de tanto andar no escuro, desenvolvia olhos de gato, gestos silenciosos em movimentos delinquentes.
de tanto chorar dissimulada, trazia bolsas transparentes líquidas e invisíveis sob os olhos.
de tanto desejar alegrias intangíveis, transfigurava o rosto em sorriso permanente fácil.
de tanto silenciar palavras ásperas, talhava espinhos na garganta de gritos surdos de pesadelo, voz salobra e marítima.
de tantos impossivelmentes, predestinava passarinhada:
o filho de olhos imensos em verde floresta, herança de tristeza e esperança, sonha tanto.
a filha ensolarada de risada farta, herança de tristeza e esperança, sabe sempre de tudo.
nada mais para lembrar.
o amor sempre aqui fica aqui.
(Todas as palavras esdrúxulas, Como os sentimentos esdrúxulos, São naturalmente Ridículas.)
quarta-feira, 3 de março de 2010
segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010
da memória, número dois
no jantar veio a proposta, e tomada de uma alegria súbita, sem pensar muito pra ver se espantava a hora da abóbora, discutimos os quandos e os comos. liguei pra amiga. contei pro garçom. avisei a mãe e a irmã.
inventei que podia ser feliz.
visitamos uns apartamentos, em desajeito.
não tinha poesia.
não tinha beleza.
apenas a vontade incontrolável de poder ter uma ou outra certeza apesar de todos os apesares que fingi não terem muita importância, aqueles que prometi de joelhos na solidão do último cigarro que não estariam ali se chegasse o tempo de algum conforto.
o filho teve olhos imensos, e sonhou. a filha, como sempre, sabia de tudo.
a meia noite chegou dois meses depois, era meu aniversário, e fazia um calor despropositado pra uma tarde de agosto.
inventei que podia ser feliz.
visitamos uns apartamentos, em desajeito.
não tinha poesia.
não tinha beleza.
apenas a vontade incontrolável de poder ter uma ou outra certeza apesar de todos os apesares que fingi não terem muita importância, aqueles que prometi de joelhos na solidão do último cigarro que não estariam ali se chegasse o tempo de algum conforto.
o filho teve olhos imensos, e sonhou. a filha, como sempre, sabia de tudo.
a meia noite chegou dois meses depois, era meu aniversário, e fazia um calor despropositado pra uma tarde de agosto.
sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010
da memória, número um
visitamos meia dúzia de casas que eu sempre quis uma casa, e havia aquela com portões de chapa metálica pintada de amarelo, um sobradinho, no térreo a primeira porta que dava pra cozinha ensolarada acompanhada de um terreiro de cimento, e preocuparam-me os azulejos todos esburacados por armários que lá estiveram, eu bem quereria as paredes limpas e um guarda-pratos como o da minha avó. a porta da sala era mais pra adiante no corredor lateral que ia até o fundo, e abria para tacos grandes cobrindo o chão da sala retangular, a mesa de jantar não cabia, logo vi, mas janelas no fundo tinham vista voadora, quase generosa, e fingi que não pecebia. a escada estreita no lado oposto levava ao mezanino superior com três quartos, um deles tão pequeno que nada servia e eram dois quartos e meio na verdade, quase uma enganação. na parte mais de baixo ao fundo era o quintal e a lavanderia sob a laje da sala, que aproveitava a inclinação do terreno, as crianças até poderiam brincar, quem sabe um cachorro e um pouco de grama, uma horta, uma piscina de plástico, uma sombra de árvore.
inventei que podia ser feliz.
e apesar do preço impossível, do financiamento inexistente, da ajuda familiar fictícia, do bom futuro falso, desatei a embalar as coisas como houvesse data pra mudança, arrastei móveis, mal cobri o chão de plástico, desparafusei os espelhos dos interruptores, e providenciei nas paredes uma pintura ruim pra melhorar o preço da venda, nas portas, rodapés, batentes e janelas uma cor bege e estranha, sobra de tinta esmalte brilhante de não sei onde.
o filho tinha olhos imensos, e sonhou. a filha morava aqui dentro de mim, e como sempre sabia de tudo.
os espelhos foram recolocados meses depois, com olhos inchados e sangue nas mãos.
inventei que podia ser feliz.
e apesar do preço impossível, do financiamento inexistente, da ajuda familiar fictícia, do bom futuro falso, desatei a embalar as coisas como houvesse data pra mudança, arrastei móveis, mal cobri o chão de plástico, desparafusei os espelhos dos interruptores, e providenciei nas paredes uma pintura ruim pra melhorar o preço da venda, nas portas, rodapés, batentes e janelas uma cor bege e estranha, sobra de tinta esmalte brilhante de não sei onde.
o filho tinha olhos imensos, e sonhou. a filha morava aqui dentro de mim, e como sempre sabia de tudo.
os espelhos foram recolocados meses depois, com olhos inchados e sangue nas mãos.
quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010
volta
quando tudo parece desajustado - o beijo que te dou atrapalha a vista, meu brinco arranha teu rosto, meus pés machucam tua perna, meus dentes ardem a tua pele, a vizinha ronda nossa porta, a memória assombra nossas noites, o tormento ocupa meus olhos - volto.
quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010
um ano
há um ano postava meu último texto.
um ano sem escrever.
