paredes limpas e um guarda-pratos como o da minha avó. a porta da sala era mais pra adiante no corredor lateral que ia até o fundo, e abria para tacos grandes cobrindo o chão da sala retangular, a mesa de jantar não cabia, logo vi, mas janelas no fundo tinham vista voadora, quase generosa, e fingi que não pecebia. a escada estreita no lado oposto levava ao mezanino superior com três quartos, um deles tão pequeno que nada servia e eram dois quartos e meio na verdade, quase uma enganação. na parte mais de baixo ao fundo era o quintal e a lavanderia sob a laje da sala, que aproveitava a inclinação do terreno, as crianças até poderiam brincar, quem sabe um cachorro e um pouco de grama, uma horta, uma piscina de plástico, uma sombra de árvore.
inventei que podia ser feliz.
e apesar do preço impossível, do financiamento inexistente, da ajuda familiar fictícia, do bom futuro falso, desatei a embalar as coisas como houvesse data pra mudança, arrastei móveis, mal cobri o chão de plástico, desparafusei os espelhos dos interruptores, e providenciei nas paredes uma pintura ruim pra melhorar o preço da venda, nas portas, rodapés, batentes e janelas uma cor bege e estranha, sobra de tinta esmalte brilhante de não sei onde.
o filho tinha olhos imensos, e sonhou. a filha morava aqui dentro de mim, e como sempre sabia de tudo.
os espelhos foram recolocados meses depois, com olhos inchados e sangue nas mãos.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

volta

quando tudo parece desajustado - o beijo que te dou atrapalha a vista, meu brinco arranha teu rosto, meus pés machucam tua perna, meus dentes ardem a tua pele, a vizinha ronda nossa porta, a memória assombra nossas noites, o tormento ocupa meus olhos - volto.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

um ano

há um ano postava meu último texto.
um ano sem escrever.
às vezes acho que sequei.
às vezes acho que estive tão feliz que não havia porquê.
às vezes acho que envelheci.
ainda choro por quase as mesmas coisas.
às vezes acho que o amor movimenta todas as montanhas, universos, mãos, passos, em gestos tão miúdos ou tão gigantescos que não cabem na minha retina.
às vezes acho que dei errado.
às vezes sinto alegrias impossíveis.
às vezes tenho muito medo.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

carta dolorida

não sei mais escrever.
queria saber fazer outra coisa.
coloria a folha grande branca com gotas de vermelho e gravava em minha retina a velocidade da absorção e da cicatriz, uma a uma, repetido, molhado e seco circular.
silenciava o vazio com o risco assertivo e no movimento para o infinito imprimia meu gesto no ar que ficava ali, mudo, respirando.
construía um labirinto medieval de seqüência numérica perfeita e indecifrável e dentro dele, uma rosa e um minotauro, paredes enfeitadas de fotos impublicáveis, silêncio, tuas patas, meus olhos tristes.
e nenhuma palavra: só o ar do tempo.
meu corpo está pesado e seco, não posso aprender nada.
não sei mais escrever.

sábado, 3 de janeiro de 2009

ano novo

na chegada, cotonetes pelo chão, um cheiro de velhice e sujeira, a bagunça esquecida sobre a mesa, estranheza na caixa postal, uma tristeza aqui dentro comigo.
vou comprar um fogão novo, prometo, porque queria bater um bolo pra fingir que inundava esse lugar de alguma alegria.
não gosto de voltar de viagem.
não gosto da minha casa.
mas esse ano será melhor, ele disse e eu acredito: estamos mais perto de 2010.

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

natal

não tenho saudade do natal.
sinto tristeza e cansaço, muito cansaço.
e todo o sono do mundo...

terça-feira, 28 de outubro de 2008

ridiculinha, 32

cenografia:
eu fazia as perguntas e tu gargalhavas respostas.
inclusive sobre abraçadeiras.

domingo, 26 de outubro de 2008

semanário de poa, 2

eu não consigo cumprir a promessa. nenhuma delas.
sinto tristeza de passarinho.
trabalho sem respiro na cidade que queima sufocante só pra que os dias corram velozes ao teu encontro. mas são as noites sozinhas que pesam como um pano preto em meus olhos ásperos e cheios.
quando choro, minha princesa oferece-me um lenço: ela também tem saudade.

domingo, 19 de outubro de 2008

semanário de poa

a casa esteve muito vazia.
fez muito calor.
cortei os cabelos.
ontem e hoje os dias esqueceram de amanhecer.
cantei por ti e a luz nova trouxe uma felicidade.
a saudade é tanta que ensurdece.

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

revisão

a noite foi acesa como meu estômago em chamas, as horas dormidas de confusão mal sonhada, e acordei como se saída da boca de um dragão; na manhã madrugada, um sono sem solução nem repouso, um quase trabalho; o almoço trivial de alegria e cansaço maternos, bis e cochilo de sobremesa, lembrei-me da minha mãe, acho que envelheço; no fim da tarde estranha desse dia estranhíssimo, boto os filhos e meu corpo desencontrado no eldorado pra encomendar os óculos, e enquanto espero bato pernas por ali fingindo ser uma daquelas, calcinha sapatilha meia tic-tac pedraria telefone vestido sanduíche, pago tudo com o dinheiro que não tenho, e de posse do novo adorno, subitamente, pretendo transformar-me, borboleta: compro o bilhete da loteria e a certeza poder agora sim enxergar o caminho.

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

terça-feira, 26 de agosto de 2008

fatura

escuta, por favor, eu não quero muito, quantas vezes tenho de repetir isso, preciso de tão pouco, é tão simples o que peço, uma casa em que caibam os meus amores, todos juntos e debaixo do mesmo teto, e o resto eu asseguro que florescerá ensolarado porque é muito amor que tem aqui, muito mesmo, mas o amor nesse mundo horroroso medonho fedorento não vale aluguel nem amores todos juntos, eu sei, mas eu não tenho preguiça, não tenho não, não tenho medo do trabalho, sei fazer algumas belezas e só quero poder dizer, só isso, e esse pequeno isso tem alguma valia e muita valentia e portanto não é justo que passe meus dias de olhos inchados e mãos desajustadas, pois que disseram em teu nome que o que importa são os atos de amor e que eu mereço a graça infinita das tuas bênçãos.
meu rosal só tem atos de amor.
eu agradeço todos os dias por ser capaz de amar.
por favor, escuta por favor, faça a tua parte.