às vezes acho que sequei.
às vezes acho que estive tão feliz que não havia porquê.
às vezes acho que envelheci.
ainda choro por quase as mesmas coisas.
às vezes acho que o amor movimenta todas as montanhas, universos, mãos, passos, em gestos tão miúdos ou tão gigantescos que não cabem na minha retina.
às vezes acho que dei errado.
às vezes sinto alegrias impossíveis.
às vezes tenho muito medo.
terça-feira, 17 de fevereiro de 2009
carta dolorida
não sei mais escrever.
queria saber fazer outra coisa.
coloria a folha grande branca com gotas de vermelho e gravava em minha retina a velocidade da absorção e da cicatriz, uma a uma, repetido, molhado e seco circular.
silenciava o vazio com o risco assertivo e no movimento para o infinito imprimia meu gesto no ar que ficava ali, mudo, respirando.
construía um labirinto medieval de seqüência numérica perfeita e indecifrável e dentro dele, uma rosa e um minotauro, paredes enfeitadas de fotos impublicáveis, silêncio, tuas patas, meus olhos tristes.
e nenhuma palavra: só o ar do tempo.
meu corpo está pesado e seco, não posso aprender nada.
não sei mais escrever.
queria saber fazer outra coisa.
coloria a folha grande branca com gotas de vermelho e gravava em minha retina a velocidade da absorção e da cicatriz, uma a uma, repetido, molhado e seco circular.
silenciava o vazio com o risco assertivo e no movimento para o infinito imprimia meu gesto no ar que ficava ali, mudo, respirando.
construía um labirinto medieval de seqüência numérica perfeita e indecifrável e dentro dele, uma rosa e um minotauro, paredes enfeitadas de fotos impublicáveis, silêncio, tuas patas, meus olhos tristes.
e nenhuma palavra: só o ar do tempo.
meu corpo está pesado e seco, não posso aprender nada.
não sei mais escrever.
sábado, 3 de janeiro de 2009
ano novo
na chegada, cotonetes pelo chão, um cheiro de velhice e sujeira, a bagunça esquecida sobre a mesa, estranheza na caixa postal, uma tristeza aqui dentro comigo.
vou comprar um fogão novo, prometo, porque queria bater um bolo pra fingir que inundava esse lugar de alguma alegria.
não gosto de voltar de viagem.
não gosto da minha casa.
mas esse ano será melhor, ele disse e eu acredito: estamos mais perto de 2010.
vou comprar um fogão novo, prometo, porque queria bater um bolo pra fingir que inundava esse lugar de alguma alegria.
não gosto de voltar de viagem.
não gosto da minha casa.
mas esse ano será melhor, ele disse e eu acredito: estamos mais perto de 2010.
terça-feira, 23 de dezembro de 2008
segunda-feira, 10 de novembro de 2008
terça-feira, 28 de outubro de 2008
ridiculinha, 32
cenografia:
eu fazia as perguntas e tu gargalhavas respostas.
inclusive sobre abraçadeiras.
eu fazia as perguntas e tu gargalhavas respostas.
inclusive sobre abraçadeiras.
domingo, 26 de outubro de 2008
semanário de poa, 2
eu não consigo cumprir a promessa. nenhuma delas.
sinto tristeza de passarinho.
trabalho sem respiro na cidade que queima sufocante só pra que os dias corram velozes ao teu encontro. mas são as noites sozinhas que pesam como um pano preto em meus olhos ásperos e cheios.
quando choro, minha princesa oferece-me um lenço: ela também tem saudade.
sinto tristeza de passarinho.
trabalho sem respiro na cidade que queima sufocante só pra que os dias corram velozes ao teu encontro. mas são as noites sozinhas que pesam como um pano preto em meus olhos ásperos e cheios.
quando choro, minha princesa oferece-me um lenço: ela também tem saudade.
domingo, 19 de outubro de 2008
semanário de poa
a casa esteve muito vazia.
fez muito calor.
cortei os cabelos.
ontem e hoje os dias esqueceram de amanhecer.
cantei por ti e a luz nova trouxe uma felicidade.
a saudade é tanta que ensurdece.
fez muito calor.
cortei os cabelos.
ontem e hoje os dias esqueceram de amanhecer.
cantei por ti e a luz nova trouxe uma felicidade.
a saudade é tanta que ensurdece.
segunda-feira, 8 de setembro de 2008
revisão
a noite foi acesa como meu estômago em chamas, as horas dormidas de confusão mal sonhada, e acordei como se saída da boca de um dragão; na manhã madrugada, um sono sem solução nem repouso, um quase trabalho; o almoço trivial de alegria e cansaço maternos, bis e cochilo de sobremesa, lembrei-me da minha mãe, acho que envelheço; no fim da tarde estranha desse dia estranhíssimo, boto os filhos e meu corpo desencontrado no eldorado pra encomendar os óculos, e enquanto espero bato pernas por ali fingindo ser uma daquelas, calcinha sapatilha meia tic-tac pedraria telefone vestido sanduíche, pago tudo com o dinheiro que não tenho, e de posse do novo adorno, subitamente, pretendo transformar-me, borboleta: compro o bilhete da loteria e a certeza poder agora sim enxergar o caminho.
segunda-feira, 1 de setembro de 2008
terça-feira, 26 de agosto de 2008
fatura
escuta, por favor, eu não quero muito, quantas vezes tenho de repetir isso, preciso de tão pouco, é tão simples o que peço, uma casa em que caibam os meus amores, todos juntos e debaixo do mesmo teto, e o resto eu asseguro que florescerá ensolarado porque é muito amor que tem aqui, muito mesmo, mas o amor nesse mundo horroroso medonho fedorento não vale aluguel nem amores todos juntos, eu sei, mas eu não tenho preguiça, não tenho não, não tenho medo do trabalho, sei fazer algumas belezas e só quero poder dizer, só isso, e esse pequeno isso tem alguma valia e muita valentia e portanto não é justo que passe meus dias de olhos inchados e mãos desajustadas, pois que disseram em teu nome que o que importa são os atos de amor e que eu mereço a graça infinita das tuas bênçãos.
meu rosal só tem atos de amor.
eu agradeço todos os dias por ser capaz de amar.
por favor, escuta por favor, faça a tua parte.
meu rosal só tem atos de amor.
eu agradeço todos os dias por ser capaz de amar.
por favor, escuta por favor, faça a tua parte.
sexta-feira, 1 de agosto de 2008
mística
hoje lembrei-me que há alguns anos fui a uma numeróloga que fez incontáveis cálculos com todos os meus números e com os números de todas as minhas letras, e ao final disse-me numa mistura de júbilo e preocupação que pra melhorar meu nome-próprio se fazia imprescindível acrescentar-lhe um agá.
ótima essa numeróloga, ela sabe mesmo tudo sobre mim, como se vê em seus vaticínios substantivos confirmados, incontestes.
hoje lembrei-me dela, pois que tua ausência pesa-me como uma mortalha.
ótima essa numeróloga, ela sabe mesmo tudo sobre mim, como se vê em seus vaticínios substantivos confirmados, incontestes.
hoje lembrei-me dela, pois que tua ausência pesa-me como uma mortalha.
quinta-feira, 17 de julho de 2008
carta feia
Pois que desgosto, meu senhor meu, das noites em que não estás aqui, elas que dessarte não ganham seu contorno melhor. Então, à guisa de sonífero, aproximo-te na pena do meu abraço para ver se durmo bonita, como ordenas: se estavas aqui via que o forno de ferrugem partiu-se definitivo e que precisarei de um fogão novo, o que já não era sem tempo já que este deve ter mais de três encarnações e das quatro bocas funcionavam uma e meia e o forno, embora o tampo de ágata seja do meu gosto como sabes, e não exitem mais tampos de ágata como estes, mas enfim, era velho e até que durou muito, mas não mais serve e então precisarei de um fogão novo; soletrava os nomes todos na sopa colorida com cenouras e ervilhas e letrinhas que preparei maternal para a princesa macaca e depois carregava para o dossel a bela adormecida em seu sono absoluto de justeza; respondia às perguntas desimportantemente ansiosas do meu olhos-de-floresta sobre a cidade de ar bom para onde viaja amanhã pela manhã, e por isso não consegue dormir, seus olhos imensos vão engolir o mundo um dia; e sobretudo sabia curioso da calcinha nova em mim vestida a esperar tuas patas impredicáveis. Tuas patas não estão aqui, meu senhor meu, e isso faz de mim uma mulher mais triste nesse falatório desencontrado todo. Pois perdôa-me meu senhor meu que desgosto mesmo é desse teu silêncio cinzento do mesmo modo que desgosto dessas minhas palavras aqui, feiúras que não funcionam. Esqueci como é escrever.
segunda-feira, 7 de julho de 2008
depois
depois de quase três meses, acho que vou voltar.
pois que preparo aqui dentro do peito e ali pertinho na ponta da pena a edição manuscrita das cartas ridículas.
vou assim devagarinho, passarinha, reaprendendo o passo, já que do tropeço aprendi todos os movimentos.
respira, respiro: lembro com aquela conhecida felicidade que gosto das palavras como das pessoas. e amo muito, graças a deus.
pois que preparo aqui dentro do peito e ali pertinho na ponta da pena a edição manuscrita das cartas ridículas.
vou assim devagarinho, passarinha, reaprendendo o passo, já que do tropeço aprendi todos os movimentos.
respira, respiro: lembro com aquela conhecida felicidade que gosto das palavras como das pessoas. e amo muito, graças a deus.
terça-feira, 15 de abril de 2008
estado
está tudo errado.
o certo é que tudo é muito pouco, e o pouco não é suficiente.
errado o tempo, errado o verso, errado o vão entre o certo e o outro.
uma vida de verdade não pode ter mais ou menos, viver requer coragem.
ridícula, imbecil, covarde, será possível que o repetir desse verso nunca te fará ação?
e aquele filho da puta quer mais de mim quando o que lhe dou me tira a valia mais preciosa, e que faz a falta no reverso, naquilo que deveras deveria ser o devir desejado.
havia de haver uma formosura qualquer, mas me salta dos olhos meu cansaço de encarnações
e o vento escapando entre os dedos, pára, por favor não vai revirando assim as poeirinhas que já estavam ali de longe, na distância real do que não precisa mais de ser, não é mais meu, não preciso mais, já foi e pronto, sai de mim, sai que não mais te pertence o que é meu por merecimento, eu assim, mininteira, como sei de ser, minha fôrma, minha forja, meu afeto.
está tudo errado, mas minha sombra, aprendo, é aquilo que é meu sem a minha carne mas com o meu contorno: não há que reclamar, está tudo iluminado.
viver, isso sim, é muito perigoso.
não vou chorar.
vou dar um salto mortal.
por que, meu deus, por que não me fizeste bailarina?
o certo é que tudo é muito pouco, e o pouco não é suficiente.
errado o tempo, errado o verso, errado o vão entre o certo e o outro.
uma vida de verdade não pode ter mais ou menos, viver requer coragem.
ridícula, imbecil, covarde, será possível que o repetir desse verso nunca te fará ação?
e aquele filho da puta quer mais de mim quando o que lhe dou me tira a valia mais preciosa, e que faz a falta no reverso, naquilo que deveras deveria ser o devir desejado.
havia de haver uma formosura qualquer, mas me salta dos olhos meu cansaço de encarnações
e o vento escapando entre os dedos, pára, por favor não vai revirando assim as poeirinhas que já estavam ali de longe, na distância real do que não precisa mais de ser, não é mais meu, não preciso mais, já foi e pronto, sai de mim, sai que não mais te pertence o que é meu por merecimento, eu assim, mininteira, como sei de ser, minha fôrma, minha forja, meu afeto.
está tudo errado, mas minha sombra, aprendo, é aquilo que é meu sem a minha carne mas com o meu contorno: não há que reclamar, está tudo iluminado.
viver, isso sim, é muito perigoso.
não vou chorar.
vou dar um salto mortal.
por que, meu deus, por que não me fizeste bailarina?
quinta-feira, 27 de março de 2008
27,1
eu hoje me caso contigo, senhor meu, virgem de todos os buracos.
continente
eu hoje te me ofereço completa tua, prostituta ordinária, como se a primeira e a última vez.
imensidade
é no nosso desconhecido certo de cada um desses diazinhos, rendados vividos um a um, que cultivamos aquele rosal, particular impublicável, beirada invisível, meio do mundo.
labirinto
pois que te amo passarinha, passarada.
devir
continente
eu hoje te me ofereço completa tua, prostituta ordinária, como se a primeira e a última vez.
imensidade
é no nosso desconhecido certo de cada um desses diazinhos, rendados vividos um a um, que cultivamos aquele rosal, particular impublicável, beirada invisível, meio do mundo.
labirinto
pois que te amo passarinha, passarada.
devir
Assinar:
Postagens (Atom)
